Observatório de Cinema | 15:17 Destino Paris. Tiro ao Lado, Sr. Eastwood

Observatório de Cinema | 15:17 Destino Paris. Tiro ao Lado, Sr. Eastwood

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Sou um admirador da obra de Clint Eastwood, considero-o não só um gigante cineasta, mas um artista, na forma como problematiza as questões que trata, questionando as suas próprias crenças e convicções; bastará para isso exemplificar com Million Dollar Baby (2004), uma das suas obras máximas, onde explora as suas contradições no que se refere à materialização da eutanásia, sendo ele um conservador confesso.

15:17 Destino Paris apresenta-nos o percurso de vida dos três jovens americanos que evitaram um atentado terrorista a bordo de um comboio (em Agosto de 2015), ao imobilizarem um marroquino ligado a movimentos extremistas. Eastwood nos últimos anos, no pós-11 de Setembro, tem procurado obsessivamente heróis, consciente de que o mundo precisa deles nestes tempos difíceis; mais do que heróis, interessam-lhe pessoas comuns capazes de actos heróicos, como será exemplo Milagre no Rio Hudson (Sully, 2016), em que Eastwood acerta ao valorizar o factor humano, a decisão de um piloto experimentado que contraria todas as máquinas e algoritmos, poupando, assim, 155 vidas. Mas aqui, o tiro sai-lhe completamente ao lado: para lá de enunciar, de forma grosseira, uma espécie de confronto de “bons versus maus – cristãos versus muçulmanos”, ao atravessar a infância dos três personagens, procura complexificar a coisa. São três rapazes comuns, mas um pouco problemáticos, filhos de mães solteiras, com idas ao gabinete do director e tudo mais. O filme torna-se confrangedor, de uma mediocridade surpreendente, no deambular dos três jovens por várias cidades da Europa (Roma, Amsterdão, etc), um interrail a anteceder o atentado, com Eastwood refém da opção ousada de colocar os três homens a interpretarem-se, que apenas parece pretender preparar o anúncio de um deles (com um dos canais de Veneza como postal), Spencer Stone, de que o destino lhe trará uma acção superlativa, decisiva. A somar a isto, Eastwood trata o personagem do terrorista de forma pobre, redutora: umas pernas e uns sapatos a enunciar um qualquer suspense hitchcockiano nos primeiros planos, uma máquina ao espelho na casa de banho, momentos antes de sair para matar.

Curiosamente, a última cena do filme, em que Eastwood mistura imagens de arquivo da condecoração dos três homens (mais um outro, que foi o primeiro a enfrentar o terrorista e que foi baleado) por François Hollande com as cenas que resultaram da rodagem desse acto, em que junta as mães verdadeiras com as actrizes que as interpretam, é a única que apresenta alguma tensão, um conflito (uma sabotagem da linguagem) que nunca encontramos no resto do filme, o que nos deixa a pensar que esta locomotiva de Eastwood poderia ter outro acerto se o arrojo com que ele resolve esta cena tivesse ecos no resto de 15:17 Destino Paris.

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15:17 Destino Paris, de Clint Eastwood – trailer

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Imagens: Capa do filme e cena real de homenagem protagonizada por François Hollnade aos heróis do atentado terrorista representado em 15:17 Destino Paris (Clint Eastwood).

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Vítor Ribeiro

Mestrado em Literatura e Cinema (Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho) com uma tese sob a forma de Guião Cinematográfico, “Em Teu Ventre”, que cruza ao sabor do tempo duas obras de Goethe, “As Afinidades Electivas” e “Werther”; Licenciado em engenharia civil, funcionário público. Programador de Cinema da Casa das Artes de Famalicão, no qual se destaca o Close-up – Observatório de Cinema ( www.closeup.pt ); Presidente da Direcção e programador do Cineclube de Joane ( www.cineclubejoane.org ), desde 1998.

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