José Alberto Salgado

Botânica | Ervas daninhas

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Qualquer pessoa que tenha uma pequena horta ou jardim, gostaria de ver erradicadas, de uma vez por todas, as plantas daninhas que, ano após ano, teimam em regressar para invadir aqueles espaços cultivados. Para os manter limpos e arejados, é necessário passar longas horas curvados a arrancá-las.

Também há quem diga, e com muita razão, que não existem ervas daninhas. Todas as plantas que cobrem o solo têm um papel biológico importante na natureza. Uma planta não nasce por acaso. De acordo com o lugar e a altura do ano em que se manifesta, podemos obter informação importante sobre a evolução e a qualidade do solo que queremos cultivar.

Talvez poucas pessoas reparem na diversidade de ervas que cobrem o solo dos nosso quintais. Em pouco mais de 1 m², pude identificar, pelo menos, 22 plantas diferentes! (as que estão na foto abaixo, que foi tirada no mês de agosto). Algumas delas indicam que o solo é rico em azoto, nitrato, matéria orgânica e outras substâncias. Outras nem por isso. Um solo com estes fertilizantes naturais não necessita de estrume nem de outros nutrientes.

Legenda da imagem de destaque:

  1. Junça (Cyperus esculentus L.);
  2. Erva-moleirinha (Fumaria officinalis L.);
  3. Beldros (Amaranthus retroflexus L.);
  4. Epilóbio-serrilhado (Epilobium obscurum Schreber);                     
    O Tártago, ou Catapúcia-menor, planta identificada com o nº 5, indica-nos que o solo está doente. No entanto, é uma planta regeneradora.

    O Tártago, ou Catapúcia-menor, planta identificada com o nº 5 na imagem de destaque, indica-nos que o solo está doente. No entanto, é uma planta regeneradora.

  5. Catapúcia-menor (Euphorbia lathyris L.);                                       
  6. Trevo-azedo-de-folhas-pequenas (Oxalis corniculata L.);
  7. Hipericão (Hypericum sp.), esp. a determinar;
  8. Ansarina-branca (Chenopodium album L.);
  9. Mastruço (Coronopus didymus (L.) Sm.);     
  10. Urtiga (Urtica dioica L.);
  11. Azedinha-de-folhas-roxas (Oxalis latifolia Kunth);
  12. Erva-pessegueira (Polygonum persicaria L.);
  13. Cabelo-de-cão (Poa annua L.);
  14. Beldroega(Portulaca oleracea L.);
  15. Labaça (Rumex obtusifolius L.);
  16. Milhã (Digitaria sanguinalis (L.) Scop.);
  17. Tasneirinha (Senecio vulgaris L.);
  18. Agrião-menor (Cardamine hirsuta L.);
  19. Ésula-redonda (Euphorbia pepus L.);
  20. Bolsa-de-pastor (Capsella bulrsa-pastoris L.);
  21. Serradela (Ornithopus compressus L.);
  22. Morugem (Stellaria media (L.) Vill.)
  23. ??

Neste artigo, vamos falar-vos sobre algumas delas, em particular aquelas que têm um papel bio-indicador. Mais tarde falaremos de outras também importantes, mas que nos visitam noutras épocas do ano.

J A Salgado: Plantas da Devesa - Ervas Daninhas 2 - 2 Vila Nova Online Artigo nº 2 26122017

A Junça, de que se pode fazer a horchata, é uma das maiores pragas entre as ervas daninhas.

Na imagem de destaque, identificada com o número 1, observamos a Junça (Cyperus esculentus L.), uma peste que é uma grande dor de cabeça para qualquer agricultor, principalmente desde há alguns anos para cá. A sua propagação está a atingir valores preocupantes. Como a desgraça de uns faz a felicidade de outros, em Espanha cultivam-na para extraírem os tubérculos e com eles produzirem uma bebida refrescante conhecida por horchata. Na figura à esquerda, pode-se observar um pormenor do tubérculo.

A existência da Fumária indica-nos que o solo está a ficar saturado de matéria orgânica.

Na foto à esquerda, encontramos a planta assinalada com o nº 2, a Fumária, conhecida por Erva-moleirinha, e um pormenor da flor da espécie capreolata.

Durante bastante tempo, ao longo do ano, há uma erva daninha que nos acompanha de forma provocadora, que se encosta, se entrelaça e se mistura com tudo o que estiver à sua volta. O seu nome é Fumária (Fumaria officinalis L.). Gosta de andar pelos cantos. Serve-se das roseiras, ou de qualquer outro apoio, para se exibir e mostrar os seus pequenos cachos de flores avermelhados (F. officinalis L.), ou brancos, menos comuns, (F. capreolata L.). Esta planta indica-nos que o solo está a ficar saturado por excesso de estrume ou de matéria orgânica.

O excesso de potássio e falta de azoto fazem com que o Beldros apareça nesses locais.

A seguir, com o nº 3 e na imagem que aqui se encontra à direita, identificamos o Beldros; (Amaranthus retroflexus L.). Uma curiosidade:  a existência desta planta indica que o solo tem potássio em excesso e falta de azoto. No terreno, a maioria das pessoas não está nada preocupada com o excesso ou a falta destes químicos, e a presença desta e de outras plantas, que só estorvam, resolve-se com um golpe de enxada! É, contudo, uma planta com propriedades muito interessantes que serão tratadas, esta e outras mais, num próximo artigo.

Interessantíssima é também a planta apresentada acima com o número 5: Tártago ou Catapúcia-menor são alguns vernáculos. O seu nome científico é (Euphorbia lathyris L.). A presença dela diz-nos, muito claramente, que o solo está doente, contaminado pelo excesso de adubos químicos e pesticidas. Ela atua como purificadora, fazendo o seu melhor para o tornar menos poluído.

A crença tradicional de que esta planta, cujo latex é venenoso, afasta as toupeiras, não faz sentido. A toupeira é insensível aos cheiros e não come raízes de nenhuma planta.

A Ansarina-branca é uma planta com sabor semelhante aos grelos.

No meu pequeno quintal, nesta altura do ano, na companhia das Urtigas, tenho, e deixo permanecer, uma outra planta que adoro. Quando não há grelos para acompanhar um prato qualquer, colho as folhas frescas e tenras das extremidades dos ramos e cozinho-as, como faria com os grelos, depois de lhes dar uma leve fervura. O sabor é muito idêntico ao dos grelos, talvez ainda melhor. Essa planta é a Ansarina-branca, (Chenopodium álbum L.). Aqui vos deixo uma foto dela. Indica-nos que o solo é muito rico em azoto.

Urtiga, ou Ortiga, é uma erva daninha com virtudes medicinais e culinárias.

Outra planta importante que cobre o meu quintal, nesta altura do ano, é a Urtiga (Urtica dioica L.). Esta planta, detestada por alguns, é uma planta maravilhosa. Na verdade, trata-se de uma das plantas silvestres mais importantes, se não estorvar, nas nossas hortas! Noutra ocasião falarei das suas virtudes medicinais e culinárias (desta e de muitas outras), mas hoje limito-me a considerar, apenas, o aspeto bio-indicador. Nos locais onde proliferam as Urtigas, o solo é rico em nitratos. Também repele os indesejáveis ácaros e piolhos..

Quando chega a primavera e a Morugem aparece ficamos a saber que o solo se prepara para ficar em boa forma.

Por último, para terminar este artigo introdutório às ervas daninhas, queria apenas acrescentar que, na primavera, fico contente quando vejo Morugem (Stellaria media (L.) Vill.) em quantidade. É ela que que me assegura que as bactérias estão ativas e que o solo, convalescente, está a recuperar e a ficar em plena forma.

Também me agrada bastante ser visitado pela Amor-de-hortelão (Galium aparine L.), aquela planta que se agarra à roupa com os seus microscópicos ganchinhos (que inspiraram Georges de Mestral, inventor do Velcro). Fico a saber que naquele solo existem grandes quantidades de azoto. Esta planta permite-lhe reencontrar o seu equilíbrio, despoluindo-o e consumindo o que estiver em excesso.

O Velcro e a Amor-de-hortelão possuem uma história em comum. Foi esta última planta a inspiração para a invenção daquele tecido.

…...

Imagens: José Alberto Salgado.

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Categorias: Ciência

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