Riba d’ Ave | Passo a passo para “o fim da vila”

Riba d’ Ave | Passo a passo para “o fim da vila”

Em Riba de Ave, ainda se sentem consequências da queda dos têxteis. O corte nos contratos de associação atrapalha as duas escolas. Agora os CTT estão prestes a sair do mapa.

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Os legumes e as frutas estão protegidos pela cobertura, feita de paus e de estacas que seguram algumas lonas brancas. Sem grandes pressas, os populares vão escolhendo os melhores exemplares. No mercado, tratam-se todos por tu e ninguém parece apoquentado pela chuva forte e insistente. Há temas de conversa mais importantes do que o tempo encoberto que faz cá fora.

Desde há algumas semanas que a possibilidade de encerramento da loja de correios está na cabeça de todos em Riba de Ave. Com sacas em punho, parece que Irene Santos tem o discurso ensaiado. “Acho que é uma decisão catastrófica”. Mas não. As coisas saem-lhe naturalmente, tal é a indignação. “A continuar assim, Riba de Ave vai desertificar-se”.

A decisão de encerrar aquela loja dos CTT, a escassos metros do mercado semanal, foi conhecida no dia 2 de Janeiro e caiu que nem uma bomba nesta vila do concelho de Famalicão. Privatizada em 2013, esta medida faz parte de um “plano de reestruturação” da empresa, que prevê reduzir em 22 o número de estações, assim como o despedimento de mais 800 trabalhadores até 2020.

Irene usa os correios com frequência e, como ela, “muitos ribadavenses”, cerca de 3500 ao todo, que, “muitas vezes, fazem fila para irem aos correios”.

Despachada e decidida, a mulher de 64 anos mora ali “há muito tempo” e sabe que a vila já viu dias menos nublados, como este sábado. “Foram as fábricas, depois as escolas com o corte dos contratos de associação, depois a Caixa Geral de Depósitos, a seguir vão os CTT e a seguir virá outra coisa,” diz, exasperada em pleno mercado.

Esse mesmo mercado é sinal da pujança de uma indústria têxtil que há três décadas ajudava a freguesia subir a vila. Dona do espaço do mercado e de muitos outros edifícios da localidade, a Fundação Narciso Ferreira carrega no nome a figura mais importante na história de Riba de Ave. O homem que, no final do século XIX, iniciou a Sampaio Ferreira & Cia. Lda., dando o pontapé de saída numa das frentes mais conhecidas da indústria têxtil do Vale do Ave.

O nome de Narciso Ferreira está presente em quase toda a vila, seja no nome de ruas, do hospital e do teatro local, ou de placas que marcam o património da fundação. Uma delas está precisamente no edifício onde se encontro a loja dos CTT, que parece eternamente ameaçado por uma das duas grandes chaminés de tijolo de uma antiga fábrica.

As chaminés são, ainda, da Sampaio Ferreira que, depois de um período áureo em que empregou quase 2 mil pessoas, fechou em 2005, reduzida a 200 trabalhadores e com salários em atraso. Resta hoje um vasto conjunto de edifícios que se impõe perante o rio que dá nome a Riba, memória de tempos mais coloridos.

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“Olhe, não vejo alternativa”

No mercado, enquanto se lamenta a trajectória descendente da vila, o dia continua cinzento. A chuva obriga a que, pontualmente, se pegue numa vassoura e se use o cabo para aliviar, com estrondo, o peso da água nas lonas.

Irene diz que não vê alternativa ao actual posto dos CTT. Nem em Famalicão, nem em Guimarães, porque “a população é idosa” e a grande maioria “não tem meios de transporte”. “Não vejo, de facto, que esta medida seja alguma coisa de admissível”, afirma, despedindo-se de quem lhe fez companhia nesta manhã de compras.       

Quem está melhor é Maria de Lurdes, abrigada no seu ofício. Utente dos correios “já há muitos anos”, acha a decisão má. A única alternativa que a talhante vê é ser a junta de freguesia a tomar conta dos serviços, ainda que de forma reduzida. Para a dona do pequeno Talho Lula, Riba de Ave “parou no tempo”.

Apoiada pela câmara municipal, a junta de freguesia tem sido o rosto da população contra o eventual encerramento do estabelecimento. Como em muitas localidades país fora, Riba de Ave pode vir a ter a junta de freguesia como gestora serviço público postal. Os CTT têm, actualmente, 623 lojas, 1.744 postos de correio e 2.020 postos de venda de selos.

A diferença entre loja e posto de correios é a gestão. Ao passo que uma loja é gerida directamente pelos CTT, num posto a gestão é feita por terceiros. No caso do posto, a empresa não tem encargos com rendas ou salários, mas também não pode prestar serviços financeiros, como certificados de aforro. É uma espécie de franchising que traz aos CTT enormes ganhos financeiros: deixa de ter os principais encargos decorrentes da gestão do espaço e mantém os serviços postais básicos, como envio de cartas e encomendas e pagamento de facturas.

Os CTT pagam às entidades gestoras de um posto uma percentagem da facturação que essa entidade conseguir. Muitas juntas de freguesia aceitam as parcerias com os CTT porque entre não ter uma loja ou assumirem elas o serviço através de um posto, preferem a continuidade através da sua gestão directa.

Já na óptica do cliente, na prática, uma loja ou posto é a mesma coisa. Por isso é que Maria de Lurdes nem entra na discussão económica do assunto: “Se dá prejuízo ou não, não sei”. Mas sobre a discussão política, é peremptória: “Fiquem já a saber que se a decisão vem de cima, é mesmo para fechar!”.

O discurso de Maria de Lurdes parece ir de encontro a alguns pontos presentes no plano de reestruturação dos CTT. A queda do negócio central da empresa – o correio propriamente dito – tem causado danos nos lucros que tinha em Setembro do ano passado, tendo caído mais de 57% face aos primeiros nove meses de 2016.

Apesar dos lucros globais terem descido, a culpa não está totalmente nas 22 lojas a encerrar. Na verdade, só duas delas dão prejuízo: a do Arco da Calheta, na Madeira, e a de Barrosinhas, em Águeda. Os últimos números mostram que Riba de Ave deu um lucro de 64 mil euros.

“Se fecharmos os CTT, quase ninguém passa cá”

Abrigada da chuva como Maria de Lurdes está Letícia Costa. Noutro canto do mercado, as roupas à venda na loja são da mãe, mas aos sábados é a filha que toma a dianteira do negócio. E a mãe é mesmo o exemplo de quem a filha se socorre para contrariar a intenção de encerramento dos CTT: “Ela já tem alguma idade. Utiliza esta loja e não se desloca a lado nenhum Com ideias semelhantes às , mas com ideias semelhantes, está Letícia, que toma conta da loja de roupa da mãe aos sábados para que ela possa descansar. A mãe de Letícia, já com “alguma idade”, também usa apenas a loja dos correios em Riba de Ave e, como muitas outras pessoas, não tem possibilidade de se deslocar a outro lado.

Letícia é da opinião de que os correios de Riba de Ave têm afluência suficiente para se manterem abertos. Já a dona do Talho Lula acredita que há um fundo de verdade para declarar que dão prejuízo, já que “um deles diz que dá”. E que, se ainda fossem públicos, os CTT não encerrariam estações.

O próprio mercado beneficia da existência da loja dos CTT ali ao lado, diz Letícia. É que, apesar de “todos termos os nossos clientes habituais, quando as pessoas passam vêem uma montra e entram”. Algo que é amplificado durante o mês de Agosto. O medo é que, com o encerramento, mais lojas do comércio local fechem por não serem sustentáveis.

Enquanto as explicações populares vão contradizendo as justificações oficiais, os 22 balcões, aos poucos, vão encerrando. Até haver uma decisão final, as ribadavenses Irene, Maria de Lurdes e Letícia esperam por dias menos cinzentos.

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.Reportagem: Eduardo Miranda e João Pedro Quesado

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Categorias: Sociedade

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