Rio Este | O Despertar de um Rio

Rio Este | O Despertar de um Rio

«O Rio D’Este, que nasce na freguezia de Sam Mamede d’Este, dista da cidade cerca de uma legoa. Nasce em fonte piquena e em muitos Veraos seca de todo. Nam hé navegavel, por ser piqueno. Cria panchorcas, escallos, bastantes barbos e algumas trutas e anguias. São as pescarias livres em todo o rio. Cultivam-se as suas margens de pam e vinho e tem bastante arvoredo com vides de vinho. Conserva sempre o mesmo nome e nam há memoria tivesse outro.»

In: Memórias Paroquiais de 1758

Publicado por Rui Ferreira, em Braga Maior

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Muito simpaticamente convidou-me o Dr. Pedro Costa para escrever sobre o Rio Este, desafio que aceitei com agrado dada a relação tão próxima que tenho estabelecido com o rio ao longo de vários anos.

Longe vão os tempos em que se tomava banho no Rio, se reuniam famílias nas suas praias e se pescava bom peixe, como barbos, trutas e enguias.

Que saudade – diziam – perante a evidência do “estado de coma” em que o Rio se encontrava, notoriamente “abandonado”.

Neste contexto, nasceu em 1996 a associação Amigos do Rio Este, hoje mais conhecida por AREA e, com semelhante objecto, outras associações como a Vento Norte.

Desde então, e com toda a legitimidade, perguntam, o que foi feito?

Muito, mas “sempre pouco”, pois, admite-se, nunca é demais o que se faz em prol dos outros e, neste caso, da defesa do ambiente.

Foram vários os eventos, caminhadas, acções de sensibilização, palestras, debates, operações de limpeza do rio e espaço envolvente.

Realizaram-se, entretanto, várias sessões culturais no Rio, como concertos, mormente de música clássica, como os ocorridos durante anos seguidos na Ponte de Coura e na praia fluvial do Romão em Nine, com a colaboração da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, e o último, no Parque da Rodovia, organizado em Parceria com a AREA pela Câmara Municipal de Braga, com a participação do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga.

São incontáveis as reuniões, as palestras, as sessões ambientais, principalmente nos concelhos de Vila Nova de Famalicão e Braga, e com o apoio das respectivas Câmaras Municipais, inclusive com equipas de docentes e universitários de várias universidades, Portuguesas e Estrangeiras, entre elas a Universidade do Minho (cuja abrangência e no âmbito de outras iniciativas, como as que vêm ocorrendo desde há alguns anos, com a garantia de excelência da Sra. Arquitecta Manuela Araújo e Dra. Inês Carvalho, na “Casa do Território”, em V.N. de Famalicão, se foi estendendo a outras áreas, destacando-se, sem desprimor para os demais, neste domínio, as brilhantes intervenções dos cientistas, Prof. Dr. Pedro Gomes, Biólogo, Prof. Dr. Renato Henriques, Geólogo, Prof. Dr. Miguel Bandeira, vereador e membro da ASPNA, Prof. Dr. Bruno Castro), e a Universidade Nova de Lisboa.

Tais iniciativas, sempre em prol do ambiente, em concreto, para despoluição, protecção e dinamização do Rio, com a intervenção das escolas, como a de Ruilhe (Externato Infante D. Henrique), e dos autarcas, incluindo juntas de freguesia, já produziram frutos e são já bem visíveis.

Neste conspecto, vários estudos têm sido desenvolvidos, destacando-se a “Requalificação Fluvial no Município de Vila Nova de Famalicão: Rio Este”, de Cristiano Cunha, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e disponível na Web.

Tem sido suficiente?

Claro que não, mas nunca se falou tanto do Rio Este, a nível nacional e internacional, como nos últimos anos.

Quem hoje fizer uma caminhada pelo Rio e, note-se, tem cerca de 47 km para o percorrer, fica admirado, senão espantado em certos pontos do percurso, com a vida que se criou na sua envolvente, com as espécies vegetais e arbóreas plantadas e protegidas, com as cegonhas, as libelinhas, etc.

E os peixes?

Pois bem, desde há uns anos que o rio voltou a ter peixes, pequenos peixes, é claro, contudo, a sua vida tem sido efémera porque, infelizmente, apesar de nos situarmos em pleno século XXI, ainda há quem faça descargas poluentes para o Rio, em muitas das situações de forma impune. Porém, será por pouco tempo, pois o controle tem sido cada vez mais apertado, em especial pelos Serviços de Proteção da Natureza e Ambiente (SEPNA) da GNR.

Já agora, sabiam que o Rio, ao abrigo da iniciativa “Projecto Rios”, foi adoptado, em toda a linha, em pequenos percursos de 500 metros, por várias associações, grupos, etc.? Pois bem, essa brilhante iniciativa, com grande empenho do Eng.º Pedro Teiga e coordenada, no concelho de Braga, pelo vereador Altino Bessa e Eng.ª Cristina Costa, e em Famalicão pelo vereador, Eng.º Pedro Sena, e respectivas equipas, está a contribuir não só para uma mais cuidada intervenção, como a envolver a sociedade civil num projecto que, seguramente, vai produzir grandes frutos.

A ideia é levar os grupos adotantes a fazerem pelo menos uma limpeza no final do estio (quando o nível da água está mais baixo) e uma plantação de galeria ripícola por altura do Dia da Floresta Autóctone ou mesmo Dia Mundial da Floresta.

Associado a esta iniciativa, na continuidade de muitas outras, já se fizeram várias limpezas nas linhas de água e plantações de árvores autóctones nas suas margens.

Altino Bessa, ainda há pouco tempo expressou que é a ambição da CM Braga devolver o rio, na sua plenitude, à população.

No mesmo caminho, e faça-se jus, também com grande dinamismo, o Presidente da CM de Vila Nova de Famalicão, Dr. Paulo Cunha, e o Vereador do Ambiente, Eng.º Pedro Sena, os quais, nesta demanda, além do mais, têm-se insurgido com pulso contra as descargas clandestinas, como a que, a título exemplo, em Abril de 2017 deixou o rio com cor azul e branco e que determinou a deslocação de elementos da AREA e a intervenção dos técnicos municipais da CM de Famalicão e dos militares do SEPNA.

É claro que as organizações ambientais, escolas e as entidades públicas, só por si, não conseguem resolver, na sua plenitude, tais problemas.

Como sustentava Dostoievski, “todos somos responsáveis de tudo, perante todos”, pelo que, valendo-nos desta máxima, faço um apelo no sentido da participação activa da sociedade civil na preservação do rio e a coragem no sentido de proteger, alertar e, se necessário, identificar os poluidores, pois, diga-se com frontalidade, impõe-se outro modo de estar e um sentido de responsabilidade que, com vista ao bem-estar de todos, passa pela participação de cada um.

Fica o desafio, mas também a certeza, que caminha a passos largos para a realidade, de voltarmos a ter as águas do Rio Este cristalinas e cheias de vida.

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Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Carlos Faria

Carlos de Faria Advogado desde 1983. Licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade Portucalense, 1989 Estágio de advocacia, com maior incidência, na área de direito comercial e bancário, com orientação do Dr. Machado Ruivo (V. N. de Famalicão) e colaboração do Dr. António Montalvão Machado (Porto). Pós Graduação “Avaliação do Dano Corporal“. Curso de formação avançada da Universidade de Coimbra (Unifoj – Unidade de Formação Jurídica e Judiciária do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa) sobre Inventário; Curso de formação avançada da Universidade de Coimbra (Unifoj) sobre o Novo Regime do arrendamento urbano - Entre a Lei e a Prática. Frequência contínua de cursos vários e sessões de estudo; Palestrante convidado em cursos de Mestrado, em especial na área Consumo. ´ Participação no Labour 2030 Rethinking the Future of Work, Porto 13 e 14 de Julho 2017. (…) Presidente da “AREA”, Associação de Defesa do Ambiente, desde 1996; Presidente do Conselho de Justiça da Associação de Futebol de Braga, da qual é membro desde 1998, e é actualmente (2017) vice-presidente; Representante das Associações de Defesa do Ambiente no Conselho Cinegético e de Conservação da Fauna Municipal de Vila Nova de Famalicão desde 2001. Portaria Rural Agricultura Desenvolvimento n.º 1719/2001 (…). Vogal do Conselho de Deontologia da Ordem dos Advogados do Porto. Membro do Conselho de Disciplina da Ordem dos Advogados do Porto. Membro associado da Associação Jurídica de Braga. Participação na elaboração do Anteprojecto do Código Deontológico dos Médicos Dentistas Elaboração de estudos vários, entre eles:: A transmissão do direito ao arrendamento. A função do advogado e a Verdade; O contributo do perito no “alcance” da justa indemnização. (…)

Comentários

  1. Anónimo
    Anónimo 22 Fevereiro, 2018, 11:58

    O Município de Braga lançou o desafio de adoção do Projeto Rios a escolas e outras entidades (associações, empresas, e até se veio a alargar a famílias e grupos de amigos) pois é importante que a comunidade, como um todo, se ligue ao rio, pois “Só preservamos o que amamos. Só amamos o que percebemos. Só percebemos o que conhecemos.” (Baba Dioum). Assim, é essencial que se envolvam, conhecendo, percebendo, amando para, finalmente, preservarem.
    Ao termos mais “guarda-rios” a fazer visitas e melhorias (limpezas e plantações de galerias ripícolas), temos mais denúncias e os prevaricadores têm mais hipóteses de serem apanhados, tendo então maior probabilidade da água se manter limpa e o ecossistema preservado. Há muito a fazer pois mentalidades não se mudam de um dia para o outro, pelo que há que ser persistente.

  2. Anónimo
    Anónimo 20 Fevereiro, 2018, 11:38

    Um exemplo a seguir, nao so ao nivel nacional, mas tambem internacional, que demonstra o sucesso e o poder que nos podemos ter, quando reunidos para um objetivo comum. So posso dar os parabens a esta associacao, e em particular ao Dr Carlos Faria, para mim motor determinante para este sucesso.

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