Correntes d’Escritas | Na Póvoa de Varzim… Há mar e mar, há ir, escrever, ler e voltar (3ª pt.)

Correntes d’Escritas | Na Póvoa de Varzim… Há mar e mar, há ir, escrever, ler e voltar (3ª pt.)

I – Parece-me que demorei mais tempo do que aquele que seria razoável a compilar as notas da terceira e última parte deste artigo. Talvez porque o último dia das Correntes deste ano se tenha revelado como uma espécie de anti-climax, uma baixa-mar como contraponto da maré-viva que havia desaguado no Teatro Garrett durante o debate da mesa da noite anterior.

O sábado seria, pois, um dia de acalmia. Apesar da fadiga acumulada, consegui sair às dez da manhã daquele dia 24 de Fevereiro e apanhar o comboio para Campanhã com ligação ao metro para a Póvoa de Varzim. À minha volta, família e amigos estranhavam o facto de me dar ao trabalho de fazer uma viagem tão longa para estar apenas quatro dias no país e correr para uma cidade vizinha, passando a maior parte daquelas curtas férias na companhia de estranhos, fechada numa sala de conferências, queimando o tempo que gostariam de reclamar para si. Todos os anos dou a mesma explicação. É uma mistura de trabalho e prazer. Vim para o evento, do qual tento extrair o máximo que posso, trocar experiências. Aprender, sempre que possível. As Correntes d’Escritas já trouxeram consequências económicas, para além de culturais, para aquela cidade: a Livraria Bertrand, que fechou há poucos meses em Vila Nova de Famalicão, abriu agora na Póvoa de Varzim. Se calhar porque as pessoas lêem mais na Póvoa, consequência das Correntes a modificar os hábitos culturais, sobretudo de leitura, da população local. Ainda assim, acabei por passar quase todas as manhãs em casa. As próximas férias (da Páscoa) seriam já mais longas e sociáveis.

A bordo do metro em direcção à Póvoa, enquanto olhava pela janela, após acabar a leitura de um livro de não-ficção de Ana Margarida de Carvalho, dava-me conta das filas de eucaliptos, de um lado e do outro da linha, sentia um certo desconforto: penso que não gostaria de viajar naquele comboio no Verão, caso um incêndio seja ali despoletado “acidentalmente”. O Município responsável vai ter de se despachar a arrancá-los e plantar árvores, não tão susceptíveis à ignição, antes do fim do Inverno ou, pelo menos, até meados da Primavera.

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II – Chegada à Póvoa, entro no café Salvação para um almoço rápido (café duplo e tosta mista em pão integral) e tirar apontamentos sobre as conclusões da mesa da manhã, tentando perceber as diferentes abordagens ao tema. Chego à conclusão que a Mesa 9 foi consensual, sem opiniões divergentes, bastante mais calma que qualquer uma das de sexta-feira, quase sem margem para debate, com os participantes a assumirem, segundo a imprensa local, todos eles, posicionamentos relativamente próximos, face à proposição que é tema do painel: “A imparcialidade silencia a escrita”.

Todos foram unânimes em concordar que a imparcialidade e a Literatura ou Criação Literária enquanto formas de Arte ou livre expressão do pensamento são dois termos que não se conciliam, provando a sua tese sob diversos pontos de vista. Passemos então a enunciá-los:

João Paulo Sousa (A Imperfeição, 2001; Os Enganos da Alma, 2011; O Mundo Sólido, 2009; O Rosto de Eurídice, 2016; e Ninguém espera por mim no exílio, 2018) serviu-se dos seus conhecimentos técnicos para debater a questão das instâncias narrativas, relacionando-a com o tema proposto: desde a possibilidade de o narrador projectar o seu Eu na figura do narrador ou em alguma das personagens, às circunstâncias em que o Eu deste último se revela de modo indirecto, denunciando o seu posicionamento sobre determinado assunto, projectado no teor da linguagem escolhido para dar corpo quer a personagens, quer a acontecimentos, objectos, circunstâncias de tempo e de lugar. Ou ainda ao caso da coexistência de múltiplos narradores – numa pluricidade de pontos de vista que se transforma numa das mais eficazes formas de apagamento enunciativo do Eu ao autor da obra. Sem esquecer a opção pelo estilo exactamente oposto, marcada pela “presença obsessiva do eu na narrativa “ como é o caso da literatura de carácter memorialista.

Cármen Yañez (Paisage de Luna Fría, 1992; Habitatta dalla Memoria, 2001; Allá del Viento, 2006), a poetisa chilena, casada com o escritor Luís Sepúlveda, encara a escrita “como um projecto de vida de cariz espiritual”, um posicionamento que, só por si, exclui a atitude neutral, de frieza e distanciamento a que obriga a imparcialidade. A escritora-poeta considera esta atitude de distanciamento em relação àquilo sobre o qual se escreve como um acto de auto-censura.

O escritor moçambicano Ungulani Ba Khosa (Orgia dos Loucos, 1990; História de Amor e Espanto, 1993; Ualalapi, 1997; Os Sobreviventes da Noite, 2005; Choriro, 2009; O Rei Mocho, 2012; Entre as Memórias Silenciadas, 2013; e Cartas de Inhaminga, 2017) só admite essa postura de imparcialidade no jornalismo. Imparcialidade essa que, mesmo assim segue muitas vezes “alinhada com o pensamento dominante”. Para concluir, frisa que “em Literatura, o narrador tem de ser independente do autor, para que o texto ‘grite’ também a sua independência”.

Este autor privilegia, pois, a liberdade em detrimento do critério parcialidade/imparcialidade (eu acrescentaria que a imparcialidade ou ausência de enviesamento só se consegue em investigação científica fundamental, isto é, independente, sem estar ao serviço de qualquer lobby, para não comprometer a sua fiabilidade e credibilidade).

Cristina Norton (O Afinador de Pianos, 1997; O Segredo da Bastarda, 2002; O Lázaro do Porto, 2004; A casa do Sal, 2006; O Guardião de Livros, 2010; O Rapaz e o Pombo, 1016; A Vida é um Tango e outras Histórias, 2018 ), escritora Argentina a viver há várias décadas em Portugal, não se afasta um milímetro do pensamento dominante na mesa uma vez que não hesita em afirmar que, à luz do significado etimológico da palavra “imparcial” [neutro, desapaixonado], este será um objectivo impossível de se atingir por ser, também, impossível exigir a um escritor que seja desapaixonado, pois “sem paixão não há escrita”.

 Álvaro Domínguez, o geólogo de Melgaço, é também categórico em relação aos escritores que perseguem a meta da imparcialidade: esta apresenta-se-lhes como uma armadilha que à força de tanto quererem evitar, acabam por se precipitar nela.

A mesa terminou com o “funeral” simbólico (paródico?) do conceito da imparcialidade na Literatura. As “exéquias” foram levadas a cabo pelo moderador, o jornalista João Gobern, convidando a plateia, em estilo pastiche, a parodiar a AR fazendo um minuto de silêncio pela imparcialidade na escrita.

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III – É meio-dia, tempo de se proceder a mais uma apresentação de livros na sala de actos: A Febre das Almas Sensíveis de Isabel Rio Novo; A Vida é um Tango e outros Contos de Cristina Norton e Ninguém espera por Mim  no Exílio de João Paulo Sousa. Todos eles seriam apresentados por João Gobern que havia já moderado a mesa da manhã.

O romance de Isabel Rio Novo passa-se no Portugal da primeira metade do século XX, altura que a tuberculose era ainda uma das principais causas de morte no nosso país, no campo das doenças infecto-contagiosas. Os médicos recomendavam, então, o internamento em sanatórios especializados. A história localiza-se num destes lugares “de repouso”, numa prestigiadíssima casa de saúde, situada na Serra do Caramulo, e a narrativa é-nos facultada pelo olhar de um doente, Armando, que ali se encontra internado. A partir do seu ponto de vista, narrado na primeira pessoa, a sua história cruza-se com as de outros doentes que ali se encontram a recuperar da maleita. Enquadrado no retrato de uma época da nossa História recente, este romance deixa entrever, para além das especificidades sócio-culturais daquele período, um momento crucial em que o mundo se preparava para assistir às consequências dos avanços da medicina que se deram nos quarenta anos seguintes e que permitiram controlar a doença “das almas sensíveis”. Neste segundo romance, Isabel Rio Novo recupera as cores de um passado sombrio, de onde emergem também várias figuras intelectuais  da última fase do Romantismo português.

Cristina Norton dá a conhecer o seu livro de contos, cuja acção se situa em vários pontos da Europa  e América Latina, mais concretamente Argentina, México, França e Portugal, num conjunto de histórias onde se fundem o insólito e o humor negro, mas com a particularidade de o ritmo da narrativa reproduzir também o ritmo sincopado e recorrente do tango.

Por fim, Ninguém espera por Mim no Exílio, surge-nos pela escrita depurada de João Paulo Sousa a dar a voz a uma actriz de teatro, Leonor, que se prepara para efectuar a sua última representação. A narrativa é conduzida através do recurso a uma longa analepse, que se estrutura em três fases distintas. Neste romance, o autor dá a ênfase ao aspecto temporal nomeadamente à forma como a problemática do tempo se reflecte quer no aspecto físico e corporal quer no eu e na consciência de si, nos encontros e desencontros ocorridos ao longo de toda uma vida, numa perspectiva muito heideggeriana.

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IV – Pausa para um café e uma tosta mista antes da mesa da tarde, a última do evento. Passo na tenda dos livros para recolher um exemplar de A Gorda de Isabela Figueiredo e a Revista Correntes d’Escritas que havia reservado na noite anterior. Acabo por levar, também, um romance de Afonso Cruz, Para onde Vão os Guarda-chuvas? (ainda não li quase nada dele) e dois dos mais antigos livros de Rodrigo Guedes de CarvalhoA Casa Quieta e Mulher de Branco – a preço de saldo. Na tenda, quase não conseguimos chegar à bancada onde estão expostos os livros e, à porta do teatro, começa a juntar-se uma multidão. Ligo à M., a ver se conseguimos marcar um jantar para o serão depois do evento, mas a logística dos transportes não está a ajudar. Mais um convívio que terá de ficar adiado para as próximas férias. Também eu tenho de ir andando para a fila, se quiser assistir sentada à Mesa 10 – “Entre mim e a escrita, o purgatório”. Adivinha-se um debate sobre processos cognitivos de descodificação de experiências, emoções, memória.

V – Com a moderação da jornalista Maria Flor Pedroso, a mesa 10 – “Entre mim e a escrita, o Purgatório” – inicia com a intervenção de Onésimo Teotónio de Almeida (Livro-me do Desassossego, 2006; Aventuras de um Nabogador, 2008; De Marx a Darwin – A Desconfiança das ideologias, 2009; O peso do Hífen – Ensaios sobre a Experiência Luso-Americana, Açores, Açorianidade –, um espaço cultural, 2011; Onésimo. Português sem Filtro, 2011; Quando os Bobos Uivam, 2013; Minima Azorica. O Meu Mundo é deste Reino, 2014; Portugal, Pessoa e o Futuro, 2014; Despenteando Parágrafos, 2015; A Obsessão pela Portugalidade, 2017).

Professor na Universidade de Brown, na cidade de Providence, EUA, escritor e ensaísta, presença assídua nas Correntes d’Escritas, Onésimo faz o quebra-gelo, com a habitual mestria em retórica coberta de ironia bem-humorada, referindo-se à América de Trump como o “purgatório” onde vive actualmente: “Hoje são todos os EUA que vivem no “purgatório”, mas isso não tem nada a ver com a escrita”. E usando uma metonímia, tomando o continente pelo conteúdo, faz notar que o verdadeiro shithole usando a terminologia e características conceptuais tal significante pelo actual presidentes será, hoje em dia, nada mais nada menos que a própria Casa Branca.

No entanto, este professor e ensaísta, perito no uso da sátira como míssil de ataque, visando a destruição maciça de estereótipos, é da opinião que se um escritor trabalha em agonia ou sofrimento, esse facto não deve transparecer para o leitor. Talvez por isso diga que “não gosta de escrever” preferindo antes “ter coisas escritas”.

A segunda participante da mesa, Alicia Kopf (Heterotopías, 2007; Maneras de (no) entrar em casa, contos, 2011; Hermano de Hielo – Prémio Documenta de Narrativa 2015, Premio Libreter, 2016, Prémio Ojo Crítico, 2016 –, 2015; versão portuguesa, Irmão de Gelo, 2018), pseudónimo de Imma Avalos Marqués, é uma escritora e artista plástica catalã. Começa por frisar que, apesar da educação oficial laica, nasceu e cresceu no seio de uma cultura cristã, sendo originária de um país católico e que, por isso mesmo, não é descabida a descrição no seu último livro da experiência pessoal de “purgatório”, apresentada como um “lugar de fronteira” onde sente que não pertence, até encontrar aí o seu próprio locus. Sobre esta questão, Alicia Kopf salienta a importância da dimensão social da literatura, o papel da tradição e das lendas, da narrativa oral, das histórias contadas pelos mais velhos, como uma das principais influências na sua escrita. Para Kopf, a literatura e a escrita são espaços ou lugares de expansão, prazer e liberdade absoluta. Literatura é, pois, para si, um lugar que não associa à ideia de “purga”. E, mais do que propriamente um “purgatório”, a literatura ma perspectiva desta jovem escritora, “um jardim de ervas, daninhas, por vezes”. E também “de vozes, de monstros, de flores e maravilhas; o lugar do “outro”, quando saímos do “eu” e entramos na zona polar, no frio, no vazio, no purgatório”.

A literatura é para ela:

« (…) o salto no vazio, onde se pode explorar territórios desconhecidos (tal como na arte contemporânea), que ainda não encontraram o seu lugar na literatura. E o Purgatório, “o espaço de solidão, onde se pode crescer” (…). Entre mim e a escrita há o espaço de prazer, de metamorfose.  O tal “jardim de ervas daninhas” que pode podar e dar a forma que bem entende. Um espaço interior onde se pode olhar o próprio reflexo como num espelho. Ou não me chamasse Alicia (alusão à personagem Alice de Lewis Carroll no livro Alice do outro lado do Espelho).

Daniel Jonas (Os fantasmas Inquilinos, 2005; Sonótono, 2007; Nenhures, 2008; , 2014; Bisonte, 2016; Oblívio, 2017), poeta, dramaturgo e tradutor, define “purgatório” como “lugar de afinação das almas”, reportando-se a um soneto de William Woodsworth, nascido em 1770. Nele, o poeta inglês  fala da morte da filha, Catherine, com apenas três anos de idade ( viria a perder ao todo três filhos, ao longo de toda a sua vida), e confessa-se “traído pela alegria”, em tempo de tão grande desgosto. Uma alegria que insiste em usurpar o domínio absoluto da tristeza, interrompendo, por breves instantes, o luto e arrancando-o ao “purgatório” em que a vida se lhe havia tornado. Uma intromissão a que se segue o remorso por não poder partilhar o instante de felicidade com alguém que tanto ama. Daniel Jonas vê, assim, a escrita como “uma experiência de purificação em direcção à luz” ou “a via de purificação do peregrino que é o escritor”.

Para José Luís Tavares (Paraíso Apagado por um Trovão, 2002; Agreste Matéria do Mundo, 2004, Lisbon Blues, 2008; Desarmonia, 2008; Cabotagem & Ressaca, 2008; Cidade do mais antigo nome, 2009; Coração de Lava, 2014; Contrabando de Cinzas, 2016; Polaróides de Distintos Naufrágios,  2017; e Rua Antes do Céu, 2018) o tema desta mesa não deixa de lhe ser familiar. já que tem no curriculum dois títulos com os quais este se relaciona, pelo menos indirectamente: Paraíso Apagado por um Trovão e Rua Antes do Céu. No entanto, para este escritor cabo-verdiano, o poeta enquanto pensador e filósofo, na medida em que tem de reflectir e expor as feridas do quotidiano está, enquanto escreve, “sempre no inferno”.

Luís Sepúlveda (autor de Crónicas de Pedro Nadie, 1969; O velho que lia romances de amor, no original, Un viejo que leía novelas de amor, 1989; Nome de Toureiro, no original, Nombre de torero, 1994; Patagónia Express, no original, Patagonia Express, 1995; Mundo do Fim do Mundo, no original, Mundo del fin del mundo, 1992; Encontro de Amor num País em Guerra no original, Desencuentros, cuentos, 1997; Diário de um Killer Sentimental, no original, Diario de un killer sentimental & Yacaré, 1998; As Rosas de Atacama, no original, Historias marginales, 2000; O General e o Juiz , no original, La locura de Pinochet, 2002; O Poder dos Sonhos, no original, El poder de los sueños, 2004; Os Piores Contos dos Irmãos Grimm, em co-autoria com o escritor uruguaio Mario Delgado Aparaín, no original, Los peores cuentos de los Hermanos Grimm, 2004; Uma História Suja, no original, Molekine, Apuntes y Reflexiones, 2004; História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, no original, Historia de una gaviota y el gato que le enseñó a volar, 2008; A Lâmpada de Aladino, no original, La lámpara de Aladino, 2008, A sombra do que fomos, no original, La sombra de lo que fuimos, 2009; Crónicas do Sul, no original, Últimas noticias del Sur, 2011; História de um gato e de um rato que se tornaram amigos, no original, Historia de Max, de Mix y de Mex, 2012; História do caracol que descobriu a importância da lentidão, no original, Historia de un caracol que descubrió la importancia de la lentitud, 2013; Uma ideia de felicidade, no original,Una Idea de la Felicidad (com Carlo Petrini), 2014; A venturosa história do Usbeque mudo, no original, El Uzbeko Mudo, 2015; História de um cão chamado Leal, no original,  Historia de un Perro llamado Leal, 2016; O fim da história, no original, El Fin de la Historia, 2016), manifestando um total desacordo com os intervenientes da mesa, sobretudo face a Daniel Jonas e José Luís Tavares, relativamente ao tema proposto, diz preferir escrever “quando está bem”, confirmando o seu imagem pública de pessoa optimista, bem-humorada e particularmente frontal. Na verdade, o início da sua actividade como escritor tem a ver com a palavra “purgatório” mas não com a acepção que lhe vem sendo atribuída na mesa, passando a explicar: a actividade e habilidade de contador de histórias começou a ser desenvolvida na adolescência, ainda estudante no liceu, mas não como forma de expiação como veremos:

«Quando era adolescente (tinha aí uns dezasseis anos)tinha um amigo, comerciante nato, que me perguntou ‘tu escreveste isto? E porque não escreves uma história com a professora Camacho (uma jovem professora, bastante atraente, recém-formada) como protagonista? Uma história assim… picante?!»

Escreveu-a e foi um sucesso. Até chegar à mãos do director que o expulsou para o “Purgatório” – a rádio da escola – e lhe gerou, depois, os dividendos de que necessitavam para financiar a Gazeta Literária do instituto.

Mas Luís Sepúlveda dá a conhecer uma acepção daquilo que entende como sendo o “purgatório” um pouco menos alegre e picaresca.

«Conheci três grandes [escritores] que deixaram de estar na vida sem o fazer totalmente: Alvaro Mutis, Gabriel García Márquez e Francisco Colón que (devido à perda progressiva de lucidez) me fazem pensar que, também eu, vou entrar nesse “purgatório”, mas que não vai ser triste, porque vou estar rodeado dos personagens de todos os meus livros e vamos viver todas as aventuras que não consegui contar.»

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VI – Tendo a mesa 10 terminado com boa disposição, embora com um público demasiado tímido para fazer uma exploração ainda mais exaustiva ao tema, decidi sair um pouco antes para respirar ar fresco e assistir à última apresentação de livros do Correntes d’Escritas 2018. Enquanto espero, tento encontrar o poeta Aurelino Costa que diz ter algo para mim (penso que será a Gadanha, o seu último livro de poesia).

Dirijo-me, então, à Sala de Actos para assistir à apresentação do Irmão de Gelo de Alicia Kopf e Na memória dos Rouxinóis de Filipa Martins.

O primeiro fala do fascínio de uma artista plástica pelas paisagens geladas dos pólos e de um irmão autista que “vive congelado dentro de si mesmo”, mas também da frieza das relações familiares e amores desfeitos por intermináveis silêncios.

O livro de Filipa Martins é sobre a vida do matemático galego Jorge Rousinol, que defendia que o esquecimento é o melhor instrumentos para qualquer tomada de decisão. Trata-se de um romance dialógico, onde biógrafo e biografado vão cruzar pontos de vista, trocando impressões à medida que partilham as respectivas memórias.

O romance desenvolve-se a partir de três instâncias temporais: o passado de Rousinol, o passado do biógrafo e o presente, que ambos partilham e a partir do qual se estrutura a narrativa.

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VII – Decidindo “saltar” a cerimónia da entrega dos prémios, desloco-me mais uma vez, à feira do livro em frente ao teatro, para tentar encontrar Aurelino, o poeta da Póvoa de Varzim, que declama com voz cava, teatral, parecendo antes um personagem que poderia fazer parte de uma das peças de Shakespeare. Aurelino possui um talento incomensurável para o drama, tendo já entrado numa produção cinematográfica a partir de um romance de Tabajara Ruas.

Mas não o vejo. Deambulo então, durante cerca de meia hora, pelas bancadas ainda cheias de livros,  mas não me posso permitir mais desvarios. Terão de ficar para o ano que vem. Mais alguns volumes de Afonso Cruz, muito provavelmente, Bruno Vieira Amaral, certamente, ou talvez Gonçalo M. Tavares. Ou então estas duas autoras, Filipa Martins e Alicia Kopf, que acabaram agora de lançar os seus livros. Fui espreitá-los, mas irritam-me que estejam escritos com o Novo Acordo Ortográfico.

Decido sair e encaminhar-me para a paragem do metro para o Porto. Despeço-me do dono da Papelaria Locus, que está na caixa registadora, com um “até para o ano” e começo a andar em direcção à sede do Município para depois apanhar uma das ruas perpendiculares que vão dar à estação. Talvez consiga ainda apanhar o “expresso”, que rouba uns bons vinte minutos à viagem. Na paragem estão algumas pessoas a comentar a vida social, económica e sexual, de “fulana” e “sicrana” com detalhes provavelmente mais “picantes” do que a história da professora de Luís Sepúlveda. É Sábado. Há menos comboios e percebo que perdi o “expresso” por escassos minutos. Está frio, mas o céu está limpo. Em Londres, quando chegar, terei temperaturas à volta de zero graus e, provavelmente, neve. Puxo o capuz, enquanto me divirto a ouvir a bisbilhotice das senhoras na paragem. Uma delas falta-lhe um dente incisivo. Subitamente, a escassos dois minutos para a partida do comboio-metro seguinte recebo uma mensagem de Aurelino. Está a estacionar. Penso que vou perder novamente o transporte se calhar esperar pelo próximo “expresso”. Quando já toda a gente entrou e o comboio está prestes a partir, vejo Aurelino a saltar do carro e a correr com o livro na mão. As senhoras da paragem olham-nos com curiosidade vulturina. Aurelino, ofegante, entrega-me a Gadanha. Despedimo-nos com um “até breve!”, provavelmente em Fevereiro do próximo ano. A não ser que haja outra edição das  “correntes” em Agosto. Ou as Raias Poéticas em Maio, em Famalicão. Esperemos que sim. Até breve.

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Imagem de destaque: Juan Manuel Vásquez recebe o Prémio Correntes d’Escritas 2018 (Município da Póvoa de Varzim; divulgação).

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Outras imagens: Momentos do Correntes d’Escritas 2018 (Município da Póvoa de Varzim; divulgação).

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Cláudia Sousa Dias

Socióloga do Trabalho e Mestre em Linguística Comparada. Crítica Literária. Autora dos blogues: http://hasempreumlivro.blogspot.pt/ e https://claudiasousadias.wordpress.com/

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