Política e Políticos | Que a voz nunca nos doa e que o medo nunca nos cale

Política e Políticos | Que a voz nunca nos doa e que o medo nunca nos cale

.

“Que a voz nunca te doa e que o medo nunca te cale” – disse-me um homem extraordinário era eu ainda adolescente. A turma vivia um conflito complicado com a Professora de Português e, ao contrário dos pais dos meus colegas, os meus delegaram-me a responsabilidade de os representar na reunião dos encarregados de educação com o diretor de turma. Deveria expor, educadamente e sem receios, as minhas preocupações e pedir desculpa se, de alguma forma, tinha contribuído, ainda que involuntariamente, para algum mal-estar gerado na turma (muito embora soubesse que não estava em mim a origem do movimento irreverente). Fui à reunião e não foi bom! A voz tremeu-me e senti-me pequenina (como realmente era), mas acho que a Professora me passou a admirar desde então (apesar de nunca mo ter dito!). Verdade seja dita que, naquela ocasião, a voz doeu-me bastante… De lá para cá, o medo também me calou algumas vezes…

Com o passar dos anos, porém, fui assimilando a lição e entendi que devemos “calar quando é para calar” e “falar quando é para falar”.

Ultimamente, tenho percebido que na política, em particular, a distinção destes dois momentos (o de calar e o de falar) são fundamentais. Por vezes, os políticos calam-se, quando deveriam falar e explicar, e outras vezes falam excessivamente, dizendo muito pouco e, por isso, deveriam era estar calados. E todos vamos assistindo, mais ou menos pacificamente, reclamando qualquer coisa para a televisão ou para o jornal, como se nos pudessem dar ouvidos. Não chega.

A crise sem precedentes que a política atravessa e a descredibilização total da classe de políticos, a que hoje assistimos, merecem que se faça esta reflexão.

Não há nada mais nobre do que o exercício da política. Nada tem mais impacto na vida das pessoas. Quem a exerce assume, de acordo com a sua ideologia, responsabilidades e capacidades ímpares na procura do bem público, com honestidade, com ética, com determinação, com liberdade e independência. Um político sabe que não pode subverter os seus valores e cumpre o seu mandato com total lealdade com os compromissos assumidos com os eleitores. Sendo um representante, responde aos cidadãos e não só não se opõe como até fomenta o escrutínio detalhado das suas decisões.

Não é assim? Pois não, lamentavelmente não.

E porquê?

Porque a política pressupõe independência, pressupõe trabalho, pressupõe mérito, pressupõe ética. Infelizmente, todos sabemos que não são exatamente estas as qualidades que caracterizam a maioria dos políticos que conhecemos… E não vou falar de corrupção. Não é preciso ir tão longe para o sistema estar descredibilizado.

Todos os dias vemos políticos que o são desde sempre, vivendo do que a política lhes dá, como se fosse esse o dever dos partidos ou dos sistemas a que pertencem. Nas manobras de bastidores, multiplicam-se assessores, adjuntos e secretários, que há muito deixaram de lado as carreiras (para os que as tinham), até porque o futuro que a política lhes apresentou era, indubitavelmente, mais promissor e sedutor.

Nada mais errado… Foi-se a liberdade, foi-se a independência, quantas vezes a ética e, no fim, ficou apenas uma determinação gigante de não perder o poder. Protegem-se os “seus”, independentemente da qualidade que possam trazer às funções desempenhadas. Montam-se estratégias de guerra eleitoral, porque não podem ficar sem os “seus” lugares. Quem detém o poder, rodeia-se não de valor mas de (suposta) lealdade, por aqueles que, em nenhuma circunstância, se atreverão a questionar. Este posicionamento ao lado do poder, de forma cega, surda e muda, traz-me à memória a infância… Todos gostávamos de ser amigos do “dono da bola”, mesmo quando o dono da bola não tinha qualquer aptidão como jogador. Mas todos sabíamos que era o “dono da bola” quem escolhia a equipa e, por isso, ninguém questionava as suas opções, não fosse dar-se o caso de nos pôr de fora do jogo, independentemente das virtudes de cada um.

O grave problema disto tudo é que os “donos da bola” deixaram de ser meninos e os que agora jogam com eles também. Todos falam, do alto, verdades absolutas, mas pelo caminho quase todos deixaram de ser livres. Daí que, depois, não consigam distinguir o tempo de falar e o tempo de calar. Falam quando precisam de protagonismo e calam-se quando falar os compromete. E isto é muito triste e muito fraco.

Hoje, mais do que antes, são precisos militantes na ética, militantes na competência, militantes na independência. Pessoas livres! Seres humanos bons! E há tantos… só precisam ser envolvidos em bons projetos e em ideais fortes!

Depois sim… depois da militância primária nos valores, que venha a militância na política, para que, quando vier o tempo de falar, a voz nunca nos doa e o medo nunca nos cale!

.

Pub

Categorias: Política

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Mariana Carvalho

Mariana Carvalho nasceu a 18 de setembro de 1977, em Barcelos, cidade onde também reside. É licenciada e mestre em Matemática, tendo concluído o seu doutoramento em Engenharia Industrial e de Sistemas, em 2012. É Professora e Investigadora da Escola Superior de Tecnologia, do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, desde 2001, onde tem assumido inúmeras funções de coordenação e participação em comissões pedagógicas e científicas, em atividades académicas de ligação à comunidade e, também, nos seus órgãos colegiais e de responsabilidade académica. É Vereadora da Câmara Municipal de Barcelos, desde outubro de 2017.

Escreva um comentário

Apenas utilizadores registados podem comentar.