1/12/2017 | O Governo tem governado bem, mas…

1/12/2017 | O Governo tem governado bem, mas…

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António Costa e o Partido Socialista PS têm tido muita sabedoria, mas também alguma sorte a levar o país a bom porto, há que o reconhecer. Contudo, como diz o povo na sua imensa sabedoria, cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

2 anos e 3 orçamentos depois de chegar ao Governo, a oposição continua a ser praticamente inexistente. À esquerda, tal facto deve-se às alianças forjadas com o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português no rescaldo das últimas legislativas, mas que já se vinham antecipando em diversos sinais discursivos destes intervenientes. Por seu turno, à direita, a debilidade é notória, sobretudo no Partido Social Democrata que continua sem rumo, recalcado e sem conseguir apresentar uma visão estratégica coordenada e coerente, sempre a relembrar um passado de que ninguém se quer lembrar, e cujo futuro a curto prazo se encontra ensombrado, apesar das eleições internas que estão para acontecer, por um desfecho propiciador do surgimento de um novo líder que – assim estou em crer – não deixará de ser apenas transitório, seja ela qual for a solução encontrada. Quanto ao CDS, apesar de mais rapidamente se estar a levantar por força da sua líder Assunção Cristas, muito esforçada no sentido de ganhar terreno ao PSD, este continua a ser um partido com uma expressão bastante reduzida, quer na Assembleia da República quer no conjunto da sociedade portuguesa.

Assim sendo, em favor do país e do povo português, resta ao PS lutar contra si mesmo, ter o cuidado de atuar com ponderação e não deslizar na sua orientação política governativa, nem na sua estratégia comunicacional. Há erros que se pagam muito caro e que, saindo caros aos próprios políticos, o saem mais ainda aos portugueses em geral, como a experiência dos últimos anos não deixa esquecer.

Os últimos orçamentos têm vindo a permitir resultados positivos, com a consolidação das contas públicas e melhorias assinaláveis nos valores do défice e, aguarda-se ainda, também da dívida ao estrangeiro. Estes resultados têm permitido melhorar as perspetivas dos consumidores e investidores, facilitando o aumento quer do consumo quer da atividade produtiva, em especial aquela resultando dos setores exportadores, um e outro contribuindo de forma equilibrada para um desenvolvimento que aparenta ser sustentável. Isto apesar de ainda não existirem mudanças muito significativas nos setores produtivos, para além do aumento, ele próprio, da atividade económica.

Com estas e com outras, os portugueses sentem-se, no geral, mais desafogados, mais descontraídos e mais felizes. Contudo, o PS, como se costuma dizer, não se deverá deixar embandeirar em arco, inebriar-se pelo apoio que tem sentido ou apenas pelo exercício do próprio poder político. Alguns sinais dos últimos tempos são bem claros da confusão estabelecida, seja pelo lado da sua atuação, seja pelo lado da comunicação.

Nos últimos meses, três casos deixaram bem claros erros que, a continuarem a acontecer situações semelhantes, poderão resultar bem caro a todos, a saber: os grandes incêndios, a recusa a uma progressão geral nas carreiras dos professores e a transferência do Infarmed para o Porto.

No caso dos incêndios, para além da confusão instalada, transpareceu uma imagem de inação, que não parece adequada, mas foi a que assentou na opinião pública.

No que se refere à não progressão dos professores, ainda que o Governo possa ter as suas razões de ordem financeira para não a fazer, deveria ter assumido tal facto desde o início evitando as divisões em relação a outros funcionários públicos que acabaram por fazer surgir um coro de protestos contra o facto de os professores se manifestarem em defesa dos seus direitos, o que não faz sentido, sobretudo porque, não tarda nada, não haverá quem queira ser professor em Portugal, em especial se for verdadeiramente qualificado para o ser. Além disso, em relação à austeridade ou a necessidade de falta dela, o discurso atual parece  contradizer o anterior que em muito contribuiu para que o PS acabasse por ser chamado a formar Governo.

Por último, em relação ao Infarmed, a decisão surge aos olhos da opinião pública como precipitada e sem sentido, aparentemente apenas como compensação pelo facto de esta cidade não ter conseguido captar a Agência Europeia para o Medicamento.

Todos estes casos, há que o reconhecer também, têm sido relativamente bem tolerados, apesar de ligeiras perdas nas sondagens, porque o ambiente económico e correspondentes expectativas se têm tornado mais favoráveis a cada dia que passa. Contudo, continuando a situação a melhorar, como tem acontecido e por todos é mais desejada, o panorama inverter-se-á porque os cidadãos começarão a ser cada vez mais exigentes com o Governo e o Partido Socialista deixando de aceitar tão facilmente este tipo de situações.

Do exposto resulta que o PS, e o Governo, não podem nem devem deitar a perder o pecúlio que amealharam.

 

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Categorias: Editorial

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Pedro Costa

Diretor e editor.

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