Luísa Peixoto

Língua Gestual Portuguesa | Pelo Gesto e pelo Som, comunicar entre surdos e ouvintes

Língua Gestual Portuguesa | Pelo Gesto e pelo Som, comunicar entre surdos e ouvintes

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Luísa Peixoto é tradutora de Língua Gestual Portuguesa. Apresenta neste seu artigo uma introdução a diversas problemáticas relacionadas com a utilização da mesma. Em simultâneo, dá ainda a conhecer o Projeto Pelo Gesto e pelo Som, a ser implementado desde há 3 anos na Escola Básica de Lagoa, projeto esse em que a autora desenvolve a sua atividade profissional.

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A língua é a chave para o coração de um povo. Se perdemos a chave, perdemos o povo. Se guardamos a chave em lugar seguro, como um tesouro, abriremos as portas para riquezas incalculáveis, riquezas que jamais poderiam ser imaginadas do outro lado da porta”.

Eva Engholm, 1965

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Um diálogo de surdos … Diz-se muitas vezes, no meio dos ouvintes, que “não há pior surdo do que aquele que não quer ouvir”, significando não uma impossibilidade de comunicação, mas uma rejeição do diálogo… Na verdade, tal afirmação reflecte total desconhecimento da realidade, porque não existe nada de mais vivo, de mais rico de finura de sentimentos do que um diálogo entre surdos e, muito especificamente, um dialogo em LÍNGUA GESTUAL.”

Marcel Conradtk

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Todas as línguas de cultura e tradição escrita deveriam possuirr gramáticas e dicionários. A língua gestual tem um estatuto linguístico e, por isso mesmo, deveria também ter estes mesmos instrumentos de descrição.

A introdução* ora apresentada descreve, então, algum vocabulário da Língua Gestual Portuguesa, como o alfabeto, a numeração, os dias da semana, meses do ano, entre outros.

Poderão, também, encontrar, na primeira parte desta introdução, uma breve descrição do que é a Língua Gestual e a Língua Gestual Portuguesa. A língua gestual NÃO é uma língua universal e possui também variações geográficas.

Para descrever o mesmo conceito, a Língua Gestual pode recorrer a variações em cada comunidade. Por exemplo, na Casa Pia, os dias da semana são considerados tendo em conta o que os alunos surdos comiam ao longo dos sete dias dentro da instituição; ao saírem os alunos divulgavam os seus gestos pela restante comunidade, o que fazia com que se fosse perdendo o referente inicial. O mesmo gesto pode ser diferente numa outra instituição, deste modo dando origem a uma variação gestual regional.

Assim, com este artigo, pretende-se dar resposta a diversas questões frequentes com que o público se defronta, tais como:

  • Reconhecer a Língua Gestual como uma língua natural;
  • Enunciar conceitos errados em relação à Língua Gestual e à comunidade surda;
  • Adquirir alguns conhecimentos práticos em Língua Gestual Portuguesa.
Nancy Rourke - Compreender a Cultura Surda.

Nancy Rourke – Understanding Deaf Culture.

 

I – Aspectos gerais da Língua Gestual e da comunidade surda

 

1. 1 Língua Gestual

A Língua Gestual é uma língua de movimento e de espaço, das mãos e dos olhos, da comunicação abstracta assim como do contar de uma história icónica, mas o mais importante de tudo é que é a Língua da Comunidade Surda. Não se trata de uma nova Língua nem de um sistema recente de comunicação desenvolvido por pessoas ouvintes. Pelo contrário, trata-se de uma forma de comunicação que ocorre naturalmente entre pessoas que não ouvem. É uma Língua que até há pouco tempo tinha sido ignorada e, por esse motivo, subvalorizada no seu potencial. É diferente, muitas vezes impressionantemente diferente, das Línguas faladas, mas partilha características e processos gramaticais com muitas outras Línguas faladas. Difere das outras Línguas num dos aspectos mais importantes das suas características: não se baseia em palavras.(Kyle,J.G.eWollB.)

Conhecimentos sobre o uso da Língua Gestual datam de há pelo menos 2000 anos, no mundo ocidental, e talvez ainda mais cedo em escritos chineses. A fonte mais antiga em Inglês (1644) é de John Bulweis “Quirologia: ou a Linguagem natural da mão”. Composta de “movimentos falantes”, e de “gestos discursivos” a partir dos primeiros, ao qual se acrescenta a Quironomia: ou a arte da Retórica Manual.”

 

1.2 Língua Gestual Portuguesa

A Língua Gestual Portuguesa é a língua natural da comunidade surda portuguesa e utilizada pela grande maioria dos nossos surdos portugueses. É de produção manuo-motora e de recepção visual. A Língua Gestual Portuguesa é uma língua oficial em Portugal, de acordo com a Constituição da República Portuguesa, desde 1997.

 

1.3 Língua ou Linguagem?

O termo correcto é língua, pois trata-se de um código linguístico, com regras e gramática própria. Existem características apontadas como sendo próprias de todas as línguas de que a Língua Gestual Portuguesa partilha. Eis as suas características:

  • Arbitrariedade;
  • Sistema linguístico;
  • Utilização por uma comunidade;
  • Criatividade;
  • Aspectos contrastivos;
  • Sistema em evolução e renovação;
  • Aquisição/aprendizagem realizada de um modo natural.

 

Chuck Baird – Mechanical Ear (Implante Auricular). Chuck Baird foi um dos mais notórios representantes do movimento artístico De’VIA art, uma estética da cultura surda em que as artes visuais transmitem uma visão do mundo surdo.

 

1.4 Alguns mitos sobre a Língua Gestual

 

Mito 1

  • A língua gestual é uma mistura de pantomina e gesticulação, incapaz de expressar conceitos abstractos.
    • A língua gestual é uma língua composta pela arbitrariedade e através desta é possível expressar sentimentos, ideias e emoções.

 

Mito 2

  • A língua gestual é universal.
    • A língua gestual não é universal. Cada país possui a sua própria língua gestual, pois factores geográficos e culturais são influentes e determinantes na elaboração e renovação do gesto.

 

Mito 3

  • A língua gestual deriva da língua oral.
    • As línguas gestuais são totalmente independentes das línguas orais.

 

Mito 4

  • A língua gestual não possui gramática.
    • A língua gestual possui uma gramática própria, rica e complexa.

 

Muitas vezes ouvimos atribuir o conceito “surdo-mudo” referindo-se o termo a uma pessoa com deficiência auditiva. Na verdade, este termo é totalmente errado. A surdez é totalmente independente da mudez. Trata-se de diferentes deficiências com causas e origens diferentes. O correcto é dizer-se “surdo” e não “surdo-mudo”. Eis as definições de surdez e mudez:

Surdez: É a incapacidade parcial ou total de audição. Pode ser de nascença ou causada posteriormente por doenças.

Mudez: É uma deficiência que indica incapacidade (total ou parcial) de produzir fala.

 

II – Aspetos práticos da Língua Gestual Portuguesa

 

2.1 Dactilologia e Numeração

Dactilologia, ou alfabeto manual, é um sistema de representação, quer simbólica, quer icónica, das letras dos alfabetos das línguas orais escritas, por meio das mãos. Criado, no Século XVIII, pelo Abade de l´Epée, é uma técnica de comunicação por meio de sinais feitos com os dedos ou com as mãos, usado por surdos e ouvintes para comunicarem mais facilmente entre si.

 

III – Projecto Pelo Gesto e pelo Som

 

Na Escola Básica da Lagoa, após ter recebido alguns alunos do pré-escolar, no seu jardim-de-infância, portadores de com surdez, foram dinamizadas diversas iniciativas com todos os alunos desta escola que acabariam por conduzir à implementação de um projecto específico, denominado “Incluir pelo Gesto e pelo Som”.

Numa fase inicial, no ano lectivo 2015/2016, os alunos do 1.º ciclo realizaram um trabalho de pesquisa em grupo em que realizaram uma investigação sobre deficiência e os direitos da pessoa com deficiência. Com o apoio da Professora de Educação Especial, do Terapeuta da Fala e dos alunos com surdez, realizaram-se duas sessões, uma sobre comunicação e deficiência auditiva e outra sobre Língua Gestual Portuguesa. De forma a complementar estas sessões, os alunos convidaram a Associação Portuguesa de Apoio ao Implante Coclear para fazer uma sessão de esclarecimento sobre estas ajudas técnicas.

Como forma de divulgação do percurso de aprendizagens, os pais e toda a comunidade escolar foram envolvidos em todas as acções. Além disso, foram feitos registos de imagens de todas as etapas, posteriormente divulgados no facebook do Agrupamento, da Autarquia, da Associação de Pais e da Associação Portuguesa de Apoio ao Implante Coclear.

O trabalho obteve resultados muito positivos. Conseguiu-se envolver todos os alunos da escola e a respectiva comunidade educativa de forma a eliminar barreiras linguísticas e a promover a inclusão dos alunos surdos no estabelecimento de ensino. Entretanto,  uma equipa de reportagem do Jornal de Notícias publicou um artigo sobre o trabalho realizado, facto que deu visibilidade nacional ao projecto. No final desse ano lectivo, o projecto venceu o Concurso Nacional Escola Alerta na categoria do 1.º ciclo. O respectivo prémio permitiu a aquisição de diverso equipamento e software indispensável à prossecução dos objectivos propostos. Já neste ano de 2017, no Dia do Município, a autarquia famalicense, que tem apoiado o projecto desde a primeira hora, reconheceu o mérito do trabalho realizado atribuindo-lhe o Selo Famalicão Visão ’25 na categoria Força V – Famalicão Voluntário.

Pelo Gesto e pelo Som – Atividade em Sala de Aula.

 

3.1 Fatores Diferenciadores

Este projecto destacou-se, e destaca-se, não só pelas iniciativas desenvolvidas, mas primordialmente pelo facto de constituir uma acção preventiva e potenciadora de capacitação e inclusão plena de alunos surdos em turmas de ensino regular. Saliente-se, ainda, a sensibilidade dos alunos para com alunos externos à turma que, nessa altura, face à possibilidade de receberem os colegas no ano seguinte, não se limitaram a questionar mas a trabalhar para responder às suas dúvidas.

Com o trabalho desenvolvido, a equipa de trabalho ambiciona constituir um exemplo de acção preventiva, a replicar noutras escolas a nível nacional.

3.2 Objetivos

Objetivo geral:

Potenciar a inclusão plena de alunos surdos na Escola Básica da Lagoa – Agrupamento de Escolas Camilo Castelo Branco.

 

Objetivos específicos:

  1. Sensibilizar a escola e a comunidade para a surdez;
  2. Promover a reflexão sobre os direitos da pessoa com deficiência auditiva;
  3. Abordar as principais características da deficiência auditiva e dos implantes cocleares;
  4. Transmitir conhecimentos sobre dactilologia e gestos da Língua Gestual Portuguesa;
  5. Conhecer as estratégias para facilitar a comunicação com os alunos com surdez;
  6. Partilhar as aprendizagens com as famílias e com a comunidade (Autarquia, Associação de Pais, Professores, Auxiliares de Acção Educativa, entre outros).

Mãos que Cantam. Mãos que Cantam é um agrupamento coral constituído por surdos e que tem atingido relevante sucesso nas suas apresentações artísticas, uma prova mais de que para comunicar não é preciso falar e que a integração social também é possível pela via artística.

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*baseada num manual produzido pela autora

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Imagem de destaque: Dactilologia, em Ventos da Lusfonia (autor desconhecido; ilustração).

Outras imagens:

Nancy Rourke: Nancy Rourke – Understandig Deaf Culture

Chuck Baird: Chuck Baird – Mechanical Ear

Dactilologia: Geoplavras

Pelo Gesto e pelo Som: Pedro Costa

Mãos que Cantam: autor desconhecido – Mãos que Cantam; fotografia.

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Categorias: Sociedade

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