A demanda da história de Jesus, o Cristo

A demanda da história de Jesus, o Cristo

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Existe uma pluralidade de olhares sobre Jesus. Não será coincidência o facto do cristianismo primitivo ter oficializado quatro evangelhos no cânone bíblico.

Do mesmo modo, é imensa a diversidade de perspetivas sobre Jesus como figura histórica, porventura a figura mais estudada da História da Humanidade.

A intensa investigação dos últimos séculos sobre o Jesus histórico tem tido o indiscutível mérito de ter permitido um conhecimento cada vez mais profundo do núcleo essencial da fé cristã e ao recentrar o foco do cristianismo em Jesus, o Cristo, e à sua significação fundamental para a revelação do plano de Deus junto da Humanidade.

Atualmente, cerca de um terço dos seres humanos do nosso planeta dizem-se cristãos. Além disso, existem pessoas de outras religiões e inclusive sem identidade religiosa que admiram a sua vida e mensagem, embora não se reconheçam no cristianismo. A sua figura foi de tal modo determinante que a História se dividiu em antes e depois de Cristo.

Daí a relevância de conhecer o processo de demanda do Jesus histórico. Durante muito tempo, Jesus não foi estudado como uma figura histórica no sentido moderno do termo. Por um lado, os cristãos consideravam os evangelhos canónicos como relatos factuais da sua vida. Por outro lado, a generalidade dos não cristãos não expressavam muito interesse pela sua figura.

Esta situação modificou-se radicalmente com a modernidade, que enfatizava a razão e no espírito crítico.

Foi neste contexto que surgiu a busca do Jesus histórico, sendo possível distinguir três grandes etapas.

A primeira etapa ocorreu nos séculos XVIII e XIX, tendo tido como principais autores Hermann Reimarus, Friedrich Strauss e Ernest Renan. As suas principais caraterísticas foram as seguintes:

– A interpretação dos evangelhos de acordo com um determinado paradigma (Jesus poderia ser considerado como um reformador religioso e social ou um mestre da sabedoria);

– O ceticismo em relação às narrativas bíblicas relativas à presença do sobrenatural.

No início do século XX, Albert Schweitzer e Rudolf Bultmann mostraram diversas reservas em relação à possibilidade de conhecer o Jesus histórico, considerando que o Novo Testamento era sobretudo um testemunho de fé das primeiras comunidades.

A segunda fase da investigação histórica sobre o Jesus histórico deu-se no início da década de 1950, sob o impulso de Ernest Käsemann, que criticou Bultmann, considerando que existe uma ligação entre a compreensão do mistério da Páscoa pelas comunidades e o conhecimento do Jesus terreno.

No âmbito desta segunda fase, destacaram-se, entre outros, Charles Doood, Günther Bornkamm. Jacques Dupont, James Robinson e Joachim Jeremias.

Os principais contributos desta fase foram os seguintes:

– O Novo Testamento transmite-nos mais a fé das comunidades primitivas do que a trajetória do Jesus histórico;

– A singularidade de Jesus distingue-o do seu contexto judeu e das comunidades pós-pascais;

– O centro da vida e da mensagem de Jesus foi a proclamação do Reino de Deus.

A partir da década de 1980, emergiu a terceira fase da demanda, que tem uma grande pluralidade de autores, como Ed Sanders, Geza Vermes, Marcus Borg, John Dominic Crossan, entre muitos outros.

A terceira fase apresenta as seguintes caraterísticas:

– A ênfase na interdisciplinaridade, promovendo o contributo de outras ciências, como a antropologia, a sociologia e a linguística;

– O reforço do conhecimento da vida terrena de Jesus e do seu contexto espácio-temporal;

– A redescoberta e a valorização do judaísmo de Jesus;

O Evangelho de Marcos diz-nos: «Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus» (Mc 15, 39). Esta frase expressa a relação íntima de Jesus com Deus, de modo que Jesus é a manifestação humana por excelência de Deus. Jesus revela Deus através das palavras e atos, na sua práxis libertadora e no movimento de milhões de seres humanos que tem compartilhado o projeto do Reino de Deus.

A sua relação com Deus é tão estreita que tudo Jesus diz e faz é Deus que fala e age. Na humanidade exemplar de Jesus, apreende-se o rosto do Pai (Abba) e o sentido glorioso da sua divindade. Como disse uma vez Leonardo Boff: «Quando mais humano se apresenta Jesus, mais Deus se manifesta. Quando mais Deus é Jesus, tanto se revela aí o ser humano».

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 Imagem de destaque: O Príncipe da Paz (Akiane Kram; pintura).

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Daniel Faria

Nasceu em 1975, em Vila Nova de Famalicão. Licenciado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e pós-graduado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida pela mesma Instituição. É diplomado pelo Curso Teológico-Pastoral da Universidade Católica Portuguesa. Em 1998 e 1999, trabalhou no Centro Regional da Segurança Social do Norte. Desde 2000, é Técnico Superior no Município de Vila Nova de Famalicão. Valoriza as ciências sociais e humanas e a espiritualidade como meios de aprofundar o (auto)conhecimento, em sintonia com a Natureza e o Universo. Dedica-se a causas de voluntariado. É autor do blogue pracadasideias.blogspot.com e da página Espiritualidade e Liberdade.

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