Espiritualidade | Cristo e Buda: Encontro entre o Ocidente e o Oriente

Espiritualidade | Cristo e Buda: Encontro entre o Ocidente e o Oriente

Cristo e Buda não são nomes próprios. São títulos dignificantes. Cristo é uma palavra de origem grega que significa «ungido» ou «consagrado». Por sua vez, a palavra grega é uma tradução do termo hebraico Māšîaḥ, traduzido para o português como Messias. Portanto, o título Cristo, confere uma perspetiva espiritual à figura histórica de Jesus ou Yeshua, o seu nome hebraico.

Por seu turno, Buda, uma palavra com origem no sânscrito, significa o «iluminado» ou «o desperto». Neste sentido, o título Buda dá uma perspetiva espiritual à figura histórica de Siddhartha Gautama.

Por conseguinte, deve-se comparar Buda e Cristo, quer Jesus e Siddhartha. Jesus, o Cristo histórico, corresponde a Siddhartha Gautama, o Buda histórico.

Porventura, Jesus e Siddhartha foram as individualidades mais marcantes da História espiritual da Humanidade.

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As semelhanças

Existem semelhanças notáveis entre ambos, designadamente as seguintes:

– Os nascimentos de Jesus e Siddhartha foram considerados nas suas épocas como marcos espirituais. O nascimento de Siddhartha foi anunciado pelo sábio Asita, que ao vê-lo, vaticinou que ele libertaria o mundo. No caso de Jesus, temos os profetas de Israel, que anunciaram a vinda do Messias, e as figuras de Simeão e Ana, que ao vê-lo, prenunciaram que ele traria a consolação de Israel e da humanidade.

– Ambos tiveram experiências espirituais marcantes e decisivas por volta dos 30 anos. Da mesma forma que Jesus tornou-se o Cristo ao receber o Espírito de Deus no momento do seu batismo, nas águas do rio Jordão, Sindhartha tornou-se o Buda, no momento do seu despertar debaixo da árvore bodhi. Em ambos os casos, começaram a sua atividade pública pouco tempo depois.

– Jesus e Sindhartha apresentam-se como mestres, como a manifestação visível da Realidade Divina, com uma missão a cumprir. Com efeito, a autoridade de ambos baseia-se na experiência extraordinária da Realidade Divina. Nenhum deles estava legitimado por autoridades religiosas oficiais e opuseram-se aos guardiães das tradições religiosas, que privilegiavam a dimensão formalista e ritual da religiosidade.

– Jesus e Sindhartha promoveram movimentos de renovação no âmbito das tradições religiosas herdadas: o judaísmo e o hinduísmo, respetivamente. Nenhum deles se considerou como fundador de uma nova religião.

– Tanto Jesus como Sindhartha não formularam especulações profundas de cariz teológico ou filosófico, Privilegiaram a ortopraxia (a ação eticamente correta) em desfavor da ortodoxia dogmática.

– A ênfase na ideia de caminho. A imagem de caminho ou via assume uma importância fundamental em ambos os mestres. Sindhatha Gautama apresentou o Nobre Caminho Óctuplo como das Quatro Nobres Verdades nas quais assentam os seus ensinamentos. Jesus referiu-se por diversas vezes ao «caminho». A primeira designação para o movimento dos seguidores de Jesus foi «o Caminho», de acordo com o Novo Testamento. O caminho significa uma nova forma de ver a vida, de acordo com os valores do amor do amor incondicional, da compaixão, do altruísmo e do desapego, que implica um processo psíquico e espiritual de transformação, cujo resultado é a libertação e a santidade do ser humano.

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As diferenças

A principal diferença entre ambos os mestres consiste na presença de uma forte dimensão sociopolítica na vida e mensagem de Jesus, que não se encontra em Sindhatha. A missão de Jesus consiste na promoção do Reino de Deus como utopia de libertação integral do ser humano, levando-o a desafiar os poderes instituídos do seu tempo, o que explica a sua morte trágica. Jesus situa-se na linha dos profetas de Israel, vozes do protesto espiritual e social inspirados por Deus.

A sua origem social também explica esta faceta relevante de Jesus. Contrariamente a Sindhatha, Jesus não fazia parte da nobreza abastada, embora fosse descendente da realeza de Israel.

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As três manifestações do Buda e do Cristo

Para comparar o que o budismo diz do Buda histórico e do Buda eterno com o que o cristianismo diz do Deus que Jesus manifesta, devem ser distinguidas três realidades distintas, que correspondem às três manifestações do Buda, denominadas buddhakaya, e do Cristo.

A primeira manifestação chama-se Nirmanakaya, que corresponde ao Buda histórico, isto é, a Sindartha Gautama, ao corpo assumido e manifestado neste mundo, num determinado contexto espácio-temporal. Corresponde igualmente a Jesus, o Cristo histórico.

A segunda manifestação é a chamada Sambhogakaya, que corresponde ao corpo glorioso, que desfruta de ter alcançado a conexão com a Divindade. Deste segundo corpo, afirma-se que não tem forma, segundo os nossos padrões espácio-temporais, mas pode falar-se dele como tornado visível numa figura humana. Da mesma forma que Jesus tornou-se o Cristo ao receber o Espírito de Deus no momento do seu batismo, nas águas do rio Jordão, Sindhartha tornou-se o Buda no momento do seu despertar debaixo da árvore bodhi.

Por fim, a terceira manifestação é a denominada Dharmakaya, a substancia do Dharma, isto é, a substancia da própria verdade, que está para além do espaço e do tempo. Corresponde ao conceito cristão de Cristo Cósmico, também denominado como Verbo ou Logos, a Luz Divina pela qual tudo existe. E a Inteligência Infinita da Divindade presente em toda a criação.

Neste sentido, os budistas podem aceitar Jesus é manifestação do Dharmakaya, mas não a única. Aqui, dividem-se os cristãos. Os que insistem que só Jesus é o Cristo e os que consideram que Cristo é mais abrangente do que Jesus e que Deus é o Mistério fundamento do Universo e da Vida que se manifestou em Jesus.

Em novembro de 2012, o teólogo cristão Jean-Yves Leloup, defensor do diálogo inter-religioso, disse no Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa. «Quando um homem se encontra num quarto escuro, tem de abrir todas as janelas: a janela que está virada para o Ocidente e a janela que está virada para o Oriente. Temos necessidades de todas as luzes. Ontem como hoje, temos necessidade da luz do Buda e da luz do Cristo».

Carl Justav Jung disse também que Jesus, o Cristo, e Sindhartha, o Buda, representam cada um o Verdadeiro Eu, para o Ocidente e Oriente, respetivamente.

Numa época na qual a Humanidade se confronta com tantos desafios, a espiritualidade do futuro será a espiritualidade que abra novos horizontes para a nossa mente e alargue a generosidade do nosso coração.

Uma espiritualidade que escutando o Dharma e inspirando-se no Espírito, promova a transmutação do ser humano pela prática do amor incondicional, da compaixão, do altruísmo e do desapego.

Uma espiritualidade que transforme as relações dos seres humanos entre si, com a Natureza e com a Fonte originária de onde emana todo o Universo.

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Daniel Faria

Nasceu em 1975, em Vila Nova de Famalicão. Licenciado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e pós-graduado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida pela mesma Instituição. É diplomado pelo Curso Teológico-Pastoral da Universidade Católica Portuguesa. Em 1998 e 1999, trabalhou no Centro Regional da Segurança Social do Norte. Desde 2000, é Técnico Superior no Município de Vila Nova de Famalicão. Valoriza as ciências sociais e humanas e a espiritualidade como meios de aprofundar o (auto)conhecimento, em sintonia com a Natureza e o Universo. Dedica-se a causas de voluntariado. É autor do blogue pracadasideias.blogspot.com e da página Espiritualidade e Liberdade.

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