Entrevista | Diogo Martins e Nuno Leão. dizer adeus às coisas é projetar a performance do mundo (também amanhã)

Entrevista | Diogo Martins e Nuno Leão. dizer adeus às coisas é projetar a performance do mundo (também amanhã)

dizer adeus às coisas seguido de uma teoria da imagem (ou a performance do mundo) é um título que, só por si, deixa qualquer um curioso acerca de um livro assim designado. O livro de Nuno Leão e Diogo Martins foi lançado em março passado, mas tem ainda um futuro enorme pela frente.

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Dizer “adeus” coloca-nos frente ao desconhecido futuro quer daquele que se avizinha quer de um outro que se poderá encontrar bem mais mais além. Coloca-nos também perante o indefinido, o vazio da folha ou da tela por preencher, perante aquilo que não sabemos, que desconhecemos. Surge, assim, a necessidade  de conhecer um pouco mais e melhor quem está por detrás deste livro, desta matéria na aparência árida, mas na realidade bem concreta e presente no quotidiano de cada um de nós. Refere Diogo Martins, a este propósito, num trecho do livro: “são imagens registadas, inscritas na ficção da sua perenidade, não regidas pelo tempo cronológico. Sem passado ou futuro, são um contínuo resgate do presente, daquele momento presente. Como se pudessem perdurar, este carro ou este traço de avião recobrem-se de um halo de eternidade objetual, de uma espécie de consagração anunciada.”

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Diogo Martins é autor da Vila Nova desde o seu início. Quando lhe apresentamos o projeto, mostrou franca curiosidade pelo mesmo, mas também sincero desejo de participar logo que percebeu aquilo em que se poderia transformar este “objeto único de desejo” (expressão minha, roubada a quem não sei). E assim tem feito, de forma permanente e persistente ao longo destes 7 meses e meio, apesar de o tempo não lhe sobrar. Nos seus textos, límpidos e luminosos, deixa entrever o mistério da essência das coisas sobre as quais se debruça e reflete.

Natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão, Diogo Martins nasceu em 1986. Licenciado em Estudos Portugueses – Ramo Ensino, pela Universidade do Minho, dedicou-se desde 2009 ao ensino de Língua, Cultura e Literatura Portuguesas, seja no formato de explicações a estudantes do ensino básico e secundário, seja a alunos dos cursos de acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos, na Universidade do Minho, assim como a alunos estrangeiros, no centro de línguas Babelium (também na Universidade do Minho).

Entre 2010 e 2015, realizou o seu doutoramento em Ciências da Literatura, ramo Teoria da Literatura, com uma tese intitulada “The greener grass: da autorrepresentação em Alanis Morissette”, procurando criar aproximações teóricas entre interpretação literária, performance musical, a escrita de canções e a autorrepresentação do sujeito. Nesse período, foi aluno bolseiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

Desde setembro de 2017 que tem desenvolvido o seu projeto de investigação pós-doutoral “Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes”, na Faculdade de Letras do Porto.

Tem colaborado com a associação Terceira Pessoa, em Castelo Branco, em diferentes projetos transdisciplinares, com destaque para o projeto INSCRIÇÃO (Infância/Juventude/IdadeAdulta)(2014), o livro INSIDE/OUTSIDE (2015), com texto e fotografias suas, e, mais recente, o livro de fotografia e ensaio DIZER ADEUS ÀS COISAS, seguido de UMA TEORIA DA IMAGEM (OU A PERFORMANCE DO MUNDO), com Nuno Leão.

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De Nuno Leão confessamos saber pouco, ainda bastante menos do que sobre Diogo Martins. O nosso conhecimento é residual e chega-nos do conhecimento do seu trabalho artístico e de algumas trocas de impressões. É, no entanto, certo ser um artista multifacetado, ativo e interventivo, bem como possuidor de uma sensibilidade poética que se manifesta no seu modo de olhar as coisas.

Nuno Leão , por seu lado, é natural de Alcains, no concelho de Castelo Branco, onde nasceu no ano de 1983. Inicia a sua atividade artística, como criador e intérprete, em 2004, dedicando-se à criação em artes performativas. Em 2010 termina a Licenciatura em Teatro na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, tendo trabalhado profissionalmente com diversas companhias e teatros como Artistas Unidos, Teatro Praga, Teatro Nacional D. Maria II, Teatro Nacional de São Carlos, entre outros.

Em 2012 funda a Terceira Pessoa – Associação onde criou KURT COBAIN (Work in Progress/There’s no End in Us)(2012), HEY YOU (2013), INSCRIÇÃO e MÃOS PENSANTES OU MANUAL DE PENSAR (2014), PRIMEIRA INFÂNCIA (2015) THE OLD IMAGE OF BEING LOVED (2016) e AQUI É SEMPRE OUTRO LUGAR (2017). É ainda responsável pela direção artística e produção do projeto ALDEIAS ARTÍSTICAS e desenvolve o projeto pluridisciplinar FILOSOFIA DA PAISAGEM.

Desde 2014 iniciou o seu trabalho na área da fotografia, atividade que tem aprofundado de forma autodidática. De entre os seus projetos fotográficos destaca FILOSOFIA DA PAISAGEM (2015), INSIDE/OUTSIDE (2015) e DIZER ADEUS ÀS COISAS (2015-2018). Em 2017 é artista residente na ReSart Marvão (Residência Artística) onde inicia o projeto fotográfico PERMANECER. No ano de 2018 lança, em conjunto com Diogo Martins, o livro de fotografia e ensaio DIZER ADEUS ÀS COISAS, seguido de UMA TEORIA DA IMAGEM (OU A PERFORMANCE DO MUNDO).

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Pedro Costa: Nuno, talvez pudéssemos iniciar esta conversa com uma pergunta muito comum: Como e onde se conheceram o Nuno e o Diogo”?

Nuno Leão: Conheci o Diogo através da Ana Gil, que fundou comigo a Associação Cultural Terceira Pessoa em 2012. O Diogo e a Ana são amigos de juventude e ambos da zona de Vila Nova de Famalicão. Em 2012, quando eu e a Ana realizámos o nosso primeiro projeto enquanto Terceira Pessoa, o projeto KURT COBAIN, o Diogo veio assistir à estreia do espetáculo em Castelo Branco e foi aí que fizemos o primeiro contacto. Estamos a falar portanto de uma relação que nasce, num primeiro momento, de uma amizade em comum e que, através do trabalho artístico a que o Diogo assistiu, começou a ser também uma relação artística. A partir desse momento o Diogo passou também a ser um elemento fundamental e nuclear na Terceira Pessoa, uma vez que foi produzindo reflexão em torno dos objetos artísticos que estávamos a criar, ajudando-nos a ver e a ler mais e melhor aquilo que estávamos a fazer. Foi nesse sentido que, em 2014, convidámos o Diogo para se juntar ao processo do projeto INSCRIÇÃO, que juntou um grupo de pessoas da comunidade de Castelo Branco em torno do livro Portugal, Hoje: O Medo de Existir, do filósofo português José Gil. Nessa altura, o Diogo esteve um mês em Castelo Branco, onde desenvolveu uma oficina de leitura e dramaturgia em torno do livro e com participantes da comunidade albicastrense. Foi um momento em que aprofundámos a nossa relação pessoal e artística, que se refletiu na criação de um espetáculo de teatro em três partes (Infância, Juventude, Idade Adulta) e que resultou ainda na publicação de uma série de crónicas que o Diogo escreveu durante o processo num jornal local e posteriormente editadas em livro, numa edição da Terceira Pessoa.

E como estou a contar  a história de um encontro – e “um encontro não é uma coisa, é um processo” –, começámos a partilhar outros interesses que tínhamos em comum no que diz respeito à criação artística. Foi assim que surgiu a questão da fotografia. O Diogo e eu fotografamos de forma regular – mas não nos consideramos fotógrafos. Penso que temos muitos pontos em comum na forma como olhamos, pensamos e praticamos a fotografia. A fotografia acabou por ser, cada vez mais, uma forma através da qual começámos a dialogar um com o outro (e com os outros também). Até que, através de partilhas informais daquilo que íamos fotografando, nasceu um primeiro projeto comum chamado INSIDE/OUTSIDE. Aí eu lancei um convite ao Diogo para que ele selecionasse uma série de fotografias que ele tinha feito para que eu pudesse, com elas, construir um conceito e criar um livro com fotografia e texto do Diogo. O meu trabalho foi então o de criar um contexto específico para aquelas fotografias que o Diogo estava a fazer e que falavam comigo (e com os processos artísticos em que estava envolvido) de forma bastante íntima e premente (no sentido de uma urgência).

Este livro foi editado pela Terceira Pessoa em 2015, no contexto do projeto FILOSOFIA DA PAISAGEM que estávamos a desenvolver na altura e a partir daí nunca mais parámos este diálogo em torno e através da fotografia, sempre como forma de relação com as coisas e com os dias que vamos vivendo.

Pedro Costa: E como surgiu este projeto a dois – dizer adeus às coisas seguido de uma teoria da imagem (ou a performance do mundo)? Surgiram primeiro as imagens, o texto, ou foram ambos sendo trabalhados partindo de uma planificação comum?

Nuno Leão: Penso que, a partir destes momentos que foram definindo a nossa história comum, acabámos por chegar de forma muito natural a este projeto do livro dizer adeus às coisas, seguido de uma teoria da imagem (ou a performance do mundo). É como aquela frase de Maria Filomena Molder que o Diogo citou no lançamento do livro que fizemos em Castelo Branco: “Nós só começamos depois de continuar”.

Diogo Martins: Recuperei para esse evento essa frase de Filomena Molder – “Nós só começamos depois de continuar” – de um modo muito contingencial, tão contingente e espontâneo que até arrepia pensar nisso. Precisamente porque poderia nunca me ter ocorrido, o que, de facto, se pode dizer deste projeto em comum. A possibilidade de algo não acontecer diz muito sobre aquilo que efetivamente ganha forma e volume nas nossas mãos. Este livro de fotografia e ensaio constitui, assim, o passo seguinte em relação àquilo que ditou a ocorrência do INSIDE/OUTSIDE. Ou seja, o Leão foi fotografando pequenas coisas circunstanciais, construindo um certo universo de imagens que iam, de algum modo, comunicando umas com outras, seja por reunirem aspetos visualmente comuns (certas formas mais insistentes, certos padrões de objetos, certo fascínio por coisas mais rasteiras e fugazes), seja também (e isto já é o meu modo de olhar essas imagens) por criarem entre si algum atrito, qualquer coisa que as torna intrinsecamente heterogéneas e diferenciadoras. Ele ia partilhando essas imagens comigo pelo Facebook e, a dado momento, propôs-me criar um texto em torno dessas imagens. O que escrevi acabou por ir um pouco além disso (e só a meio do processo de escrita é que me dei conta do que, de facto, estava a acontecer). Com base em algumas referências bibliográficas que já havia explorado na minha tese de doutoramento, fui lendo e aprofundando outras coisas, conhecendo outros autores, e tentei sempre dar conta da natureza essencialmente complexa que reside no coração de uma imagem e, em particular, da imagem fotográfica. E que tal complexidade acontece, precisamente, porque a imagem conquista o seu apogeu, o seu existir, na medida em que nos relacionamos com ela, olhando-a, pensando-a, até mesmo quando desistimos daquilo que vemos, desviando o olhar. É desta trama de ideias que se faz o meu ensaio a partir das fotografias do Nuno.

Pedro Costa: Nuno, considera que a leitura das imagens apresentadas neste livro requer algum tipo de preparação do olhar? Que treino, exigência ou sensibilidade são, hoje, necessários para olhar a fotografia como linguagem artística, num tempo tão saturado de imagens como o nosso?

Nuno Leão: Penso que as fotografias de dizer adeus às coisas nos pedem uma suspensão, um gesto de espera para as podermos olhar melhor. É um olhar imersivo aquele que estas imagens nos propõem e, como tal, penso que nos pedem o corpo todo. Há uma frase de John Berger, que cito numa das folhas translúcidas do livro, que sintetiza bem aquilo de que falo. Nessa frase ele fala de relações e de diferenças de relações que a fotografia e a pintura propõem, dizendo que as fotografias lembram-nos aquilo que esquecemos. Nesta perspetiva a fotografia será o oposto das pintura. As pinturas recordam aquilo de que o pintor se lembra. Porque cada um de nós esquece coisas diferentes, “uma fotografia mais do que uma pintura pode alterar o seu significado de acordo com a pessoa que a olha.” É este tipo de relação pessoal e íntima que me interessa e procuro através da fotografia, que o espectador a possa preencher, possa imergir nela, tornando-a coisa sua. Ora, isso eu acho que é algo extremamente difícil de se fazer nos dias de hoje, causa dessa tal saturação de imagens em que vivemos. Penso muitas vezes que estas imagens talvez queiram também falar das outras imagens que não existem, de imagens que estão ainda por vir, que estão por aí em potência. A potência de agenciamentos que as imagens guardam é algo que me interessa particularmente, mas para que isso possa ser uma verdadeira relação e acontecimento é preciso implicarmo-nos com elas, oferecermo-nos a elas, dedicar-lhes tempo. O título “dizer adeus às coisas” está relacionado também com essa tensão entre as imagens e o tempo. Esta é uma coleção de memórias que está sempre em construção, nunca terminando e através da qual se procura que o espectador possa mergulhar num tempo abismal que concentra em si estímulos passados, presentes e abertos a um novo futuro (tempo por vir). As imagens procuram essa abertura de sentidos, oferecendo-se ao olhar objetos e espaços que estão em trânsito, que caminham para um fim, que conservam uma vida passada mas ainda com uma história futura.

Pedro Costa: Diogo, e a performance do mundo (ou a teoria da imagem) é uma teoria que se pode generalizar aos seres e objetos que nos rodeiam ou apenas ao que ali, nesse livro, se encontra inscrito?

Diogo Martins: Se este ensaio efetivamente existe, agora, disponível a quem sobre ele queira debruçar-se, então deve uma parte substancial e vital dessa existência às fotografias do Leão. O projeto começou aí, a partir dessas fotografias, como anotações muito derivativas. Mas, ao mesmo tempo (e é difícil demarcar com regra e esquadro o que separa um e outro processos), interessou-me deliberadamente sair dos sulcos: portanto, pensar estas fotografias, o que nelas há de especial, singular e irredutível, levar-me-ia a pensar igualmente o modo como eu me relaciono com a própria ideia ou imagem da fotografia enquanto linguagem, enquanto medium expressivo. Não é descartável, aqui, o facto de eu também amiúde fotografar, sem saber ao certo que rumo dar a essas fotografias. Mas decidi partir desse meu desnorte técnico, dessa desorientação (desse “borboletear”, como explora George Didi-Huberman num livro chamado Falenas, e que tenho andado a saborear nas últimas semanas), e usar essas turbulências como matéria para este ensaio. Ou seja: o que é que nos fascina em olhar para detritos, para a disposição de frutos ao pé de um tanque, para a forma irregular de uma fenda num muro? O que é que muda em nós diante tais trivialidades? Como é que passamos a olhar para as coisas, em geral, depois de as tomarmos nas suas especificidades, isto é, depois de olharmos para certas coisas a partir das fotografias que delas tirámos? O que se pode dizer do modo como o nosso corpo interage com a paisagem no momento em que decidimos sair à rua para fotografar? E até que ponto essa fotografia nasce do que é da ordem da decisão, de uma consciência? Até que ponto há toda uma margem de indecisão, aliás, de imprecisão, de inconsciência, em cada uma das fotografias que nos acontece, sobretudo daquelas que, por motivos obscuros, mais gostamos e queremos guardar (independentemente de qualquer critério estético)? É por estas e outras questões, ou experiências do olhar, que se move o texto que escrevi.

Pedro Costa: Afinal que tipo de livro é este, ou a que género pertence (se é que o tem)?

Nuno Leão: Este é um objeto criado em torno da fotografia, da sua prática e do seu pensamento. É um livro de fotografia e ensaio através do qual procuramos que uma e outra parte – a série fotográfica e o ensaio – comuniquem entre si e sejam resultado e processo de correspondências. Quero com isto dizer que as fotografias podem despoletar reflexões teóricas em torno da fotografia e do ato de fotografar e o ensaio pode também, por sua vez, provocar novas imagens e atos fotográficos.

Pedro Costa: Quando pensaram publicar o livro contactaram alguma editora para o fazer ou decidiram logo à partida recorrer ao crowdfunding para o financiar?

Nuno Leão: A publicação da série fotográfica e do ensaio em livro foi algo que surgiu como um resultado bastante orgânico não só da relação que eu e o Diogo temos estabelecido, mas também como resultado de outros processos de criação artística que estávamos (e estamos) a fazer com as comunidades da zona de Castelo Branco. No ano passado, a Terceira Pessoa desenvolveu oficinas de criação artística com a comunidade albicastrense, e aí se trabalharam também propostas que passaram pelas linguagens da fotografia, do vídeo, da instalação e da edição. Numas dessas oficinas tínhamos uma participante que era designer gráfica – a Rita Pestana –, que acabámos por desafiar a fazer o design gráfico do livro. Ela já estava em processo connosco, a partilhar muitas das questões que tínhamos com este trabalho em específico, e fazia todo o sentido envolvê-la. Em boa hora a Rita aceitou e acabou por fazer o design gráfico do livro. E tudo isto é um processo bastante ligado à atividade da Terceira Pessoa. Nesse sentido, não nos pareceu orgânico propor a uma editora que fizesse esta edição. Fazia todo o sentido ser a Terceira Pessoa – casa que temos habitado e estamos a habitar com todas estas coisas – a fazer a edição. E o facto de decidirmos fazer a edição prende-se também com o desejo de termos a experiência prática que estas coisas envolvem. É como diz o Samuel Beckett: “Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor”. É isso que nos interessa, até ao fim.

 Pedro Costa: E a experiência resultou bem?

 Nuno Leão: A Terceira Pessoa, apesar da sua intensa atividade de criação artística, não tem vida fácil no que diz respeito a recursos financeiros. Mas felizmente tem muitas pessoas que se têm envolvido e continuam a envolver com ela e foi aí que nos lembrámos de fazer este crowdfunding, sem plataformas intermediárias mas de forma bastante próxima das pessoas que têm estado envolvidas nos vários processos. Até ao nível da produção isso fazia sentido, essa proximidade. Imagino não ser fácil apostar em algo que ainda não existe, mas foi isso que as pessoas que apoiaram o livro antes de ele ser livro fizeram, e a elas deixamos o nosso agradecimento pela confiança e o dom da abstração que tiveram. Esta forma de financiar a edição do livro acabou por reunir cerca de 35 pessoas individuais e a Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão, que apoiaram o livro num primeiro momento. Isso deu-nos algum oxigénio para avançar para a edição. E neste momento o livro é uma realidade e existem ainda alguns exemplares para serem adquiridos por outras pessoas.

Pedro Costa: Quantos exemplares tinham em mente vender com o V. livro? Atingiram esse número ou excederam-no?

Nuno Leão: Fizemos uma edição de 100 exemplares para começar. No crowdfunding cerca de 45 ficaram com destinatário prometido, o que para nós é um balanço extremamente positivo para um primeiro momento. Como disse anteriormente, ainda temos alguns exemplares para serem adquiridos e é nosso objetivo esgotar esta edição de 100 exemplares.

Pedro Costa: O livro foi apresentado em primeira mão em Castelo Branco, cidade onde o Nuno Leão vive e o Diogo trabalhou. Pensam apresentá-lo também em Famalicão ou outros lugares?

Nuno Leão: Os exemplares sobrantes que agora existem são também uma boa desculpa para viajarmos com este objeto, apresentando-o em vários locais e a várias pessoas. Essa é uma parte muito importante para nós: o que acontece em torno dos objetos, as novas experiências que eles podem despoletar.Estamos cheios de ideias e de vontade de apresentar o livro em Famalicão e noutros lugares. Existem vários fatores mais diretos que justificam a apresentação em Famalicão: o Diogo é daí, é um investigador que trabalha imenso na biblioteca local, é colaborador da Vila Nova… e algumas fotografias presentes no livro foram realizadas em Landim, freguesia de Famalicão, embora quem não saiba disso não identifique o lugar específico – na verdade isso para mim não é importante nestas fotografias. Mas adiante, estas são algumas razões mais diretas, mas não seria preciso existirem para irmos a Famalicão ou a qualquer outro lugar com este objeto. Isto é um objeto artístico e que, a partir do momento em que é exposto, é tornado público. Deixou de ser um assunto apenas nosso, das pessoas que o fizeram, para passar a ser algo que em potência diz respeito a todos. É dessa forma que procuro olhar para tudo aquilo que vou criando: penso que o outro é sempre essencial à obra de arte, que ela é algo sempre em aberto – e é “aberto” porque se dispõe ao outro. É como a Ideia do Amor de que fala Giorgio Agambem, filósofo italiano: “viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente – tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.”

Pedro Costa: Quais são os vossos interesses pessoais? Que vos move na vida?

Nuno Leão: Há um poema do Luís Filipe Parrado, intitulado “Com Unhas e Dentes”, do qual gosto muito e que talvez elegesse como epígrafe para a forma como gosto de pensar que me movo na vida. Diz assim: “Estar vivo / é abrir uma gaveta / na cozinha, / tirar uma faca de cabo preto, / descascar uma laranja. / Viver é outra coisa: / Deixas a gaveta fechada / e arrancas tudo com unhas e dentes, / o sabor amargo da casca, / de tão doce, / não o esqueces.”. É este tipo de relação que procuro estabelecer com a vida, com as pessoas, com os projetos, com as experiências que vou vivendo. Desde o início do meu trabalho na Terceira Pessoa que me é muito difícil distinguir aquilo que é do âmbito profissional ou pessoal, uma vez que as coisas fluem e vão acontecendo de forma bastante próxima e implicada. Aquilo que me tem movido na vida é arriscar-me todos os dias, e isso eu acho que é condição essencial para que se possa criar: estar aberto e disponível para o desconhecido e nunca dar nada como definitivo. Não estabilizar, estar constantemente a encontrar, estar disponível para. As coisas vão acontecendo porque as aceito, não de forma leve mas sim porque as procuro agarrar com unhas e dentes. Não sei se consigo sempre, ou se alguma vez o consegui. Sei que não é fácil, no sentido em que é exigente; isto pede-me o corpo todo. Não consigo estar de outra forma nas coisas e, na verdade, não queria. Tento assim conservar essa disponibilidade para o espanto e para o que surge depois dele. Isto nunca acaba.

Diogo Martins: A ideia de partilha. Eis o que me move. Potenciar às coisas, às ideias, o direito a existirem, a fluírem, a serem conhecidos por outros. Partilhar a existência de um texto, de uma sequência fílmica, de um poema que descubro e que, de um maneira muito inefável ou intraduzível, não consigo fazer-lhe justiça senão lendo-o e partilhando-o com alguém. Um pouco como os miúdos que, noutros tempos (agora não sei como é, mas não deve andar longe disto), partilhavam e trocavam cromos ou tazzos, com aquele espanto genuíno que dava sentido ao objeto da troca e à pessoa com quem se trocava esse objeto. Houve uma altura em que sentia poder realizar essa experiência de partilha na qualidade de professor, num contexto de sala de aula. Desde a minha experiência como estagiário, na escola Didáxis de S. Cosme, até às aulas mais recentes que dei na Universidade do Minho, tive a sorte – e a honra – de ter contactado com alunos que me incentivaram a querer saber mais sobre o que faço, a querer ler mais, conhecer mais, para poder dignificar a experiência do ensino e, fazendo-o, contrariar a maré de asfixia burocrática e administrativa que tem vindo perversamente a corroer os docentes pelo lado de dentro, levando muitos deles à exaustão (ou, noutro espectro, afastando-os do ensino e encarneirando-os para outras vocações financeiramente mais apelativas). Se trabalhar numa escola ou num departamento de Letras implica, cada vez mais, sedar-me para poder lecionar como quem pica o ponto, trabalhando, já não com pessoas de carne e osso, mas com estatísticas para puxar o lustro a rankings, fazendo da poesia e da literatura mera carne para o canhão dos exames, então espero ter coragem suficiente para desprezar tudo isso enquanto ainda é tempo e ir em busca de outras formas que me permitam, então, continuar a partilhar as coisas que leio, aquilo em que penso, poetas, filósofos, filmes, artistas, tudo isso, com o legítimo direito à errância sem a qual nenhum livro de poesia ou nenhuma conversa sobre Aby Warburg ou as Falenas de Didi-Huberman faz sentido. Aliás: sem errância, sem liberdade para que tal errância possa sequer acontecer (o lado impremeditável de todo o encontro, de qualquer conversa), uma aula não é uma verdadeira aula, uma aula não tem sequer razão de ser.

Pedro Costa: Que outros projetos têm em mãos neste momento?

Nuno Leão: Neste momento estou, na Terceira Pessoa, com a digressão de alguns espetáculos que temos criado nos últimos anos. Nomeadamente, o Aqui é Sempre Outro Lugar, que criei com a Ana Gil e com um grupo de 5 jovens de Castelo Branco, e o The Old Image of Being Loved, que criei com a Ana Gil e o Óscar Silva. Ambos são projetos de teatro, disciplina à qual sinto que pertenço totalmente e que teimo em querer sempre praticar e questionar. Olho para o teatro como um abismo, no sentido em que o tento praticar também como forma de experimentar e cruzar com outras disciplinas artísticas e que nunca sei bem o que ele é. Na verdade, sinto que é assim com tudo o que faço, seja teatro, performance, fotografia… Tudo faz parte de um mesmo processo, que acaba por ser o meu. Neste ano de 2018 estou também a preparar novas criações, uma para ser estreada em aldeias do concelho de Castelo Branco (onde temos desenvolvido o projeto Há Festa no Campo/Aldeias Artísticas e outra que continua o caminho iniciado em The Old Image of Being Loved, em torno da participação do espectador em espetáculos teatrais. dizer adeus às coisas terá também, ainda este ano, uma continuidade em Vila Velha de Ródão, onde farei uma residência de criação a convite da Biblioteca Municipal de Vila velha de Ródão – que faz um trabalho extraordinário e, se não o é, deveria ser uma referência para muitas outras bibliotecas.

Diogo Martins: Estou desde setembro de 2017 a desenvolver o meu projeto de pós-doutoramento, em torno da obra do escritor Rui Nunes. Qualquer livro, filme ou realização artística que esboce algum tipo de aproximação retratística ou representacional, que incida sobre a representação do eu e do corpo, tenderá certamente a despertar a minha atenção e a integrar este meu projeto, seja sob a forma de um ensaio, de um artigo ou de um outro tipo de texto (de momento, estou a meio de uma coisa algo híbrida, entre a experimentação ensaística e a fotografia), seja sob a forma de um registo no qual, sozinho, me sinto terrivelmente desconfortável e desnorteado: estou a pensar ao nível de um espetáculo performativo que tenha como eixo central a obra de Rui Nunes. Na verdade, isto é uma ideia que, em parceria com a associação Terceira Pessoa, procurarei desenvolver e realizar em 2019. De resto, entretanto, sem eu estar propriamente a pensar nisso, outras coisas vão acontecendo, entre a escrita e a fotografia. Pequenos acasos que nunca sei ao certo o que são e que, dependendo de não me abandonarem da noite para o dia, do modo como vão secretamente insistindo e teimando comigo, vou procurando pensar e nomear, para depois lhes dar a forma expressiva mais conveniente.

Pedro Costa: E o futuro? Conseguem imaginar em que tipo de projetos artísticos poderão estar envolvidos daqui a 30 ou 50 anos?

Nuno Leão: Daqui a 50 anos imagino que a minha vida possa estar (se lá chegar!) confinada a uma cadeira ou a uma mobilidade bastante reduzida. Ainda assim posso, a partir dessa situação e desse lugar, continuar a encontrar motivos para criar artisticamente. Uma hipótese [nota para o futuro]: fotografar aquilo que consigo ver a partir de uma cadeira onde passo os meus últimos tempos, neste mundo. Chamar-lhe “testamento” ou “herança” ou “imagens invisíveis”. Nunca fiz fotografia através de processos analógicos, mas acho que neste projeto arriscaria isso. Fotografaria em rolo e nunca veria essas imagens. E era isto.

Diogo Martins: Se a miopia não me esmagar e o meu corpo ainda estiver afim destas tretas ensaísticas, estarei provavelmente a escrever alguns fragmentos que atestem a minha aproximação dolorosa a essas “imagens invisíveis” do Leão. E mais do que um projeto profissional, ou qualquer outra patranha que vise formalizar ou nobilizar institucionalmente esse hipotético ofício, o que mais gosto de pensar é que eu e o Leão ainda seremos amigos, a partilhar coisas, imagens, encontros e desabafos. A partilhar uma mesa cheia de boa comida e coisas doces. E espero rir-me imenso olhando para trás e para todos os nossos acidentes de percurso. Estamos os dois na casa dos trinta, e angustia-me imenso esta preponderância nociva e omnívora em relação ao trabalho; como se não valêssemos coisa alguma, enquanto humanos, a menos que estejamos a “empreender”, como hoje se diz. Aos oitenta anos, se ainda tiver genica e fôlego para fazer o que quer que seja (além de dormir, sem vegetar), espero pelo menos sentir um certo tipo de leveza no meu trabalho. Um certo tipo de leveza gratuita, uma sensação de que hoje sou quase convidado a desconfiar, até a temer, por força desta atual esquizofrenia neoliberal que só consente e reconhece como trabalho (e só financia, portanto) aquilo que gera lucro imediato, que atrai a explicação fácil, que se percebe logo à primeira. Aos oitenta anos, espero mesmo poder sobreviver e rir-me destes tempos do burn-out e da transparência, que o filósofo Byung-Chul Han*  descreve de forma tão clara nos seus recentes ensaios.

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Já depois da realização desta entrevista, a instalação dizer adeus às coisas foi selecionada para marcar presença na exposição coletiva Se Alquila, este ano realizada em torno do conceito de TEMPO. ‘Se Alquila’ é um projeto cultural de criação contemporânea em espaços abandonados que irá acontecer em Madrid, de 1 a 3 de junho de 2018.

– Instalação: Nuno Leão, 2018 – teaser
– produção: Terceira Pessoa
Slides 35 mm, projetor de slides, mesa e cadeira
Projeção de slides 35 mm, operada pelo espectador, num ambiente recolhido.

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Byung-Chul Han, o filósofo coreano que ataca as redes e se tornou viral

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Imagens: Nuno Leão, Diogo Martins e autores desconhecidos.

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Pedro Costa

Diretor e editor.

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