Dar coisas aos nomes | Pagãos inocentes da decadência

Dar coisas aos nomes | Pagãos inocentes da decadência

Foi exibido ontem à noite, integrado na agenda do Cineclube de Joane, Verão Danado, o filme de estreia de Pedro Cabeleira, com o qual este jovem realizador de 25 anos recebera uma menção especial no Festival de Cinema de Locarno (Suíça). São duas horas de filme que, espremidas ao seu reduto mais liminarmente narrativo, dão a ver um grupo de jovens recém-licenciados que se diverte em Lisboa, durante o verão, sem perspetivas de emprego definidas, mas aparentemente longe de sucumbirem à angústia ou à frustração. Chico (Pedro Marujo), por exemplo, acaba de concluir o curso de Filosofia; tem uma entrevista de emprego num restaurante marcada para a hora de almoço, mas a partilha de um charro com um amigo leva-o a preterir o compromisso agendado. E não se arrepende disso; o let it flow triunfa, sem bandeiras, sobre um presumível moralismo que se anunciaria no drama (com castigos divinos e catarse à mistura).

11 - 1 Pedro Cabeleira - Verão danado, by Diogo Martins in Dar Coisas aos Nomes --- Vila Nova Online (Cineclube de Joane)

As primeiras imagens de Verão Danado acontecem na aldeia natal de Chico, perdida no meio da serra, e esses primeiros minutos são suficientemente expressivos quanto ao golpe que cindem no corpo narrativo, pelo contraste que estabelecem entre a ruralidade mais extrema (em risco de desaparecer) e a paisagem urbana (ou, se quisermos, entre o interior e o litoral do país). Aquele movimento de abertura descendo sobre uma mão envelhecida, que passa um pano numa máquina de costura Singer, parece anunciar, logo à partida, um universo doméstico (com uma determinada experiência de sentir a passagem do tempo) mais próximo da sua morte natural.

Segue-se, portanto, Lisboa, com Chico e os amigos, mais os jantares de grupo, os cigarros e os charros, a informalidade das conversas, o coloquialismo absorvente, como uma cortina de fumo sobre a semântica (as falas em paralelo, sobrepostas, quase inaudíveis: mais que o sentido do que dizem, retém-se a cumplicidade com o que fazem), o tu-cá-tu-lá da desinibição curiosa e afável, as bebidas, as bebedeiras, as noitadas, os flirts, os engates bem-sucedidos, as desilusões amorosas, as ressacas. Em suma, o modo como acontece na vida aquilo que Gilles Deleuze dizia ser “uma espécie de falta de perícia, de fragilidade física”, de “gaguez vital que é o charme (encanto) de cada um” – o charme de existir, de se ser fulminado pelas contingências do acaso (uma garrafa de vinho que se deixa cair ao chão sem querer, um isqueiro que, de mão em mão, faz acender uma química especial entre Chico e uma miúda, etc.), sem querer sucumbir à urgência de tudo racionalizar, ou de pesar um gesto em função das suas causas e consequências.

Depois de um século a usar a “alienação” como denúncia (não desfazendo, é claro, a pertinência marxista dessa denúncia na consolidação da sociedade enquanto permanente e inescapável espetáculo), acontece, porém, que a palavra parece saber a pouco, já exaurida, incapaz de encher as medidas para dar conta do que Verão Danado parece querer sugerir. E que sugestão é essa? O caso paradigmático acontece na longa sequência da rave, a altas horas da noite, num prédio que, pela forma como um rapaz bêbado o descreve (com um andar onde se serve bebidas, outro onde se põe música, outro onde se dança, etc.), parece entregar-se de bandeja a tentações freudianas, com o ego, o superego e o id logo à baila para enfaixar tudo e tornar tudo mais hermeneuticamente rico, almofadando a intriga com subtextos e simbologia. Ou seja, quanto mais se desce de piso em piso, mais se afundam os jovens num inferno de som e danação, entregues à volúpia do id e à libido sem freios. Contudo, é precisamente aí, na proximidade desse lugar comum, que o filme nos puxa o tapete, fazendo derrubar o julgamento da praxe e a crítica de costumes. Se pusermos de lado a tentação sociológica e os seus diagnósticos clínicos (deixemos isso aos Henriques Raposos e Quintinos Aires deste mundo), o filme ultrapassa o perímetro lasso do niilismo hedonista onde supostamente estes jovens soçobrariam, seduzidos por drogas, saídas à noite e sexo fácil (como já o notara André Almeida Santos na crítica que fizera do filme para o jornal Observador), e, em lugar disso, assistimos ao filme enquanto pura experiência e pura força emancipatória: a imensa liberdade das formas que ali se movem e se misturam, mais o fervor que age sobre nós com uma dose incontrolável de ameaça, perigo e violência. “Ira e dor”, eis a que se resume a adolescência segundo Herberto Helder, mesmo depois de “[se] converter à ideia de uma suspensa, ou infusa, significação de tudo” (in Photomaton & Vox, p. 10).

11 - 2 Pedro Cabeleira - Verão danado, by Diogo Martins in Dar Coisas aos Nomes --- Vila Nova Online (Cineclube de Joane)

Nessa sequência, conjuga-se muito expressivamente o som com a imagem. Resulta daí o seu poder de disrupção no centro de toda a discursividade (a pressão subjacente a que haja uma história a acompanhar, com uma mensagem por detrás, etc.). A música, que se esperaria de fundo, enche o ecrã e excede-o, devora-o, atingindo-nos no magma mais intenso da sua violência; como se o volume do som, estando um pouco mais acima do registo que nos é dado, pusesse em risco a nossa própria sobrevivência (dificilmente esquecerei a sensação de estar numa sala de cinema onde nenhuma estrutura, das cadeiras aos objetos por lá pousados, parece resistir à avalanche sísmica das batidas e das luzes strobes). Não mais a música enquanto sistema organizacional de sons, mas a pura repetição de som; som puro, esmagadoramente maciço, industrial, feito por máquinas (portanto, coisas desprovidas de pathos, entregues à sua acontecimentalidade amoral, sem memória, nem culpa ou remorso – uma imagem, aliás, extensível à daquele grupo de pessoas. Note-se como a sequência abdica da organização discursiva, do seu propósito comunicacional: não ouvimos sequer o que as personagens gritam umas às outras ao ouvido; a boca não é mais um órgão coparticipante numa enunciação, num querer-dizer, mas atém-se a um primitivismo fundacional: a boca existe, autonomizada, para aproximar hálitos, produzir calor, morder, beijar, fumar).

Não há lugar para o epicurismo triste à la Ricardo Reis, o heterónimo pessoano, com a brandura dos prazeres simples (os que evitam o desespero por interposta ataraxia), mesmo imaginando a juventude de Verão Danado a ler-lhe as odes, sabendo até alguns versos de cor. A busca do prazer (que se sabe de antemão finito, concentrado naqueles dias de verão) parece mais que consumada, aqui. O espectador, sobretudo aquele que não se revê neste retrato geracional (aliás, nesta selfie), é que já vem tarde, de uma outra sensologia, de uma diferente (não necessariamente anacrónica ou conservadora) experiência de contemporaneidade. Foi mais isso o que me assaltou ao ver o filme: o sentimento de exclusão face a tudo aquilo que ali se desenrola, a mágoa física de reconhecer existir uma realidade à margem da minha, que existe independentemente de mim, dos lugares que frequento, dos meus gostos musicais, e por aí fora, por mais disponível ou inclusiva que me parecesse a apetência de convite que ali se desenha. Fica-se siderado pelo que há de radicalmente exterior na velocidade maquínica, demencial, deste conjunto de corpos vivos a dançar.

11 - 3 Pedro Cabeleira - Verão danado, by Diogo Martins in Dar Coisas aos Nomes --- Vila Nova Online (Cineclube de Joane)

Há nestes jovens uma energia, uma vida, uma intensidade invejáveis. Aliás, há mais que uma vida, e uma dessas vidas, afirma Chico, assemelha-se-lhe mais genuína, mais subterraneamente verdadeira. Depois de foder com uma amiga (o verbo tem forçosamente de ser esse), ainda no limbo da ressaca, Chico lança ao ar estes bitaites ontológicos: como será quando ele passar na rua por um dos rapazes que viu, há horas, a alucinar naquela cave, aos rodopios (a “tripar”, como ele diz)? Como será vê-lo sóbrio, a não ser considerando essa sobriedade como pertencente ao estado de uma outra pessoa? O delírio de Chico tem no seu despojamento, na sua leveza humorística, uma profundidade assinalável: porque é naquele êxtase, naquela vertigem, que a identidade do tal rapaz se afirma (assim como a de Chico, assim como as dos demais personagens). Afirma-se ao não se afirmar como identidade, precisamente porque prescinde dela, eleva-se acima de qualquer constrangimento identitário, de qualquer pré-conceito sociocultural (isto daria pano para mangas numa leitura de cariz ideológico do filme, na senda, por exemplo, daquilo que Slavoj Žižek, em Organs Without Body, 2004, procedeu com a filosofia de Deleuze, expondo-a à luz das condições excedentes a que se presta o neoliberalismo atual – em síntese: a efervescência livre dos afetos deleuzianos constituiria a máscara mais conveniente para ludibriar a opressão errática e demais perversidades a que o capitalismo de rosto humano nos sujeita, o célebre capitalismo “descafeinado” nas análises irreverentes de Žižek).

A intensidade da cena parte, então, desse fosso que se abre entre a franja de mundo que conheço (ou julgo conhecer) e a zona de sombra que se estende proporcionalmente para lá dos domínios da minha compreensão (um aparte: em vez de domínios, imagine-se ler demónios, que foi o que me saiu, sem querer, do ritmo apressado dos dedos a bater no teclado). É dessa fissura, portanto, que emerge o poder de agenciamento da mencionada sequência fílmica, aquilo que ultrapassa a individualidade de cada interveniente na rave, dissolvendo-se o nome próprio de cada um, o estado civil, sexo, género, idade, etc. É aí que o filme mais se presta a dar-se enquanto filme, enquanto experimentação das possibilidades da imagem e da música ambiente por si mesmas, da espiritualização de toda a sensação visual e sonora, mesmo com o que possa haver de intolerável em tamanha imanência, na brutalidade real, não mediatizada, daquilo que é ali encenado (mas que não o parece). E se nos deixarmos arrebatar por isso, até pela agressão que se ali se entreabre, já estamos no corpo do agenciamento. “É isso, agenciar”, confirma Gilles Deleuze: “estar no meio, na linha de encontro de um mundo interior e de um mundo exterior”.

Ao fim de quase duas horas, já nos esquecemos de onde saiu Chico: da tal aldeia, algures numa serra, a desaparecer debaixo do sol.

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Referências:

Trailer do filme Verão Danado: https://www.youtube.com/watch?v=oeMsYZKdzf0.

André Almeida Santos, “Juventude em marcha: o ‘Verão Danado’ de Pedro Cabeleira”, in Observador, 4-8-2017, disponível em http://observador.pt/2017/08/04/os-miudos-estao-bem-no-verao-danado-de-pedro-cabeleira/.

Herberto Helder, Photomaton & Vox, 2.ª ed., Lisboa, Assírio & Alvim, 1987.

Gilles Deleuze & Claire Parnet, Diálogos, trad. José Gabriel Cunha, Lisboa, Relógio D’Água, 2004.

Slavoj Žižek, Organs without Bodies. Deleuze and Consequences, New York, Routledge, 2004.

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Categorias: Crónica

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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