Cinema | Bonecas e Fantoches. Uma leitura de Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky

Cinema | Bonecas e Fantoches. Uma leitura de Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky

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Como Nossos Pais é um filme repleto de paralelismos, quer no plano dos sentidos quer no das formas: a câmara, aqui estática e ali desinibida, faz ela própria uma demarcação clara entre a comodidade claustrofóbica e estéril do mundo doméstico (dividido também entre a cama lívida do casal e o quarto colorido das crianças) e a espontaneidade dos espaços exteriores. Sendo este, como o título indica, um filme sobre origens (concebida em adultério, a protagonista, Rosa, tem dois pais), num âmbito mais alargado discute-se aqui a proveniência genética da mulher da era moderna e da nação brasileira contemporânea.

Qual o seu verdadeiro pai? Homero, o bardo original, na prática um pintor que vive na penúria e vai desenrascando uns favores com um optimismo algo embaraçoso e apelos pouco convincentes à “imaginação brasileira” e ao “espírito do carnaval”? Ou Roberto “Nathan”, ícone da bastardização do Brasil, país em mutação, sociedade de anglicismos pós-industriais (de pen drives, clouds, e por aí fora), hipocrisias compulsivas e novas tendências (discute-se, por exemplo, a poligamia como forma de restituir autenticidade às relações conjugais).

Mas debate-se também o futuro. Qual é, na verdade, o parceiro ideal? Que pai terão as novas gerações brasileiras? Rosa vacila entre o homem estereotipado que esposou, que pretensamente vive para o trabalho e ignora a família (apesar de ter tempo para ver futebol e passear com as alunas) e o coração mole que ouve atentamente o que ela diz, o tipo sincero dos seus sonhos. Neste âmbito, o filme traz à discussão uma data de temas que estão na ordem do dia. Feminista e dramaturga, apesar de desempenhar o seu papel de mãe de forma destemida, Rosa não é nenhuma boneca (a referência é à peça epónima de Ibsen, que Rosa tenta reescrever, literal e alegoricamente). Vão daí as múltiplas perguntas com que vai fustigando o seu parceiro ideal: por que é que as mulheres continuam a ser mais mal pagas do que os homens? Para que serve a força bruta do macho alfa na era do soft power e da inteligência emocional? O filme acena aqui de forma fugidia à geração #timesup e parece consciente disso dada a forma demasiado fácil, e algo trocista, com que o seu sorridente amigo se verga e lhe pede perdão “em nome de todos os homens”.

Há hoje um debate aceso a decorrer sobre estes temas (deixo alguns links abaixo para quem estiver interessado e queira levar adiante a discussão?): por que é que há tantas divergências entre homens e mulheres no mundo do trabalho? É verdade, como nos diz o pós-modernismo, que as identidades de género são meramente artificiais e performativas? Sendo assim, devemos celebrar a atual onda de reformismo feminista e catalisar a “crise da masculinidade”? O filme não quer verdadeiramente discutir nenhuma destas questões e talvez seja por isso que acaba num impasse: cometida a transgressão, Rosa decide optar pela estabilidade familiar e manter o marido, intencionalmente tratado pelo filme como um mero fantoche, insondável na sua bidimensionalidade. Se a peça de Ibsen apregoava a insurreição, a sequela de Rosa é uma estória de transição, entorpecida pela incerteza e a indecisão. À boa maneira brasileira, será preciso esperar pelo próximo episódio.

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Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky – trailer

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Obs: Exibido no Cineclube de Joane, na Casa das Artes, em Vila Nova de Famalicão, em 17 de maio.

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Ligações relevantes:

1 – Entrevista Channel 4 a Jordan Peterson: Jordan Peterson debate on the gender pay gap, campus protests and postmodernism (Channel 4 News)

2 – “Are we living in a patriarchy: Jordan Peterson Vs. Angela Nagle?” (Zero Books):

 

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

João Paulo Guimarães

João Paulo Guimarães doutorou-se em Inglês na Universidade de Buffalo. No seu trabalho, tem explorado os pontos de ligação entre a poesia e a ciência. Interessa-se particularmente pela relação entre a linguagem poética e as chamadas “linguagens da natureza” (a palavra divina, o código genético, a cibernética e a biosemiótica). Tem também tratado temas como “a poesia e o sono”, “o experimentalismo escapista”, “a ciência da autenticidade” e “o humor da natureza”. É investigador no Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa (Porto), onde está a desenvolver um projeto sobre representações alternativas de velhice na poesia contemporânea. Todos os seus trabalhos estão disponíveis na página: https://flup.academia.edu/Jo%C3%A3oPauloGuimar%C3%A3es

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