Questionário de Proust | José Pedro Afonso Araújo Costa

Questionário de Proust | José Pedro Afonso Araújo Costa

José Pedro Afonso de Araújo Costa nasceu em Barcelos em 1963. Vive em Vila Nova de Famalicão desde 1986. 

Apesar dos seus múltiplos interesses, em especial de natureza política e intelectual, formou-se inicialmente como professor no Magistério Primário de Braga.

Dedicar-se-ia posteriormente à mediação de seguros, atividade desenvolvida em negócio familiar.

Mais tarde, regressaria ao ensino e formar-se-ia em História, pela Universidade Aberta, mas exercendo a docência sempre no 1º Ciclo de Ensino Básico. Para além do exercício de funções letivas, desempenhou cargos de Coordenador Pedagógico e Coordenador de Escola, cargo que também desempenha atualmente na escola onde exerce, a Escola Básica de Lagoa.

A sua experiência na Comunicação Social iniciou-se ainda no tempo das rádios piratas, em Barcelos, por onde passou pelo Rádio Clube de Barcelos e pela Rádio Atlântida. Em Vila Nova de Famalicão, colaborou no jornal Vila Nova, bem como na respetiva rádio.

Em 2017, com epicentro em Famalicão, relançou o título Vila Nova, desta feita sob a forma de publicação eletrónica com um caráter diferenciador, marcado pela independência e pluralismo e por uma grande componente de opinião e partilha de conhecimento.

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1- Qual é para si o cúmulo da miséria moral?

A exploração e manipulação das fragilidades do outro em benefício próprio.

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2- O seu ideal de felicidade terrestre?

Harmonia e tranquilidade, saúde e alegria; sozinho ou em boa companhia, tanto faz.

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3- Que culpas, a seu ver, requerem mais indulgência?

As dos erros cometidos sem intenção de prejudicar o outro.

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4- E menos indulgência?

Os erros cometidos com intenção de prejudicar o outro, mas alguns incomodam-me sobremaneira: os crimes de sangue e aqueles que revelam exploração das fragilidades do outro, sejam elas físicas, financeiras ou psicológicas. E aí podemos exemplificar com a violência gratuita ou desproporcional pela parte dos poderes instituídos ou a violência individual de quem pratica o mal – assassínios, violações, roubos ou outro tipo de agressões sobre o outro, a exploração do trabalho por quem não precisa de o fazer para ainda assim obter muito lucro com as suas atividades económicas e a violência psicológica que gera humilhação desnecessária, seja ela no conjunto da sociedade ou em situações específicas como as familiares ou laborais.

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5- Qual a sua personagem histórica favorita?

Não consigo apontar apenas um; seria extremamente redutor. Fascinam-me diversos tipos de personagens. Sócrates, o filósofo grego, é um dos personagens que me fascina, pela inteligência, coragem e humildade, Alexandre, o Grande, pela ambição desmedida e o querer sempre ir mais além, Gengis Khan, por ter conseguido estabelecer o maior império, ainda que praticamente efémero, à face da Terra, Che Guevara, pela rebeldia e coragem com que lutou até à morte contra as injustiças sociais, Mário Soares, pelo inconformismo e coragem com que viveu a sua vida, e que nos deixou, em especial a nós, portugueses, um legado que nos marcará durante muito tempo, o da democracia. Nomeio ainda mais alguns, todos eles exemplo de homens corajosos, e que marcam a minha forma de ver e encarar a vida: Ghandi, Martin Luther King, Nelson Mandela, correndo o risco de me estar a esquecer de algum dos fundamentais. Nunca respondi a este questionário e este é feito hoje. Se as respostas tivessem sido há 30 anos atrás seriam provavelmente diferentes, tal como o serão caso tenha a possibilidade de o responder daqui a outros 30 anos.

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6- E as heroínas mais admiráveis da vida real?

Costumam dizer que são as mulheres e, neste caso concreto, alinho pelo mesmo diapasão. A mulher, as mulheres, em geral, são o grande pilar da sociedade. Mais ainda nos dias de hoje, em que, para além de manterem o domínio da casa, têm também a possibilidade e a necessidade de se afirmarem fora dela: Donas de casa, mães e trabalhadoras. É obra!

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7- A sua heroína preferida na ficção?

Leio poucos livros em que as mulheres sejam as personagens centrais do enredo. Há, no entanto, uma que se me afigura assinalável, Catherine Earnshaw, d’ O Monte dos Vendavais, da Emily Brontë, pela forma como vive a sua paixão, que não sei se se pode considerar desmedida, na verdade, por Heathcliff. Catherine vive um amor por Heathcliff tal em que as suas almas formam como que uma só. Seria um ideal do Século XIX, hoje bastante em desuso, pelo menos nas práticas sociais, mas ainda frequentemente idealizado.

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8- O seu pintor favorito?

Tal como nos heróis, não consigo citar apenas um. Diversas razões me levam a isso, sobretudo a questão da estética própria de cada época. Seja como for, tenho dificuldade em citar como nomes essenciais outros que não sejam, de certa forma, lugares mais ou menos comuns. Por ordem mais ou menos cronológica: Caravaggio, Boticceli, Bosch, Velásquez, Delacroix, Turner, Monet, Schïele, Matisse, Picasso, Almada. No geral, sou apreciador de pintura e outras formas de arte visual, por vezes pouco conhecida, e a que atribuo elevado valor estético e artístico. Nesta área, as minhas preferências vão para a fotografia e o cinema.

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9- O seu músico favorito?

A música é, desde que me conheço, minha companheira de viagem. Por ela me liguei pela primeira vez à comunicação social, ainda no tempo das rádios piratas. É outro caso em que não posso citar apenas um nome. Com toda a certeza, não devo ter sido feito ao som da música – os meus pais não são propriamente apreciadores -, mas ouço música de forma constante desde sempre.

Em jovem, adorava o rock, em especial bandas dos anos ’60, como os Doors, Rolling Stones, Neil Young, Van Morrison e Bob Dylan. Só muito tarde descobri Jimi Hendrix, um fenómeno que, estou em crer, não voltará a haver igual. Um pouco mais tarde, vieram as bandas da minha geração: U2 e Clash.

Por essa altura ainda, descobri também o jazz, essa sim uma paixão musical que se tornaria insidiosa e cada dia mais presente. Miles Davis, John Coltrane, Bill Evans, Chet Baker, Keith Jarrett, Charlie Haden, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, um nunca mais acabar de nomes que preenchem, hoje em dia, quase todas as minhas noites. Destaco Miles pela sua imaginação, fluidez, versatilidade e linguagem de inovação permanente. As suas gravações, como uma grande maioria das realizadas pelos nomes que citei, permanecem ainda hoje frescas e não cansam de ouvir.

Mas há outros músicos enormes, noutras áreas da música popular: Astor Piazzola, Baden Powell, bem como os nossos, portugueses, José Afonso e Amália Rodrigues, embora não os ouça com muita frequência. Seria uma injustiça não os referir.

Depois desta lista já extensa, não posso deixar ainda de citar as minhas grandes paixões na área da música clássica: John Dowland, Johann Sebastian Bach – As Sonatas para Violoncelo  e As Variações Goldberg são obras de eleição, são as tais que se tivéssemos que ouvir durante toda a vida uma única música estou certo que seriam as mais toleráveis -, Beethoven, Wagner, entre os mais antigos.

Por fim, na música contemporânea, tenho que referir Arvo Part, John Tavener e Toru Takemitsu, que se encontram também entre aqueles que produzem da música mais bela alguma vez pensada e dada a ouvir.

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10- Que qualidade mais aprecia no homem?

Coragem, inteligência, desenvoltura, perseverança, respeito.

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11- Que qualidade prefere na mulher?

Delicadeza, inteligência e sensualidade.

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12- A sua ocupação favorita?

Não fazer nada.

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13- Quem gostaria de ter sido?

Eu próprio.

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14- O principal atributo do seu carácter?

Perseverança.

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15- Que mais apetece aos amigos?

Amizade: companheirismo, solidariedade, respeito, entreajuda e boa mesa.

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16- O seu principal defeito?

Dificuldade em aceitar críticas, que entenda realizadas de forma pouco ou nada construtivas, quando contrariam pontos de vista que considero corretos.

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17- O seu sonho de felicidade?

Deixar o mundo um lugar em que se viva melhor.

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18- Qual a maior das desgraças?

Considero aqui dois planos, o individual e o coletivo. No plano individual, a perda do cônjuge ou de um filho, no plano coletivo, a guerra.

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19- Que profissão, que não fosse a de escritor, gostaria de ter exercido?

Programador cultural; ou pastor.

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20- Que cor prefere?

A cor que os meus olhos veem ou imaginam. No concreto, o azul Oxford e o verde pela tranquilidade que me transmitem.

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21- A flor que mais gosta?

Lírio.

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22- O pássaro que lhe merece mais simpatia?

Falcão peregrino.

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23- Os seus ficcionistas preferidos?

Cormac McCarthy, Ian McEwan, Philip Roth.

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24- Poetas preferidos

E: E. Cumings, Fernando Pessoa, Herberto Helder, Maria do Rosário Pedreira, Nuno Júdice, Sophia.

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25- O seu herói?

Mário Soares e Robin dos Bosques.

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26- Os seus heróis da vida real?

Os meus pais.

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27- As suas heroínas da história?

Joana d’Arc.

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28- Que mais detesta no homem?

Arrogância e prepotência.

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29- Carácteres históricos que mais abomina?

O Século XX foi rico em líderes sanguinários. Adolf Hitler foi o pior entre os piores.

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30- Que facto, do ponto de vista guerreiro, mais admira?

Batalha da Normandia – Dia D. Mas confesso que, em geral, tenho uma certa estima por todas as lutas, mesmo quando sob a forma de guerra, cujo objetivo seja a libertação de um povo ou a insubmissão perante graves injustiças sociais.

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31- A reforma política que mais ambiciona no mundo?

Uma distribuição mais justa da riqueza.

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32- O dom natural que mais gostaria de possuir?

Tocar um instrumento musical, em particular, o piano.

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33- Como desejaria morrer?

Tranquilo.

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34- Estado presente do seu espírito?

De bem com a vida.

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35- A sua divisa?

Logo se vê!

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36- Qual é o maior problema em aberto do concelho?

O maior problema, em meu entender, é o da mobilidade fácil: vias de comunicação e meios de transporte públicos que sirvam melhor as populações que desejam deslocar-se entre as diversas localidades nos mais diversos horários.

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37- Qual a área de problemas que se podem considerar satisfatoriamente resolvidos no território municipal?

Área da educação ao nível do ensino obrigatório. Neste há ainda muito a fazer no que concerne ao apoio aos alunos com necessidades educativas, especiais ou não.

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38- Que obra importante está ainda em falta entre nós?

Universidade pública. Gostaria que esta estivesse vocacionada para a investigação e desenvolvimento de tecnologias de ponta relacionada preferencialmente com as indústrias mais fortes do concelho, como é o caso da têxtil, mas que poderia sê-lo, em meu entender preferencialmente, na área da Inteligência Artificial e da Robótica.

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39- De que mais se orgulha no seu concelho?

Segurança, tranquilidade, paz social.

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40- Qual é o livro mais importante do mundo para si?

A importância de um livro, de uma obra de arte, ou de um ato político divergem de sociedade para sociedade. No mundo ocidental, a Bíblia é sempre apontada como o mais importante, entre os judeus é a Torá, entre os muçulmanos o Alcorão e os hindus o conjunto dos Upanishades. O código de Hamurábi é também importante por ser o mais antigo documento que regulas as leis de sã convivência entre os homens. Temos também os clássicos gregos, a Ilíada e a Odisseia, em que se narram venturas e desventuras de homens e deuses e, em simultâneo, se transmitem os temas e valores universais à grande maioria das culturas.

Uma vez que, em concreto, nunca li nenhum deles nem me debrucei sobre o seu estudo, para além da catequese mais básica durante a instrução primária, nunca me debrucei sobre esta questão. Muito recentemente, e até mesmo a propósito deste Questionário de Proust que o Dr. Agostinho Fernandes tem dirigido aqui, na Vila Nova, resolvi começar a ler a Bíblia, na versão de Frederico Lourenço. Logo na sua introdução, a dado passo, o autor desta tradução explica que a Bíblia é considerado o mais importante dos livros da Humanidade porque pela primeira vez um texto narrativo passa a ter como centro das atenções o homem e a mulher comuns, em vez de príncipes e princesas, reis e rainhas, como até então. Esta mudança de paradigma contribuiu certamente para o sucesso do mesmo e da religião a que deu origem, o cristianismo, hoje uma das que tem mais seguidores em todo o mundo, em especial no mundo ocidental.

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Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Agostinho Fernandes

Agostinho Peixoto Fernandes nasceu em Joane, em 1942. Após a instrução primária, ingressou na austera Ordem do Carmo, em Viana do Castelo, tendo terminado a licenciatura em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Como professor do ensino Secundário ocupou, a partir de 1974, vários cargos de gestão em estabelecimentos de ensino. Entre 1980 e 1982 foi vereador da Cultura, pelo Partido Socialista, na Câmara Municipal de Famalicão, sendo Presidente Antero Martins do PSD, onde alicerçou uma política inovadora nesta área. Promoveu os Encontros Municipais e de Formação Autárquica, fundou o Boletim Cultural. Dinamizou o movimento associativo local. Em 1983 foi eleito presidente da Câmara de Famalicão, cargo que ocupou até 2001. O seu trabalho de autarca a favor da educação, ensino e acção social (foi um dos primeiros autarcas do país a criar no seu concelho uma rede pública de infantários) foi reconhecido em 1993 pela UNICEF, que o declarou “Presidente da Câmara Amigo das Crianças”. Ao longo dos seus sucessivos mandatos – que se estenderam por um período de quase 20 anos – o concelho transfigurou-se. A ele se deve a implantação de importantes infra-estruturas como o Citeve, Matadouro Central, Universidade Lusíada, Escola Superior de Saúde do Vale do Ave, Biblioteca Municipal, Artave, Centro Coordenador de Transportes, Casa das Artes, Museu da Indústria Têxtil e piscinas municipais. Também tomou decisões polémicas, como a urbanização da parte dos terrenos de Sinçães, a instalação de grandes e médias superfícies comerciais à entrada da cidade e a demolição do Cine-Teatro Augusto Correia. Foi um dos fundadores da Associação de Municípios do Vale do Ave, tendo, neste âmbito, enfrentando a maior contestação popular dos seus mandatos com a construção da ETRSU de Riba de Ave. É sócio de inúmeras associações cívicas, culturais e de solidariedade social e foi mandatário concelhio de Mário Soares e Jorge Sampaio (1º mandato) nas suas campanhas à Presidência da República.

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