Crise Ambiental | Pegada alimentar: A alimentação e o ambiente

Crise Ambiental | Pegada alimentar: A alimentação e o ambiente

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As questões ambientais são, no seu conjunto, um dos mais graves problemas civilizacionais com que  o Homem se defronta nos nossos dias. Entre estes, um há a que não é dada a devida atenção apesar de ser um dos mais sérios e ameaçadores que atualmente enfrentamos, a pegada alimentar. Manuela Araújo, a do Parque da Devesa, diretora da Associação Famalicão em Transição e coordenadora do blogue Sustentabilidade é Ação faz um ponto da situação sobre esta problemática e propõe alguns caminhos a seguir no sentido de a minimizar.

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As nossas escolhas alimentares, para além de interferirem diretamente na nossa saúde, impactam profundamente no ambiente, biodiversidade e alterações climáticas, assim como na economia, soberania alimentar e democracia. Muito mais do que parece à primeira vista. Quando escolhemos o que compramos para comer, não estamos apenas a promover a nossa saúde (ou a nossa doença), estamos a participar ativamente na construção de um futuro e de um ambiente melhores ou piores, para nós mesmos, e sobretudo, para as gerações vindouras.

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Todos sabemos que o mundo enfrenta uma crise ambiental global sem precedentes na história da civilização humana. Provavelmente não sabemos como enfrentá-la, mas ignorá-la será a pior das opções. Tentar compreender o que a causou, refletir sobre o que podemos fazer para contrariar essa crise e agir de acordo com o pensamento informado é o único caminho viável.

LegumesComer é a necessidade mais básica dos seres humanos (e dos seres vivos em geral), e as atividades que se geram em torno da alimentação produzem mais de 25% dos gases com efeito de estufa, contribuindo para acelerar as alterações climáticas. Só a pecuária emite 18% dos gases com efeito de estufa, mais do que o setor dos transportes.

A alimentação é a base da nossa subsistência e é um dos principais motores da economia. A agricultura, a pecuária, a indústria alimentar, a indústria química que abastece a agricultura convencional e a indústria alimentar, as empresas farmacêuticas e da biotecnologia que inventam hormonas e transgénicos para acelerar crescimentos e lucros, as empresas da energia e dos transportes que levam alimentos, matérias primas e produtos, de uns continentes para outros, e o comércio – cadeias de distribuição, revendedores, retalhistas e restauração, as universidades, todos estes setores da atividade se movimentam em torno dos alimentos, exclusivamente ou inclusivamente.

A alimentação, é, pois, o assunto que mais influencia a crise ambiental, e em tantos níveis que seria preciso um livro para os abranger. E é neste campo que muito podemos fazer se quisermos contribuir para minorar a crise ambiental atual.

Se estivermos atentos aos alimentos que compramos, podemos dar um contributo muito significativo. E a que devemos estar atentos? Essencialmente a 3 coisas: 1 – de onde vem, 2 – como foi produzido, e 3 – que tipo de alimento é.

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De onde vem?

Quando comemos um alimento que vem da América ou da Ásia, esse alimento teve de ser transportado. E o transporte implica consumo de combustível, o que implica elevadas emissões de dióxido de carbono (CO2) e outros gases com efeito de estufa. E na maior parte dos casos, desnecessariamente, pois não faltam alternativas de alimentos locais que nos permitem uma alimentação saudável e diversificada, com muito menos impacto no clima e no ambiente.

Por outro lado, quando optamos por alimentos locais e da época, estamos a ter impactos positivos na economia local e no ambiente. Se conseguirmos comprar diretamente do produtor (não é fácil, sabemos, mas em muitos casos é possível), ou em circuitos curtos de comercialização (um intermediário no máximo), estamos a diminuir drasticamente as emissões de CO2 devidas ao transporte. Além disso, os alimentos frescos que são transportados de longe perdem muitas das suas características nutritivas com o tempo de armazenamento e transporte.

SlowFood

Merece aqui destaque o movimento Slow Food, que apareceu nos anos 80 em Itália, mas que já se estendeu a pelo menos 160 países e envolve milhões de pessoas, que visa evitar o desaparecimento de culturas e tradições alimentares locais, promovendo o acesso de todos a alimentos bons, limpos e justos.

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Como foi produzido?

Se o alimento foi produzido em agricultura convencional, com o uso de pesticidas e fertilizantes químicos, ou em pecuária intensiva, vai ter seguramente grandes impactos ambientais. Os pesticidas: herbicidas, inseticidas, fungicidas e outros, causam graves danos ao ecossistema, pois matam os organismos essenciais do solo, insetos de várias espécies, inclusivamente polinizadores como as abelhas, poluem o solo, o ar e a água, e entram na cadeia alimentar a vários níveis. Também os fertilizantes químicos de síntese usados na agricultura convencional, as hormonas e medicamentos usados em larga escala na pecuária intensiva acabam por poluir o solo, os lençóis freáticos, as águas dos rios e mesmo os oceanos.

E se o produto for transgénico (organismo geneticamente modificado – OGM), ou, no caso de carne, se o animal for alimentado com produtos transgénicos, o que é a prática corrente? Nesse caso os impactos no ambiente podem ser enormes – não sabemos – porque não existem estudos para isso, somos todos as cobaias; mas uma coisa já está provada: os cultivos de alimentos OGM ameaçam dramaticamente a biodiversidade, quer pelos efeitos contaminantes da polinização cruzada, que acabam com as variedades alimentares locais e adaptadas, quer porque são produzidos para resistir a herbicidas, o que implica o maior uso dos herbicidas, logo maior contaminação ambiental, quer porque matam insetos e outra fauna essencial e exterminam plantas que fazem parte dos ecossistemas, alterando os equilíbrios e aumentando a extinção das espécies.

Pelo contrário, quando optamos por comprar produtos oriundos da agricultura biológica, sabemos que foram cumpridas regras de proteção ambiental e de bem estar animal. Na agricultura biológica não são permitidos pesticidas ou herbicidas químicos de síntese. Mesmo os pesticidas naturais só são usados em última instância, pois a saúde do solo e o equilíbrio do ecossistema são a base deste modo de cultivo. Além do mais, na agricultura e pecuária biológica, não são permitidos, de todo, alimentos ou produtos transgénicos.

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Que tipo de alimento é?

Os impactos no ambiente são bem diversificados, consoante a natureza do alimento. Se é carne, só por si, terá um impacto ambiental muito superior ao alimento vegetal. Come-se carne em excesso, tanto para a saúde como para o ambiente. Para se produzir um kg de carne de vaca, é necessária uma área enorme de produção do alimento para o animal (soja, milho, …) e são gastos muitos milhares de litros de água para a sua produção. E em muitos casos, como acontece no Brasil, essa área de produção foi subtraída a florestas essenciais ao equilíbrio do planeta, como a Amazónia. A desflorestação é um dos principais fatores do aumento da concentração de CO2 na atmosfera; a pecuária um dos maiores fatores de desflorestação.

Com essa mesma área (para a produção de um kg de carne) pode-se produzir muitos kg de alimentos de origem vegetal, e mesmo muito ricos em proteínas, como é o caso das leguminosas. A pegada ecológica alimentar de uma pessoa que costuma comer carne em quase todas as refeições chega a ser 17 vezes superior à de uma pessoa vegetariana; e a pegada de carbono é mais do dobro. Assim, cada vez que optamos for fazer uma refeição vegetariana em detrimento de uma refeição com carne, estamos a ter um impacto muito positivo no ambiente.

No que se refere ao peixe, e sendo Portugal um dos países com maior consumo de peixe per capita, devemos estar muito atentos à sua origem. A sobrepesca de muitas espécies está a levá-las para o caminho da extinção. E a extinção de uma espécie, como por exemplo a sardinha, vai seguramente levar à extinção de muitas outras espécies mais de topo da cadeia alimentar, podendo levar mesmo à morte dos oceanos. Por isso, é muito importante estar informado sobre o consumo sustentável de pescado, para o que recomendo consultar o Guia de bolso para as melhores escolhas de peixes e mariscos em Portugal, e descarregar o Cartão SOS Oceano disponibilizado pelo Oceanário de Lisboa.

Está provado que os vegetarianos têm maior esperança de vida e que a carne em excesso faz mal, mas se gosta de comer carne, saiba que não é preciso ser-se vegetariano para se fazer muitas refeições sem carne ou peixe. É uma questão de se agir de acordo com o que se pensa.

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Outros fatores

Para além destes três fatores essenciais: de onde vem, como foi produzido e que tipo de alimento é, os impactos da alimentação no ambiente são também muito superiores quando se trata de alimentos processados, transformados e refrigerados, pelo que é importante comprar os alimentos o mais naturais possíveis; privilegiar o cozinhar em casa, pois para além de contribuir para uma melhor saúde, contribui para um melhor ambiente.

Também muito importante é a maneira como o alimento é apresentado: alimentos excessivamente embalados têm pegadas ecológicas muito maiores, como é óbvio. E se algumas vezes a embalagem se destina a proteger o alimento no transporte, muitas vezes é totalmente desnecessária e reflete uma sociedade de consumo que já nem pensa no básico, no “é mesmo preciso?”.

Será bom não esquecer a minimização do desperdício alimentar. ´Comprar apenas os alimentos necessários – com o uso de uma lista ou planificação das refeições, é uma boa ajuda para reduzir o desperdício; aproveitar as sobras para outras refeições, e encaminhar os resíduos orgânicos para compostagem e produção de composto (fertilizante natural), ajudam a fechar o ciclo e a diminuir a pegada ecológica da alimentação.

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Conclusão

O futuro depende mais da alimentação do que de qualquer outra coisa ou atividade que possamos fazer. Deste modo, está na nossa mão ajudar a tornar este mundo melhor através das nossas escolhas alimentares. Ao escolher produtos locais, ao preferir produtos biológicos, ao optar por refeições vegetarianas, ao evitar produtos processados e excessivamente embalados, e ao eliminar o desperdício alimentar, não estamos apenas a cuidar da nossa saúde, estamos também a cuidar da saúde do planeta e das futuras gerações.

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Fontes:

BCFN – Barilla Center for Food and Nutrition

CompoNatura

Fantastic Farms

FAO – Food and Agriculture Organization

Jusbrasil

Não no Menu

Oceanário de Lisboa

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Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Manuela Araújo

Manuela Araújo (1962-), famalicense e mãe de 3 filhos. Dedica-se ao ativismo ambiental como forma de voluntariado, sobretudo através da Associação Famalicão em Transição, de que é co-fundadora e presidente da direção, e através do blogue Sustentabilidade é Acção. É Técnica Superior no Município de Vila Nova de Famalicão, onde desempenha atualmente a função de Chefe de Equipa Multidisciplinar de Gestão do Parque da Devesa. A formação académica passa pelas licenciaturas em Engenharia Química (Univ. do Porto, 1985) e em Arquitetura (Univ. Lusíada VNF, 2001) e pelo mestrado em Tecnologias do Ambiente (Univ. do Minho, 1996).

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