Partidos e Movimentos Políticos 1910-1974 | Partido Socialista Português. A consciência crítica da República no período pós-Guerra

Partidos e Movimentos Políticos 1910-1974 | Partido Socialista Português. A consciência crítica da República no período pós-Guerra

Luís Manuel Farinha, Diretor do Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, investigador da resistência republicana à Ditadura e ao Estado Novo, foi um dos notáveis participantes do Fórum Encontros de Outono 2017 – Os Partidos e Movimentos Políticos 1910-1974. Neste artigo, Luís Farinha aborda o relevante papel do Partido Socialista Português na oposição ao regime, em particular durante o período pós-Guerra.

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A descontinuidade entre o PSP histórico e o atual PS é mais aparente que real.

O Partido Socialista Português foi fundado em 10 de janeiro de 1875, (…) sob o impulso das ideias galvanizadoras da Comuna de Paris que mobilizaram em Portugal homens como José Fontana, Antero de Quental ou Jaime Batalha Reis.

A concretizar-se, consideravam os seus últimos líderes, o socialismo seria sempre o resultado final de uma luta legal, sustentáculo das reformas gradualistas que haviam de conduzir a imensa maioria deserdada da humanidade a uma «República Social» mais justa.

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O Partido Socialista Português (1875-1935) tem constituído um tema «arrumado» da historiografia portuguesa, por motivos históricos e ideológicos determinados pela sua impotência para liderar o movimento operário português e os anseios da pequena burguesia urbana no primeiro quartel do séc. XX e de, desta forma, não ter conseguido constituir-se como uma alternativa democrática e popular ao rotativismo liberal. Emparedado entre o pujante movimento operário português de orientação revolucionária e anarco-sindicalista do início do séc. XX e a emergência de um movimento republicano frentista, anti-monárquico e revolucionário, o PSP não logrou nunca constituir-se como alternativa para o mundo operário nem como partido liderante do movimento democrático e popular que se revia na luta pela implantação de uma «República Social», tal qual aparecia delineada nos primeiros programas socialistas de 1875 e de 1895.

Sem ignorar os estudos que nas décadas de 70/80 do século passado dedicaram ao movimento socialista e operário Maria Filomena Mónica, Carlos Fonseca, Manuel Villaverde Cabral, César Nogueira, César Oliveira e José Pacheco Pereira e, bem mais perto de nós, Joana Dias Pereira, Susana Martins e Fernando Pereira Marques, persiste, no entanto, para além de uma desvalorização do tema e do objeto, uma certa diluição e deformação da história do PSP e, muito especialmente, um vazio de memória, sem dúvida resultante da descontinuidade do movimento socialista organizado a partir de 1933-1935. Um vazio de memória que é também maior pelo facto de o moderno Partido Socialista, fundado em 1973, ter sido constituído na base de uma forte tradição de luta antifascista – legal, semi-legal e revolucionária –, um nó estratégico que constituiu, justamente, o grande pomo de discussão e de discórdia das várias sensibilidades socialistas reunidas na IV Conferência Nacional de Coimbra, promovida pelo PSP entre 11 e 13 de março de 1933.

No entanto, esta descontinuidade entre o PSP histórico e o atual PS é mais aparente que real. Na sua matriz, os «dois partidos» bebem a sua inspiração na tradição do marxismo simplificado e revisto que alicerçou o reformismo saído da II Internacional, na aspiração de uma «República Social» que, no pós-II Guerra Mundial desembocou nas formulações da social-democracia e do socialismo democrático e na assunção da exploração implícita existente na relação «capital-trabalho», ideias que o socialismo da primeira fase defendia na crítica ao liberalismo oitocentista e que o socialismo atual defende na sua crítica ao neoliberalismo e ao «capitalismo de casino». Esta última foi sempre uma expressão recorrente e muito usada por Mário Soares, fundador e líder histórico incontestado do atual Partido Socialista. Pode até dizer-se que, se expressões como «perseguidos do capital» ou «capital opressor» desapareceram da atual linguagem do Partido Socialista isso se deve, sem dúvida, à sua natureza atual de «partido de poder». No essencial, a grande contradição de princípio sobre a forma de atingir a «república social» da primeira fase – ou o «socialismo democrático» da atualidade -, permanece nos termos, nos factos e nos meios: tanto em 1910 como em 1975, os «dois partidos» rejeitaram a revolução. Com uma diferença fundamental nos efeitos práticos: enquanto em 1910 a sua abstenção da revolução significou a derrota do projeto político socialista a médio prazo, em favor do projeto republicano, vitorioso em 5 de outubro, em 1975 a rejeição da revolução conduziu o Partido Socialista à liderança do processo político em curso, na senda de um regime democrático pluripartidário, embora com afastamento do socialismo para um horizonte longínquo. No essencial, a dificuldade insanável de atingir o socialismo através do voto democrático é tão inatingível na atualidade como o era em 1933, quando os socialistas o declararam expressamente na IV Conferência Nacional de Coimbra. Permanecia, no entanto, nessa altura, a esperança de que um dia o fosse, quando ocorresse um voto universal e justo e a consciência popular tivesse possibilidade de escolher os seus governantes em liberdade. O tempo mostrou como essa esperança se esboroou e como neste ponto, sim, se separam definitivamente o PSP histórico e o atual Partido Socialista. No entanto, isso nunca impediu Mário Soares de se afirmar «socialista, republicano e laico», na linha do que afirmavam para si Ramada Curto ou Magalhães Lima, socialistas da primeira fase.

É, pois, de um Partido Socialista que congregou durante mais de meio século (1875 -1935) um considerável e diversificado movimento socialista – federalista, municipalista, cooperativista e sindicalista – que se fala aqui; da fundação oficial em 1875 até ao desfecho trágico da sua inutilização por efeito da Ditadura salazarista, o PSP assistiu, quase tolhido, à queda da Monarquia, ao ascenso do republicanismo e à vitória da Revolução de Outubro de 1910, à implantação de um regime pluripartidário no qual se integrou com dificuldade, à queda desastrosa da República, ao domínio dos militares e à militarização da política – que combateu enquanto lhe foi possível – e, por fim, ao desmantelamento do Estado de Direito liberal que sempre considerou como uma condição indispensável à sobrevivência e desenvolvimento de um movimento e de um partido socialista – a concretizar-se, consideravam os seus últimos líderes, o socialismo seria sempre o resultado final de uma luta legal, sustentáculo das reformas gradualistas que haviam de conduzir a imensa maioria deserdada da humanidade a uma «República Social» mais justa.

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Na transição da Monarquia para a República – a ausência de uma estratégia política revolucionária

O Partido Socialista Português foi fundado em 10 de janeiro de 1875, impulsionado pelo V Congresso da AIT, realizado em Haia (setembro de 1872) e sob o impulso das ideias galvanizadoras da Comuna de Paris que mobilizaram em Portugal homens como José Fontana, Antero de Quental ou Jaime Batalha Reis. A eles se juntariam Nobre França, Azedo Gneco, José Tedeschi e Sousa Monteiro. Ainda antes do Congresso de Haia, este grupo havia formado a Associação Fraternidade Operária (janeiro de 1872) que publicava o boletim O Pensamento Social. Em Haia – representada por Paul Lafargue, genro de Karl Marx, que estivera em Portugal -, a Fraternidade Operária adota as orientações de uma maioria de delegados ao Congresso que recomenda a criação de partidos socialistas nacionais e a rejeição do anarquismo bakuninista. Até ao seu ocaso, esta será a linha orientadora dominante do PSP, não obstante as vigorosas lutas internas motivadas pelo peso do anarquismo presente em muitas das suas bases e depois, em 1919, a rejeição da integração na Internacional Comunista e a de adoção de uma estratégia de socialismo reformista – na linha da II Internacional Socialista -, a do socialismo «gradualista» e «possibilista», defendidos, entre outros, por Jean Jaurès, um socialista francês que realizara a união das várias correntes em presença, através de uma síntese republicana e democrática, com disponibilidade para participar nos “governos burgueses”. Para a difusão da sua síntese «socialista-republicana» entre os socialistas portugueses, muito contribuiu a sua vinda a Portugal, em julho de 1911, numa altura em que era clara a marginalização dos socialistas em todo o processo político de implantação do novo regime republicano saído da queda da Monarquia.

A luta entre «revolucionários» (marxistas) e «gradualista/possibilistas» esteve sempre presente e foi um motivo constante de lutas e dissensões, ao longo do séc. XIX. Na verdade, nenhuma das correntes conseguia pôr no terreno as linhas fundamentais do programa do Partido Socialista (revisto em 1895) que passavam pelo pacifismo/anti-militarismo, pela solidariedade internacional, pelo igualitarismo e pela assunção da luta de classes, numa perspetiva marxista. Os «revolucionários» viram-se ultrapassados pelo pendor anarquista e sindicalista revolucionário que marcou a tendência liderante do operariado português desde os anos de 1909/1911 e muito especialmente depois do Congresso Operário de Tomar de 1914, onde foi criada a União Operária Nacional. Os governos da República haviam testado a lealdade do Exército e da GNR e haviam-se tornado implacáveis na repressão dos movimentos grevistas. Num contexto militarista e de descrédito das capacidades do movimento operário, o Congresso Operário de Tomar, reunido em 14 de Março de 1914, representa o culminar de uma primeira fase de luta e de união de todas as tendências divergentes do operariado – anarquistas, socialistas e sindicalistas revolucionárias -, um momento de reorganização e de resistência perante os tempos difíceis que se avizinhavam. Em contrapartida, os «gradualistas» foram obrigados, desde o início da República, a admitir o estabelecimento de acordos/alianças com o forte movimento republicano, nacionalista e colonialista, que saíra da revolução de 5 de outubro, com a finalidade de obter lugares no Parlamento ou no Governo, como aconteceu nas Constituintes de 1911 em que foi eleito o socialista nortenho Manuel José da Silva.

Na verdade, o PSP, ainda muito influenciado pelo apoliticismo de tendência anarquista, e pelas múltiplas dissidências entre «socialistas/marxistas», «possibilistas», «ecléticos» e «socialistas de Estado», não tinha considerado imperativa a conquista do poder político através de um processo revolucionário que derrubasse a Monarquia e viesse a implantar a República. O partido afirmava-se anti-monárquico, mas encarou sempre a hipótese de lutar por reformas sociais no seio da Monarquia, vindo mesmo a aceitar, em agosto de 1910, participar numa Comissão de Trabalho criada pelo governo monárquico. Ao contrário do movimento republicano, falha redondamente em todos os processos eleitorais dos últimos anos da Monarquia (1908, 1910), defendendo a primazia da luta económica e social para a instalação de uma futura «República Social».

Este «abstencionismo político», com rejeição da revolução anti-monárquica, aliado ao peso de um sindicalismo que tendia a afastar «os trabalhadores dos centros políticos e das ilusões democráticas», fragilizou o PSP, tornando-o incapaz de apresentar-se como partido operário por um lado e, por outro, como alternativa de poder ao rotativismo liberal monárquico.

A entrada de Portugal na I Grande Guerra, sob a liderança dos democráticos de Afonso Costa, voltaria a colocar o PSP sob a imposição de uma clarificação política devastadora para os seus ideais socialistas e para muitos dos seus militantes: para trás ficavam as causas do internacionalismo, do pacifismo ou da desmilitarização e do desarmamento; em alternativa, abria-se ao partido uma janela de oportunidade para entrar com os dois pés na aliança republicano-socialista que vingava noutros países, como a França.

No entanto, a aceitação da «intervenção patriótica» na guerra separou ainda mais a liderança do PSP das bases operárias e socialistas e empurrou-o para o colo dos republicanos, em cujas listas eleitorais acedeu participar em 1915 e em 1919. Este «intervencionismo» dividiu ainda mais o campo socialista, provocando um maior número de dissidências ou puras desistências. Era como se as velhas confrontações no seio da II Internacional entre Guesde e Jaurés tivessem encontrado em Portugal um laboratório de experimentação política.

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O PSP no pós-guerra – reformismo e intervencionismo

Comício socialista no Terreiro do Paço (Lisboa), em defesa das medidas governamentais do ministro Augusto Dias da Silva (1919). Por esta altura, o PSP era um partido que movia um conjunto significativo de massas populares.

Emparedado pelos pujantes movimentos anarquista e republicano que ganharam espaço a partir do início do séc. XX, o PSP esteve sempre impedido de levar por diante a sua política reformista, por mais justa que pudesse parecer a linha programática defendida. O seu apogeu ocorreu no ano de 1919 quando os republicanos, liderados por José Relvas, negociaram a entrada dos socialistas em listas republicanas, tendo as «minorias» possibilitado a formação de um importante grupo parlamentar de 8 deputados e a entrega da pasta do Trabalho ao socialista Augusto Dias da Silva (janeiro-março de 1919), política que seria continuada no segundo governo de Domingos Pereira (janeiro-março de 1920), com a pasta do Trabalho entregue a Amílcar Ramada Curto. São, contudo, experiências parlamentares e governamentais desanimadoras: curtas, desapoiadas e improdutivas. A semana de trabalho das 48 horas, os Seguros Sociais Obrigatórios e a política de «Bairros Sociais» não conseguiram sair do papel, com a enorme desvantagem de terem liquidado qualquer experiência mais continuada e consequente dos «intervencionistas» nos governos republicanos porque, a partir destas experiências, aprofundaram-se as divisões no interior do PSP entre «intervencionistas» e «não intervencionistas»: para os «marxistas» ficara provado que o Estado não era, como afirmavam os «intervencionistas», «a garantia da harmonia dos interesses legítimos das diferentes classes»; para os «intervencionistas», a convicção de que a «república social» apregoada por alguns republicanos não era mais do que uma política de fachada e de captação de votos e de que a via revolucionária não passava de uma utopia irrealizável nos anos mais próximos, por duas razões: o operariado, muito causticado pela crise económica, respondia mais facilmente às soluções radicais e «desesperadas» da Confederação Geral do Trabalho, ao mesmo tempo que a restrição do voto imposto pelos republicanos impedia a chegada dos socialistas ao poder por via eleitoral.

Nos anos seguintes, os socialistas desagregam-se – embora o PSP nunca tivesse sido uma realidade orgânica forte -, e só os congressos da Figueira da Foz (1919), de Tomar (1922) e do Porto (1924) puderam dar um novo fôlego ao Partido. Estes congressos clarificaram, de forma definitiva, a natureza do PSP, tendo também provocado numerosas dissidências e desistências dos seus líderes históricos, influenciados pelo marxismo revolucionário. O PSP tinha sido, desde 1919, (embora com muita resistência interna dos militantes nortenhos) e seria definitivamente a partir daí, um partido controlado por uma direção burguesa radical que, sem apoio de massas significativas e organização no terreno, estava condenado a acolher-se nos braços da estratégia republicana da altura: proclamar uma «política social» para suster o ímpeto da luta de classes intensa do biénio revolucionário. Nesses congressos, eleito Ramada Curto como líder, ficou claramente definida a estratégia «intervencionista» do PSP, que se achava arredado da luta social/sindical pelo sindicalismo da CGT e também impedido de uma corrida eleitoral autónoma, por falta de capacidade interna e de domínio eleitoral avassalador do PRP.

Não renegando as origens marxistas do socialismo e o papel e organização da classe operária e da luta de classes, o partido afirmava, contudo, que se tornava necessário que o operariado adquirisse uma capacidade política e que os sindicatos desempenhassem uma função educativa nesse sentido. O socialismo seria, então, implantado de forma gradual e democrática, em função do peso do maior número dos operários na sociedade: socialismo e democracia eram, pois, termos de um mesmo processo e implicavam-se em simultâneo, com exclusão dos meios revolucionários. Ramada Curto, o líder eleito, acreditava num progresso contínuo dos valores espirituais e morais – a par da necessária maturação da formação económica e dos processos a ela inerentes -, o que o distanciava do marxismo dos comunistas que só concebiam o socialismo como resultado de uma rotura revolucionária. No entanto estava longe de dispensar o papel do operariado como motor central da história nas sociedades industriais. O problema, segundo Ramada, é que em Portugal ainda não se tinha atingido um nível empresarial de grande dimensão, aquele que noutros países tinha dado origem a classes operárias poderosas e organizadas. Daí que o operariado português respondesse mais aos apelos dos anarquistas do que à doutrina dos socialistas. Por isso, era preciso aguardar o desenvolvimento das forças económicas e o acréscimo da consciência política do operariado.

Contudo, as alianças “naturais” com os republicanos não tinham sido possíveis a partir de 1919-20, já que o único partido organizado, o Democrático, se tinha aliado às direitas conservadoras. De facto, durante o «biénio revolucionário», e na sequência da «Noite Sangrenta de 1921», os partidos do poder – com o Partido Democrático na dianteira -, tinham aberto as portas aos quartéis e feito alianças com os militares e as forças da ordem sob a consigna de «Ordem! Ordem! Ordem!». O intervencionismo consagrado nos Congressos de Tomar e do Porto ficou, pois, grandemente inutilizado, com a agravante de ter contribuído para o afastamento de uma parte importante das bases ativas do partido, especialmente as ligadas à Federação Socialista do Norte.

Ramada Curto, líder do PSP, discursa num comício contra as ditaduras. Lisboa, 18.2.1924

Com a agudização da luta infrene entre esquerda e direita que acompanhou os derradeiros anos da I República, o PSP tomou partido pela formação de um «bloco das esquerdas», tendo participado em numerosas reuniões de convergência que juntavam socialistas, comunistas, sindicalistas e republicanos de esquerda num combate «contra as ditaduras» que se anunciavam, tendo inclusive participado em comícios, como o que aconteceu em 18 de fevereiro de 1924, em Lisboa. Porém, também aqui as três principais famílias da esquerda se separaram irremediavelmente: o reformismo dos socialistas não se compatibilizava com o revolucionarismo de comunistas e «cêgetistas» ou com o radicalismo burguês das esquerdas republicanas, não igualitárias.

Comício contra as Ditaduras, com participação de socialistas, comunistas e sindicalistas. Lisboa, 18.2.1924

A linha «intervencionista», sob a liderança de Ramada Curto e Amâncio de Alpoim, iria impor, a um Partido Socialista muito dividido, uma última entrada negociada nas listas do PRP, nas eleições para deputados de 1925. Eleitos pelo Porto e por Lisboa, os dois deputados constituem-se, nos poucos meses de vigência dessa última Legislatura, numa consciência crítica da República: denunciam os conluios dos líderes do PRP (mesmo de alguns ministros e deputados) com os militares conspiradores, combatem a forma iníqua e ilegal de deportação dos presos sociais, sem julgamento, para as colónias, acusam os poderes de usar dois pesos e duas medidas para julgar os crimes sociais e os crimes de colarinho branco – como o «caso Angola e Metrópole» -, denunciam o desmantelamento do Ministério do Trabalho e fazem as suas últimas propostas, na linha programática do PSP: apresentam um projeto de universalização do voto, defendem a continuidade do monopólio dos tabacos na posse do Estado e uma reforma do Exército que diminua drasticamente o número de efetivos e as despesas públicas associadas. Em 17 de maio de 1926, oito dias antes do golpe militar que derrubou a República, os dois deputados abandonaram a condição de parlamentares, por lhes parecer que o Parlamento não cumpria dignamente as funções para que fora eleito.

Da República para a Ditadura – o «esplêndido isolamento»

Em 28 de maio de 1926, depois do golpe militar, o PSP (Seção do Norte) fez sair uma nota em que denunciava a situação criada como «sidonada ou até uma ampliação dessa situação» e, dias depois, no seu XII Congresso Nacional (3 a 5 de julho), o partido considerava que o golpe tinha sido consequência de erros cometidos pelos partidos republicanos, pedindo aos seus filiados que se abstivessem de participar em quaisquer solicitações, mantendo-se na expectativa.

Que restava para o campo socialista? Uma política como a de Largo Cabalero em Espanha? Não, afirmava Ramada Curto, isso seria uma “porcaria”. Tanto mais que “parte do operariado auxiliara a revolução militar” e o país lhe parecia “mais preparado do que a Itália e a Espanha para suportar um fascismo sem Mussolini e uma ditadura sem Rivera”. Pouco mais sobrava que “ensiná-lo [ao proletariado] a amar e a defender a liberdade” e a “criar uma consciência proletária como a inglesa, como a belga, como a francesa”. O país chegara ali pela “incompetência política do Partido Democrático, enorme corpo acéfalo, única força política da Nação, inútil à míngua de cabeças dirigentes, que transformara uma tragédia política numa cambalhota sem grandeza”.

Era, pois, uma situação sem retorno, segundo Ramada Curto, o líder da Junta Diretiva. Não acreditava na tropa, mas também não acreditava “no reviralho triunfante a favor dos culpados dela [ditadura]”. A realidade era o que era, e por isso lhe ocorria compreender a opção de Afonso Costa “no seu cómodo exílio de França”.

A situação era, de facto, trágica e sem retorno à vista, considerava Ramada. O Partido Democrático “reinava”, mas não governara e, perante a ação voraz dos acionistas dos Bancos e das Companhias, comportara-se como “um macaco que se afoga, pondo as mãos nas orelhas”. À esquerda e à direita comungavam das mesmas ideias os republicanos que anunciavam (ou desejavam) uma solução ditatorial e extra-parlamentar. Ora, o operariado, que de forma natural podia ter apoiado o PSP também se dividia entre os apelos ao poder salvífico de um ditador ou a distante revolução socialista, trazida pelos braços da greve geral revolucionária e redentora. Ramada conhecia bem por dentro esta situação: por mais de uma vez tinha sido chamado a dissuadir camaradas seus que se prestavam ao enleio com as conspiratas de caserna do general Gomes da Costa. E concluía: “A gente olha ao lado e não vê ninguém”.

Em 1931, Ramada Curto ainda se envolveu diretamente na criação de uma Aliança Republicana e Socialista, afirmando que, aberto o período eleitoral, como havia sido prometido pelo Governo da Ditadura, havia de ir até às urnas, doesse a quem doesse. As eleições não estavam no horizonte da Ditadura Militar, ao contrário do que fizeram crer vários dos seus dirigentes em 1930, mas as derrotas flagrantes do Reviralho (Revolta das Ilhas – abril-maio de 1931 e Revolta de 16 de agosto de 1931, em Lisboa) acabariam por dar aos ditadores argumentos ainda mais fortes para endurecer a repressão e restringir qualquer tipo de liberdade, incluindo naturalmente a eleitoral.

Em 1931, esse ano de todas as revoltas, o PSP capitaliza também, de forma muito favorável, o desmantelamento da CGT (anarco-sindicalista) e a incipiência da recém-criada CIS (comunista) no campo da luta sindical. Entre 1929 e 1931 tinha sido reorganizada a FAO (Sindicatos Autónomos) e em 1931, por efeito da profunda crise económica e social, os seus dois líderes principais – Ramada Curto e Amâncio de Alpoim -, reuniam milhares de pessoas em comícios nas principais zonas operárias: Porto, Famalicão, Barreiro ou zona oriental de Lisboa.

Assumindo uma «esplendorosa equidistância» – entre as esquerdas revolucionárias (já na clandestinidade, na prisão, na deportação ou no exílio) e os silenciados partidos republicanos –, o PSP e o seu jornal, República Social, seriam dos últimos órgãos semi-legais a sair do terreno para dar lugar à ditadura fascista. Muitos partidos republicanos – talvez com exceção da União Liberal Republicana de Cunha Leal e de alguns núcleos do Partido Nacionalista –, tinham baixado bandeiras ou tinham sido simplesmente encerrados, com os seus membros silenciados ou mesmo integrados na nova situação ditatorial. O PSP conseguiu reunir uma última Conferência em Coimbra (11-13 março de 1933), na verdade muito contestada pelas restantes oposições, sendo denunciada, objetivamente, como uma forma de aliança com a situação ditatorial, por se ter manifestado, de uma forma aberta e muito crítica contra as oposições republicanas, comunista e anarco-sindicalista e por ter sido marcada para os dias em que se discutia a nova Constituição ditatorial, que seria plebiscitada um mês depois.

Em Coimbra, estiveram em confronto várias estratégias, embora o embate mais forte tivesse ocorrido entre Ramada Curto e Bourbon de Menezes. Em causa estava a margem de manobra de um Partido Socialista de onde muitos tinham já debandado – uns para o imobilismo, outras para a ação ilegal, muitos, a maioria, para a exploração da margem de legalidade possível num país onde realizar um comício ou uma reunião política era já há muito uma atividade dependente da boa vontade das autoridades militares e administrativas. A própria Conferência Nacional de Coimbra tinha sido conseguida à custa de muitos compromissos aceites pelos organizadores e, por isso mesmo, interpretada pelas restantes oposições como uma cedência à Ditadura. Em Coimbra discutia-se o tipo de relações possíveis a estabelecer com as instituições do futuro Estado Novo, a forma de relação a manter com a «renascida» Igreja Católica e os seus crentes, o grau de capacidade de ação das casas do povo, das cooperativas, das escolas e dos sindicatos controlados pelos socialistas ou ainda a possibilidade de manter uma imprensa e uma propaganda socialista sob as garras da Censura ditatorial. Os factos eram muito teimosos e a situação apresentava-se como irreversível; segundo Ramada Curto, o século seria ou fascista ou comunista, e não parecia haver, nos tempos mais próximos, lugar para uma terceira via de democracia social. Ele, Ramada Curto, não entraria na ilegalidade e na luta revolucionária clandestina e, como também não era fascista, restava-lhe a assunção de uma «esplendorosa equidistância», ou seja, uma conscienciosa abstenção de participação política direta, deixando o campo aberto para as magras possibilidades ainda existentes no campo social (casas do povo, cooperativas, escolas) e para a publicação de jornais e revistas onde fosse possível fazer passar a «ideia», mesmo que de forma doutrinária ou teórica.

O Partido não terminava em Coimbra, até porque muitas das suas unidades orgânicas – casas do povo, cooperativas, escolas, sindicatos, jornais – se conseguiram manter ativas até pelo menos 1936, tendo o seu principal órgão de imprensa, o jornal, República Social, saído a público até início de 1934 e o PSP recebido inscrições de filiados até 1935.

No entanto, o endurecimento da Ditadura, em tempos de Guerra Civil de Espanha, não deixou lugar para a ação política de ninguém do campo republicano-socialista – fosse revolucionário ou reformista. Sobre a natureza do regime, Ramada Curto, o último líder do PSP, não tinha dúvidas, em 1934: «Quanto à diretriz política da ditadura é o fascismo, como toda a gente sabe. Um fascismo sem discursos, sem paradas, sem teatro. Um fascismo de gabinete. Não há camisas castanhas nem camisas negras. O ditador português não precisa de camisas de qualquer qualidade a apoiá-lo. Bastam-lhe as metralhadoras e as espingardas do Exército. Evita assim uma duplicação de despesas. Os camisas são caros e pesam nos Orçamentos».

A Frente Popular Portuguesa, formada no exílio por insistência voluntariosa de comunistas e de republicanos, terá ainda o apoio dos socialistas, mas sem possibilidade de realização prática, depois da derrota dos republicanos constitucionais em Espanha. Seria preciso esperar pelos anos 40, no rescaldo da II Guerra Mundial, para que novas tentativas de organização socialista saíssem a terreno.

Imagem de destaque: Luís Manuel Farinha nos Encontros de Outono 2017 -. Os Partidos e Movimentos Políticos 1910-1974 (imagem: José Rocha).

Outras imagens: Arquivo do Museu do Aljube – Resistência e Liberdade.

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Luís Farinha

Diretor do Museu do Aljube - Resistência e Liberdade. Investigador integrado do Instituto de História Contemporânea (FCSH-UNL)

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