Raias Poéticas, 7ª ed – 2018

Entrevista | Pedro Araújo Napoleão: “As Sensações e as Emoções na Arquitectura” ambiciona aproximar a Arquitetura das pessoas

Entrevista | Pedro Araújo Napoleão: “As Sensações e as Emoções na Arquitectura” ambiciona aproximar a Arquitetura das pessoas

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Os eventos literários não costumam primar pela presença de outros que não escritores – poetas, romancistas, ensaístas… – exceto entre a diversidade do público presente. Em geral, são apenas aqueles que se encontram no centro das atenções.

Desta feita, no entanto, as Raias Poéticas, evento literário de certo modo alternativo que se realiza em Vila Nova de Famalicão, desde 2012, resolveram dar uma volta no cardápio mais normativo destes encontros e, por isso, conjugam e interrelacionam uma outra forma de arte com a escrita – a arquitetura.

Assim, nos dois primeiros dias do evento, a arquitetura será o centro das atenções. Entre outros, estarão presentes diversos arquitetos bem conhecidos no respetivo meio, como é o caso de José Manuel Pedreirinho, Noé Diz, Graça Correia, e José Antonio Franco Taboada, mas o foco das atenções, em especial no primeiro dia do evento, estará centrado no arquiteto famalicense Pedro Araújo Napoleão.

A arquitetura marca a paisagem transformada pelo homem. Hoje em dia, verdade se diga, quase toda ela já intervencionada por este. Diríamos até que, com exceção do mar, o homem interveio já em todos os ambientes paisagísticos. Mas, na verdade, até neste agora está a intervir cada vez com mais frequência. O homem contrói barreiras ao mar, ilhas artificiais, túneis submarinos com dezenas de quilómetros de extensão. Veremos algum dia cidades construídas e habitadas debaixo do mar?

Esta poderia ser uma questão a colocar a Pedro Araújo Napoleão, arquiteto nascido em Vila Nova de Famalicão em 1972, e com ela assim termos iniciado a nossa entrevista motivada pelo lançamento do seu livro “As Emoções e as Sensações na Arquitectura” na sessão de aberturas das Raias Poéticas 2018. Não pensamos nisso na altura, há que o confessar; ficará para outra ocasião.

Pedro Araújo Napoleão licenciou-se em Arquitetura pela Universidade Lusíada de Vila Nova de Famalicão. Mais tarde, prosseguiria os seus estudos na Universidade da Corunha, na Galiza, dois passos já ali acima, realizando um doutoramento, e onde, por casualidade, também o nosso anterior entrevistado das Raias Poéticas 2018 – Tiago Alves Costa – vive atualmente. Exerce a sua atividade profissional na PanAtelier – Pedro Araújo & Napoleão, Lda, desde 1997. Trabalhou durante algum tempo em Paris como Diretor Técnico de um grupo do setor da construção civil. No âmbito do Pós-doutoramento, integra atualmente o grupo de Investigação em Representação Arquitetónica da Universidade da Corunha.

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Pedro Costa: Como surgiu o livro “As Sensações e as Emoções na Arquitectura”, isto é, como surgiu a ideia e a conduziu até ao objeto final.

Pedro Araújo Napoleão: A ideia de partir para este trabalho de investigação, surgiu num momento em que, profissionalmente, sentia ainda estar muito longe daquilo que ambicionava relativamente aos conceitos que idealizava. Afastando-me muitas vezes daquilo que gostaria de ver feito, muito por questões de sobrevivência do próprio gabinete, mas também pelo facto de sentir que a Arquitetura não era suficientemente valorizada pelas pessoas. Isso fez-me refletir e pensar uma forma de encontrar um compromisso que me permitisse sustentar a aproximação da Arquitetura às pessoas que sempre tentei impor, sem prejuízo da minha liberdade criativa. O que por vezes me criava alguma dificuldade em conciliar: Um querer aprofundar os meus conhecimentos em tudo aquilo que implica o impacto do arquitecto na obra e a obra nas pessoas, a importância que os novos avanços das neurociências podiam ter na Arquitectura, o impacto nos espaços e em tudo o que está interrelacionado. Prendeu-se portanto com uma necessidade de fazer algo que acrescentasse valor, mas  também de encontrar algo que fundamentalmente tivesse a ver comigo, que me motivasse e levasse a novos domínios. Foi por essa altura que decidi começar esta caminhada há dez anos atrás. Primeiro, com a fase correspondente ao mestrado, e, depois, com o doutoramento, sempre numa perspetiva de um dia vir a publicar este livro “As Sensações e as Emoções na Arquitectura” e com isso tentar dar o meu pequeno contributo para a valorização da Arquitetura.

Pedro Costa: De que fala o livro em concreto? Quer exemplificar um ou dois casos?

Pedro Araújo Napoleão: O livro “As Sensações e as Emoções na Arquitectura”, convida-nos a fazer uma viagem pelos principais movimentos da Arquitetura, pelas nuances do mundo da Emoção, da Razão e da Sensação ao longo do desenvolvimento da mente cultural humana. Sem criar qualquer tipo de cisão entre estes mundos nem encerrar o discurso com qualquer tipo de formulação, propõe integrar estas facetas a todos níveis, visando um estado de arte que estimule a sua compreensão, que a torne mais abrangente e pluridisciplinar. O primeiro capítulo começa assim por explanar sucintamente a forma como se processaram os desdobramentos cíclicos ao longo do processo evolutivo entre a Arquitetura e o meio. Expressões ideológicas onde se formaram valores éticos e estéticos, explicando no segundo capítulo a forma como se deu esse processo de contágio, compreendido entre o meio, o sujeito, a expressão e a comunicação.

A pensar no mundo e nas pessoas, sugere uma abordagem arquitetónica que integre o conhecimento das ciências humanas e biológicas, assegurada por todos os princípios de sustentabilidade, em prol do bem-estar e da qualidade de vida das pessoas.

Pedro Costa: De que modo a arquitetura influencia, de facto, a vida das pessoas, a vida de cada um de nós?

Pedro Araújo Napoleão: Uma obra de Arquitetura tem o poder de nos impactar emocionalmente, através dos impulsos automáticos que são fornecidos pelo nosso inconsciente, a partir do momento em que com ela interagimos. Geram-se reações imediatas que saem do nosso controlo, conduzidas a partir da experiência corporal e sensorial, das impressões causadas nos órgãos recetores através dos estímulos internos e externos às nossas sensações e, assim, à primeira forma de consciência, à nossa experiência mental que nos leva aos sentimentos das coisas que nos transformam a nós próprios.

Contudo para que este processo seja notado, para que se compreenda a existência deste fenómeno, é necessária uma pré-disposição das pessoas para entender a Arquitetura. Aqui reside a diferença e a razão pela qual algumas pessoas se sentem mais sensibilizadas para a perceção da Arquitetura do que outras, como de resto acontece com qualquer outro tipo de manifestação artística, sejam elas a música, a pintura ou o cinema.

Pedro Costa: Na Vila Nova, o Pedro Araújo Napoleão já tem publicado alguns artigos de opinião. E antes disso? Que publicações (que tipo de publicações e/ou quais) foi fazendo ao longo da sua carreira?

Pedro Araújo Napoleão: Há uns 12 anos começaram a convidar-me para algumas entrevistas e publicações de algumas obras. Depois surgiram os primeiros artigos de opinião em revistas da especialidade. A dada altura, alguém me perguntou como definiria a minha arquitetura. Não hesitei em defini-la como emocional. Uma arquitetura que nutria afeto pelo outro, de certa forma intuitiva, apesar de hoje ter uma visão mais completa sobre esta ideia. Isto coincidiu com um momento em que emergiam novas descobertas das neurociências e em que a obra de António Damásio se destaca, sendo muitas vezes referido como o neurocientista das emoções.

Pedro Costa: O Pedro é arquiteto há quanto tempo? Como tem sido essa experiência profissional e artística? De que modo é para si gratificante ser arquiteto?

Pedro Araújo Napoleão: Sou Arquiteto há 22 anos. O meu percurso foi marcado por três períodos distintos: o primeiro, muito ligado à grande proximidade do meu pai, acompanhando-o desde o escritório às obras; seguiu-se a universidade, todo um percurso académico que me despertou, de certa forma, o meu lado criativo; depois, os primeiros passos enquanto Arquiteto a partir da estrutura legada pelo meu pai, em que tive oportunidade de experienciar as minhas primeiras dificuldades em confrontar o lado sensível dado pela criatividade e empreender os meus conceitos face àquela realidade. Encontrei imensos obstáculos, mas, com alguma persistência e resiliência, fui avançando, conquistando paulatinamente o meu espaço, a minha arquitetura, sem perder as raízes que se prendiam com as preocupações das pessoas e do seu enquadramento.

Nos meus primeiros quinze anos, tive oportunidade de experienciar e alargar o raio de ação, fazer projetos um pouco por todo o país. Apesar de ver o meu trabalho reconhecido, permaneceu sempre ao longo do meu trajeto uma insatisfação e frustração por sentir que ainda podia fazer mais e melhor. No período em que se augurava uma conjuntura difícil para a construção e para a Arquitetura decidi começar a fazer algo que me pudesse acrescentar valor e, com isso, me levasse a repensar a minha profissão. O terceiro período está compreendido assim por esta necessidade de transformação: pensamento crítico e colocação em causa de conceitos. Dei por mim a fazer uma reflexão profunda sobre o que realmente era a Arquitetura.

A Arquitetura tem-me proporcionado imensas experiências diferentes, todas elas muito gratificantes. Tenho sido um privilegiado. Gratificante é podermos fazer na vida aquilo que gostamos, mas se por este ou aquele motivo não for possível, torna-se essencial termos a capacidade de refletir e reagir. É preciso reinventarmo-nos.

Pedro Costa: Quais são as suas obras mais significativas e/ou que lhe deram mais prazer conceber e realizar?

Pedro Araújo Napoleão: Tive oportunidade de experienciar vários domínios da Arquitetura. No entanto, uma vez que o escritório sempre esteve mais ligado à habitação, com forte tradição nas moradias, acabei por me especializar nesta área. Confesso que tenho alguma dificuldade em selecionar um projeto específico. O balanço é positivo. Cada obra conta uma história diferente, começa por dar respostas a pessoas num determinado tempo e espaço, passando pelo processo construtivo à sua experiência e vivência espacial. O meu maior prazer reside na satisfação dos meus clientes, saber que passados tantos anos se sentem bem nessas casas e me recordam pelas melhores razões.

Pedro Costa: E agora, que concluiu o Doutoramento em A Coruña, como se vê no papel de professor e investigador? Que trabalho(s) pensa desenvolver?

Pedro Araújo Napoleão: Terminei o doutoramento em 2016 e confesso que a ideia de lecionar me seduz muito, embora nunca tenha sido professor. Se um dia surgir essa oportunidade será certamente mais um desafio que agarrarei com todo o entusiamo. No âmbito do Pós-doutoramento, integro atualmente o Grupo de Investigação em Representação Arquitetónica da Universidade da Corunha, encontrando-me a desenvolver um trabalho de investigação sobre a Arquitetura e Neurofenomenologia.

Pedro Costa: Pensa que o lançamento deste livro pode vir a transformar a sua vida profissional?

Pedro Araújo Napoleão: Sinceramente não tenho pensado muito nisso. A minha vida profissional foi alterada a partir do momento em que tomei a decisão de seguir este caminho que, esse sim, fez com que saísse da minha zona de conforto e mergulhasse no mundo fascinante que é o do conhecimento. O que sinto é ainda uma maior responsabilidade no exercício da Arquitetura e uma vontade enorme de prosseguir os meus estudos, contribuindo para o seu enriquecimento.

Pedro Costa: Que espera das vendas deste livro?

Pedro Araújo Napoleão: Espero fundamentalmente que o livro, para além dos Arquitetos, suscite também interesse no público em geral, aproximando-o à Arquitetura. A recetividade mais ampla deste meu trabalho será para mim já um grande reconhecimento. Será sinal que a minha experiência, enquanto arquiteto e investigador, deu o seu pequeno contributo em prol da compreensão do que realmente significa a essência da Arquitetura, aproximando-a às pessoas.

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Pedro Costa

Diretor e editor.

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