Partidos e Movimentos Políticos 1910-1974 | A criação do Partido Republicano Evolucionista

Partidos e Movimentos Políticos 1910-1974 | A criação do Partido Republicano Evolucionista

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Ana Paula Pires, ilustre historiadora da I República, esteve presente no Fórum Encontros de Outono 2017 – Os Partidos e Movimentos Políticos 1910-1974. A sua conferência foi dedicada ao Partido Republicano Evolucionista, um dos partidos mais representativos e com maior base social de apoio durante a década de 10 do Século XX, da qual apresenta uma síntese na Vila Nova.

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O sonho de constituir um grande partido conservador que fizesse frente ao Partido Democrático surgiu logo em 1911. (…) O Partido Republicano Evolucionista foi a segunda força política de implantação nacional entre 1912 e 1917. (…) António José de Almeida, fundador e líder, foi um dos primeiros políticos republicanos a defender a pacificação do regime. (…) Fundiu-se em 1919 com a União Republicana, dando origem ao Partido Republicano Liberal.

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O sonho de constituir um grande partido conservador que fizesse frente ao Partido Democrático surgiu logo em 1911. Da cisão do Partido Republicano Português, já prenunciada ao longo do ano de 1911 e confirmada em Outubro do mesmo ano, saiu, a princípio, uma União Nacional Republicana, que não era mais do que a tentativa de continuar o “bloco” constituído para as eleições presidenciais de Agosto. A eleição e a posterior tomada de posse do I Governo Constitucional serviram para confirmar um extremar de posições no interior do Partido Republicano Português (P.R.P.), orientação que ficou, inevitavelmente, marcada pela apresentação, em Setembro de 1911, do novo programa do partido e pela sua confirmação, a 27 de Outubro.

Dias antes, a 20 de Outubro, António José de Almeida foi insultado e vaiado de forma violenta no Rossio por militantes republicanos radicais, contrários à política de atração e integração na República de elementos considerados adversos ao regime, caminho que Almeida vinha defendendo e que seria, também, um dos motivos que o levaria a abandonar o Partido Republicano Português, protagonizando a sua primeira grande cisão. O incidente foi discutido na Câmara dos Deputados, trazido à discussão por Brito Camacho que o condenou veementemente:

“Não foi uma desordem vulgar, não foi um episódio banal de rua, nascido de circunstâncias fortuitas, em que intervém a polícia e vai terminar, naturalmente, no Governo Civil ou na Boa Hora. Não, Sr. Presidente ! A desordem de ontem foi, na minha opinião, a consequência lógica, o corolário fatal duma campanha de ódio, que se vem fazendo contra certos políticos, que são, por acaso, dos que melhor têm servido a República (…) Porque se ultrajou António José de Almeida, que o povo considerava o porta estandarte da sua bandeira e, preso dos seus lábios, o seguiria para a vitória ou para a morte ? E é este homem o escolhido ontem, no Rossio, para o insulto, para a grosseria, para o vitupério! Porquê? Ah! Sr. Presidente, unicamente porque ele representa a política da direita da Câmara, e, contra os homens que se sentam deste lado, de há muito que se faz, repito, nas conferências, nas reuniões públicas e nos jornais, uma campanha de descrédito e de ódio, apontando-os como traidores à República e à Pátria! Mas que motivos, que razões há, que honestamente alguém possa aduzir, seja quem for, para lançar, sobre os homens que ocupam a direita da Câmara, o labéu infamante de traidores à República e traidores à Pátria?1.

É certo que a iniciativa de criação de uma União Nacional Republicana, foi bem acolhida, um pouco por todo o País, chegando a estruturar-se a organização de alguns centros políticos e avançando-se com a publicação, a 20 de Dezembro de 1911, de um programa. Contudo, António José de Almeida e Manuel de Brito Camacho, apesar de unidos quanto aos princípios políticos fundamentais, eram líderes bastante diferentes quanto aos seus objectivos e ambições, particularidade que se refletia, inevitavelmente, também, à natureza dos apoios políticos que ambos eram capazes de agregar. A aliança acabaria por se desfazer pouco tempo depois, em Fevereiro de 1912.

O Partido Republicano Evolucionista foi a segunda força política de implantação nacional entre 1912 e 1917. A sua constituição foi anunciada a 24 de Fevereiro de 1912, entre os princípios orientadores do novo partido encontramos:

(i) reforma administrativa descentralizadora, assente numa nova lei eleitoral (representação proporcional em Lisboa e Porto),

(ii) revisão dos recenseamentos eleitorais

(iii) revisão dos diplomas do Governo Provisório (separação entre Estado e Igrejas, instrução pública, exército, inquilinato, registo civil e assistência pública), e

(iv) amnistia política e militar.

António José de Almeida, fundador e líder do Partido Republicano Evolucionista, foi um dos primeiros políticos republicanos a defender a pacificação do regime, propondo, mesmo, uma amnistia para sindicalistas e monárquicos.

O programa do Partido Republicano Evolucionista foi aprovado no 1.º Congresso do partido, realizado a 8 de Agosto de 1913 e deixava antever como objectivos principais a intervenção em três áreas básicas:

(i) instrução e educação nacional;

(ii) assistência pública e

(iii) saúde e higiene públicas.

O Partido Republicano Evolucionista fundiu-se em 1919 com a União Republicana, dando origem ao Partido Republicano Liberal.

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1 Diário da Câmara dos Deputados, Sessão n.º 4-A, de 21 de Outubro de 1911, p.3-4.

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Imagem de destaque: Ana Paula Pires nos Encontros de Outono 2017 (José Rocha; fotografia)

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Ana Paula Pires

Ana Paula Pires é doutorada em História, especialidade História Económica e Social Contemporânea, pela Universidade Nova de Lisboa. Realiza actualmente um pós-doutoramento na Universidade de Stanford e na Universidade Nova de Lisboa. É membro da direcção do Instituto de História Contemporânea da FCSH-UNL e coordenadora do grupo “Economia, Sociedade, Património e Inovação” da mesma instituição. Autora de diversos livros e artigos científicos é co-fundadora da International Network for the Study of the Great War in Africa e é editora de 1914-1918 online, International Encyclopedia of the First World War, projecto coordenado pela Universidade Livre de Berlim. Venceu os prémios da Associação Portuguesa de História Económica e Social (2005), Alberto Sampaio (2006), Defesa Nacional (menção honrosa) (2012).

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