Dar coisas aos nomes | Dizer adeus às coisas

Dar coisas aos nomes | Dizer adeus às coisas

Tanta coisa depende daquilo que decidimos escrever no início de um texto. Houve alturas em que uma folha em branco me deixava em pânico. Um pânico absoluto, paralisante: levantava-me da mesa, ia cirandar pela sala, por entre as estantes de uma biblioteca, ia tirar cópias, comer, arrancar mais apetites ao fundo do estômago, chorar para a casa de banho, ler Dostoiévski. Tudo para me furtar ao confronto com o branco da folha. E ainda é assim, muitas vezes. Mas outras vezes procuro abandonar a imagem destes exercícios como tendo um início e um fim. Fui pondo de parte essas balizas (fui aprendendo a fazê-lo – e falhei quase sempre, mas também aprendi a fazer dessas falhas a medula de tudo o que disponho por escrito). Por isso, faço de conta que vou já a meio. In media res, como nos poemas épicos. Faço de conta que sou aquele miúdo-prodígio no filme de Gus Van Sant, com Sean Connery no papel de um escritor que se desligara do resto do mundo, julgado morto por todos os que lhe leem o único livro conhecido. Na cena em que o miúdo se senta diante a máquina de escrever e nada acontece, William Forrester, o escritor, dá o seguinte conselho, enquanto prontamente o realiza: não penses, escreve. Pensar vem depois. A primeira regra da escrita é essa: escreve. Primeiro, escreve-se com o coração. Depois, intervém a cabeça. Parece um modo muito primário de ver as coisas, mas certas coisas acontecem assim. Algumas resultam.

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Há em certas coisas uma aparente simplicidade que exige de nós algum tempo, até que finalmente percebamos o que nelas dizemos ser simples. E o que é simples nem sempre significa que seja fácil. O evidente nem sempre se presta ao óbvio. Esta ideia fez-me recuperar uma experiência partilhada em junho de 2016 ao jornal Expresso por Maria Filomena Molder, professora e filósofa: “Há uma história de infância que conto num dos meus livros. Eu brincava numa rua íngreme por trás da minha casa. Um dia subi-a, desci e fiz uma coisa que nunca tinha feito, que é olhar para o horizonte. E vi que estava lá o rio Tejo. Foi uma experiência muito forte, a de sentir que aquilo estava lá antes de o ter visto. Onde eu estava a começar, estava a continuar. Nós só começamos depois de continuar.

É incrível esta última frase: “Nós só começamos depois de continuar.” Preciso que a decorem e que a retenham enquanto ouvirem tudo o que vou ler nos próximos e breves minutos. “Nós só começamos depois de continuar.” Penso que esta frase diz muito sobre o momento que hoje nos trouxe aqui.

Porque há tantas coisas que dependem de um encontro fortuito entre três amigos, numa mesa de café. Tanta coisa depende de sair ou não de casa um minuto a menos, um minuto a mais. E essa mínima franja de tempo, esse brevíssimo intervalo que há entre voltares atrás para levantar um bilhete pousado sobre a mesa, ou uma chave, ou outro objeto qualquer, e depois retomares o teu caminho, esse instante, o que nele há de brutal e incomensurável, abriga uma série de incertezas e de acasos felizes. Por exemplo: acontece haver uma nuvem a menos no céu e, de súbito, o Sol desse dia bate de frente no mesmo prédio que ignoras todos os dias quando sais de casa. Nesse instante, num dia de chuva (com tudo o que um dia de chuva fixa numa imagem), o Sol bate contra as janelas, e já não é o prédio aquilo que vês à tua frente, mas a luz intensíssima nos vidros molhados. É por força desse instante (desse efeito que não controlas) que tu interrompes o que pressupunhas ir fazer. Esse brilho, que não esperavas num dia de chuva, reabre-te para a consciência do que significa estar diante desse prédio. Paras, olhas e é, então, que decides: vou fotografar. Tanta coisa depende disso. Uma nuvem a menos, e tens o Sol. Meses depois, ou até anos, tens um livro. Este livro.

 

Há muito pouco de linear nesta narrativa. O quotidiano faz-se de acidentes, do “turista acidental” que há em cada um de nós, roubando uma expressão ao Nuno sobre um dos seus trabalhos. O que hoje está a acontecer aqui – a partilha deste livro, o estar deste encontro – é da ordem dessas súbitas atrações entre coisas e dizeres: “Nuno, leste isto…”, “Diogo, sabias que…”, “Eu e a Ana vimos ontem um filme em que…”, “Encontrei um livro no qual…”, “Vamos tomar café hoje?”, “Vamos”. E fomos. Fomos tomar café imensas vezes. As vezes que tinham que ser. E, a cada vez, este livro, este encontro, foram ganhando a sua matéria insuspeita e, entretanto, foram aproximando-se e aproximando-nos.

(Uma pausa. Ontem, enquanto escrevia este texto na biblioteca, por volta das cinco da tarde decidi parar o que estava a escrever e ir lanchar. No fim do lanche, depois de pagar a meia torrada e a meia de leite, a menina do café olhou-me e disse: “Bem-haja”. Quando regressei à biblioteca, soube exatamente como este texto terminaria. Seria assim.)

“Bem-haja”, como se diz por estes lados. Que é como quem diz: ainda bem que existes, e eu agradeço-te por isso. Ou: ainda bem que a tua diferença, a marca inevitável do que és, do corpo que tens, do espaço e do tempo em que esse corpo que és contiguamente se realiza, se idealiza, se expande – ainda bem que tu existes. Conceder prioridade à existência das coisas e dos seres – eis o que, para mim, significa fotografar e pensar a vida por imagens como estas que consignam a série do Nuno Leão. Bem-haja tudo o que nos aproxima de uma simples laranja ao pé de um balde invertido junto a um tanque. Bem-haja tudo o que nos leva ao lugar onde repousam detritos do que fora, em tempos, uma fábrica qualquer, ou a água no chão depois da chuva, ou uma sombra, etc., etc., mais o olhar que tudo isso capta, que pensa, olhando, sobre tudo isso que vê. Como no poema de William Carlos Williams, com o qual termino o ensaio que depois podereis ler: “Tanta coisa depende // de // um carrinho de mão // vermelho // reluzente de gotas de // chuva // ao lado das galinhas // brancas.” A esta simpatia física, ostensiva, pelas coisas, a esta ternura pelas margens onde essas coisas repousam e nos atraem para súbitos desafios, devo a minha crescente aproximação ao Nuno e à Ana e à Terceira Pessoa. E fico muito feliz por saber e intuir que tanta coisa depende e dependerá disso que nos aproxima. Entre nós e as coisas que trazemos connosco.

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Parabéns, Nuno. Parabéns, Terceira Pessoa.

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[Instantes decisivos] Tanta coisa depende de olhares as árvores ao final do dia, e de ter chovido nesse dia, e de teres tido tempo para parares e olhares as árvores. Tanta coisa depende de não ter chovido nesse momento, nesse momento em que abrandas o ritmo e olhas o cimo das árvores, mais o que ficou do sol depois de posto, mas ainda não inteiramente anoitecido. Tanta coisa depende de estares aí, no meio da rua, e de teres uma máquina contigo. Porque sim, porque calhou. Tanta coisa depende de teres parado. Chegaste dois minutos mais tarde a casa, pessoa tal já tinha saído, pessoa tal já havia chegado. Tanta coisa depende de teres dito que sim, de teres negado um gesto, partilhado um fruto. Anos depois lembrarás o sabor e a pessoa. E a pessoa a quem o deste a provar lembrar-se-á de ti, do teu ar e da tua mão estendida, desse fruto na mão, mais a forma roída das unhas e o lugar inteiro. Tanta coisa depende de como te apoias no chão enquanto seguras a máquina. E do que te levou àquele lugar, a cada hora do dia naquele lugar. Não outro, mas aquele. Tanta coisa depende. Os amigos, um atraso, um pequeno caderno azul. Às vezes, uma morte. E um poema, um que já tivesses lido há muito tempo, um que depois aprendeste, de súbito, a merecer, como todos os poemas justos, os que dizem o que há a ser dito, nem mais, nem menos. A justiça imprópria das pequenas coisas, do mínimo insubstancial: um poema, um charco, um grito. Uma receita nova, o darem-te a provar, o metal do talher rente à boca. Uma ave, a maré, o mês de maio. Uma morte, outra vez. E o tempo. Haver tempo. Reparares melhor no tempo: a respiração que isso leva, o sangue, a noite do corpo. O teu amigo de perfil, a tua mulher de rompante, um flash, um pequeno cão no teu colo, o reflexo de um reflexo num reflexo. Tanta coisa depende de como te sentes quando dizes coração em voz alta. Coração. De como os anos te levam a recordar as coisas, as pessoas. O nome de cada pessoa que já não vês há anos. O nome que fica do último lugar onde as viste. O nome que gostarias de dar a tudo isso e que nunca chega a estar rente ao dizer. O nome que te há-de falhar a vida toda. E por isso lês, por isso estudas, por isso dás, por isso vês, por isso escutas, por muito menos enlouqueces. E citas: “Tanta coisa depende // de // um carrinho de mão // vermelho // reluzente de gotas de // chuva // ao lado das galinhas // brancas.” Tudo começa pelo meio, algures pelo meio, tudo continua começando. Tanta coisa depende do modo como derivas pelo meio das coisas: da chuva, do quarto, das coisas. Tanta coisa, aqui e agora. Tanto.

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(Parte deste texto foi lida na apresentação do livro Dizer adeus às coisas, seguido de Uma teoria da imagem (ou a performance do mundo), com fotografia de Nuno Leão, ensaio de Diogo Martins e design gráfico de Rita Pestana, no Espaço Associação ST.ARTE, em Castelo Branco, a 3 de março de 2018.)

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Ligações:

Associação Terceira Pessoa: http://terceirapessoa.pt/

Evento do lançamento do livro: https://www.facebook.com/events/2074437509501728/?notif_t=event_aggregate&notif_id=1520078271702123

Página pessoal de Nuno Leão: https://nuno-leao.webnode.pt/

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Imagens: arquivo do autor.

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Categorias: Crónica

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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