Al-Andalus | Cristãos moçárabes. Encruzilhada de três culturas

Al-Andalus | Cristãos moçárabes. Encruzilhada de três culturas

Na Alta Idade Média, o Califado do Al-Andalus, que abrangia a maior parte da Península Ibérica, era um dos estados mais prósperos e desenvolvidos do mundo, nos mais diversos domínios.

Na sequência da invasão do Império Romano do Ocidente pelas tribos germânicas, a Península Ibérica tinha sofrido diversas vicissitudes, até ser unificada no final do século VI pelos visigodos como o reino da Hispânia.

Contudo, esta unificação não terminou com os conflitos entre cristãos trinitários e unitários, que assumiram um cariz não somente religioso, mas também político.

Os cristãos trinitários defendiam a doutrina da Trindade, tal como tinha sido proclamada em Niceia e nos demais concílios subsequentes, enquanto os cristãos unitários enfatizavam a unidade absoluta de Deus e a natureza humana de Jesus, o Cristo,

No início do século VIII, os conflitos agravaram-se de tal forma que os cristãos unitários, numa situação claramente desfavorável, pediram o apoio militar do califado islâmico, mais concretamente das autoridades islâmicas do norte de África.

Foi a denominada invasão árabe ou muçulmana. O espantoso domínio muçulmano da quase totalidade da Península Ibérica em apenas cerca de três anos (quando as poderosas legiões romanas haviam levado mais de um século) foi, obviamente, fruto da colaboração ativa dos cristãos unitários e também dos judeus, que acolheram as tropas islâmicas como libertadoras.

Após a invasão de 711, o Al-Andalus tornou-se uma província do grande califado islâmico, que se estendia do Atlântico ao Indo, cuja capital foi Damasco e posteriormente Bagdade. Em 756, o Al-Andalus tornou-se um emirato independente e, em 929, foi implantado o califado.

A sua capital, Córdova, situada nas margens do rio Guadalquivir, era uma metrópole com mais de 250.000 habitantes.

Em Córdova e nas cidades, vilas e aldeias do califado, havia muitas pessoas que falavam e vestiam-se como árabes. Mas eles não eram muçulmanos. Eram cristãos, que ficaram conhecidos para a História como moçárabes, denominação que tem a sua origem na palavra árabe musta‘rib.

Na sequência da conquista muçulmana de 711, eles aceitaram a nova ordem política, social, económica e militar islâmica.

De acordo com os preceitos do Alcorão, que não aceita compulsão em matéria de religião, os muçulmanos devem respeitar os cristãos e os judeus que vivem sob seu domínio. Eles são chamados de “povos do Livro” (Ahl al-Kitab), o que lhes permitiu praticar a sua religião, desde que eles não praticassem o proselitismo.

A coexistência das três religiões foi baseada num pacto que reconhecia aos não muçulmanos a liberdade de culto e o direito de organizar-se nos domínios legal e municipal. Por seu turno, reconhecia-se a autoridade civil e militar islâmica e a obrigação de pagar um imposto especial: a jizya.

A maioria dos moçárabes vivia nas áreas rurais, mas existiam comunidades importantes em cidades como Córdoba, Mérida, Sevilha, Granada, Toledo, Saragoça e Lisboa.

No caso do futuro território português, a existência de comunidades cristãs é atestada não só pelos textos de Muhammad al-Idrisi acerca do Santuário de São Vicente, em Sagres, mas também pelo facto de duas cidades algarvias terem nomes de santos cristãos, conservados sob a adaptação árabe: Sanbras (São Brás de Alportel) e Santa Mariya al-Harun (Santa Maria de Faro).

Em Lisboa, o número de cristãos devia ser significativo. Em 1109, o príncipe norueguês Sigurd dizia a respeito da cidade, por aí ter visitado, que a sua população era “meio cristã, meio pagã”.

Além disso, existem registos da presença de comunidades moçárabes muito importantes na Estremadura e nas Beiras, nomeadamente em Coimbra.

Os moçárabes foram adaptando gradualmente a cultura árabe e alguns dos seus costumes. Muitos pararam de comer carne de porco, alguns adotaram a circuncisão e uma maioria significativa começou a exprimir-se em árabe.

Os moçárabes desenvolveram uma arquitetura distintiva, uma liturgia autónoma, conhecida como rito moçárabe, e tiveram um papel da maior relevância no desenvolvimento de relações económicas, sociais e culturais entre as civilizações cristã e islâmica.

Mas um dos mais importantes legados dos moçárabes, que tem sido investigado com mais profundidade nos últimos anos, foi o desenvolvimento de uma teologia cristã independente.

Esta teologia moçárabe, preconizada por personalidades prestigiadas como Edipando, arcebispo de Toledo, e Félix, bispo de Urgel, assentava numa conceção adocianista da figura de Jesus.

Segundo essa conceção, Jesus era um ser humano, elevado à categoria divina, por desígnio de Deus, através da sua adoção.

Tratava-se de uma cristologia a partir de baixo, que tinha sido defendida pelo judeo-cristianismo e pela escola teológica de Antioquia, entre outras correntes do cristianismo primitivo.

A sua preocupação era propor uma visão da fé em Jesus que pudesse unir, em vez de dividir, cristãos, judeus e muçulmanos.

Uma visão que permitisse abrir as portas frutíferas de diálogo e de compreensão entre as três grandes tradições religiosas do mundo mediterrânico, no qual a Península Ibérica se insere.

Imagem de destaque: Arco, na Alhambra, em Granada (Praça das Ideias; arquivo do autor)

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Obs: Este artigo foi previamente publicado no blogue Praça das Ideias.

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Daniel Faria

Nasceu em 1975, em Vila Nova de Famalicão. Licenciado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e pós-graduado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida pela mesma Instituição. É diplomado pelo Curso Teológico-Pastoral da Universidade Católica Portuguesa. Em 1998 e 1999, trabalhou no Centro Regional da Segurança Social do Norte. Desde 2000, é Técnico Superior no Município de Vila Nova de Famalicão. Valoriza as ciências sociais e humanas e a espiritualidade como meios de aprofundar o (auto)conhecimento, em sintonia com a Natureza e o Universo. Dedica-se a causas de voluntariado. É autor do blogue pracadasideias.blogspot.com e da página Espiritualidade e Liberdade.

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