Filipa Fernandes

Nutrição | A dieta do Paleolítico é moda ou não?

Nutrição | A dieta do Paleolítico é moda ou não?

A paleodieta, ou dieta do paleolítico, é o tipo de alimentação consumida pelos seres humanos que viveram entre 40 000 e 10 000 atrás, antes de terem a possibilidade de cozinhar os alimentos e quando ainda não existia a produção agrícola. Nesta época os nossos antepassados eram caçadores-recoletores, ou seja, a alimentação baseava-se na carne de caça, insetos, ovos, raízes, grande quantidade de folhas, frutos, bagas, sementes oleaginosas e em regiões dos grandes lagos e da orla costeira, comiam também peixe, marisco e bivalves. Em resumo podemos dizer que a dieta do paleolítico era rica em proteínas, moderada em gordura, baixa a moderada em hidratos de carbono, rica em fibras, com baixo conteúdo em sal e muito rica em vitaminas, minerais e antioxidantes.

Sabemos através de ossadas humanas do paleolítico que os seres humanos desta época tinham dentições impecáveis e bom estado de saúde, já as ossadas datadas depois do período neolítico mostram o aparecimento de doenças ósseas, desgaste articular em indivíduos jovens e o aparecimento de doenças auto-imunes, coincidentemente foi nesta altura que se deram a introdução dos cereais na nossa alimentação.

Foi no paleolítico que o ser humano percebeu que muitos tubérculos, grãos de cereais e leguminosas não podiam ser ingeridos, pois causavam graves danos no organismo. Quando se começou a cozer os alimentos verificou-se que os tubérculos e os grãos, que eram tóxicos quando consumidos crus, passavam a ser melhor tolerados quando cozinhados. Desta forma, os cereais e os tubérculos passaram a integrar a alimentação do ser humano e foram tanto mais utilizados quanto a agricultura se desenvolveu e permitiu a sua produção em maior escala. Porém, hoje em dia sabe-se que os grãos de cereais e alguns tubérculos contêm lectinas na sua superfície, que é uma substância química muito ativa que a planta produz para se defender do ataque de bactérias, fungos, vírus e parasitas. A lectina é tóxica para o nosso organismo, e embora a cozedura do alimento diminua a sua toxicidade, vários trabalhos publicados nos últimos 10 anos mostram que esta consegue manter a sua atividade mesmo após a cozedura. As lectinas que ingerimos estão também a ser associadas ao aparecimento de alergias e intolerâncias alimentares, inflamação e algumas doenças auto-imunes. Estes conhecimentos têm ajudado a compreender o sucesso da paleodieta no tratamento e controle de doenças alérgicas, auto-imunes e doenças que envolvem processos inflamatórios crónicos.

A alimentação paleolítica é baseada no princípio que o ser humana evoluiu muito pouco a nível genético desde o tempo em que a agricultura apareceu. De facto sabemos que as enzimas digestivas necessárias para digerirmos perfeitamente um novo alimento podem demorar entre 5 000 a 10 000 anos a serem criadas em resposta ao contacto repetido a esse novo alimento. Isto significa que as enzimas digestivas que temos atualmente são muito idênticas ao dos nossos ancestrais paleolíticos, e que não estamos preparados para a transformação que nos últimos 100 anos se assistiu na indústria alimentar, a introdução de inúmeras novas moléculas na alimentação como corantes, conservantes, aditivos e organismos geneticamente modificados multiplica de forma incalculável a quantidade de novas substâncias ingeridas diariamente, para as quais não temos enzimas capazes de metabolizá-las.

Assim a falta de enzimas capazes de metabolizar todas estas novas substâncias, que estão presentes em milhares de alimentos atualmente, são uma das causas do aparecimento de doenças crónicas dependentes dos alimentos e por isso deveríamos manter uma alimentação mais aproximada à dos nossos antepassados do paleolítico, pois o nosso organismo foi preparado durante milhares de anos para este tipo de alimentação que permitiu aos nossos ancestrais evoluírem e desenvolverem o seu potencial cognitivo.

Segundo vários autores, foi a ingestão de uma dieta rica em ácidos gordos polinsaturados ómega 3 que permitiu aos nossos antepassados do paleolítico o desenvolvimento do cérebro e das suas capacidades cognitivas de uma forma nunca antes alcançada por qualquer outro ser vivo. De facto o cérebro do ser humano é constituído por uma grande percentagem de ácidos gordos polinsaturados ómega 3, especialmente o DHA proveniente dos peixes, mariscos e bivalves. Quando não ingerimos este nutriente na quantidade devida as células cerebrais não conseguem desempenhar as suas funções, pelo que é comum surgirem complicações de memória e de concentração, perturbações de sono, e o aumento da manifestação de sinais de ansiedade, irritabilidade e depressão.

Atualmente a paleodieta é considerada uma dieta contemporânea e tornou-se popular a partir da década de 70  através do livro  “The Stone Age Diet: Based on in-depth Studies of Human Ecology and the Diet of Man“ do gastroenterologista Walter L. Voegtlin, que prescrevia esta dieta para o tratamento dos seus próprios doentes com problemas de colite, síndrome do intestino irritável e indigestão.

Os alimentos que compõem este tipo de alimentação, atualmente, são a carne e o peixe, o menos processados possível, sendo habitual o recurso a estes alimentos crus ou fumados; os ovos, o marisco e os bivalves; as sementes e as frutas oleaginosas; os legumes e as frutas, preferencialmente os frutos vermelhos, sendo evitadas as frutas que foram sofrendo muitas alterações genéticas para melhorar a produção e as que têm maior valor calórico; e muito raramente pode ser usado algum mel. Nesta dieta não pode entrar o açúcar ou quaisquer alimentos adoçados; o leite e todos os lacticínios; os grãos e os farináceos provenientes de agricultura (leguminosas e cereais); e todos os alimentos industrializados que contém substâncias como conservantes, estabilizantes, aromatizantes, entre outros. Basicamente tudo o que os nossos avós não conhecem não deve entrar na nossa alimentação.

E então podemos dizer que a dieta do paleolítico é mesmo outra dieta da moda? Na minha opinião não. A ciência, de facto, mostra-nos que estamos a introduzir demasiado depressa toda uma série de novas substâncias sobre as quais ainda sabemos muito pouco. Na verdade, quando adotamos este tipo de alimentação, o nosso organismo adapta-se em poucas semanas a este novo modelo, em que se privilegiam os alimentos que a natureza nos dá e não os “alimentos” que a lucrativa indústria alimentar nos dá como as melhores opções.

Um dos problemas com os quais nos debatemos é o facto de não ser do interesse da indústria alimentar pesquisar e testar mais as substâncias que são utilizadas nos produtos processados. Infelizmente os interesses económicos sobrepõem-se a tudo o resto. Assim, cabe a cada um de nós procurar saber mais sobre o nosso organismo, aprender a olhar para os rótulos dos alimentos e perceber o que nos faz bem e é essencial para bom funcionamento do nosso corpo, bem como aquilo que nos faz mal e cujo consumo diário deve ser evitado.

Com tudo o que escrevi não quero dizer que as pessoas deixem de comer completamente tudo o que escrevi aqui, como é óbvio sei que é muito difícil jantar fora com amigos ou ir a uma festa e comer uma refeição 100% paleo, porém não é aquilo que fazemos 1 ou 2 vezes por semana que tem a maior repercussão na nossa saúde mas sim o que fazemos diariamente, as nossas escolhas do dia-a-dia podem evitar ou potenciar o aparecimento de diabetes tipo 2, doenças cardíacas e vários tipos de cancro. Está, então, nas mãos de cada um de nós melhorar a nossa saúde e começar a fazer escolhas alimentares conscientes.

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Imagem de destaque: Nartureza-morta (baseada em natureza-morta de Floris Claesz van Dijck) (Rita Pimentel; ilustração).

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Categorias: Ciência

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Filipa Fernandes

LIcenciada em Ciências da Nutrição pelo Instituto Superior de Ciências Egas Moniz. Membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas nº 2906N.

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