Distúrbios | A Perturbação do Espetro do Autismo

Distúrbios | A Perturbação do Espetro do Autismo

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A Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) é uma das problemáticas com maior prevalência no mundo ocidental. É certo que a prevalência desta problemática tem aumentado exponencialmente nos últimos anos, não se sabe se por maior atenção às caraterísticas e como tal maior número de diagnósticos se, por efetivamente existirem agora mais pessoas com PEA do que em tempos idos. Sabe-se que sempre existiram pessoas com autismo mas, o autismo foi identificado cientificamente no livro “Autistic Disturbances of Affective Contact”, apenas em 1943, no qual Leo Kanner, pedopsiquiatra austríaco radicado nos Estados Unidos da América descrevia o estudo de caso de 11 crianças com um síndrome ao qual ele dava o nome de Autismo (do grego autos que significa próprio). Como critérios de diagnóstico definiu os seguintes: profundo afastamento autista, desejo autista pela conservação da semelhança, boa capacidade de memorização mecânica, expressão inteligente e ausente, mutismo ou linguagem sem intenção comunicativa efetiva, hipersensibilidade aos estímulos e relação estranha e obsessiva com objectos. Em 1944, um pediatra austríaco Hans Asperger, publicou um artigo, em alemão “Die Autistischen Psychopathen im Kindesalter” no qual descrevia um grupo de crianças com caraterísticas muito semelhantes às de Kanner, ao qual deu o mesmo nome, “Autismo”. Nenhum deles conhecia na ocasião a obra do outro, o que torna esta situação mais interessante. Embora as caraterísticas dos indivíduos abordados nos dois estudos fossem semelhantes, havia um grupo reconhecido por Asperger com picos de inteligência e linguagem desenvolvida. Daí ter surgido o Síndrome de Asperger, que perdurou até à publicação do DSM V, em 2013.

O DSM V – Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5.ª edição, elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria é uma das bases mais utilizadas para diagnósticos de saúde mental em todo o mundo. Esta 5ª edição reformulou os critérios de diagnóstico da Perturbação do Espetro do Autismo e extinguiu o Síndrome de Asperger, que passa a estar incluído na PEA. Atendendo ao DSM-V, há 3 graus de severidade e apenas 2 grupos de critérios nas PEA:

A. Défices persistentes na comunicação social e na interação social, em contextos múltiplos. (Nestes critérios estão incluídas a comunicação verbal e não verbal, a partilha de emoções. Estes defices podem manifestar-se com maior ou menor intensidade.)

B. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. (Nestes critérios estão incluídas as rotinas obsessivas, a hiper ou hipo sensibilidade sensorial, entre outros comportamentos.

Os sintomas devem estar presentes no período precoce do desenvolvimento (mas podem não se manifestar inteiramente até as solicitações sociais excederem o limite das capacidades, ou podem ser “mascarados” mais tarde pelo uso de estratégias aprendidas). “Os sintomas causam perturbações clinicamente significativas nas áreas social, ocupacional ou em outras áreas importantes do funcionamento corrente”.

Sabendo que se trata de uma das problemáticas que mais preocupa pais, educadores e técnicos de saúde e educação, importa perceber não só o que é mas, de igual forma quais os sinais de alerta e o que fazer quando nos deparamos com uma possível PEA.

Importa ressalvar que embora haja muita investigação apensa ao tema, ainda não existem conclusões sobre a sua origem.

Então quais são as causas da perturbação do espetro do autismo? Persistem várias teorias, umas com fundamentações mais científicas do que outra mas ainda nos falta compreender muito sobre a PEA. Há contudo, neste momento uma conclusão importante que reúne o consenso da comunidade científica: não há ligação causal entre atitudes e ações dos pais e o aparecimento das perturbações do espectro autista. As pessoas com PEA podem nascer em qualquer país ou cultura e é independente da raça, da classe social ou da educação parental.

Tem havido importantes avanços no campo da investigação em torno das PEA. Sabe-se agora que desde muito cedo existem sintomas e sinais de alerta a que os pais/educadores devem estar atentos. É também consensual entre os especialistas na matéria que a intervenção precoce é essencial para proporcionar às crianças intervenções especializadas de forma a otimizar os resultados a longo prazo. Embora estes sinais de alerta sejam identificados desde o primeiro ano de vida, o desenvolvimento das crianças durante os primeiros 3 anos é muito variável, pelo que o diagnóstico tende a ser efetuado apenas após esta idade. Algumas crianças são descritas como apresentando comportamentos atípicos (por exemplo, na reatividade a estímulos e interesse social) desde os primeiros meses de vida, outras apresentam atraso da linguagem no 2º ano de vida, e outras ainda são descritas como apresentando estagnação ou perda de aquisições após um período de aparente desenvolvimento típico até o 2º ano de vida.

No entanto, ainda antes da existência de um diagnóstico, são aconselhadas intervenções terapêuticas adequadas às necessidades de cada criança, para que não se perca tempo útil de intervenção.

Quais são então os primeiros sinais e sintomas de PEA a que os pais/educadores devem estar atentos?

Nos primeiros 12 meses de vida: a criança não olha quando chamam pelo seu nome (aparente surdez); apresenta ausência de contacto ocular (não olha nos olhos); não sorri nem faz gracinhas; não balbucia palavras; não estende os braços, nem se coloca em posição para ser pegado ao colo; parece não sentir afeto estabelecer pelos cuidadores; manifesta rejeição a determinados alimentos e texturas.

Entre os 12 e os 24 meses: não aponta para pedir alguma coisa, ou para mostrar interesse por algo; possui atraso no desenvolvimento da linguagem (ainda não pronuncia palavras simples); parece estar sempre a olhar para o “vazio”; não aponta para pedir alguma coisa, ou para mostrar interesse por algo; choro frequente ou apatia extrema; continua a manifestar rejeição ou preferência exagerada por determinados alimentos e texturas; rejeita o toque (não gosta de beijos, abraços e colo); é demasiado sensível aos sons.

Entre os 24 e os 36 meses: não fala ou forma frases; apresenta interesses restritivos e repetitivos por determinados objetos (gosta de ver a máquina de lavar a girar, ventoinhas); não atribuiu ao objeto a função correta (alinha brinquedos, gira sem parar as rodas dos carrinhos); não se interessa por outras crianças; parece não compreender o que lhe é pedido (não responde a pedidos); reage mal quando lhe é alterada a rotina (birras extremas); parece não sentir dor ou frio; possui respostas estranhas a determinadas sensações, tipos de roupas, sons e texturas; por vezes faz movimentos estranhos e repetitivos com o corpo.

É de salientar que a presença de alguns destes sintomas de forma isolada não são indicadores da presença de Perturbação do Espetro do Autismo. No entanto, se o desenvolvimento da sua criança o preocupa, não perca tempo e procure o(s) profissional(is) de saúde que o acompanham.

 

Referências bibliográficas:

Barthélemy et al (2000) – Descrição do Autismo – International Association Autism-Europe

Fombonne, E (2003) – Epidemiological Surveys of Autism and other Pervasive Developmental Disorders: an update. Proceedings Autisme-Europe Congress Lisboa 2003.

American Psychiatric Association (1994), “Asperger’s disorder”, in DSM – IV, Lisboa: Climepsi Editores

American Psychiatric Association (2014) “Perturbações do Espectro do Autismo”, in DSM – 5, Lisboa: Climepsi Editores, páginas 91-100

Zwaigenbaum, L., et al. (2015). “Early Identification of Autism Spectrum Disorder: Recommendations for Practice and Research.” Pediatrics 136 Suppl 1: S10-4

 

Imagem: Miguel Alves Duarte

 

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Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Sílvia Oliveira

Terapeuta Ocupacional, licenciada pela Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Porto - IPP. Doutoranda em Gerontologia no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar - Universidade do Porto, investigando na área da Gerontologia Ambiental e intervenção comunitária na zona norte de Portugal. Pós-graduada em Gestão das Organizações Sociais. Parte curricular do Mestrado Em Terapia Ocupacional - Especialização em Saúde Mental, pela ESTSP Formação em Neurofeedback na Medibrain. Formação em Intervenção nas Perturbações do Espectro do Autismo na Academia UFP. Exerce a sua actividade profissional na área da docência e intervenção terapêutica nas áreas da deficiência, Necessidades Educativas Especiais e Gerontologia e Geriatria. Co-autora no livro "Decisão Percursos e Contextos", com o capítulo "O Processo de Decisão na Terapia Ocupacional em Gerontologia" e no livro "Alzheimer e suas implicações", com o capitulo "Estimulação Multissensorial na Doença de Alzheimer".

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