Espiritualidade | Maria Madalena. A mulher que compreendeu o Todo

Espiritualidade | Maria Madalena. A mulher que compreendeu o Todo

A situação das mulheres na época de Jesus

Em Israel, na época de Jesus, as mulheres que não estavam sob tutela masculina eram colocadas à margem da sociedade, nomeadamente as viúvas e sobretudo as celibatárias e as divorciadas. Quanto às prostitutas e às gentias (as não judias), eram consideradas impuras, não tendo direito sequer à caridade pública ou privada prescrita pela lei religiosa judaica, que constituía o fundamento jurídico da sociedade israelita.

Nos demais territórios do Império Romano, que então se estendia do Oceano Atlântico aos desertos da Mesopotâmia (atual Iraque), a situação feminina não era melhor.

As mulheres eram excluídas da vida pública, desde logo da própria vida política. Considerava-se que os papéis das mulheres eram gerar descendência, tratar dos afazeres domésticos e proporcionar prazer ao sexo masculino.

De modo sucinto, podemos considerar três tipos de mulheres na sociedade greco-romana: as mulheres de família, as concubinas e as prostitutas.

As mulheres de família eram as que ficavam restritas à esfera familiar. Por norma, não podiam ter contacto com outros homens que não fossem os da sua família. A sua missão era tratar dos afazeres domésticos e, no caso das casadas, também gerar e criar filhos legítimos. As mulheres das famílias ricas tinham uma situação material mais favorável do que as suas congéneres dos outros grupos sociais, mas estavam igualmente sujeitas à arbitrariedade masculina.

As concubinas tinham como responsabilidade ajudar os homens nas tarefas diárias, podendo ser livres ou escravas. Há que ter em conta que cerca de um quinto da população total do Império Romano estava submetida à situação de escravidão.

As prostitutas tmham como função satisfazer os prazeres e preservar a castidade das mulheres de família.

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Jesus e a sua relação com o masculino e o feminino

É da maior relevância recuperar a tradição cristã primitiva da Sabedoria Divina, infelizmente desvalorizada pelo cristianismo ocidental, a qual apresenta Jesus como mensageiro da Sabedoria Divina, na linha da tradição dos profetas de Israel, homens e mulheres que foram mensageiros de Deus e que não raras vezes foram perseguidos e mortos.

Os relatos dos evangelhos canónicos e apócrifos apresentam-nos Jesus como alguém que havia integrado a «anima» (dimensão feminina) dentro do seu «animus» (dimensão masculina).

A atitude de Jesus em relação às mulheres pode ser considerada revolucionária. Contrastando com as práticas discriminatórias das sociedades do seu tempo, Jesus adotou uma postura claramente emancipatória.

Com efeito, Jesus via a mulher como totalmente equivalente ao homem. Ele sublinhou repetidas vezes que o masculino e o feminino se deviam acompanhar numa equivalência total, que se deviam fundir um no outro para se poder chegar à verdadeira unificação espiritual.

A postura emancipatória de Jesus revelou-se em diversas circunstâncias:

– Tinha discípulas, em plena igualdade com os seus congéneres do sexo masculino, e transmitia-lhes ensinamentos da mesma forma como aos homens.

– Contactava livremente com mulheres, inclusive na esfera pública, sobretudo as que eram consideradas marginais devido ao seu estilo de vida, às suas origens sociais e à sua conduta moral. Entre outros exemplos, salienta-se o diálogo com a mulher samaritana, que tinha sido casada cinco vezes e vivia em união de facto com um homem.

– Não as considerava impuras durante a menstruação, como era habitual na sociedade da época.

– Afirmava a sua igualdade em relação aos homens. Por exemplo, numa sociedade que punia o delito do adultério (o da mulher, bem entendido) com a morte, Jesus socorreu a mulher apanhada em flagrante delito de adultério.

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Maria Madalena nos Evangelhos Canónicos

Jesus inspirou em seu redor um movimento de pessoas que se congregavam para viver a experiência de Deus e do seu Reino. Neste movimento, os homens e as mulheres tinham de início papéis absolutamente equivalentes, um aspeto de maior relevância que importa recuperar e valorizar.

Assim, diversas mulheres, que faziam parte do movimento de discípulos de Jesus, acompanharam-no ao longo da sua vida terrena. O Novo Testamento refere expressamente os nomes de Joana, Susana, Maria e Marta de Betânia, mas também e sobretudo Maria de Magdala ou Madalena.

Maria Madalena fez parte do círculo mais próximo dos seguidores de Jesus. O papel proeminente entre as seguidoras de Jesus é reconhecido nos evangelhos canónicos:

Maria Madalena era oriunda da cidade de Magdala, de onde deriva o seu nome. A cidade estava localizada próxima do lago da Galileia. Era um local relevante de comércio, que pertencia à rota internacional que atravessava Israel de norte a sul, onde pessoas de diversos costumes e culturas se cruzavam. Era uma cidade próspera, que comercializava peixe salgado, tecidos tingidos e produzia bens agrícolas. Nessa comunidade havia coexistência e cruzamento das culturas judaica e helenística. Maria Madalena é citada nos quatro evangelhos canónicos — os de Mateus, Marcos, Lucas e João — e relacionada com cinco acontecimentos relevantes: a sua cura por Jesus, a sua decisão de acompanhar Jesus, e de dar apoio material, inclusive financeiro, à sua missão, a sua presença corajosa no momento da crucificação, a sua visita, na manhã da Páscoa, à sepultura de Jesus, para ungi-lo e o encontro com Jesus ressuscitado.

Em redor do túmulo de Jesus, Maria teve uma experiência espiritual especialmente profunda que lhe deu a certeza firme de que Jesus não permaneceu no sheol (a morada dos mortos para os judeus), mas que foi ressuscitado e glorificado por Deus.

Foi a primeira pessoa a reconhecer a ressurreição de Jesus e, na alegria dessa vivência, levou a boa nova aos demais discípulos. Eles duvidaram, inicialmente, mas ela manteve a sua fé inabalável. Por isso, ela foi denominada como a apóstola dos apóstolos.

Com efeito, Maria Madalena é a mulher que conhece o Todo Divino que se manifesta em Jesus, a mulher que viu a luz quando os outros ainda se encontravam nas trevas, a mulher que compreendeu que Deus como Mistério da Vida e do Amor prevalece sempre, inclusive nas situações mais adversas.

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Maria Madalena noutros textos de origem cristã

A figura de Maria Madalena aparece nos evangelhos apócrifos, documentos cristãos que não foram incluídos no cânone do Novo Testamento, em grande parte por estarem ligados ao cristianismo gnóstico, uma linhagem do cristianismo primitivo que enfatizava uma visão esotérica da mensagem de Jesus. Esses textos incluem os evangelhos de Maria, de Filipe, de Tomé, de Pedro e de Pistis Sofia, entre outros. Nesses textos, Maria Madalena aparece como uma figura iluminada e sapiente, que possui conhecimentos espirituais especiais, e, consequentemente, respeitada e amada por Jesus. Os estudiosos sustentam que isso pode ser reflexo da memória histórica da posição de especial destaque que ela desempenhou no cristianismo primitivo do século I.

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O papel das mulheres no Cristianismo

As mulheres foram muito importantes no desenvolvimento do cristianismo primitivo, sobretudo no século I, pelo papel que desempenharam nas comunidades como apóstolas, profetisas, diaconisas, discípulas e cooperadoras, dando continuidade à tradição iniciada no movimento de Jesus, com a sua mãe Maria, Maria Madalena e outras mulheres que o acompanharam ao longo da sua vida terrena.

Existem fortes evidências de que as mulheres aderiram fortemente ao cristianismo primitivo e contribuíram bastante para a sua difusão, o que se deve ao facto da mensagem cristã valorizar a dignidade do ser humano e da mulher em particular, o que contrastava com os valores fortemente discriminatórios e patriarcais, então vigentes, tanto na sociedade judaica como na sociedade greco-romana.

Contudo, nos séculos seguintes, muitas comunidades cristãs diminuíram progressivanente a participação feminina, em grande parte para parecerem mais respeitáveis diante da sociedade greco-romana, fortemente conservadora e patriarcal. Os cristãos gnósticos podem ter sido a exceção a essa regra. Daí a sua ligação especial a Maria Madalena.

A subalternização e desvalorização de Maria Madalena culminou com a proclamação do papa Gregório I, em 591. Combinando erradamente algumas mulheres referidas no Evangelho – a mulher adúltera, a pecadora que unge os pés de Jesus com as suas lágrimas, a mulher de quem Jesus expulsou sete espíritos maus – o papa declarou Maria Madalena como uma prostituta arrependida.

As Igrejas do Oriente sempre rejeitaram esta proclamação papal e as Igrejas Protestantes raramente a aceitaram. Mas na Igreja Católica Romana esta tradição persistiu até 1969, quando o papa Paulo VI reconheceu que a interpretação do seu antecessor era errónea e que Maria Madalena era a testemunha privilegiada da ressurreição de Jesus. Mais recentemente, em 2016, o papa Francisco elevou a memória litúrgica de Maria Madalena, que se assinala em 22 de julho, a festa litúrgica e reconheceu-a expressamente como a apóstola dos apóstolos.

A memória e a figura de Maria Madalena tem fundamentado e legitimado uma espiritualidade mais pluralista e inclusiva, baseada na igualdade entre mulheres e homens, como seres criados à imagem e semelhança de Deus.

Citando Teresa Toldy, uma das principais figuras da teologia feminista em Portugal, viver a fé na mensagem de Jesus, nos nossos dias, implica uma visão espiritual na qual «todos os crentes, mulheres e homens, têm lugar: a Palavra circula, atua, torna-se vida, quando é comunicada e recebida. Ela é a nossa herança – de todos, mulheres e homens – anúncio de um futuro que irrompe já no presente, que se torna força para a transformação do quotidiano, que denuncia todas as injustiças e rasga o horizonte para um mundo novo, onde não há homem nem mulher pois todos vós sois um só em Cristo (…) e herdeiros da promessa (Gl 3, 28-29)».

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Maria Madalena em Vila Nova de Famalicão

A desvalorização do papel de Maria Madalena não impediu a sua veneração em muitas comunidades cristãs, inclusive na Idade Média.

Uma delas foi precisamente Vila Nova de Famalicão. Existe um conjunto de documentos históricos que apontam no sentido de existência de duas paróquias no território da antiga freguesia de Vila Nova de Famalicão, atualmente inserida na união das freguesias de Vila Nova de Famalicão e Calendário.

A mais antiga é a paróquia de Santo Adrião, referida pela primeira vez no século XI. A partir de 1220, quinze anos após a atribuição da carta de foral pelo rei D. Sancho I, existem referências à paróquia de Santa Maria Madalena, situada na zona sul da referida freguesia. Posteriormente, a paróquia de Santa Maria Madalena foi anexada à paróquia de Santo Adrião, mas a memória de Santa Maria Madalena persistiu, inclusive nos documentos eclesiásticos. Aliás, a Igreja Matriz Velha tinha como orago Santa Maria Madalena.

Tendo em conta o papel espiritual basilar desempenhado por Maria Madalena, é de toda a relevância promover e valorizar a sua memória, inclusive a nível local.

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Imagem de destaque: Representação de Santa Maria Madalena na Igreja Matriz Velha de Vila Nova de Famalicão (detalhe); a mesma imagem, na sua totalidade, é apresentada  no interior do artigo  (José AlvesInbox Fotografia).

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Daniel Faria

Nasceu em 1975, em Vila Nova de Famalicão. Licenciado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e pós-graduado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida pela mesma Instituição. É diplomado pelo Curso Teológico-Pastoral da Universidade Católica Portuguesa. Em 1998 e 1999, trabalhou no Centro Regional da Segurança Social do Norte. Desde 2000, é Técnico Superior no Município de Vila Nova de Famalicão. Valoriza as ciências sociais e humanas e a espiritualidade como meios de aprofundar o (auto)conhecimento, em sintonia com a Natureza e o Universo. Dedica-se a causas de voluntariado. É autor do blogue pracadasideias.blogspot.com e da página Espiritualidade e Liberdade.

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