25 de Abril – 44 anos | 25 de abril do nosso contentamento

25 de Abril – 44 anos | 25 de abril do nosso contentamento

Tenho 76 anos e nasci em plena 2ª Guerra mundial e logo após a Guerra Civil de Espanha. Tempos de Ana Frank em Auschwitz e de cheiros fedorentos a sangue seco e pólvora vindos ali dos lados de Granada e do Vale dos Caídos, arredores de Madrid, e por entre as bichas e senhas de racionamento. Saberão hoje os mais novos o significado negro desta palavra?… Não é difícil compreender como seria a vida dura dos portugueses, por essa altura tão marcada por guerras longas e mortíferas. Os tempos de guerra equivalem sempre a miséria: pobreza total, analfabetismo generalizado e emigração duríssima. Tempos de Tarrafal e assassinato de Humberto Delgado às mãos da Pide. Censura permanente sobre tudo e todos, prisões arbitrárias e perseguição incessante aos democratas e… como se fosse pouco… sobreveio a Guerra Colonial. Resultado: 13 longos e eternos anos de guerra com cerca de 10.000 jovens mortos e 30. 000 feridos… entre 1 milhão de soldados jovens recrutados. Gente nova que morreu nas costas de África em desastre perfeitamente evitável e de que hoje sentimos falta e saudade. Também arrostei com o “sacrílego gigante” da Guerra Colonial em Moçambique, juntamente com meu irmão António e enquanto o outro nosso irmão José o fazia também em Angola, até que o glorioso MFA desencadeou o 25 de Abril de 1974… já depois de Salazar ter caído da cadeira que, pelos vistos, era de pinho tratado e já tinha perdido a sua validade por uso excessivo e caruncho…

O 25 de Abril trouxe a esperança na claridade e o retomar de  todos os sonhos para este Portugal… para quem tinha chegado a hora, no dizer de F. Pessoa… sonhos que os “novos pretorianos” da política de ontem iam quase liquidando, encerrando escolas e centros de saúde. Decapitaram terras e autarquias anteriores à nacionalidade sob pretexto de menoridade política, espoliaram os mais pobres e grupos sociais mais frágeis, recomendando-lhes novamente a emigração, vendendo e privatizando ao desbarato o grande património nacional por menos de trinta dinheiros ao capitalismo internacional sem se saber em nome de quê e adiado novamente a esperança e qualquer  rumo à vista. Refiro-me obviamente àqueles que, em nome da partidocracia e ânsia de poder, prometeram ir além da troika e sacrificaram maioritariamente o povo português, privilegiando tão só as grandes fortunas, os milionários e a banca do nosso descontentamento.

Contra todas as marés e palpites dos comentadores políticos que, juntamente com os “eméritos” desportivos, pretendem colonizar este velho País, surgiu, finalmente, pelo Tejo acima o bergantim dourado da esperança e da retoma, sistematicamente anunciada e gorada desde o tempo obscuro e nevoeirento de Santana Lopes, sem que nada acontecesse ou bulisse na frente ocidental lusitana. Há que retomar a confiança e fazer renascer a esperança nos 44 anos deste 25 de Abril de 2018! O 25 de Abril foi o acontecimento histórico mais importante para a minha e outras gerações… tempos de grandes mudanças entre nós e no Mundo, desde a queda do muro de Berlim e da Perestroika até à guerra do Iraque e ao 11 de Setembro nos EUA. Estou convencido que ainda há muito caminho por fazer pois que definir políticas de futuro dum País não é propriamente navegar à vista e gerir tão só o quotidiano e os cêntimos dos aposentados. Por momentos, a minha geração percebeu que tudo estava por fazer neste país e que essa tarefa caber-nos-ia prioritariamente, terminada que foi a guerra e em que as novas palavras de ordem do dia passaram a ser descolonizar, democratizar e desenvolver. Eram precisos bons pais, bons educadores, autarcas capazes, desenvolver o país, democratizar a educação e a saúde, ganhar a paz e o pão. A isso acometemos todos até agora. Mas quase tudo foi destruído estupidamente por estes tiranetes sem ideais nem respeito por quem tanto sofreu e trabalhou quase uma vida inteira para nada ter no seu ocaso. Porquê e para quê? Até quando continuarão a abusar da nossa paciência?… O absurdo chegou a tal ponto que acabaram com o feriado em que se recordam todos os antepassados mortos e, mesmo, os grandes feriados ou momentos importantes da nossa História.

A solução governativa encontrada nos últimos anos acabou com a ideia arreigada e perversa de que à esquerda não era possível qualquer acordo de governação, como se não fossem todos igualmente portugueses e com responsabilidades cívicas e, mais, como que recuperou e ajudou a reforçar os ideais maiores do espírito da revolução de 25 de Abril de 1974. Claro que não é possível que a memória curta e mesmo a irreverência jovem, mas generosa, possa comprometer toda a estratégia e a sageza da governação. As feridas ainda andam por aí… nos hospitais e escolas, nas carreiras profissionais…eu sei lá, parece que todos queremos tudo e ao mesmo tempo, como em maio de 1968, em Paris, ou na ilha de Wight…  mas tal não é possível sob pena de nada termos aprendido e voltar a cair nos mesmos vícios. Temos que ser fortes e estar à altura dos desafios do País de séculos que somos. Já contamos quase 50 anos de democracia… tempo bastante até para os mais desatentos saberem as regras que, como dizia Churchill, apesar de controversas, por vezes, são ainda as mais eficazes e à medida do homem livre. Mas é claro que, como se proclamava em alturas do 25 de Abril,  era preciso fazer justiça e muito do nosso infortúnio coletivo anda por aí… não se considerassem os “eméritos juízes”  uma espécie de brâmanes… como todos constatamos, sentimos e pagamos e os muito riquinhos que não só não querem pagar o salário justo como pagar pela riqueza que não podem ocultar… Mas, alguém conhece alguém que seja rico em resultado apenas do seu trabalho e da sua família?…

Isto é tão velho e relho pois que já o nosso épico imortal e grande pensador escrevia, há mais de 500 anos, naquela esparsa sobre o desconcerto do Mundo que…

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OS BONS VI SEMPRE PASSAR

NO MUNDO GRAVES TORMENTOS

E PARA MAIS ME ESPANTAR,

OS MAUS VI SEMPRE NADAR

EM MAR DE CONTENTAMENTOS…

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Digam lá se não é mesmo assim…ainda!…

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Categorias: Política

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Agostinho Fernandes

Agostinho Peixoto Fernandes nasceu em Joane, em 1942. Após a instrução primária, ingressou na austera Ordem do Carmo, em Viana do Castelo, tendo terminado a licenciatura em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Como professor do ensino Secundário ocupou, a partir de 1974, vários cargos de gestão em estabelecimentos de ensino. Entre 1980 e 1982 foi vereador da Cultura, pelo Partido Socialista, na Câmara Municipal de Famalicão, sendo Presidente Antero Martins do PSD, onde alicerçou uma política inovadora nesta área. Promoveu os Encontros Municipais e de Formação Autárquica, fundou o Boletim Cultural. Dinamizou o movimento associativo local. Em 1983 foi eleito presidente da Câmara de Famalicão, cargo que ocupou até 2001. O seu trabalho de autarca a favor da educação, ensino e acção social (foi um dos primeiros autarcas do país a criar no seu concelho uma rede pública de infantários) foi reconhecido em 1993 pela UNICEF, que o declarou “Presidente da Câmara Amigo das Crianças”. Ao longo dos seus sucessivos mandatos – que se estenderam por um período de quase 20 anos – o concelho transfigurou-se. A ele se deve a implantação de importantes infra-estruturas como o Citeve, Matadouro Central, Universidade Lusíada, Escola Superior de Saúde do Vale do Ave, Biblioteca Municipal, Artave, Centro Coordenador de Transportes, Casa das Artes, Museu da Indústria Têxtil e piscinas municipais. Também tomou decisões polémicas, como a urbanização da parte dos terrenos de Sinçães, a instalação de grandes e médias superfícies comerciais à entrada da cidade e a demolição do Cine-Teatro Augusto Correia. Foi um dos fundadores da Associação de Municípios do Vale do Ave, tendo, neste âmbito, enfrentando a maior contestação popular dos seus mandatos com a construção da ETRSU de Riba de Ave. É sócio de inúmeras associações cívicas, culturais e de solidariedade social e foi mandatário concelhio de Mário Soares e Jorge Sampaio (1º mandato) nas suas campanhas à Presidência da República.

Comentários

  1. Anónimo
    Anónimo 26 Abril, 2018, 10:34

    No momento oportuno. Abraço.

    Responder a este comentário
  2. Anónimo
    Anónimo 25 Abril, 2018, 21:39

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