Ambiente | O Homem do Antropoceno: a perversão do clima e as mensagens perversas

Ambiente | O Homem do Antropoceno: a perversão do clima e as mensagens perversas

“A salvaguarda de um planeta sustentável passa não por alterações comportamentais individuais, mas por alterações sistémicas, e […] os meios de comunicação têm um papel crucial na definição do sentido em que este processo se desenrola.”

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Há uma semana, estive presente num colóquio acerca do estado do conhecimento sobre a globalização, no qual um dos painéis se destinou à sustentabilidade do sistema terrestre. Após serem discutidas algumas das implicações que a globalização tem sobre a sustentabilidade, ficou vincada a ideia de que a salvaguarda de um planeta sustentável passa não por alterações comportamentais individuais, mas por alterações sistémicas, e que os meios de comunicação têm um papel crucial na definição do sentido em que este processo se desenrola, não só pela forma como a mensagem é transmitida, como também pelo conteúdo da mensagem em si. Findo o colóquio, fui comprar o meu jornal semanal e, com alguma surpresa e agrado, recebi-o não num saco de plástico, como é habitual, mas num saco de papel – a meu ver um gesto ecologicamente adorável, não fosse eu da geração que, em função da resposta dada às alterações climáticas, irá determinar a forma como a sociedade vai viver. Num segundo estrato mental de julgamento, reparei, quase em exacta sincronia com o agrado anterior, que no tal saco vinha anunciada uma empresa que almeja levar a energia verde a todas as casas. E foi nesta sucessão de sinapses desse dia que o meu ceptismo se materializou nas presentes linhas.

Descendente da revolução industrial, o Homem do Antropoceno, nascido em meados do século XX – altura em que o ser humano começa a ter um impacto significativo sobre o clima e os ecossistemas terrestres -, conta ele mesmo com uma prolífica descendência, na qual eu me incluo. Para além do talento nato para a perversão do clima, o Homem do Antropoceno tem também a capacidade de se exprimir, ou de se deixar espremer, por mensagens perversas.

É neste momento que o anúncio no saco de papel volta a aparecer: como mensagem perversa número um. A tal empresa, de nome Iberdrola, apresenta-se como a maior produtora de energias renováveis da Europa e dos Estados Unidos da América, uma das cinco maiores companhias eléctricas do mundo e o líder mundial em energia eólica. De forma a ter uma visão holística desta empresa, não nos podemos esquecer que se dedica também ao negócio do gás natural e que é a maior accionista do triunvirato da Central Nuclear de Almaraz – cuidado com o “greenwashing” selectivo. Ora, uma empresa que se afirme como campeã nos mercados internacionais não poderá ascender a esse estatuto de outra forma que não pela prossecução do business as usual orientado pelo lucro, caso contrário seria condenada a cair uns lugares no ranking. Paralelamente, e face às exigências climáticas, a transição energética aparece como categórica. Embora à partida me pareça que uma campeã multinacional tenha mais instrumentos para tornar mais imediata esta transição energética sistémica, se ela conseguirá garantir uma transição justa e se resolverá os problemas de precariedade energética, já me desperta algum cepticismo. É necessário perceber se, a longo prazo, esta mensagem é de facto perversa e se esta empresa penderá para o lado das grandes margens de lucro dos actuais oligopólios dos recursos fósseis, ou se tenderá para dar resposta às exigências climáticas e sociais. A transição energética deverá possibilitar a construção de uma sociedade mais inclusiva e equitativa na qual a acessibilidade energética não é da exclusividade dos clientes dos oligopólios das energias renováveis, mas que se abre à democracia energética. Lembro-me agora de iniciativas como a da Coopérnico, uma cooperativa que representa um novo paradigma energético: de produção descentralizada de energia eléctrica a partir de fontes 100% renováveis e criação de emprego verde a nível local, de forma a promover a transição para uma economia mais sustentável.

Vila NOva Online | João Monteiro -Passemos da mensagem perversa número um para a mensagem perversa número dois. Em Lisboa, onde actualmente resido, conseguem ler-se vários cartazes, quer nos transportes públicos quer nos passeios, que alertam para a necessidade de se poupar água. Antes de mais, é também preciso ter em conta o contexto actual em que vivemos. A Cidade do Cabo, capital legislativa da África do Sul, é a primeira metrópole que se debate contra a iminência do dia em que as barragens deixam de ter água para abastecer a população e que as torneiras começam a secar: o Dia Zero. Actualmente, a cidade de quatro milhões de habitantes, limita o consumo diário de água aos 50 litros por pessoa, aplicando coimas a quem ultrapasse esse valor. Se desviarmos o olhar para a nossa capital obtemos o valor médio de consumo de 184 litros diários por pessoa em 2015.

Voltando ao território nacional, onde a escassez de água já bate à porta, ainda que não de forma tão autoritária como na Cidade do Cabo, a mensagem perversa número dois revela, pelo menos, dois tipos de incoerência: a incoerência lógica e a incoerência moral.

O de primeiro tipo, o da lógica, surge a partir de uma premissa completamente lícita e preocupante: o facto de haver escassez de água, mas que se perde na conclusão e falha redondamente o alvo, não acertando quer na solução quer no público. Falha a solução porque a resolução para este problema global, e que nos bate à porta, não passa por fechar a torneira simplesmente porque poupar água não faz chover. Se não houver água, não há água para poupar: simples. Assim sendo, se ambicionarmos de facto uma solução para o problema a longo prazo, a mensagem “Poupe água pelo futuro de todos” é paradoxal. Porque fechar a torneira e poupar água não é a solução, nem uma que garanta per se um futuro, muito menos o de todos. Desta forma, e tendo em conta o seu receptor, a mensagem deveria ser algo deste género: “Cuidamos melhor do que é precioso, portanto deixámos de usar combustíveis fósseis de modo a que possamos continuar a ter água.”

O segundo tipo de incoerência, o da moral, deve-se ao facto de o ónus da responsabilidade ser delegado a quem de facto não deve ser responsabilizado. Deriva da primeira porque, tal como ela, falha o público: o rotineiro utilizador dos transportes públicos não é o réu deste julgamento. Contudo, creio que esta campanha foi positiva por tê-lo advertido da necessidade de mudança que a situação climática exige.

Pegando no mote das exigências, gostava de alertar para a questão nacional actual referente à tentativa de perversão climática que o consórcio GALP/ENI quer levar a cabo no sul do país e que tem assumido algum destaque na imprensa durante a semana passada. O jornal Expresso reportou o episódio vivido em Loulé no passado dia 22, onde autarcas do Algarve e Alentejo, apoiados por movimentos cívicos e ambientalistas, apresentaram uma moção contra a realização do furo para prospeção petrolífera ao largo da bacia de Aljezur, no Alentejo. Este episódio vem já desde 8 de Janeiro, dia em que o secretário de Estado da Energia, Jorge Seguro Sanches, autorizou a prorrogação por mais um ano dos direitos de prospeção das concessões “Lavagante”, “Santola” e Gamba”, localizadas ao largo da Costa Vicentina, prorrogação essa que ficou condicionada a um processo de avaliação de impacto ambiental. No entanto, a Agência Portuguesa do Ambiente continua sem esclarecer se vai ou não exigir a tal avaliação, no âmbito da qual será obrigatória uma consulta pública. Na sequência de uma providência cautelar levantada anteriormente contra o Ministério do Mar pela autorização de furos de sondagem ao largo da Costa Vicentina, foi decretada, na passada sexta-feira, por acordo entre o Ministério do Mar e a Plataforma Algarve Livre de Petróleo (PALP), a suspensão por 90 dias de todos os trabalhos de preparação para a prospeção petrolífera. Ainda com muita tinta a ser corrida sobre ele, este processo é mais um exemplo das tentativas de perversão climática em curso.

Imagens: (0) An by An – Passos Zamith, (1) Cartaz “Poupe mais água”, da Câmara Municipal de Lisboa (João Monteiro)

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Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

João Monteiro

Estudante do curso de Ciências Políticas e Relações Internacionais Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Universidade Nova de Lisboa

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