Inês Grenha

Saúde | Arritmias Cardíacas. Batem leve, levemente…

Saúde | Arritmias Cardíacas. Batem leve, levemente…

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“Batem leve, levemente,

Como quem chama por mim.

Será chuva? Será gente?

Gente não é, certamente

E a chuva não bate assim.

[…]”

Augusto Gil

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Estou certa que poderá causar estranheza começar com a Balada da Neve de Augusto Gil um artigo sobre arritmia cardíaca, mas o bater leve da neve e o bater acelerado do coração partilham entre si um silêncio íntimo que não se deve negar.

O coração é um dos nossos órgãos nobres e um dos mais respeitados pela população em geral. Tende-se a desvalorizar uma alteração renal ou uma doença hepática mas no que toca ao coração todos param, recorrem ao médico e se preocupam. Não está de todo errado, apenas não está certo que o façam apenas pelo coração.

Ainda assim, há diversas patologias cardíacas que nos escapam sub-repticiamente durante longos períodos de tempo, ou porque são assintomáticas, ou porque nos dão alterações muito inespecíficas e gerais como a fadiga e a falta de ar ao esforço. Um dos exemplos mais marcados disso mesmo é a fibrilhação auricular (FA), a arritmia cardíaca mais prevalente de todas.

O coração é composto por 4 cavidades (2 esquerdas e 2 direitas) e o seu funcionamento resulta de coordenação, sobretudo entre contrações auriculares (esquerda e direita) e ventriculares. Estas são possíveis devido a uma componente elétrica cardíaca muitas vezes negligenciada. É imprescindível que a condução elétrica auricular esteja preservada para que, perante um sinal elétrico inicial, se dê a sua propagação e a consequente contração auricular que permita encher de sangue os ventrículos. Só assim o coração permite irrigar eficazmente todo o nosso corpo.

A FA é uma consequência de uma alteração nessa mesma corrente elétrica a nível das aurículas e, por isso, estas não conseguem contrair de forma ritmada. Isto pode acontecer por diversos motivos, sendo que os mais frequentes são a patologia cardíaca de causa hipertensiva e a doença das artérias coronárias (como os enfartes agudos do miocárdio). A doença valvular cardíaca também é uma causa bastante comum de fibrilhação auricular.

Apesar desta arritmia ser a mais frequente e ter implicações importantes em termos de sobrevida, ela é, não raras vezes, assintomática. Palpitações, agravamento do cansaço habitual, falta de ar nos esforços, sensação de maior fraqueza ou aumento do débito urinário são alguns dos sintomas que a fibrilhação auricular pode dar mas, na maioria das vezes, são tao frustes e inespecíficos que o indivíduo nem se apercebe deles.

A melhor forma de diagnosticar uma FA é através de um Eletrocardiograma – ECG. Um traçado específico e, normalmente, um ritmo mais acelerado são suficientes para que se estabeleça o diagnóstico.

Ainda assim, muitas das FA são paroxísticas, isto é, surgem e desaparecem de forma espontânea; se, porventura, o doente faz o ECG em ritmo sinusal pode-se perder a oportunidade de diagnóstico. Uma alternativa é fazer também um ecocardiograma. Assim, mesmo que o individuo não esteja em FA, há alterações estruturais cardíacas que aumentam o grau de suspeição desta patologia. Um estudo Holter (ECG de 24 ou 48horas) é também uma boa opção, sobretudo se se suspeitar de FA paroxística.

Esta arritmia, tal como dito previamente, comporta riscos acrescidos importantes e não negligenciáveis. O principal é o risco aumentado de sofrer acidentes vasculares cerebrais (AVC’s). Como o coração não contrai de forma controlada, há uma estase do sangue a nível auricular e há maior propensão a formar coágulos. Estes podem soltar pequenas porções, os êmbolos, que se podem deslocar para a circulação arterial, dentre ela a cerebral, e provocar um AVC. O risco é elevado e a mortalidade aumenta nestes doentes se não estiverem corretamente medicados.

Há 2 opções major de tratamento: a reposição do ritmo sinusal e o controlo da frequência cardíaca e, caso esta não seja possível, a hipocoagulação crónica. Esta última consiste em medicação regular que permite que o sangue fique mais fluido e se diminua o risco de formação de trombos. Nestes doentes, a completa adesão à terapêutica e o fazê-lo de forma consciente e responsável é imprescindível para que o risco se reduza e se previnam desfechos desfavoráveis.

A fibrilação auricular é uma patologia muito frequente e silenciosa. O nosso próprio coração é-nos traiçoeiro e não nos avisa convenientemente de quando precisa de ajuda. Assim, estarmos alerta para a existência deste problema e reconhecermos alguns dos sinais frustes que ele nos pode dar pode ser o suficiente para recorrermos ao médico e fazermos um ECG. Tão ou mais importante que isso é, também, percebermos que, a partir do momento em que temos um diagnóstico, temos de nos comprometer a cumprir a medicação e as indicações médicas em prol da nossa própria segurança e futuro.

Quando batem leve, levemente pode ser neve, pode ser chuva no vidro de casa. Se ouvirmos com cautela pode ser em nós; pode, simplesmente, ser o nosso coração a pedir que lhe consigamos alguma consideração e cuidados.

VN Online | Miguel Alves Duarte, ilustração para Batem leve, lemente, de Inês Grenha, maio de 2018

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Imagem de destaque: Batem leve, levemente… (Miguel Alves Duarte; ilustração).

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Categorias: Ciência

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Inês Grenha

Inês Grenha formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em 2016. No corrente ano de 2018 é Interna de Formação Específica de Medicina Interna na Unidade Local de Saúde do Alto Minho.

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