Dar coisas aos nomes | Aproximações (notas sobre fotografar)

Dar coisas aos nomes | Aproximações (notas sobre fotografar)

As primeiras vezes, a primeira vez de cada primeira vez. Primeiro, mergulha-se a fundo. É-se irresponsável, faz-se como os putos diante o mar e o rebentar das ondas, sempre primeiras, sempre inaugurais, atiramo-nos à água como pequenos duendes febris, e só depois podemos finalmente dizer que o nosso corpo se molha e que nele o sol se injeta e a água tem sabor a sal. Talvez seja assim com todos os ofícios, ou com tudo o que, mais tarde, se possa tornar uma expressão delicada de fazer mundos a partir do mundo, a pequena ilha onde nos subtraímos à penosa urgência de dar um sentido à morte de Deus e às demais ruínas neste circo comum. E, dessa recusa, à margem de tudo, um sentido emerge, fica mais claro. Literalmente: emerge, aparece. E, por isso mesmo, dispensa notas de rodapé ou explicações de maior. Existe e, nessa imanência, acrescenta-se ao mundo, põe-se a seu lado. Não legenda: apenas existe e se dá a ver enquanto existência.

Vila Nova - Famalicão Online | Diogo Martins . Dar nomes às coisas - Aproximações. sobre o fotografar.

Começou mais ou menos assim. Primeiro, olhas as árvores, as cores do fim do dia sobre as árvores, o modo como galhos ponteiam as cores do céu, os halos de nuvem, uma incerta ressonância que te inspira, sei lá, catedrais góticas. Inclinas-te sob as árvores, ajustas o zoom da máquina e disparas. Tens centenas de fotos assim: árvores, galhos, nuvens, céu. A mesma árvore, momentos diferentes do dia. (Roubas a ideia aos pintores impressionistas; só muito depois é que te apercebes de que a ideia, por si só, não vale nada. O importante é teres percebido de que roubaste tudo o resto: a árvore, os ramos, o céu. Tudo o que vês não te pertence: é dessa exclusão que se faz uma imagem, e a imagem emancipa-te como espectador. Mas já lá vamos.) Centenas de fotos, o disco externo cheio delas, o Facebook a piscar no seu despudor exuberante, e anos mais tarde (não são precisos muitos, que uma paixão faz outro tipo de contas) apagas tudo, ou quase tudo. Mas apagas, e é isso que vale, é isso que cria uma certa linguagem que te ajuda a dizer o que os teus olhos veem.

Percebes o problema: a compulsão para fotografar tudo, as vezes que quiseres, cega-te o olhar. O excesso, a sua facilidade porosa, cega-te. Os piores poetas escrevem; os melhores apagam (leste isso algures). E quando já manejas a máquina de uma determinada maneira, quando o seu peso já não te é estranho e te enche a mão, como um órgão que seguras arrancado ao interior de ti, percebes que a poesia do visível exige da tua pessoa cuidados extra. Quanto mais pensas a fotografia, quanto mais te pensas no ato de fotografar, quanto mais pensas o próprio olhar com o qual, vendo, pensas o mundo, ou com o qual, pensando, vês o mundo, quanto mais consciente estás de que, na verdade, cada visão das coisas não é mais que uma aproximação (as coisas nunca são tuas, não esperes pela morte para te abrir os olhos e veres desertos), então mais tendes a dizer que não. Não agora, não é já, não fotografas. Hesitas mais, pensas mais, vês melhor (ou não vês, ponto). Aproximas-te das coisas como quem sonda o animal antes do ataque. Há o perigo da existência que te cerca, o que nas coisas está para além delas, o seu excesso exorbitante, inapreensível. É a sombra que em cada coisa atira a exegese para as urtigas. A malignidade que é constitutiva de cada estranho que passa na rua, de um entrançado de arames, dos vestígios de água num monte de telhas, ali, ao pé de um tanque (quanto mais te reconcilias com a tua própria substância maligna, a sombra inseparável do teu corpo, mais naturalmente aceitas este género de convite: o deixares-te levar pela simpatia física diante tudo o que existe, sabendo de antemão que não há chave que decifre este enigma, este súbito fascínio por um nicho de água no cimento urbano, pelo teu pai, de costas, a rachar lenha, ou por um alguidar azul rente ao branco de um muro. Deixas-te estar assim, só assim, e mais nada. Não pedes sequer uma palavra em troca, exceto que te deixem em paz, a gozar do teu direito a ter direito à solidão).

Aproximas-te. E nessa aproximação dás corpo a uma incerta solenidade pelo visível, pelas próprias leis que orientam, ínsitas, obscuras, a ciência do visível. Aproximas-te, e esse gesto consciente do corpo, da mão, do olhar, da máquina, tudo isto constitui um pacto silencioso de respeito com o mundo, com as coisas, as cores, as formas, os volumes. Susténs até a respiração – porque algures, nos próximos segundos, aquilo que vês decidirá quanto ao futuro e à permanência de um objeto, de um horizonte, de um levantar voo, sob a forma de uma imagem fotográfica. Depois de captada, uma instância lumínica dirá a outros olhares que tu viste aquilo. Tu. Viste. Aquilo. Por alguma razão obscura (mas a obscuridade tem luzes, ou é ela que nos faz reparar na fragilidade do que brilha: não é isso a noite?), essa instância dirá que aquilo que fotografaste merecia e merece ser visto, ser preservado, servindo de interrogação permanente (e servindo, inclusive, a justa indiferença dos olhares). Eis a fulguração anónima das coisas, o anonimato que o tempo obstinadamente acentua: o enigma de todos os objetos inapercebidos, sempre (e por isso se regressa tantas vezes às mesmas coisas: pois alguma vez se poderá dizer, sumamente, já vi isto, já vi tudo nisto, aqui?). Aproximas-te, assim, dessa incompreensão, desse absoluto. E aprendes a esperar. Porque é do sangue dessa espera que a imagem provém. A vertigem fotográfica, a sua violência, começa por te fazer estar no mundo em bicos de pés. Quase que desapareces. E às vezes sofres. Sofre-se uma imagem que, mesmo depois de muitos anos, te sintas tentado a nunca apagar. É esse o preço a pagar por um momento de beleza.

Depois: nem tudo o que vês se enforma como potencialmente digno de ser fotografado, ou sequer fotografável. E nem tudo o que vês existe para que te ponhas aí a refastelar os olhos, mais a vaidade de os ter. Nem tudo o que vês está prontamente apto a devir imagem, o que na imagem ressuma enquanto fulgor, acontecimento, vitalismo puro. Aquilo que é a existência mesma das coisas (e aquilo que está sob a vertigem de imediatamente deixar de o ser, o aqui-e-agora de cada fotografia, o seu agora-ou-nunca): o pequeno frasco de compota a acabar, a luz que atravessa o vidro, a planta que emurchece ao lado, a fina película de poeira que dá a tudo isto um não sei quê de leveza com gravidade e abandono, uma natureza morta exposta assim na cozinha. E tu, de fora, irremediavelmente de fora, apreendes um invisível intento num conjunto de formas visivelmente chãs. De novo: que nenhuma imagem seja apenas mais uma imagem entre todas as outras que nos cegam. Às vezes, o melhor é desistir, não fotografar, simplesmente ver. E reler Alberto Caeiro: «Deito-me ao comprido na erva. / E esqueço do quanto me ensinaram. / O que me ensinaram nunca me deu mais calor nem mais frio, / O que me disseram que havia nunca me alterou a forma de uma coisa. / O que me aprenderam a ver nunca tocou nos meus olhos. / O que me apontaram nunca estava ali: estava ali só o que ali estava.» E também João Miguel Fernandes Jorge. E voltar a Caeiro e a versos assim: «Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto, / Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão. / A ave passa e esquece, e assim deve ser. / O animal, onde já não está e por isso de nada serve, / Mostra que já esteve, o que não serve para nada.»

Um dia, pouco depois das sete, decides fotografar a Lua (a Lua, meu deus, fotografar a Lua – consegues imaginar combinação mais foleira de palavras, pretensão mais ridícula, essa de chafurdar num cliché até que a própria lama sinta nojo de ti?). Decides sair para fotografar uma lua gigante, tão branca e redonda, o céu roxo, tudo em pose, como que a abrandar a passagem dos segundos para que se desse o momento certo, esse instante em que a imagem se faz pela tua máquina sem o menor vestígio de grão (uma máquina de aparato muito modesto, acostumada às suas limitações), sem que o brilho da Lua contamine de raspagem o resto do cenário que fica no enquadramento visual, o exato momento em que a fotogenia do que vês se realiza e se entrega ao teu rapto fotográfico. Era agora ou nunca, agora ou nunca, agora ou nunca, e foi nunca. Não fizeste disparar a máquina, porque buzinas de carros e uma culpa antecipada te fizeram recuar o corpo, e depois dez, onze, quinze metros, e ver, estendido na estrada, o animal que te seguiu a partir de casa. Era o corpo da tua cadela, rasgado ao meio, e aquela Lua em cima. Nunca mais revi as duas.

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Imagens: Diogo Martins.

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Categorias: Crónica

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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