Sérgio Rodrigues

Saber | Química?! Nas coisas mais comuns e extraordinárias de um mundo mais sustentável

Saber | Química?! Nas coisas mais comuns e extraordinárias de um mundo mais sustentável

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Será que podemos passar sem química? Sustenhamos por um momento a respiração para não inalarmos e expirarmos produtos químicos – nitrogénio em grande parte, oxigénio o suficiente, água e dióxido de carbono os necessários – nenhum deles bom ou mau em si mesmo – e o nosso corpo irá continuar a construir e destruir moléculas em quantidades astronómicas a velocidade alucinante. Olhemos à nossa volta. É impossível não ver materiais, produtos e processos comuns, ignorados, extraordinários, ou ainda misteriosos, que não tenham a ver com química. Olhemos para o céu e para o espaço, para o mar e as suas profundezas, para as árvores, plantas, animais e rochas. Olhemos para os objectos que nos rodeiam ou que temos nos bolsos. Olhemos para os próprios bolsos, para as roupas, os móveis, as casas, as ruas. O próprio olhar tem química, assim como a mente que o interpreta. Tudo tem química: o mundo que nos acolhe, as mãos que o modificam, os braços que o sustentam, e até a morte, de onde a vida se renova, tem química.

É uma evidência que a química tem um papel fundamental e central no nosso mundo. Mas estar em todo o lado, é estar no que é bom e no que é mau, no que é comum e no que é extraordinário, no que é enfadonho e no que é maravilhoso. Por isso, a química tem-se tornado, tal como se diz da saúde, numa coisa em que a generalidade das pessoas só presta realmente atenção quando alguma coisa parece correr mal. E, numa sociedade que associa, de forma generalizada, riscos exagerados à química, há muitos mitos, preconceitos e mal-entendidos que rodeiam esta ciência e os seus resultados.

Imagine-se o rótulo de uma maçã. Centenas de tipos de compostos químicos, todos naturais, todos químicos: água, açúcares (glicose, frutose, sacarose e outros), amido, riboflavina (vitamina B2), nicotinamida (vitamina B3), biotina (vitamina B7), ácido pantoténico (vitamina B5), ácidos (palmítico, esteárico, oleico, linoleico, fítico, fólico, oxálico, salicílico, etc.), leucina, isoleucina, valina, arginina e outros aminoácidos, polifenóis, antocianidinas, antocianinas, etc. E também alguns compostos, que se fossem aditivos, seriam classificados com os conhecidos Es: taninos (E181), caroteno (E160a), tocoferol (vitamina E, E306), ácido ascórbico (E300), ácidos málico (E296), cítrico (E330), tartárico (E334) e fumárico (E297) entre muitos outros. Note-se em especial o ácido ascórbico que é mais conhecido como vitamina C. Como aditivo alimentar, este composto é muitas vezes obtido de forma sintética a partir da glicose. A molécula é a mesma e com as mesmas propriedades, mas, em vez de ter sido produzida por uma planta ou animal (como os ratos), é obtida de forma industrial.

A produção de compostos naturais por vias sintéticas é quase sempre mais sustentável do que a sua obtenção a partir de processos naturais. Podemos assim preservar muito mais produtos naturais para a nossa alimentação e obter os compostos que são obtidos destes a partir de resíduos ou matérias primas.

São usados, no mundo inteiro, todos os anos, 60 toneladas de índigo, o corante azul das calças de ganga. Se este corante fosse obtido todo de forma natural, precisaríamos de usar uma área arável equivalente à de Portugal. Usando vias sintéticas industriais, cada vez mais eficientes e com menos resíduos, inseridos em meios de produção que valorizam a economia circular, precisamos de pouco mais do que 60 toneladas de matérias primas, que podemos por agora associar ao petróleo, mas em breve poderão provir de fontes renováveis.

Pensemos num material como o poliéster, um polímero que nalguns formas de uso é conhecido como um plástico. São usadas por ano (dados de 2008) 40 milhões de toneladas deste polímero em roupas e 16 milhões de toneladas em embalagens (a maior parte em garrafas). Se os 40 milhões de toneladas de poliéster fossem substituídos por algodão, precisaríamos de uma área arável idêntica à dos EUA para o obter. Há, claro, muito espaço para tecidos naturais, mas os tecidos sintéticos contribuem de forma decisiva para a sustentabilidade do planeta. Com as embalagens acontece o mesmo. Além de não ser prático substituir todas por vidro, a produção deste último material, e mesmo a sua reciclagem, envolvem custos energéticos muito mais elevados do que o plástico, o que também tem muitos custos ambientais.

Os polímeros (plásticos) foram e são uma solução muito boa para um conjunto de problemas com um espectro enorme de aplicações que não podemos facilmente abandonar, como electrodomésticos, telemóveis, carros, dispositivos médicos, roupas, entre outros. Infelizmente, essa solução fantástica está agora a mostrar-se problemática com a acumulação de plásticos na natureza. O que temos de fazer é maximizar a redução dos usos desnecessários, fomentar a reutilização e a reciclagem, assim como procurar substitutos ambientalmente mais sustentáveis.

Os plásticos, como tudo o que nos rodeia, mesmo coisas naturais, são poluentes se estiverem no local errado em quantidades prejudiciais. De facto, também os compostos naturais podem ser poluentes. Veja-se o que aconteceu com a poluição do Tejo com celulose, uma fibra natural, usada no fabrico do papel. Em excesso no rio, potencia o aparecimento de microorganismos que vão gastar o oxigénio e levar à morte dos peixes. E ser natural não é sinónimo de segurança. Ser natural, sintético ou artificial, não é, por si só, relevante, o que é fundamental é que seja seguro.

Considere-se o amianto, o titânio e o dióxido de titânio. O amianto é uma fibra mineral natural de que ninguém quer ouvir falar nem ter em casa, enquanto que o titânio e o dióxido de titânio, que são obtidos de forma artificial, são muito seguros em próteses e tintas, respectivamente, tendo também aplicações em remediação ambiental. As coisas mais perigosas do mundo são naturais, começando com a toxina da botulina até à coniína da cicuta que aparentemente levou à morte de dois caminheiros em Santarém. De fato, as notícias, fizeram menção à possibilidade de ser um envenenamento com pesticidas ou plantas. Mas pesticidas dificilmente seria, uma vez que os pesticidas com toxicidade aguda estão banidos. Mas mesmo esses, nomeadamente o que era conhecido como 605 forte (banido) tem uma dose para ser letal muito superior à da cicuta.

Os problemas ambientais não se resolvem fora da ciência, mas sim com mais e melhor ciência, e também com mais educação, humanidade e humanidades. A ficção da página inicial de “O Ministério da Felicidade Suprema” de Arundhati Roy, publicado em 2017, baseia-se em factos reais sobre o declínio dos abutres na região da Índia. De facto, confirmou-se, por volta de 2004, que o uso de diclofenac veterinário contribuía para a morte dos abutres de dorso branco na Índia e Paquistão. Isso levou ao banimento do uso deste fármaco para animais a partir de 2005. Noutras partes do mundo, outras causas de morte são o chumbo da caça, também banido e substituído por aço, as perseguições deliberadas, e, claro, a falta de alimento por falta de carcaças disponíveis. Um ponto importante foi a doença das vacas loucas que levou a uma maior preocupação com a presença de carcaças no ambiente. Quando Roy escreveu o texto, as soluções estavam já em evolução há mais de dez anos. O conhecimento das causas que levaram às restrições de produtos e actividades e a implementação de restaurantes para abutres.

O início deste livro relaciona-se com um outro de 1962, “A Primavera Silenciosa” de Raquel Carson (1907-1964), que começa com a proposta de se imaginar um mundo sem pássaros. Neste eram as aves que estavam em risco e a causa era o DDT; também o DDT foi banido passados uns anos. Mas antes de ser banido, em conjunto com a drenagem de pântanos e águas paradas e outras medidas de protecção, contribuiu para o desaparecimento da malária em zonas temperadas como Portugal e Itália.

O livro de Rachel Carson, considerado um marco no movimento ecologista, não advoga o fim do uso dos compostos químicos como pesticidas, mas sim o seu uso responsável, criterioso e seguro. Nesse aspecto estamos actualmente todos de acordo. A investigação química e a indústria química, desde as décadas de 1960 a 1980, em particular depois da consciencialização ecológica dos anos 1960 e o desastre de Bhopal, em 1984, colocam a segurança e a sustentabilidade nas suas maiores prioridades. Dessas preocupações surgiu o conceito e a filosofia da “Química Verde”, a partir dos anos 1990, que preconiza a minimização, ou eliminação completa, dos resíduos e produtos indesejados, o uso de materiais renováveis, sustentáveis e não perigosos, assim como a maior eficiência na produção, tudo isso quantificado de forma rigorosa. Facilmente se conclui que isso interessa também à indústria que, com processos mais eficientes e sustentáveis, terá menos gastos energéticos e custos com o tratamento de resíduos e procura de matérias primas, rumo à utopia possível da economia circular. Cabe-nos a nós, sociedade, garantir que esses objectivos são prosseguidos, valorizando a cultura científica e o conhecimento.

A química é fundamental para resolver os problemas de um mundo com cada vez mais pressão humana e ambiental. Além da procura do conhecimento e do bem estar e segurança da humanidade, a sustentabilidade, a regeneração ambiental, o controlo do aquecimento global e a eficiência, tanto energética como de recursos, são problemas que preocupam a química. Através do desenvolvimento de novos materiais e processos, usando ferramentas da química verde e sustentável, a química acrescenta aos conhecidos Reduzir, Reutilizar e Reciclar, a Reformulação e Reinvenção dos processos e os Recursos alternativos. Infelizmente, algumas das soluções encontradas acabam por redundar em novos problemas, mas estes são quase sempre bastante menos graves do que os os problemas iniciais. E, para esses novos problemas, vão sendo encontradas soluções renovadas, muitas vezes inesperadas, seguindo o caminho da maior eficiência e sustentabilidade e de um mundo melhor.

Nunca é demais chamar a atenção para o facto de que o conhecimento que temos do mundo que nos rodeia, assim como a qualidade de vida e a segurança que temos hoje em dia, não têm precedentes na história da humanidade. E a química tem sido uma das ciências que mais tem contribuído para isso e assim continuará no futuro se for mantido o sonho da química na sociedade, e, em particular, nos jovens.

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Obs: Texto produzido na sequência da participação do autor no 3º Encontro de Ciência Cândida Madureira.

 

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Categorias: Ciência

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Sérgio Rodrigues

Sérgio Rodrigues é doutorado em Química Teórica e Professor Auxiliar no Departamento de Química da Universidade de Coimbra. As suas actividades científicas situam-se na área da química teórica e computacional, tendo também interesse pelo ensino e história da química, assim como pela divulgação e comunicação de ciência. Escreve textos de divulgação da Química nos blogues “de Rerum Natura” e “Percursos Químicos” e publicou em 2014, pela Gradiva, "Jardins de Cristais: Química e Literatura". Foi membro do grupo que elaborou as Metas Curriculares de Física e Química do 3º ciclo do Ensino Básico e os Programas e Metas Curriculares de Física e Química do Ensino Secundário. É actualmente sub-director do Departamento de Química, consultor para as colecções de Química do Museu da Ciência e membro do Conselho Científico

Comentários

  1. Anónimo
    Anónimo 24 Março, 2018, 12:15

    Texto interessante do ponto de vista informativo para o público pouco conhecedor de Quimica, como ciência, mas sobretudo de como ela faz parte de nós…diria quase intrinsecamente. A Vida é ” uma formula quimica” tal como a conhecemos , e como se diz no texto a morte tambem é quimica. Como aprendemos com Lavoisier na “Vida nada morre, nada se perde , tudo se transforma” sic.
    Parabens pelo artigo

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