Correntes d’Escritas | Na Póvoa de Varzim… Há mar e mar, há ir, escrever, ler e voltar (1ª pt.)

Correntes d’Escritas | Na Póvoa de Varzim… Há mar e mar, há ir, escrever, ler e voltar (1ª pt.)

Dia 1º (21 de Fevereiro)

É dia 21 de Fevereiro e está prestes a ser anunciado o Prémio Correntes d’Escritas 2018, na manhã do primeiro dia do Festival de Literaturas Ibero-Americanas. As Correntes d’Escritas decorrem anualmente na Póvoa de Varzim, sempre por esta altura do ano e são organizadas pela respetiva Câmara Municipal. Os favoritos da comunicação social portuguesa são Bruno Vieira Amaral, que obteve o Prémio PEN clube Português, o Prémio Fernando Namora e o Prémio Saramago pelo romance As Primeiras Coisas e a também multi-premiada escritora e jornalista Ana Margarida de Carvalho, vencedora do Grande Prémio Romance e Novela com Que Importa a Fúria do Mar e do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) 2017, com o romance Não se pode morar nos olhos de um Gato. Mas a manhã ainda nos iria reservar algumas surpresas como veremos adiante.

Sem transporte próprio, tive, então, de articular a melhor forma de utilizar os transportes públicos  (comboio e metro) para chegar à Póvoa de Varzim e, assim, não ter depois a preocupação de interromper as comunicações dos escritores a meio do último painel da tarde (as mesas mais empolgantes do evento pareciam ter sido destinadas para a tarde e, de facto, não me enganei) na ânsia de apanhar o último autocarro para Famalicão.

Mas, antes de me dirigir à Póvoa, não quis deixar de passar por Braga a fim de recolher a encomenda na Livraria 100ª Página (As Flores do mal, de Fernando Pessoa, e Poesia Completa, de Herberto Hélder)  – paragem obrigatória em todas as minhas visitas a Portugal – e visitar a exposição de fotografia de Ana Barros no Museu Nogueira da Silva, no lado oposto da rua onde fica a Livraria 100ª Página. No mesmo museu, encontra-se também aberto ao público o espaço que homenageia a escritora bracarense Maria Ondina Braga. A casa-museu do industrial Nogueira da Silva pertence agora à Universidade do Minho e constato, com agradável surpresa, que o local  é de entrada livre. É com espanto que, ao entrar, me deparo com um acervo de obras de arte que vão do Renascimento à Arte Contemporânea e, ao sair do edifício principal, pelas traseiras, e atravessar um belíssimo jardim que lembra alguns recantos de Holland Park, encontramos ao fundo do jardim uma requintada casa de chá e o espaço Maria Ondina Braga.

 

Entretanto, de volta à 100ª página, para tomar um rápido brunch, antes de apanhar o comboio que efectuará ligação ao metro para a Póvoa, dou uma rápida olhadela ao Google com a ajuda da dona da livraria que nos faz saber quem ganhou o Prémio Correntes d’Escritas. A surpresa é total: o escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez arrebatou o prémio com o romance A Forma das Ruínas. Nas palavras de José Mário Silva e Maria de Lurdes Sampaio como porta-vozes do júri:

«…pelo extraordinário fôlego narrativo e pelo notável retrato da História da Colômbia do século XX, fruto de uma vasta investigação pessoal e literária. A partir de dois homicídios políticos que permanecem como feridas na memória colectiva, Juan Gabriel Vásquez criou uma ambiciosa e muito bem conseguida arquitectura romanesca. Além da criação de grandes, contraditórias e fascinantes personagens, o romance destaca-se pelo modo como fala do nosso tempo. Do tempo como labirinto. Um prodígio de narrativa que torna universal uma história simultaneamente passada e presente».

Na verdade, a atribuição do prémio não foi unânime. Dois dos quatro membros do júri estavam inclinados para a obra Escola de Náufragos de Jaime Rocha, sendo que, para haver desempate, um deles aquiesceu que o prémio fosse, desta vez, para Vásquez, o qual já havia sido agraciado também com o Prémio Literário Casa América Latina em 2016.

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I – Decidi saltar a inauguração e a conferência de abertura, sempre marcadas mais pelo teor político que literário do evento, apesar da presença do poeta Luís Filipe Castro Mendes, actual ministro da cultura, e do escritor e artista plástico brasileiro Ignácio Loyola Brandão, pois o tempo passado em transportes ameaçava tornar-se demasiado cansativo. Optei, então, por esperar calmamente pelo primeiro painel: a Mesa 1, subordinada ao tema “Hoje são estas as palavras, amanhã não sei”, onde se falou da distorção do discurso e do significado das palavras. A abrir o painel, Ana Luísa Amaral, que lançou no mesmo dia o volume de ensaios Arder as palavras e outros incêndios, que referiu o tema como algo inquietante, por vivermos actualmente “tempos perigosos.” Na impossibilidade de tudo se saber, contida implicitamente no verso que dá título à mesa, está subjacente a inevitabilidade da condição humana. O ser humano é impelido à perseguição desse mesmo saber como essencial à sobrevivência e à contínua evolução da humanidade, a qual se vê perante a incumbência de fazer o impossível, “o que significa ter diante de si as possibilidades todas”. Para Ana Luísa Amaral (Arder a palavra e outros incêndios, 2018; What’s in a name?, 2017) a poesia é o equivalente à “possibilidade”, fazendo da “não omnisciência a mais humana condição: o desafio aos deuses”. Na óptica da autora pode-se, pois, concluir que não haverá nada de mais humano que a hybris, ou o desafio ao deuses na perseguição do saber.

Fernando Pinto do Amaral (Manual de ardiologia, 2016), poeta na senda de Ana Luísa Amaral, encarou o tópico partindo da perspectiva da diferença entre as chamadas ciências “duras” e as chamadas “humanidades”, afirmando, em última análise, haver “um lado de imprevisibilidade nestas últimas e, em particular, na Literatura. Fernando Pinto do Amaral liga ainda a Literatura não apenas à leitura e à reflexão, mas sobretudo à experiência individual, a qual considera insubstituível. Termina a comunicação com a reflexão acerca da distinção entre “fazer” (tudo o que implique acção ou agentividade por parte do sujeito de uma frase) e o simples “acontecer” (o que implica sempre a passividade ou a não agentividade do sujeito) sempre que se analisa o discurso de alguém.

Filipa Leal (Vem à Quinta-feira, 2016; A Inexistência de Eva, 2009) fez uma importante reflexão de cariz vincadamente sociológico, em ligação com o tema da mesa. Filipa Leal começou por denunciar o perigo das novas tecnologias na destruição das palavras, as quais são agora substituídas por abreviaturas, siglas e emoticons, fazendo a humanidade regressar a uma escrita “quase que hieroglífica”. Ao tom humorístico e simultaneamente fleumático que caracteriza a primeira parte do discurso da escritora-poeta, sucede-se o tom de deslumbramento na segunda parte da sua comunicação, na qual frisa a importância da valorização pelas escolas do imenso potencial criativo das mentes não formatadas. Para tal, menciona, a título de exemplo, o caso de uma criança que, em Itália, através da mediação de uma professora atenta, introduziu no léxico italiano um novo adjectivo: “petalloso” (algo que possui muitas pétalas).

A primeira mesa finalizou com a brilhante comunicação da jornalista e escritora-ensaísta Maria Antónia Palla a mostrar a sinistra ligação do tema à relação de transmissão/ocultação do real. Palla propõe que “a realidade nunca é fotográfica e a fotografia também não é a realidade”, mas antes a panorâmica que nos é dada sob a perspectiva ou ângulo de visão captado pelo fotógrafo. Para melhor ilustrar este argumento, passa a demonstrar a importância do acesso à palavra em vários momentos da história. E fá-lo confrontando-os com a situação actual de forma a chamar a atenção para o facto de, mesmo hoje em dia, este acesso à palavra ser um privilégio que não é igualmente acessível a todos: há vozes que são silenciadas. Para a jornalista, em ditadura “tinha de se pensar as palavras com medo à repressão”, mas, no seu entender, hoje faz-se algo semelhante para se continuar a ter voz, numa espécie de censura prévia ou auto-censura: “No jornalismo, em televisão, ouvem-se mais as instituições do que as pessoas; aos interlocutores de discurso inconveniente a palavra é frequentemente cortada e o discurso interrompido. (…) As palavras estão em risco de desaparecerem, desapareceram as tertúlias que são agora substituídas pelas conferências (…). O progresso das novas tecnologias traz também desemprego, sobretudo com a robotização. E com isto os desempregados (além do vencimento) perdem também a auto-estima, perdem amizades e sobretudo perdem capacidade interventiva e de se fazerem ouvir.”

Assumindo um posicionamento de carácter feminista, reportando-se ao exemplo dos protestos das operárias da Triumph, Palla faz notar ainda o quanto o trabalho e a relativa autonomia que traz um salário, por modesto que seja, é importante na vida das mulheres. Do seu ponto de vista, seria importante que a voz colectiva das trabalhadoras da Triumph se fizesse ouvir porque aquele trabalho, para elas, significava também a participação na vida colectiva: “elas recusavam-se agora a ser donas de casa, porque haviam aprendido o convívio e voltar a casa significava o regresso a uma vida de silêncio.” Palla remata ainda com o argumento de que “a beneficência consola as almas [uma almofada que amortece a pobreza] mas não é motor de progresso. Só em liberdade e democracia as pessoas se podem desenvolver.”

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À noite, a Sala de Actos do Teatro Garrett foi palco ainda para o lançamento do livro de poesia, Gadanha, do poeta, declamador e actor Aurelino Costa, e do livro de ensaios Raízes de Pessoa na Galiza, do académico Carlos Quiroga.

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Dia 2º (22 de Fevereiro)

Apesar de não ter estado na Póvoa na manhã do segundo dia, como não também nas duas manhãs seguintes desta 19ª edição do Correntes d’Escritas, recorri, por essa razão a apontamentos e notas manuscritas de uma amiga; mas foi-me possível extrair o essencial dos debates e retirar as minhas conclusões.

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II – O dia de quinta-feira esteve soalheiro e bastante ameno, embora não tanto como o dia anterior e o “Correntes” abriu com a Mesa 2: “Escrever pode ou não ser um acaso de circunstâncias.” Desta feita, a Mesa contou com a presença de Carlos Quiroga (moderador), que havia lançado o seu livro Raízes de Pessoa na Galiza na noite anterior, Isabel Rio Novo, Hugo Mezena, Miguel Real, Alberto S. Santos e Abraão Vicente. O tema gerou alguma discussão, mediante posicionamentos diferentes por parte dos participantes, com propostas por vezes até diametralmente opostas.

Isabel Rio Novo (A Febre das Almas Sensíveis, 2018; Rio do Esquecimento, 2016) descreveu com detalhe as experiências pessoais que moldaram a sua personalidade no sentido da reflexão, encaminhando-a para a escrita. A autora encara a escrita ficcional, que abraçou, como uma espécie de “confirmação do destino”. Ou seja, apesar de moldada pelas circunstâncias da vida, a autora encara a sua inclinação para a escrita como uma espécie de “predestinação”.

Hugo Mezena (Gente Séria, 2018), em contrapartida, vê a sua pulsão para a escrita como o resultado da combinação de uma multiplicidade de factores: personalidade, meios, experiências de vida que irão determinar a tonalidade da escrita de cada um. A estes factores somam-se ainda a influência de outros autores, as leituras efectuadas ao longo de uma vida, que moldam a forma como cada qual encara o fenómeno literário e artístico, a maneira como cada qual é transformado pelo contacto com as diversas pessoas com quem contacta, sem esquecer a importância do “contexto de descontinuidade em que vivemos e a fragmentação dos diferentes níveis de existência daí resultantes”, bem como “as características da vida contemporânea que tornam a produção literária diferente da que existia no passado”. O autor, ficcionista, libretista e músico chama também a atenção para uma consequência inquietante do tempos actuais e que é o culminar de todo este processo: o facto de a obra literária correr o risco de, hoje em dia, “mais do que lida ser, acima de tudo, falada. Pode ganhar mais relevância o que se diz acerca do livro, do que o livro em si, o seu interior”. A isto junta-se ainda, na perspectiva de Mezena, aquilo a que chama de “consciência do público, que o escritor tem diante de si e a relação que estabelece com ele”. Algo que, na sua opinião, é “uma das circunstâncias a que a escrita tem hoje de responder”.

Miguel Real (Nova Teoria do Pecado, 2017; A Cidade do Fim, 2013), por sua vez, encara o acto de escrever como não sendo, de todo, um acaso das circunstâncias. O escritor-ficcionista-ensaísta, gosta de alternar os dois géneros, ficção e ensaio, escrevendo, não raro, mais de um livro ao mesmo tempo. Para si, o impulso para a escrita apresenta-se como uma espécie de “defeito genético”, do qual a escrita ficcional resultaria de uma necessidade intrinsecamente motivada: “No romance, há uma espécie de satisfação e sensibilidade do meu universo emotivo”. Já a motivação para a escrita ensaística resulta, nas suas palavras, da aprendizagem metódica dos processos de reflexão, questionamento do real e aquisição do método [dialéctico e científico] no meio académico: “o ensaio corresponde a um certo pendor analítico que ganhamos na faculdade”.

Alberto S. Santos (A Arte de caçar destinos, 2017; Para lá de Bagdad, 2016) vê a escrita como fruto do acaso, extraindo a inspiração de situações relacionadas com a sua vida profissional (é advogado e já foi autarca) para concluir que a sua escrita surge “no meio do acaso e dos entretantos e das circunstâncias que a vida me permite”.

Para Abraão Vicente (Amar100Medo, Cartas Improváveis e outras letras, 2014;  Dez contos para ler sentado, 2012; O Trampolim, 2010) a escrita nasce a partir da realidade, sobretudo de Cabo Verde, e encontra-se plasmada do riquíssimo património imaterial daquele país e das fortes ligações emocionais a Portugal e à Língua Portuguesa, dando como exemplo o último livro que escreveu, A feiticeira de Fonti Lima (infanto-juvenil) de 2017. A este trabalho, o autor descreve-o como “uma incursão pelos contos infantis e pelos contos tradicionais cabo-verdianos”. Remata ainda com a ideia extraída da sua experiência de escritor, e de político (Presidente da Comissão da Unesco em Cabo-Verde), de que “as palavras têm consequências”, “tudo o que dizemos tem consequências.”

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III – Após a mesa da manhã, o foco da nossa atenção passou para a Sala de Actos onde decorriam os lançamentos dos livros de Eric Nepumoceno Bangladesh, Talvez e outras histórias, de Ba Ba Khosa Gungunghana e Ana Luísa Amaral com Arder a Palavra e outros Incêndios.

O livro de Nepumoceno é composto por histórias com figuras femininas no centro de cada trama. Trata-se de um livro que forma um patchwork, marcado pela desarticulação da realidade que é marca do autor e cuja escrita sofre a nítida influência do universo da literatura sul-americana.

Ba Ba Khosa, por seu turno, lançou o romance histórico/saga Gungunghana, agora completa com o volume As Mulheres do Imperador, debruçando-se sobre o quotidiano feminino das mulheres africanas que passa a ser, por via da Literatura, arrancado da penumbra.

Ana Luísa Amaral lançou agora o seu primeiro livro de ensaios, a compilação de artigos escritos durante a sua vida académica, nos quais aborda a teoria queer do ponto de vista das relações de género, sexo, sexualidade, corpo e construção de identidade e de como esta visão pluralista da construção da identidade e do Eu é reflectida na produção literária.

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Após o almoço, café da estação de S. Bento e consulta das primeiras notícias do Correntes d’Escritas no Google, tento descontrair um pouco, mas sei que vou chegar atrasada mais uma vez.

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IV – As conferências da tarde iniciam com a Mesa 3, com o título “Escrevo para dizer o que não sei.” Tal como previa, não consegui chegar a tempo da comunicação de Ana Margarida de Carvalho (Pequenos delírios Domésticos, 2017; Não se pode Morar nos olhos de um Gato, 2016; Que Importa a Fúria do Mar, 2013). A mesa vai quase a meio e tenho de me sentar num camarote. A acústica é perfeita mas a visibilidade para a mesa e para os participantes é bastante deficiente. Recuperando a informação, percebi depois que a comunicação de Ana Margarida de Carvalho foi feita com base na premissa de que a sua escrita incide naquilo que não conhece profundamente, no que toca à localização espácio-temporal da narrativa e também na construção do Eu, preferindo escrever sobre outras épocas, lugares ou continentes, outras pessoas (que não ela própria), outras gentes. A escrita de Ana Margarida de Carvalho vai, pois, de encontro ao tema da mesa no sentido de que se trata de uma escrita que se alicerça na alteridade.

Para Bento Balói (Recados da Alma, 2016), isto apresenta-se, contudo, como um problema, sendo o escritor proveniente de um país (Moçambique) onde está ainda patente uma grave carência de infra-estruturas (tratamento de desperdícios, educação pública acessível a todos, rede eficaz de distribuição de água, saneamento, etc.). Balói depara-se com o problema de como falar de literatura a jovens que não vislumbram perspectivas de futuro ou que simplesmente não possuem formas que lhes garantam a subsistência no presente, por vezes sem mesmo terem no dia-a-dia comida suficiente: “Como saber o que escrever, se no meu país não são os homens a enterrar o lixo mas o lixo a enterrar os homens?”.

Para Filipa Martins (Quanta Terra, 2009) o tema remete para a memória, afastando-se da ideia de que o escritor escreve sobre “aquilo que não sabe”. Para Filipa Martins, a ligação do acto de escrever com o tema prende-se antes à capacidade de questionar, de partir para a descoberta, para o desconhecido. Não deixou, no entanto, de alertar para o facto de a sociedade desvalorizar esta postura (de questionamento, de pensamento crítico, de busca de um sentido para as coisas) logo após a adolescência frisando que “a sociedade gosta de pessoas convictas”.

João Paulo Cotrim (Salazar, agora e na hora da sua Morte, 2016, novela gráfica; A Minha Gata 2012, aforismos; Má Raça, 2012, poesia, il. Alex Gozblau; O Branco das Sombras Chinesas (2012, ficção, com António Cabrita) poeta e, agora, editor, observa que actualmente “lê-se cada vez menos e edita-se cada vez mais”, um contra-senso, um oxímoro dos tempos que correm. Na sua qualidade de editor, diz-se também “leitor de outras escritas e sobretudo de escritas que não são definitivas.” Ou seja, que partem também para o desconhecido, para o experimental.

O último interveniente da mesa, Kalaf Epalanga (Os brancos também sabem dançar, 2017) confessou que o desconhecido é, muitas vezes o ponto de partida para a escrita, à semelhança do que lhe acontece por vezes, também, no quotidiano –“ como é o caso da estadia na Póvoa, onde por duas vezes tive de apanhar boleia com desconhecidos.” O autor angolano gosta de se deixar levar pelas primeiras letras e palavras “que lhe surgem no espírito”, sem saber de antemão como se vai desenrolar a narrativa: “Gosto do desconhecido, de descobrir, mas o escritor parte sempre para o desconhecido a partir daquilo que já conhece.” Termina a intervenção com a ideia de colocar a escrita ao serviço do Outro, das vozes que não são capazes de se fazer ouvir, “de quem não pode ou não consegue dizer.”

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V – No intervalo entre painéis, decorre mais uma conversa entre escritores da rubrica “Correntes à Conversa”. Desta vez a conversa é subordinada ao tema “A Fotografia revela o que Escondem as Palavras” com o escritor Luís Sepúlveda e o fotógrafo Daniel Mordzinsky, que apresentam um ponto de vista diametralmente oposto àquele que foi defendido por Maria Antónia Palla na Mesa 1, quando a jornalista afirmava que “A fotografia não é a realidade”. Sepúlveda e Mordzinsly postulam que “a fotografia mostra a realidade que não pode ser transmitida por palavras em toda a sua inteireza.”

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Saio então um pouco antes da conversa terminar para conseguir lugar no auditório e assistir às comunicações da última mesa do dia.

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VI – Moderada por Renato Filipe Cardoso, que entregou um artefacto simbólico a cada um dos participantes da mesa acompanhado de uma pergunta relacionada ao tema. A mesa contou com a participação de Filipa Melo, Bruno Vieira Amaral, Inês Pedrosa e Eric Nepumoceno.

Filipa Melo (Este é o meu Corpo, 2010), ao receber uma máscara branca veneziana, a significar a alteridade de que fala a sua obra, afirma estar convicta de que a Literatura, por si só não salva. Ilustra a ideia com alusões a escritores clássicos como Turgueniev (Pais e Filhos) ou Göethe (O Lamento do Jovem Werther), em pleno Romantismo, e cujo final dramático desencadeou, na época, uma série de suicídios por imitação, acabando o livro do autor alemão por dar o nome àquilo que hoje se chama em psicologia de “efeito Werther.” A autora reitera ainda que nenhum romance salvará o mundo, até porque, no seu entender, “ler não nos torna forçosamente melhores.”

A autora não quer com isto dizer que a Literatura por si só é má ou inútil, mas sim que um leitor que não possua espírito crítico, pode, por muito que leia, não ser tocado pela Literatura de uma forma positiva. Até porque o próprio escritor, por mais genial que seja, é susceptível de falhar enquanto ser humano e nem sempre ser capaz de, em todas as situações, distinguir o bem do mal. A este propósito, a escritora refere os casos de Leon Tolstoi e Jean Jacques Rousseau, descrevendo o primeiro como alguém “egocêntrico e snob”, viciado em jogo e mulheres, e o segundo, apesar de revolucionar a forma de olhar a infância, ter “colocado um filho na roda.” A autora finalizou a comunicação com uma ideia inquietantemente cassândrica: a de que “o conhecimento que a Literatura traz ao mundo chega sempre demasiado tarde.

Bruno Vieira Amaral (Hoje Estarás comigo no Paraíso, 2017; As Primeiras Coisas, 2013), vencedor do Prémio Saramago, recebe das mãos do moderador uma caneta do Benfica, aludindo ao desporto e à violência no desporto presente no seu último romance, Manobras de Guerrilha (2018), com a pergunta “Poderá a arte funcionar como substituto da religião?”, ao que o Autor responde que “sim, a arte pode funcionar razoavelmente como um substituto da religião”, mas “a salvação pela arte, a existir, seria muito incompleta porque, na verdade, não nos salvamos”. Aludindo à extrema violência existente hoje um pouco por todo o globo e ao triunfo da irracionalidade e, porque não, da bestialidade, com fenómenos como o ISIS, a ascensão de movimentos de extrema-direita na Europa, nacionalismos exacerbados, permissividade relativamente à posse de armas de fogo no EUA, a Bruno Vieira Amaral interessa-lhe a escrita que faz com que se reflicta nos valores e na realidade, embora o confronto daí resultante não seja um paraíso. “Mas é-o quando descobrimos um sentido para as coisas”, contrapõe. E é nessa perspectiva que, para Bruno Vieira Amaral, a Literatura pode, de facto, salvar.

A Inês Pedrosa (Desnorte, 2016; Dentro de ti ver o Mar, 2012; Fazes-me falta, 2002) o moderador ofereceu um colar de flores, a lembrar as ilhas paradisíacas do Pacífico, contendo uma questão que a confrontava com o facto de a escrita ser o paraíso (em continuidade com a intervenção anterior). Mas, para a autora, “as palavras são actos e transformam a realidade”, aludindo aos pragmáticos da escola francesa de Linguística: “e quem escreve fá-lo porque e não para”. Mas se o que se escreve salva de facto ou não, os escritores [e os leitores] o dirão”.

A partir daqui, a autora decidiu ler um excerto do romance que se encontra, actualmente, a escrever e que terá por título O Processo Violeta, como uma espécie de provocação ou terapia de choque para o público na sala. O excerto escolhido descreve uma cena de violação de uma professora por um aluno, como retaliação face a uma má classificação na pauta. A cena toda remete para os riscos a que são diariamente sujeitos os professores de ambos os sexos em contexto de trabalho de especial violência, dentro ou fora da sala de aula. O texto, contendo pormenores gráficos em profusão, quer de violência física quer psicológica, causou visível incómodo na sala, mas quase não foi referido na comunicação social. A sua leitura visava, sobretudo, apontar sintomas de uma sociedade progressiva e profundamente doente.

Para Inês Pedrosa, a escrita poderá não salvar o mundo, mas pode e deve funcionar como espelho, quer à sociedade como um todo quer ao indivíduo, no sentido de obrigar um e outro a olhar para o abismo mais escuro que há em nós.

Por último, o escritor brasileiro Eric Nepumoceno, que recebeu “o mundo” (um globo terrestre) de presente, responde à pergunta do moderador “O que é que vale a pena salvar no mundo?” dizendo que essa pergunta deverá ser dirigida a Deus (uma vez que ele próprio carece de omnisciência).

Em resposta ao tema da mesa, limita-se a parafrasear o músico Tom Jobim quando questionado o motivo de se dedicar à música: Nepumoceno faz com a escrita o mesmo que o músico com as notas musicais, isto é, ao escrever fá-lo de forma catártica, “para não enlouquecer, para não me matar, para me salvar”. A si mesmo, somente, uma vez que, no seu entender, “escrever é o mais solitário dos ofícios.”

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(Continua. Dentro em breve será publicada a 2ª parte desta reportagem.)

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Imagem de destaque: Hoje a minha loja é uma livraria. Bem-vindo! – Livraria por um dia foi a campanha com que a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim incentivou todos os comerciantes a colaborarem no Correntes d’Escritas (imagem: arquivo do Município da Póvoa de Varzim).

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Outras imagens: Correntes d’Escritas 2018 – 19ª edição (arquivo do Município da Póvoa de varzim).

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Ligações:

Correntes d’Escritas – facebook

Câmara Municipal da Póvoa de Varzim – facebook

 

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Cláudia Sousa Dias

Socióloga do Trabalho e Mestre em Linguística Comparada. Crítica Literária. Autora dos blogues: http://hasempreumlivro.blogspot.pt/ e https://claudiasousadias.wordpress.com/

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