ZOOM | My Own Private Idaho. A Caminho de Idaho (1991), um filme de Gus van Sant

ZOOM | My Own Private Idaho. A Caminho de Idaho (1991), um filme de Gus van Sant

 

 

 

Escrever sobre Gus Van Sant é, antes de tudo, o desafio de sistematizar o fascínio que a sua obra me inspira (particularmente aquela produzida até meados da primeira década deste século), ao contrário do que acontece com grande parte dos autores que, com ele, deram corpo e expressão ao dito cinema indie americano (com exceção de Todd Haynes e, amiúde, Larry Clark, com quem partilha, para além de um tronco comum de temáticas – adolescência, música, América, marginalidade ou sexualidade –  uma estética assente na liberdade formal e num lirismo que esvoaça sem freio, ainda que, paradoxalmente, ancorado no rigor técnico e na realidade cultural, social e politica). Gus Van Sant promove, em boa parte da filmografia, retratos ambivalentes da América alternativa, do Grunge a Columbine, da geração X ao ativismo gay. Com fluidez surpreendente, salta do tanque frio do existencialismo para o jacuzzi hedonista da cultura pop; da realidade tragicómica e angustiante de tantas das suas personagens, para a celebração das subculturas onde se fazem existir, como caricaturas alienadas.

A terceira longa metragem – A Caminho de Idaho – traz-lhe a consagração. Não tanto porque tenha descoberto cada canto da sua linguagem fílmica – é possível vê-lo tatear entre hipóteses que mais tarde sublima ou abandona –, mas porque nele reúne, com uma mistura fina de intenção e inocência, os ingredientes fundamentais para que alcance o estatuto quase automático de filme de culto. É um poema agridoce, urgente, que atravessa os dramas pessoais dos personagens (a busca da identidade, as drogas, a homossexualidade) para criar um livro de estilo, a apologia cool de uma certa forma de ser e parecer à época, que encontrou eco imediato em certa franja de um país (e de um mundo) a virar a década e a precisar de se revisitar e aos seus heróis (como acontecera em Os Marginais de Coppola e viria a acontecer com Trainspotting de Danny Boyle).

A Caminho de Idaho é um road movie. Não surpreende, pois, que comece por apresentar Mike (River Phoenix), a personagem central, desorientado no meio de uma estrada infinita que só não é anónima porque a vimos outras vezes – ou às suas múltiplas variações – a atravessar o cinema americano. Mike é um prostituto, confortável no submundo da sua cidade, que sofre de narcolepsia, uma condição médica que o faz adormecer profundamente sempre que exposto a situações de ansiedade e que lhe foi roubando a memória dos momentos cruciais da vida. É esta existência fragmentária e precária que o faz querer reencontrar a mãe e, no limite, reencontrar-se a si mesmo. Neste trajeto errático encontra Scott (Keanu Reaves), também prostituto, mas dono de uma história bem diferente: é filho do mayor de Portland e procura, como Mike, o sentido e propósito da existência. Mike navega à vista, órfão de rumo, acordando a cada dia em parte incerta e mais longe de si mesmo; a sua fragilidade e aparente passividade são também estratégias para causar empatia naqueles com quem se cruza e que podem bem ter o seu destino nas mãos, a cada vez que, inanimado, cede à doença. Já Scott, tem um plano: conhecer o submundo, sacudir o ascendente do seu pai e a pressão social, para um dia – que não tarda – regressar reencontrado ao lugar que lhe pertence e ser o príncipe da alta sociedade local. “A vida imita a arte”, assegurou Oscar Wilde. Curiosa coincidência, Phoenix e Reaves terem aqui o papel mais emblemático das suas carreiras, tendo o primeiro encontrado uma morte prematura causada pelo abuso de drogas e o segundo desenhado um percurso que o levou a ser um dos atores mais bem pagos de Hollywood, colecionando blockbusters irrelevantes.

Scott decide ajudar o amigo na busca pela sua mãe. O seu rasto leva-os de cidade em cidade, de aventura em desventura. Este é o motto que permite a Gus Van Sant viajar também, levando as suas referências e testando as regras do seu cinema. Muito do filme vive das dicotomias tão caras ao realizador: o calão da rua convive com citações diretas de Shakespeare; o estilo documental que ilustra os depoimentos dos prostitutos em oposição ao expressionismo das paisagens que acompanham os estados de espírito dos atores; o rigor quase clássico da mise en scène e da iluminação contrasta com o tom caricatural e a plasticidade das cenas de sexo, filmadas como uma coleção de quadros/frames. Esta é uma viagem de associações livres, de avanços e recuos, falsas partidas. Não importará tanto saber se Mike encontra ou não sua mãe, ou se alguma vez cumprirá o seu amor por Scott.

O filme termina como começou. A mesma estrada infinita – ou será outra? Um não-lugar, como todos os lugares de Mike. E também, cada lugar como o centro do universo.  Onde Mike (que é ele próprio e cada um de nós), acorda do estado narcoléptico e retoma o Caminho de Idaho.

 

Ficha técnica:

My Own Private Idaho (A Caminho de Idaho)/ 1991

Realização: Gus Van Sant / Fotografia: Eric Allan Edwards e John Campbell / Montagem: Curtiss Clayton / Décors: David Brisbin / Som: Kelley Baker / Música: Bill Stafford / Guarda-Roupa: Beatrix Aruna Pasztor / Efeitos Visuais: Thomas Arndt / Diálogos Adicionais: William Shakespeare / Interpretação: River Phoenix (Mike), Keanu Reeves (Scott), William Richert (Bob), James Russo (Dick), Udo Kier (Hans), Chiara Caselli (Carmela), Sally Curtiss (Jane Nightwork), Tom Troupe (pai de Scott). Produção: Gus Van Sant e Laurie Anderson para New Line / Duração: 104 minutos.

My Own Private Idaho, de Gus van Sant – trailer

 

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