Cinema | Pais e Filhos. Da natureza do relacionamento familiar

Cinema | Pais e Filhos. Da natureza do relacionamento familiar

Com grande frequência surgem, no cinema, filmes que esmiúçam a natureza do relacionamento familiar. Evidenciam a interacção entre pais e filhos, designadamente nos estímulos fraternais, na instrução, educação, bem como a monitorização que os pais aplicam aos seus descendentes e as suas implicações na vida real.

Em muitos casos, o sucesso ou insucesso do jovem na futura vida activa e profissional é determinado pelo êxito ou o fracasso da metodologia usada pelos pais na sua educação, nos conceitos e práticas induzidas nos seus filhos. Será, possivelmente, mais notória essa versão, de forma teórica e abstracta, nas extremidades das classes sociais, tanto nas famílias mais abastadas financeiramente como nas mais carenciadas, existindo em ambas aspectos positivos e negativos. Nas classes sociais mais favorecidas, podemos realçar as melhores condições no plano da nutrição, de um ensino mais especializado e focalizado para a excelência, mais higiene, acessos a hospitais e meios de saúde de referência, formação cultural de qualidade superior; quanto ao lado mais negativo, podemos elencar a super-protecção que normalmente os pais incutem aos filhos, conjugada com um certo elitismo que pode gerar na criança ou no adolescente, uma certa inibição, difícil integração e também dificuldades em lidar com situações novas e adversas. Já entre as classes sociais mais desfavorecidas, podemos realçar a resiliência da criança habituada a ter uma convivência mais abrangente, com todo o género de pessoas, exteriorizada por um papel mais activo e desenrascado, enquanto pelo lado dos efeitos mais nocivos, podemos enumerar praticamente tudo é o oposto dos aspectos mais vantajosos dos mais ricos.

Todavia há outros detalhes ou características que os filmes apresentam sobre circunstâncias complexas que surgem no contexto familiar, como problemas mentais, violência doméstica, divórcio dos pais, tempo curto de convivência com os filhos, adopção, não reconhecimento por parte do poder paternal das suas obrigações para com o descendente, enfim um cabaz de vicissitudes presentes em algumas obras cinematográficas que evidenciam a realidade intrínseca destes eventuais cenários.

Vejamos meia dúzia de casos, todos eles filmes recomendáveis, de produção Norte-Americana, com excepção de Julieta, filme do Espanhol Pedro Almodóvar.

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Pais e Filhas, de Gabriele Muccino (2015)

Vila Nova Online | Cinema - Alcino Pereira .. Crónica Pais e FilhosEste filme, Pais e Filhas, apresenta duas partes distintas da história de vida de um escritor, Jake Davis, e da sua particular relação com a filha Katie. Inicialmente a narrativa apresenta o escritor, que fica sozinho com a sua filha menor de cinco anos, por motivo de falecimento acidental da sua esposa. Em face disso é confrontado com um esgotamento mental. Já em estado bastante crítico acaba por ser internado e fica sem a guarda da sua filha durante alguns meses, atribuída entretanto a familiares.

Quando posteriormente regressa à posse da sua filha menor, o relacionamento entre ambos, apesar de salutar, é de constante animosidade e acaba por ver o vínculo existente deteriorado. O escritor passa a maior parte do tempo ocupado com o seu trabalho, em detrimento de um acompanhamento mais efectivo e correcto da educação da filha, com a agravante de os problemas psicológicos de que padecia nunca terem sido efectivamente debelados.

Comutativamente, Pais e Filhas apresenta a sua filha Katie, já mulher, formada em psicologia, laborando numa organização que dá apoio a crianças identificadas. Mas ela é também portadora de uma perturbação mental, a que se soma o facto de levar uma conduta devassa no plano sexual, nunca conseguindo manter um relacionamento sério, o que tem a ver em parte com a forma como foi afectada pela sua difícil e periclitante infância, conjugada os com aspectos hereditários relativos à sua doença.

Fathers and Daughters, de Gabriele Muccino – trailer

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Kramer contra Kramer, de Robert Benton (1979)

Kramer contra Kramer relata a vida de um casal com um filho de seis anos, Billy, ao qual o pai, Ted Kramer, um homem com brio profissional e dedicação sem limites, atribui pouco tempo de atenção, devido à sua incomensurável ambição de subir na vida. O problema é extensivo à relação que Ted mantém com Joanna, sua mulher. Esta, cansada da ausência permanente do cônjuge, toma a decisão unilateral de deixar o marido e o filho, atitude precipitada e insensata, tendo em conta os seus deveres maternais.

Face ao grande constrangimento da ausência da mãe, Ted depara-se com uma grande dificuldade e capacidade de se ajustar à realidade, juntando a agravante de ter sido demitido. Contudo consegue redimir-se e organizar a sua vida, a preceito, retomando o mercado de trabalho, mantendo com um filho uma grande relação de cumplicidade e de harmonia. Volvidos alguns meses, Joanna regressa para exigir a guarda da criança e Ted recusa liminarmente essa possibilidade, acabando o caso ir para tribunal.

Kramer vs Kramer, de Robert Benton – trailer

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Um Sonho Possível, de John Lee Hancock (2009)

O filme Um Sonho Possível é baseado em factos verídicos. Narra a história de Michael Oher, um afro-descendente sem tecto. Para além disso, Michael é também um adolescente com algumas dificuldades motoras, raciocínio lento e um vocabulário anémico, que entra e sai do sistema de ensino, por falta de aproveitamento escolar.

Numa abençoada noite de chuva, Leigh Anne vai no carro, com a sua família, e detém o olhar enquanto vê Michael Owen a caminhar de forma lenta e desamparada. Mostrando compaixão, Leigh Anne sinaliza ao marido para convidar Michael a entrar no carro. Michael acaba por pernoitar na casa do casal. Em consequência acaba por ficar a viver definitivamente num novo lar.

Com determinação, empenho e dedicação ilimitada de Leigh Anne, que passa a ser tutora a tempo inteiro, Michael ganha uma nova alma e atitude, embalado pela força motivacional de Leigh Anne, que lhe dá uma estrutura familiar que agora o suporta. Este facto, conjugado com a sua compleição física, permite-lhe tornar-se um atleta de grande nível no futebol americano e afirmar-se como um aluno exemplar. Concluindo a síntese do filme, Leigh Anne aproveitou o facto de os seus filhos já estarem completamente consolidados no plano educacional para se ocupar no ressurgimento mental de Michael, para o preparar condignamente para a vida activa e, com esse acto corajoso e humanista, acabar por salvar um jovem do infortúnio da vida e da exclusão social.

The Blind Side, de John Lee Hancock – trailer

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Julieta, de Pedro Almodóvar (2016)

Julieta descreve a história de uma mulher de meia-idade que perdeu o contacto com a sua filha quando esta atingiu idade adulta. Contudo descobre casualmente, através de Antía, amiga da sua filha e que já não encontra há muitos anos, que a sua filha reside em Madrid (na mesma cidade onde se encontra também Julieta a viver); fica também a saber que esta tem filhos.

A partir desse momento, abre-se uma porta de esperança para voltar a rever a sua descendente, depois de tantos anos de expectativas e anseios que se goraram.

A lição que se retira desta narrativa é que a causa que originou este abrupto afastamento, entre mãe e filha, foi a ausência de intimidade e convivência entre as duas, que a acção do filme indica de forma latente.

Julieta, de Pedro Almodóvar – trailer

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Amor Polar, de Maya Forbes (2014)

Amor Polar apresenta uma relação amorosa, tortuosa e imprevisível, vivida pelo casal Stewart,  Cameron e Maggie. A questão, aqui, reside essencialmente na personalidade de Cameron, pois é um maníaco-depressiva.

Não obstante as dúvidas que subsistem em Maggie quanto à sanidade mental do seu amante, ela resolve formalizar o casamento. Do relacionamento matrimonial, nascem duas filhas, mas a clivagem entre os dois acentua-se com o tempo devido à volatilidade do quadro bipolar de Cameron. Este tem constantes colapsos nervosos. O casal acaba por se separar e Cameron é internado num hospital psiquiátrico.

Todavia, em grande parte devido à conjuntura familiar, Maggie enfrenta problemas financeiros. Assim, por forças das circunstâncias, resolve tirar um curso de especialização, o que significará ter de se ausentar de forma prolongada e deixar de privar com as suas filhas.

Claramente decidida por esta opção, que pode constituir uma probabilidade séria, de melhorias a longo prazo das condições de vida, solicita ao ex-marido, que cuide das filhas, enquanto ela se encontra arredada de sua casa. A ilação que se verifica nesta história, na intenção de Maggie remeter para o seu ex-marido a guarda das crianças, é um voto de confiança, uma jogada de alto-risco, uma segunda oportunidade para Cameron se reabilitar, depois da expiação a que foi sujeito e ser capaz de se mostrar capaz e competente na função de pai. Cameron sai do hospital psiquiátrico, para efectivar a missão de olhar pelas filhas e, apesar do seu estilo excêntrico e enquistado, consegue revelar se uma boa surpresa, mantendo com as filhas uma relação profícua.

Infinetely Polar, de Maya Forbes – trailer

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Manchester by the Sea, de Kenneth Lonergan (2016)

Manchester by the Sea é um doloroso filme sobre a perda dos entes queridos.

Lee Chandler vive uma vida amargurada. É um homem bisonho, mentalmente instável e de personalidade catatónica. Vive os seus dias atormentado e em declínio moral e afectivo devido a um incêndio de que involuntariamente foi responsável. Desse incêndio resultou a trágica perda dos seus filhos e o consequente divórcio com a mulher que amava. A vida tem destas peripécias e infortúnios, em que contingências inesperadas, e erros momentâneos, podem deitar tudo a perder, desarmar-nos completamente e fazer-nos pagar uma penitência, tal como aconteceu com este homem.

Após um afastamento, Lee Chandler é, porém, forçado a retornar à sua cidade natal – Manchester, onde sucedeu a tragédia. Devido ao falecimento precoce do seu irmão, que sofria de problemas cardíacos, Chandler ficou com o ónus e a responsabilidade de tomar conta de seu sobrinho Patrick, um jovem adolescente. Esse regresso de Lee acentua as suas más lembranças, com a agravante ainda de ter que lidar com algumas pessoas que ficaram com uma opinião negativa e intricada da sua conduta acidental. Por outro lado vêm à sua memória os momentos mais felizes de outrora, em que a sua mente atinge o expoente máximo da nostalgia.

O desafio maior de Lee será então a incumbência de educar Patrick, um rapaz de 16 anos, de cabeça feita e que sente alguma relutância em assumir Lee como pessoa credível para assumir o papel de seu tutor. Todavia, Lee Chandler consegue superar as expectativas, nomeadamente na missão que lhe foi destinada, demonstrando resiliência e ressuscitando as suas virtudes, nomeadamente nos diálogos conjunturalmente difíceis que mantém com Patrick, acabando ambos por se articularem e adaptarem às novas circunstâncias. Para além disso, Lee Chandler recupera a sua imagem e auto-estima, o que lhe traz felicidade e lhe permite o reencontro com a sua ex-mulher voltando a ter com ela um caso amoroso.

Manchester by the Sea, de Kenneth Lonergan – trailer

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Obs: Este artigo foi previamente publicado no Jornal O Vale do Neiva e agora editado, com atualizações, na Vila Nova Online.

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Categorias: Cultura

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