‘Ao menos se aproveitará o projecto arquitectónico, em que a construção do novo parece não colidir com a preservação do antigo’

Mercado Municipal de Famalicão: da Praça… à La Plaza

Mercado Municipal de Famalicão: da Praça… à La Plaza

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A Comunidade Europeia (aquela de quem nos habituamos a dizer mal por tudo e por nada e, por vezes, com sobejas razões) decidiu abrir uma vez mais os cordões à bolsa e entregar à Câmara de Famalicão perto de três milhões de euros (leu bem: 3 milhões) para esta “modernizar” (a expressão não é minha, é dela) o Mercado Municipal.

A Câmara Municipal, como é seu apanágio, tem vindo a fazer grande alarde do assunto. Normalmente anuncia, pelo menos, três vezes a mesma coisa e nem sempre a concretiza. Anuncia que vai anunciar; anuncia que está a anunciar e anuncia que anunciou; e depois logo vê se se concretiza. Desta vez parece que se vai concretizar. O que será um facto extraordinário por se tratar da primeira obra pensada e realizada por esta maioria. Até aqui limitou-se a concretizar ideias herdadas doutros. A ver vamos como se vão sair, mas que há motivos para receios, lá isso há!

Mas adiante!

A Câmara, que não quer saber disso para nada, lá resolveu, como de costume, começar a anunciar o feito. Fez anunciar o feito de diversos modos e feitios, com fotografias do seu Presidente em todas as posições e poses, como de costume. Mas usou ainda um outro método: fez anunciar em letras garrafais, numa parede do mercado municipal, o seguinte: “FAMALICÃO VAI GANHAR UMA NOVA PRAÇA“. Vai “ganhar”?! Esta frase, para ser franco, não me parece que esteja escrita em português de Portugal; parece-me português do Brasil. Eu estou desconfiado do verbo “ganhar“, mas quem escreveu a frase parece estar mais desconfiado da denominação dada ao espaço em causa: “Praça“; praça não é um militar sem patente?, terá pensado ele. Pelo sim pelo não, decidiu desenhar, por debaixo da frase, uma banca e acrescentar “Mercado Municipal“. Desconhece, por certo, que aqui se diz habitualmente que se “vai à Praça“. É coisa antiga. Ia-se à Praça aos legumes, ia-se à Praça à fruta, ia-se à Praça às flores, ao peixe, à carne, etc., etc. e, de caminho, comprava-se todo o género de coisas nas drogarias da mesma, que vendiam de tudo excepto estupefacientes. Outros tempos.

Ora, se a frase me cheira a Brasil, o que ela anuncia cheira-me a Espanha de panfleto turístico. Se resultou lá, também há-de resultar cá, pensou a Câmara. A “receita” é simples. Juntar batatas, cebolas, couves, alhos, queijos, diversos produtos exóticos e outros locais num recipiente velho a que lhe foram adicionadas várias colheres, de trolha, de massa de cimento e três de mãos de tinta; agitar bem, de modo a confundir tudo, deixar cozer em lume brando durante vários meses, se possível anos, até esquecer como era dantes, e servir a carradas de turistas nacionais e estrangeiros, sem proibir que alguns incautos locais, pelo meio de dezenas de máquinas fotográficas e “guias turísticos” abertos de mão a mão continuem a fazer as suas compras.

Em Espanha a receita tem sido um êxito. No Porto (Bom Sucesso) e em Lisboa (Ribeira), onde a receita foi mais ou menos copiada, também. Aliás, no Porto e em Lisboa, a antevisão do êxito foi de tal ordem que eles dispensaram praticamente os legumes, as batatas, as cebolas e os alhos (estes provavelmente devido ao comprovado mau cheiro), dado que se destinava a ser servido a turistas pouco dados a coisas da terra.

Ora, deve ter sido esta simplificação de receita que levou a Câmara a pensar que podia simplificar ainda mais a receita: dispensar os turistas. Os turistas são coisa rara nesta terra. Há mais postos de turismo do que turistas.

Será que esta receita sem turistas funciona? Temo que não. A ver vamos.

A Câmara diz que o mercado municipal vai ser modernizado (cheira-me que o Eça não ia gostar disto) e, além das funções actuais, de venda de produtos frescos, vai ganhar (lá estão eles) novas: albergará um mercado cíclico, para que os produtores da região (deduzo que se tratarão de produtores de produtos não frescos) possam vender ao fim de semana (ah! está bem pensado, venda de semana a semana não pode ser com produtos frescos) e uma praça da alimentação com um restaurante de maiores dimensões e vários quiosques. Assim dito, parece a canção dos “meninos à volta da fogueira” do Paulo de Carvalho. Uma vez mais está bem pensado: por exemplo, se quiser comer uma santola inteira vai ao restaurante de maiores dimensões; se quiser comer apenas as perninhas da santola vai a um dos quiosques.

Mas a Câmara não fica por aqui. Acrescenta que vai juntar-se uma estrutura “arrojada” que vai albergar a praça onde ficará localizado o mercado cíclico e o mercado permanente. Juntar na mesma frase as palavras “estrutura” e “arrojada” não me pareceu boa ideia. Nós na vanguarda das estruturas? À frente até dos Alemães!? Até da “Pala” do Siza os engenheiros disseram tratar-se de estrutura pouco arrojada. Se o arrojo é atinente apenas ao aspecto estético da coisa, já fico mais sossegado. Pelo menos não há o perigo de um dia a barraca vir abaixo.

Até ao momento, a Câmara Municipal tem anunciado muito e mostrado pouco. Do que foi dado mostrar, fica a ideia de que ao menos se aproveitará o projecto arquitectónico, em que a construção do novo parece não colidir com a preservação do antigo. O futuro funcionamento do Mercado já serão contas doutro rosário.

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Rubim Santos

Rubim Santos é advogado, natural de Calendário. No exercício da atividade política, desempenhou os cargos de Vereador do Urbanismo e de Vereador do Ambiente. Ainda no âmbito da sua participação cidadã, foi líder do Grupo Parlamentar Municipal do Partido Socialista e é atualmente Deputado Municipal.

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