Patrícia Fernandes

Ciência e Ambiente: Uma questão de narrativa

Ciência e Ambiente: Uma questão de narrativa

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Na hora mágica, depois de o Sol se pôr mas quando a luz ainda não se foi, exércitos de grandes morcegos, chamados raposas-voadoras, desengancham-se das figueiras-de-bengala no velho cemitério e pairam sobre a cidade como fumo. Quando os morcegos saem, os corvos voltam para casa. Nem todo o barulho da sua chegada preenche o silêncio deixado pelos pardais desaparecidos e pelos velhos abutres-de-dorso-branco, guardiões dos mortos há mais de cem milhões de anos, que foram dizimados. Os abutres morreram envenenados por diclofenaco. O diclofenaco, ou aspirina-das-vacas, dado ao gado como relaxante muscular, para aliviar a dor e aumentar a produção de leite, atua – atuava – como um gás neurotóxico nos abutres-de-dorso-branco. Cada vaca ou búfalo leiteiro quimicamente relaxado que morria transformava-se em isco envenenado para os abutres. Enquanto os bovinos se tornavam melhores máquinas de laticínios, enquanto a cidade consumia mais gelados, nogados, bolachas de manteiga de amendoim e pepitas de chocolate, e bebia mais batidos de leite e manga, os pescoços dos abutres vergavam-se como se eles estivessem demasiado cansados e não conseguissem pura e simplesmente ficar acordados. Barbas prateadas de saliva pingavam-lhes dos bicos e, um a um, tombaram dos seus ramos, mortos.

Poucas pessoas repararam na morte dos velhos pássaros amistosos. Havia tanto mais a que aspirar.

Arundhati Roy, O Ministério da Felicidade Suprema


 

A relação entre Ciência e Ambiente é uma relação conflituosa e, ao contrário do que é geralmente entendido, o problema ambiental não pode ser solucionado pela ciência.

Somos cativos de um sistema civilizacional que mais ou menos nos compele a prosseguir com a destruição do mundo de forma a continuarmos a viver.

Felizmente, não estamos condenados a esta história. A mudança é possível.


 

 

A participação no Ciclo de Conferências Científicas constituiu um desafio particularmente delicado para alguém que provém da área das Humanidades: afinal, como falar filosoficamente sobre a questão ambiental a uma audiência do domínio científico, sem ficar, por um lado, hermeticamente encerrado no vocabulário filosófico e conseguindo mostrar, por outro lado, que a filosofia pode ter algo a dizer sobre os problemas atuais? A minha opção foi a de procurar apresentar uma comunicação que fosse provocatória e, ao mesmo tempo, estimulasse uma reflexão paradigmática: isto é, menos centrada em como as coisas são e mais centrada no porquê de as coisas serem como são.

Para tal, inspirei-me no filósofo norte-americano Richard Rorty para apresentar o seguinte argumento: a relação entre Ciência e Ambiente é uma relação conflituosa e, ao contrário do que é geralmente entendido, o problema ambiental não pode ser solucionado pela ciência – ou, pelo menos, por uma ciência entendida nos termos atuais. Dar um passo atrás (ganhando com isso uma perspetiva mais ampla), permite-nos enquadrar o problema ambiental como resultado da nossa narrativa civilizacional – da narrativa que nos antecede e que dá forma ao modo como falamos do mundo e da natureza. E na medida em que a ciência atual se limita a falar nos termos dessa narrativa problemática, ela não poderá solucionar o problema para o qual é a principal contribuidora. A solução não passará, por isso, pela inovação científica mas pela mudança da narrativa que usamos para falar do nosso lugar no mundo (razão pela qual a literatura nos parece mais relevante para a resolução deste problema).

Para defender esta ideia, assentei o meu argumentário em seis passos:

1) Parto de um pressuposto linguístico muito específico: o de que todo o pensamento ganha forma a partir de uma língua específica, pelo que não existe algo como um pensamento pré-linguístico. A consequência de reconhecermos a relação inextricável entre pensamento e linguagem é a de termos de reconhecer que todo o nosso acesso ao mundo se faz mediante linguagem: não há um acesso imediato ao mundo, não há maneira de saber como o mundo é sem usar de linguagem. O mesmo é dizer: não existe algo como uma posição-de-deus que possamos ocupar. Por essa razão, ficamos impossibilitados de defender que a linguagem que usamos representa adequadamente o mundo (esta posição filosófica designa-se, por isso, como anti-representacionista).

2) O anti-representacionismo de Richard Rorty coloca desafios tanto à filosofia como às áreas que habitualmente designamos como ciências duras ou exatas. Porquê? O senso comum vai no sentido de afirmar que a matemática é a linguagem do universo – e por essa razão, as várias ciências que partem da matemática, como a física ou a biologia, representariam acuradamente o mundo. Mas o nosso pressuposto linguístico chama a atenção para o facto de as linguagens serem meras criações humanas para lidarmos com o mundo e não acessos privilegiados à realidade. Assim, a matemática não passa de uma (magnífica) criação humana para lidarmos com o meio que nos rodeia. Mas sendo apenas mais uma linguagem, a matemática não pode ser “a linguagem do universo” uma vez que não sabemos como o mundo é para lá da nossa linguagem: não podemos sair da linguagem e ocupar a posição-de-deus. A matemática e as ciências exatas não podem, por isso, reivindicar um estatuto especial: elas são apenas muito eficazes a cumprir o objetivo para que foram criadas (da mesma forma que a literatura e a poesia são eficazes a cumprir o seu objetivo), mas não significam um acesso privilegiado à verdade.

3) Mas a posição rortyana desafia igualmente a filosofia na medida em que ataca diretamente um conceito que é central para o domínio filosófico: a ideia de Razão. E isto pelo seguinte: se a Razão (o raciocínio, o pensamento) só toma forma a partir de uma língua concreta e se todas as línguas são produtos históricos, então não é possível falarmos de uma Razão universal, objetiva e fundacional do nosso Conhecimento e da Verdade. A partir de uma perspetiva anti-representacionista, a razão não passa de um produto histórico e contingente, tal como o nosso conhecimento e as nossas verdades. Ora, isto atinge diretamente o projeto da modernidade que assenta na ideia de racionalidade: o que seria distintivo do ser humano é deter um equipamento específico (a Razão) que nos permite identificar as verdades universais e objetivas e, consequentemente, adequar o nosso comportamento a esse conhecimento. Rorty dá um tiro certeiro no núcleo central do racionalismo representacionista.

4) Importa notar que este discurso racionalista foi especialmente útil e eficaz durante o Iluminismo para afastar o poder da Igreja e da Religião. Mas ele tem vindo a perder, desde meados do século XX, a sua eficácia: de facto, outros fatores e dimensões do ser humano têm vindo a ser notadas e, em especial, fomos deixando cair a ideia de que o conhecimento e o exercício da razão são condições suficientes para alterarmos o nosso comportamento e agirmos corretamente. Pensemos nas várias situações práticas da nossa vida, como sabermos que fazer exercício no inverno é importante para nos mantermos saudáveis e em forma e depois ninguém nos tirar do sofá nos dias frios. Saber não é suficiente para alterarmos o nosso comportamento.

5) E o mesmo vale para a questão ambiental. Todos temos conhecimento de como o nosso comportamento diário exerce uma pressão insustentável sobre os recursos naturais: o consumo excessivo de energia, a opção por comidas ambientalmente insustentáveis, o uso desnecessário do plástico, o incrível desperdício e consumismo do mundo ocidental. Mas mesmo com todo esse conhecimento, parecemos incapazes de adequar e modificar o nosso comportamento. E isso acontece porque, ao contrário da narrativa da modernidade, a razão não é suficiente – e o mesmo é dizer que a Ciência não é suficiente: ter dados científicos, que se autointitulam como produtos da racionalidade, não é suficiente para resolvermos o problema. Mais ainda: todos os avanços científicos têm tido como resultado pressões cada vez maiores sobre o ambiente. E é precisamente para esse aspeto que nos remete o excerto do mais recente livro de Arundhati Roy.

6) Onde estará então a solução? A minha sugestão é a de que o problema se prende com uma questão de narrativa: é porque vivemos de acordo com uma narrativa específica que nos comportamos como comportamos. Chamemos à colação o livro Ismael, de Daniel Quinn:

Nós, humanos, somos cativos de um sistema civilizacional que mais ou menos nos compele a prosseguir com a destruição do mundo de forma a continuarmos a viver.

A narrativa que nos mantém cativos é a história que temos vindo a perpetuar desde as religiões do livro: o mundo foi criado para nosso domínio e satisfação; criados à imagem de deus, queremos ser deuses e decidir quem morre e quem vive; acima de tudo, queremos ser livres dos próprios deuses e da natureza – e, por isso, aprendemos a armazenar comida, a produzir comida artificialmente, a evitar doenças, a construir casas; vivemos no esforço de nos libertarmos da nossa condição natural. Quando terminarmos esse percurso, “os deuses finalmente não terão mais poder sobre nós. Não terão mais poder sobre nada. Todo o poder estará nas nossas mãos e seremos enfim livres.” Mesmo que nesse processo tenhamos dizimado todas as espécies, destruído todos os recantos naturais, eliminado todos aqueles que têm um modo de vida diferente. Pois esta é a narrativa que ouvimos desde que nascemos e que está presente no vocabulário que usamos: por isso falamos em “topo da cadeia alimentar”, em “nós e os animais”, em “selvagens” porque não são como nós, em “lei da selva” como se a selva fosse um sítio sem ordem e não um habitat natural e equilibrado; e é por isso que, quando imaginamos o mundo, o imaginamos como se estivéssemos por cima dele: o mundo está lá em baixo e nós não fazemos exatamente parte dele; e é por isso que continuamos empenhados em fazer avançar o conhecimento científico mesmo que isso não nos permita viver melhor, mesmo que isso leve à nossa autodestruição. Porque usamos o vocabulário que nos faz pensar que somos seres especiais, que somos a criação superior, que somos os únicos a saber o que é correto.

Felizmente, não estamos condenados a esta história. A mudança é possível e tem de passar pela mudança da narrativa, da história que contamos uns aos outros e aos nossos filhos e aos nossos alunos sobre o que andamos aqui a fazer. Para essa mudança, temos de ser capazes de pensar em formas alternativas de viver – e se a ciência não nos pode dar isso, a literatura pode. Não é por acaso que, a propósito das conferências organizadas pelo Presidente da República, precisamente sobre o mesmo tema e precisamente na mesma semana, o cientista Sobrinho Simões tenha dito:

Imaginar é algo que define a espécie humana. Se querem aprender como são as pessoas e a vida, os jovens devem ler é literatura, e nunca se ficarem só por livros de ciência ou de biologia.


* Aproveito para reiterar o agradecimento pelo convite que me foi dirigido pelas professoras responsáveis pelo Ciclo de Conferências Científicas do Centro de Formação de V. N. de Famalicão, Maria Manuel Azevedo e Aurora Marques.

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Imagem: Biorritmo – Ciência e Consciência no Ritmo da Vida

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About Author

Patrícia Fernandes

Nascida e para sempre ligada a Famalicão, estudou Direito no Porto e Filosofia em Braga, direcionando a sua formação para a Filosofia Política. Interessa-se pelo poder das palavras, pela dinâmica dos discursos, pela contingência que dá sentido àquilo que pensamos e pelo Benfica. Mas no meio disto tudo, gosta mesmo é de dar aulas, o que faz atualmente na Universidade da Beira Interior. Dinamiza, com outro parceiro do crime, o blog Viagem ao fundo da noite.

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