Amadeu Gonçalves

Estado Novo | A Revolução Santificada. O 28 de Maio de 1926 em V. N. de Famalicão

Estado Novo | A Revolução Santificada. O 28 de Maio de 1926 em V. N. de Famalicão

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Mesmo com os avisos da imprensa, de jornais como “A Capital”, em 28 de Maio, de “O Mundo”, em 30 de Maio e de “O Rebate”, no mesmo dia, assim como o de “A Montanha”, em 31 de Maio, a revolução que levaria à ditadura militar (1926-1933) e ao Estado Novo (1933-1974) sairia triunfante a partir de Braga, após as notícias iniciais serem hesitantes e pouco esclarecedoras, já que questionavam a veracidade do movimento revolucionário militar. Veja-se, no primeiro caso, nomeadamente o do jornal “A Capital”, com o subtítulo “Jornal da Política da Esquerda democrática”, o qual, em letras garrafais anuncia, logo a seguir ao cabeçalho, que “É PRECISO SALVAR A REPUBLICA E A LIBERDADE”. “O Mundo” proclama o seguinte: “SEJAMOS PATRIOTAS” e logo a seguir esclarece que “o movimento insurrecional que alastra pelo país em apoio e reforço dos protestos de todas as oposições republicanas contra o governo ditatorial do sr. António Maria da Silva já deve ter determinado o Chefe do Estado a dar a demissão ao gabinete. Escorraçado do Parlamento, condenado pela opinião publica, pela imprensa inteira, por culpa dele, uma gota que fosse de sangue português! Que todos os republicanos, que todos os portugueses dignos desse nome se levantem patrioticamente contra aqueles que para sustentar os seus interesses pessoais assim procedem.” E termina: “SEJAMOS PATRIOTAS! SALVEMOS A NAÇÃO! SALVEMOS A REPUBLICA!” “O Rebate”, propriedade das comissões do P. R. P. de Lisboa, evoca que “A REACÇÃO CONTRA A REPUBLICA!”, anuncia uma ditadura militar com o apoio da causa monárquica. Veja-se: “Mercê de uma campanha derrotista, animada por elementos excessivamente conservadores, entre os quais se encontram os representantes da causa monárquica, encontra-se em acção um movimento tendente a proclamar a ditadura militar. Essa ditadura ha-de conduzir fatalmente a uma tentativa de restauração monarquica, tanto mais que os monarquicos se encontram ao lado dos seus chefes. Elementos políticos que se intitulam radicais estão a ser miseravelmente ludibriados pelos autores do movimento, devendo sofrer o peso da sua tirania e o despreso pela sua estupidez. CIDADÃOS! O MOVIMENTO É CONTRA A REPUBLICA! VIVA A REPUBLICA!” “A Montanha” exulta “A PÁTRIA!” e “REPUBLICA!” anunciando que “continua no mais alto posto da Republica a nobre figura do Doutor Bernardino Machado e à frente do Governo está colocado o comandante Mendes Cabeçadas, um dos oficiais que em 5 de Outubro muito concorreram para o sucesso da causa da democracia, interessando-nos neste momento, mais do que tudo, a Patria e a Republica, queremos apenas afirmar por expansões sinceras da nossa alma, que sentimos e só podemos exteriorizar nestes vibrantes gritos coados por corações de bons portugueses: VIVA A PATRIA! VIVA A REPUBLICA! VIVA O CHEFE DO ESTADO!”

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Ilusões! E se é certo que os republicanos radicais vão entrar no movimento revolucionário (o mesmo sucedendo em V. N. de Famalicão, conforme iremos ver), Bernardino Machado não escapou ao seu II Exílio (1927-1940). Vejamos, antes de mais nada, o que aconteceu no dia 30 de Maio em V. N. de Famalicão, segundo o repórter especial do “Diário de Notícias”, informação publicada a 31. O título é o seguinte: “Gomes da Costa passa em revista, em Famalicão, a duas colunas mixtas que se renderam”.

“A 1.º coluna mista que havia saído anteontem do Porto para atacar as tropas revolucionárias de Braga, composta por infantaria e cavalaria da G. N. R., infantaria, metralhadoras e artilharia, seguiu em comboio especial até Nine, onde bivacou, tendo chegado ontem, às 11 horas da manhã, a Famalicão. / Bivacou no vastíssimo campo Mousinho de Albuquerque. Às cinco e meia da tarde ontem, chegou aqui uma outra coluna mista, com igual composição. Bivacou no mesmo campo. / Hoje, ao meio-dia, chegou em automóvel, acompanhado pelo seu ajudante, o General sr. Gomes da Costa, que vem passar revista às tropas recém-vindas. / Quando Gomes da Costa chegou, as tropas estavam em descanso, indo logo as duas colunas mistas formar no Campo Mousinho de Albuquerque, em colunas de companhias. A população da vila correu ao local e toda a gente descoberta em sinal de respeito, fez uma calorosa e imponente manifestação, erguendo-se vivas ao Exército, à Pátria e à República, de mistura com vibrantes salvas de palmas. / O sr. General agradecia, sempre sorridente, fazendo a continência. Em frente formava a infantaria da guarda republicana e depois as metralhadoras e a artilharia. Do outro lado, a cavalaria do exército e a da guarda republicana. Gomes da costa, acompanhado pelo seu ajudante, tenente sr. Armando Pinto Correia, pelo coronel David Rodrigues, comandante das duas colunas, pelo capitão Alberto Carlos Almeida Frazão, da infantaria 19, por um dos membros do «comité» de Braga e por outros oficiais, passou uma demorada revista às tropas em formatura, tendo pedido aos comandantes de todos os contingentes que lhe apresentassem as praças que estiveram na Flandres, principalmente as que tomaram parte no 9 de Abril. / Satisfeito o pedido, interrogava os soldados acerca dos regimentos que pertenciam, se tinham ficado feridos, etc. Quando revistou artilharia, conversou sobre a guerra na Flandres com o comandante do destacamento, tenente sr. Melo Costa, conde de Ficalho. A infantaria da Guarda Republicana era comandada pelo capitão Fontes, com que o general conversou sobre o mesmo assunto. Nem uma palavra proferiu acerca do movimento. Finda a revista, a população repetiu as manifestações ao Exército. O general deu instruções no sentido de as duas colunas regressarem em comboios especiais ao Porto, tendo o major Tavares, da 2.º coluna, dado ordem para ser distribuída pólvora, ou sejam, mais 50 cartuchos além dos trinta que já tinha cada soldado. Nessa altura, projectava-se seguir de manhã em direcção a Braga. Meia-hora depois foi dada contra-ordem, a fim de não se fornecerem mais cartuchos às praças. Parece que motivou essa medida o facto de ter chegado a notícia da rendição. As tropas que estão actualmente em Braga são, além das daquela cidade, as de Viana, Barcelos, Santo Tirso e fracções da de Valença.”

Do que se passou neste momento, quando as tropas acamparam no então Campo Mouzinho de Albuquerque, temos dois testemunhos: o de José Casimiro da Silva e o de Armando Bacelar. O primeiro, no jornal famalicense “Estrela da Manhã”, de 22 de Maio de 1971, publica o texto “Acerca do «28 de Maio»: subsídios para a sua história” e relata o que se passou em V. N. de Famalicão, não sem antes evidenciar a comissão concelhia do Partido Republicado Radical, a qual surgiu em 1925, co outros elementos, e não sem uma polémica interna entre a comissão concelhia e a direcção nacional, então constituída pelas seguintes personalidades: Tenente da Armada José de Freitas, professor António Maria Pereira, comerciante António Alves de Pinho, africanista J. Ferreira Lima, guarda-livros Mário Barbosa (Centro Industrial do Minho) e por José Casimiro da Silva, desde o início. Atrevo-me a transcrever o que então Silva nos relata:

“Na quinta-feira à tarde, 26 de Maio, todos aguardávamos no estabelecimento de António Alves de Pinho, na Rua 5 de Outubro (hoje Santo António) um ilustre visitante. / Seriam cerca de 17 horas quando a figura esguia e simpática do valente comandante do C. E. P. saiu de um automóvel preto e entrou no estabelecimento. Vinha à paisana e logo perguntou pelo seu motorista em França, António Lopes da Silva. Dessedentou-se co duas taças de espumante de que pareceu gostar muito. / Estabelecido sobre o que desejava, partiu para Braga aos cuidados dos Drs. Alberto Cruz e Augusto Cerejeira Gomes e do capitão, nosso conterrâneo, Ribeiro Barbosa. / E fez a seguinte recomendação: / «Admitindo-se a hipótese de a Coluna Mista n.º 1, após a eclosão do movimento, acampar em Famalicão, sua sede estratégica, preciso de ser informado das suas intenções e dos seus efectivos.» / Dessa missão se encarregou o cronista que viu facilitada a sua missão, como o mais próximo vizinho dos caminhos-de-ferro, quando a coluna chegou e foi alojada nos Armazéns de J. de Araújo & Companhia. / Vinha no destacamento, que era comandando pelo então Teente-Coronel David Rodrigues, o Capitão-Médico, nosso conterrâneo, Dr. Joaquim Alves Correia de Araújo. / Não havia comboios desde a madrugada de sábado e a estação foi tomada ao anoitecer. Na vila houve algumas correrias e Álvaro Simões, que se atreveu a dar um viva à Revolução e à República, chegou a ser molestado. / A primeira medida das forças que vinham jugular o movimento foi mandar cortar a linha, lá para as alturas de Serrões. / Apesar de tomada, a estação, o Chefe e os factores nunca deixaram de permanecer nela e no meio deles, nós. / O telefone retinia de momento a momento e pelas respostas do Tenente-Coronel David Rodrigues, nós adivinhávamos o teor das perguntas. / Algumas eram dramáticas. / «Não apele para os meus sentimentos de homem, nem para os meus ideais. Estou aqui numa missão que tenho de cumprir e se até à meia-noite se não render serei constrangido a bombardear Braga das alturas de S. Tiago da Cruz.» / Mas entre os oficiais que rodeavam o Coronel David Rodrigues, só um e bravo tenente insistia pelo avanço imediato, pois em todos os outros era o propósito de fazerem causa comum, não me foi difícil de comunicar para braga e ali causou uma sensação de alívio, pois nem de Viana, nem de Penafiel, nem de Vila Real, haviam afluído tropas e a situação estava a torar-se insustentável. / Momentos depois, o General Gomes da Costa, a avaliar pela resposta do Coronel David Rodrigues, ter-lhe-ia dito que o Porto já aderira porque o comandante da coluna ordenou o corte imediato da linha, dois quilómetros a sul da Estação, para «não ficar entre dois fogos». / E na madrugada de domingo fez-se a deslocação da coluna, pela via ordinária, para a estação de Nine, onde na gare o Tenente Oliveira, haveria de pôr termo à vida.”

Daqui há a realçar dois nomes: o do oficial José Ribeiro Barbosa, de Joane, o qual seria nomeado Governador Civil de Braga pela Ditadura Militar entre 1926 a 1929 e o de Joaquim Alves Correia de Araújo. Deste, quando faleceu, Silva tece-lhe no In Memorian que então escreveu, o seguinte: “Como político, pertencendo a uma geração de inconformistas contra os governos democráticos saídos da revolução do 5 de outubro, confessava-se republicano e militou nas bases nacionalistas surgidas co o advento do «28 de Maio» para cujo triunfo concorreu decididamente quando acompanhando a coluna mista do Coronel David Rodrigues, em 27 de Maio de 1926, que logo marchou para esta vila, com o fim de submeter as forças revolucionárias do General Gomes da Costa, na cidade de Braga, acampou nas cercanias da estação dos caminhos-de ferro e dali, telefonicamente, entrou em negociações com aquele cabo-de-guerra, que haveriam de culminar com a causa-comum que então, sensacionalmente, se observou.” (“Estrela da Manhã”, 11 Setembro 1971). Mas os Alves de Requião nunca foram adeptos nem da República, nem da Democracia, conforme o provariam nas variadas comissões conservadoras em tempos republicanos e posteriormente no Estado Novo. O mesmo sucedeu a Casimiro da Silva, defendendo a Ditadura Militar na sua “Estrela”, sendo, ao mesmo tempo, várias vezes vereador em várias presidências municipais.

Repare-se, agora, no testemunho de Armando Bacelar em “Memória dos Tempos Idos” (1992). Na altura da Revolução do 28 de Maio, Carlos Bacelar, seu pai, era então Presidente da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, tendo um papel preponderante na defesa da República, valendo-lhe o exílio. O pai contava-lhe que “no único hotel da vila (a então Ifigénia…) se realizou uma reunião entre os comandantes dessa revolta e os das forças saídas do Porto, para se lhe oporem leais ao governo constitucional de António Maria da Silva (era então Presidente da República Bernardino Machado), na qual tomou parte como presidente da Câmara. / Nela exultou quanto pôde os oficiais republicanos a manterem-se fiéis à Constituição e darem luta aos sediosos. Mas de nada valerem os seus esforços, porque eles logo negociaram a sua rendição, acabando por aderir ao movimento. Segundo mais tarde me contaram, aqui perto, a estação ferroviária de Nine, um oficial leal à República, ao saber disso, não resistiu e matou-se com um tiro à cabeça. Creio que foi a única baixa dessa revolta.”

E, se de facto, chamei a estas linhas introdutórias para um trabalho de investigação mais vasto a propósito do papel do 28 de Maio de 1926 em V. N. de Famalicão, a “Revolução Santificada”, tal, deve-se, pelo menos ao acontecimento que decorria paralelamente aos movimentos militares na cidade de Braga: o congresso Mariano, que decorria no Sameiro. Veja-se, por exemplo, o jornal “A Época”, de 29 de Maio de 1926, em letras garrafais: “Terra de Santa Maria. Está decorrendo em Braga com uma imponencia extraordinária e com um enthusiasmo e fé indescritíveis o Primeiro Congresso Mariano”. Por seu turno, no jornal portuense “O Primeiro de Janeiro”, noticiava na primeira página, em 28 de Maio, o respectivo congresso, relegando para páginas posteriores e interiores a eclosão do movimento militar, as seguintes palavras: “Mais um movimento revolucionário. Os boatos de alteração da ordem tomam vulto, chegado a marcar-se a hora da eclosão do movimento”. Mas, espero, que se compreenda a metáfora, para os novos tempos do Estado Novo…

 

Imagens: Amadeu Gonçalves

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Amadeu Gonçalves

Técnico-Superior do Município de V. N. de Famalicão é licenciado pela Faculdade de Filosofia de Braga / Universidade Católica Portuguesa e mestre pela Universidade do Minho, Braga, em Filosofia. Tem participado como conferencista em colóquios, seminários e encontros sobre Filosofia, Literatura e Cultura Portuguesa. É ainda membro do Conselho Consultivo do “Boletim Cultural” da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, onde tem colaborado. Tem ainda publicado sobre os mais diversos assuntos, sobretudo relativos ou relacionados à História local famalicense.

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