Azenhas, moinhos e açudes no Vale do Ave | História, cultura, património e inovação: Parte IV – Apogeu (Sécs. XIV – XIX)

Azenhas, moinhos e açudes no Vale do Ave | História, cultura, património e inovação: Parte IV – Apogeu (Sécs. XIV – XIX)

«De todos os progressos técnicos realizados entre os séculos X e XIII, talvez o mais notável e espectacular seja a expansão do moinho de água e a sua adaptação a muitas indústrias. No século VI, na Gália, contavam-se menos de 10 rodas hidráulicas; elas contavam-se por centenas no século XII e por milhares no século XIII.» 1

Como vimos no artigo anterior, o impulso gerado pelo reino e pelas ordens religiosas no empreendimento de azenhas e moinhos durante os sécs. XII e XIII resultou numa continuada expansão destes engenhos nos séculos seguintes.

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Figura 1: Gravura com 5 Azenhas e 3 Moinhos de Vento na cidade de Nîmes, na região de Languedoc, no Sul de França; Autor: Frans Hogenberg; Ano: 1569; Fonte: Musée National et domaine du château de Pau.

Com os benefícios adquiridos através dos Descobrimentos [1415-1543] – aquisição de novos conhecimentos sobre tecnologias mecânicas aliada à capacidade económica para empreender, resultou na proliferação de novos pólos industriais de Norte a Sul do País. No setor da indústria de moagem verificamos uma considerável evolução devido ao incremento do cultivo dos trigos revestidos e do milho maiz2 , espécies propícias à moagem.

Em 1474, D. Afonso V concede licença para a construção de “azenhas flutuantes” no rio Douro, três léguas a montante da Foz.3 Em 1510, o Senado da Câmara do Porto «concedeu a Rodrigo Pereira licença para estabelecer moinhos de barcas [azenhas flutuantes] no areal do Cais dos Guindais, mediante o pagamento de um foro de 10 réis.»4

A opção por esta tipologia – “azenha flutuante” – utilizada durante o século XV na Alemanha – rio Reno, em França – rio Ródano e em Itália – rio Ádige5 , denota um atualizado conhecimento em Portugal sobre as novas tecnologias mecânicas utilizadas noutros Países da Europa.

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Figura 2: Projeto do Moinho Flutuante; Diderot; Alembert, Jean Batiste Le Rond d’; «Encyclopédie, ou Dictionnaire Raisonné Des Sciences, Des Arts et Des Métiers, Par une Société de Gens De Lettres»; 1717-1783; Autor: Robert Bernard; Fonte: Arquivo pessoal.

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Figura 3: Pintura onde se vê 10 azenhas flutuantes no rio Ádige e castelo de S. Pietro [ao fundo], na cidade de Verona, em Itália; Autor: B. Bellotto; Ano: c. 1745-47; Fonte: National Trust Images.

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Figura 4: Azenhas flutuantes no rio Ádige na cidade de Verona em Itália; Autor: Desconhecido; Ano: 1897; Fonte: http://www.verona.net/it/itinerari/in_bicicletta_seguendo_l_adige.html; Consultado em: 24/01/2018.

O mesmo rei concede a execução da «Ferraria de Barcarena» que viria a transformar-se mais tarde, no reinado de D. Manuel I, na «Casa da Armaria», conhecida atualmente pela «Real Fabrica da Pólvora de Barcarena», renovada e ampliada no séc. XVII a partir do projeto da autoria de Leonardo Turriano, engenheiro-mor do reino durante o domínio filipino.6

Imbuído neste clima de crescimento, inovação e industrialização, fomentado nos reinados de D. João II, D. Manuel e D. João III, constata-se neste período uma aposta na construção de Azenhas, Moinhos e Engenhos Hidráulicos por todo o País, nomeadamente no Vale do Ave. Com o crescimento urbano das cidades do Porto, Braga, Guimarães e Vila do Conde aumentam as necessidades de abastecimento. Na alimentação – a moagem de cereais, na construção – a serração de madeira, e no setor têxtil – a maceração do linho e o pisoar da lã. Nos sécs. XVI e XVII, o Vale do Ave transforma-se num importante pólo industrial constituído por inúmeras Azenhas, Moinhos e Engenhos destinados a múltiplas funções além da moagem, tais como: serrar madeira, esmagar enxofre ou azeitona, macerar o linho e pisoar a lã.

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Figura 5: Pisão de Panos – Dessins artificieux de toutes sortes de moulins; Autor: Jacques Strada; Ano: 1617-18; Fonte: Felípe II – Los ingenios y las máquinas.

Na Trofa, em 1492, o Cabido da Sé do Porto renovou o prazo da Azenha da Esprela, localizada na margem esquerda do rio Ave em S. Martinho de Bougado.7 Meio século depois, a mesma instituição continuava a ampliar o seu numeroso património espalhado pelo território envolvente à cidade onde se incluíam Azenhas no rio Ave localizadas, nomeadamente, na Trofa.8

Em Vila do Conde, em 1516, no Foral Manuelino atribuído à cidade constam as seguintes referências às Azenhas do rio Ave. «Sam também do dito moesteiro [de Santa Clara] as açenhas debaixo dodito moesteiro e fara dellas como de sua cousa própria que estam no Ryo dave».9 No ano de 1522, Pedro Velho detinha metade do prazo «Fatuirim in prepetum» das Azenhas da Retorta e de Formariz, ambas localizadas no rio Ave nas respetivas freguesias do município de Vila do Conde.10 A Azenha da Retorta, além da moagem de cereais, serrava madeira e triturava enxofre.

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Figura 6: Ilustração das Azenhas do Mosteiro de Santa Clara no final do séc. XIX; Autor: João de Almeida; Ano: 1887; Fonte: O Minho Pittoresco, Tomo II.

Em Vila Nova de Famalicão, o Mosteiro de Landim realizou um contrato de emprazamento datado de 1529 relativo aos moinhos localizados no rio Pele.11 Este facto demonstra que também nos afluentes do Ave foram exploradas azenhas e moinhos ministrados pelos mosteiros e conventos.

Em Santo Tirso, entre os anos de 1635 e 1638, o Mosteiro de São Bento realizou um investimento no reforço construtivo da sua Azenha da Ponte localizada no rio Ave. Frei Bento da Esperança decide «refazer, dos pés à cabeça, e com segurança maior: E fizeramse as azenhas a fundamentis de pedra e cal mui fortes perfeitas e acabadas como estão.12

Após o domínio Filipino, o País retoma a estabilidade económica e a indústria volta a entrar num clima de crescimento e renovação gerado essencialmente pelas políticas empreendedoras do reinado de D. José I, na segunda metade do séc. XVIII. Nesta altura, nascem, com incentivo do Reino, novos empreendimentos industriais privados por todo o País, nomeadamente no têxtil – Covilhã e Fundão, no vidro – Marinha Grande, na produção de açúcar refinado – Lisboa, no fabrico de papel – Alenquer, entre outros. Nesta época o Vale do Ave era já um importante pólo industrial onde se destacava o setor da moagem, como demonstra o Inquérito Paroquial de 1758. Em Vila Nova de Famalicão existiam mais de 176 azenhas, moinhos e engenhos hidráulicos. Ao longo do rio Pelhe existiam 31 Moinhos, 3 Pisões de Panos e 3 Lagares de Azeite. E mais concretamente no mesmo rio, na freguesia de Gavião, existia um importante núcleo de produção de farinha formado por 18 moinhos hidráulicos, 1 lagar e 1 pisão.

Após o flagelo provocado pelas Invasões Francesas, a moagem de cereais no Vale do Ave retomou, década após década, a normalidade. Na segunda metade do século XIX, o contexto político, social e económico altera-se profundamente. A revolução industrial começa-se a sentir em Portugal e surgem inovadoras máquinas e novas fontes de energia que revolucionaram a produtividade em diversos setores; e a moagem de cereais não foi exceção. No entanto, no nosso País, os avanços tecnológicos foram sempre pontuais e só se afirmaram verdadeiramente com o aparecimento da eletricidade. Deste modo as indústrias de moagem, acionadas por inovadoras máquinas a vapor, conviveram lado a lado com as tradicionais azenhas e moinhos hidráulicos durante a segunda metade do século XIX e mesmo no início do séc. XX.

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Figura 7: Azenha da Barca – Trofa [à direita] e Azenha da Agra da Várzea – Vila Nova de Famalicão [à esquerda]. Pintura da Defesa da Barca da Trofa – Segunda Invasão Francesa; Fonte: Arquivo pessoal de Alberto Lima.

Mas foi no final do séc. XIX que o número de instalações atingiu o registo mais elevado. De acordo com o levantamento realizado em 1880 pela Direção Geral dos Trabalhos Geodésicos do Reino nos municípios de Vila do Conde, Vila Nova de Famalicão, Trofa e Santo Tirso existiam 59 azenhas no rio Ave. Em 1889 de acordo com o Inquérito Industrial encontravam-se registadas em Vila do Conde: 168 azenhas, 42 moinhos, 3 engenhos de macerar o linho e 2 serrações hidráulicas. No total, estavam registados 247 casais de mós e 3 cilindros de “massar linho”. Em Santo Tirso contabilizaram-se: 66 azenhas, 6 engenhos de macerar o linho e 6 serrações hidráulicas. No total estavam registados 333 casais de mós e 16 cilindros de “massar linho”.13 Considerando as referências deste Inquérito verificamos que não existem indicações a pisões de panos, o que leva a supor a sua extinção durante o século XIX.

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Figura 8: Azenhas do Mosteiro de Santa Clara; Autor: Marques Abreu; Ano: c. 1900; Fonte: Arquivo pessoal José Cunha.

Podemos assim concluir que as Azenhas e Moinhos no Vale do Ave tiveram diferentes fases de «Expansão» até atingirem o seu «Apogeu». A sua primeira expansão ocorreu nos sécs. XIII e XIV durante a época medieval; nos séc. XV e XVI evoluíram com o Renascimento; no séc. XVIII progrediram com o Iluminismo. E no séc. XIX, finalmente, atingem o seu «Apogeu», dado o elevado número de registos verificados. Mantiveram-se assim até meados do séc. XX, resistindo ao incontornável progresso industrial. Só na segunda metade do séc. XX é que se vislumbra o seu «Declínio» generalizado, como veremos no próximo artigo.

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1 Ministério das Obras Publicas, Commercio e Industria. Inquérito Industrial de 1890. Direcção Geral do Commercio e Industria, Vol. IV, Industrias Fabris e Manufactureiras (Inquerito de Gabinete), Imprensa Nacional, Lisboa, 1891, pp. 609-610, 624-625.

2 MARTINS, António; FARIA, Emília Nóvoa. Mosteiro de Santa Maria de Landim – Raízes e Memória. Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, 2002, pp. 149-150.

3 CORREIA, Francisco carvalho. Mosteiro de Santo Tirso – Elementos para a História da Arte. Vol. V, Câmara Municipal de Santo Tirso, Braga, 2013, p. 231.

4 SILVA, José Pereira. Trofa S. Martinho de Bougado – Esboço de uma Monografia. Livraria Sólivros de Portugal, Trofa, 1981, p. 83.

5 SANTOS, Cândido Augusto Dias dos. O Censual da Mitra do Porto – Subsídios para o estudo da diocese nas vésperas do concílio de trento. Documentos e memórias para a História do Porto XXXIX, Publicações da Câmara Municipal do Porto, Porto, 1973, p. 129. «O património da Mitra do Porto em 1542 era constituído por bens imobiliários e por rendas e direitos fiscais de vária origem. Entre os primeiros contam-se: casas, casais, campos, leiras, hortas, pesqueiras, arroteias, herdades, quebradas, agras, devesas, cavadas, courelas, azenhas, etc.»

6 SILVA, Francisco Ribeiro da. «O Foral Manuelino de Vila do Conde» in Vila do Conde – Boletim Cultural da Câmara Municipal de Vila do Conde. 3ª Série – Nº 1, Marta Miranda (Coord.), Câmara Municipal de Vila do Conde, Vila do Conde, 2016, p. 38.

7 Documento consultada no Arquivo Municipal de Vila do Conde. Nº de Inventário: 3428/2-15.

8 GOMES, José Luís; CARDOSO, João Luís. «As “Ferrarias del Rey” em Barcarena: subsídios para a sua história» in Estudos Arqueológicos de Oeiras. Vol. 13, Câmara Municipal de Oeiras, Oeiras, 2005, pp. 24-28.

9Em 1480 o rio Ádige disponha de 7 Azenhas Flutuantes. Em 1575 o seu número aumentou para 42 exemplares. Em 1584 eram 52 em atividade.

Em linha: https://it.wikipedia.org/wiki/Mulino_natante#I_mulini_natanti_dell’Adige; Consultado em 24/01/2018.

10 MARQUES, António Henrique de Oliveira. História de Portugal – Desde os tempos mais antigos até à presidência do Sr. General Eannes. 9ª ed., Palas Editores, Lisboa, 1882 [1ª Ed. 1972], pp. 292-293. «Entre as novas culturas introduzidas ou divulgadas durante este período, o primeiro lugar pertenceu indubitavelmente ao milho. Importado da América pelos castelhanos nos finais do século de Quatrocentos ou começos do seguinte, era já conhecido em Portugal antes de 1525. Contudo, não foi antes dos séculos XVII e XVIII que a verdadeira «revolução do milho» se fez sentir sobre os hábitos conservadores dos campónios nortenhos, com seu impacte sobre a alimentação, as técnicas, a produtividade e as rendas. Os alicerces, porém, haviam sido lançados bem antes.»

11 CASTELO-BRANCO, Fernando. «Os moinhos na economia portuguesa» in Revista Portuguesa de História. Tomo VIII, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Históricos Dr. António de Vasconcelos, Instituto de Alta Cultura, Coimbra, 1959, p. 39.

12 OLIVEIRA, Ernesto Veiga de; GALHANO, Fernando; PEREIRA, Benjamim. Tecnologia Tradicional Portuguesa – Sistemas de Moagem. Instituto Nacional de Investigação Científica – Centro de Estudos de Etnologia, Lisboa, p.88.

13 OLIVEIRA, Ernesto Veiga de; GALHANO, Fernando; PEREIRA, Benjamim.Tecnologia Tradicional Portuguesa – Sistemas de Moagem. Instituto Nacional de Investigação Científica – Centro de Estudos de Etnologia, Lisboa, p.76 (Nota 226).

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Imagem de destaque: Azenha de São ou do “Barroso” – Rio Ave [margem direita] freguesia de Ribeirão – Vila nova de Famalicão (detalhe); Ano: Meados do séc. XX; Fonte: Arquivo pessoal Alberto Lima.

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Bruno Matos

R. Bruno Matos (Trofa, 1978). Arquitecto, (FAAUL, 2003), concluiu a licenciatura como bolseiro ao abrigo do programa Erasmus-Sócrates na Escuela Técnica Superior de Arquitectura da Universidad de Valladolid. Mestre em Metodologias de Intervenção no Património Arquitectónico, (FAUP, 2012). Prémio Ibérico de Investigação em Arquitectura Popular, (Zamora, 2012). Doutorando no Programa de Doutoramento em Arquitectura - perfil “Património Arquitectónico”, (PDA-FAUP, 2012), com bolsa individual de doutoramento concedida pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT, 2013-2017), onde desenvolve investigação sobre património molinológico constituído pelas azenhas e açudes do rio Ave (2008-2017). Membro associado da TIMS - The International Molinological Society, da ACEM - Asociación para la Conservación y Estudio de los Molinos e da RPM - Rede Portuguesa de Molinologia. http://orcid.org/0000-0003-4437-5739

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