Observatório de Cinema | Lavar os olhos com John Carpenter

Observatório de Cinema | Lavar os olhos com John Carpenter

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Vítor Ribeiro é Diretor e programador do Cinclube de Joane. Inicia hoje a sua colaboração no Vila Nova, obviamente falando sobre cinema. Em particular, nesta sua primeira vez, debruça-se sobre Halloween, de John Carpenter, comparando-o com outros filmes posteriores dentro do género terror.

 

Há algum tempo que planeava revisitar Halloween(…), uma obra admirável. (…) As menções ao cinema clássico não tornam o filme submisso, porque Carpenter apropria-se delas e estica-as com exuberância. E parece ser essa uma das fragilidades de uma boa parte do cinema americano dos nossos dias, em especial os que se inserem dentro de determinados géneros (o terror e a ficção científica) e que procuram chegar-se ao mainstream.

 

O acaso ditado pela chegada às mãos das respectivas cópias (em dvd), orientou-me há dias atrás para uma sessão dupla: Midnight Special de Jeff Nichols (lançamento directo para o mercado vídeo) e Fragmentado (Split, 2016) de M. Night Shyamalan, que estreou em Portugal no início deste ano.

Midnight Special apresenta-nos, a princípio, uma criança como um talismã de uma seita do Texas, para se tornar na narrativa de uma fuga filiada no ET (1982), de Spielberg, na necessidade de devolver o protagonista benévolo ao seu planeta, ao mundo superior. O filme procura soltar-se da clausura do género e Nichols usa Michael Shannon, o pai da criança, presença imponente, acertada para personagens obsessivos, para o ligar a duas anteriores obras do cineasta, também situadas no Texas rural e centradas nas dinâmicas familiares: Procurem Abrigo (Take Shelter, 2011), a família testada pelas ameaças do mundo exterior, e Histórias de Caçadeiras (Shotgun Stories, 2007), dois clãs familiares que dialogavam através de uma violência com ecos ancestrais. Com o desfiar da narrativa, através de estradas e motéis, as tangentes ensaiadas ao melodrama fraquejam e as amarras à filiação spielberguiana (e às suas marcas) acentuam-se, o que resulta num terceiro acto previsível e sensaborão.

O também spielberguiano Shyamalan conseguiu, no início da primeira década deste século, juntar ao apreciável êxito junto do público mainstream uma validação conferida pelo circuito de cinema de autor, com filmes como O Protegido (Unbreakable, 2000), Sinais (Signs, 2002) e A Vila (The Village, 2004), enquanto os seus heróis (os predestinados) e as suas abordagens algo transgressoras aos géneros davam que fazer à crítica e aos investigadores. Depois do tropeção conferido por um objecto desconcertante, A Senhora da Água (Lady in the Water, 2006), Shyamalan entregou-se a vários projectos anódinos e sem identidade que se revelaram desastres junto da crítica e do público. Em 2015, o cineasta pôs a cabeça de fora com A Visita (The Visit), filme de terror de pequeno orçamento, em ambiente familiar, que surpreendia e funcionava, como as produções de série B, pela assunção de menoridade e que, assim, conseguia interpelar o espectador. Em Fragmentado, ainda no género de terror, encontramos Kevin, um protagonista com um peculiar distúrbio de personalidade, portador de 23 identidades, que rapta e aprisiona três adolescentes. O espectador começa por embarcar no jogo de Shyamalan, ao permanente vestir e despir de identidades do protagonista, na relação com as adolescentes cativas e com a psiquiatra (óptima interpretação de Betty Buckley) que funciona como vigilante na tentativa de travar os impulsos mais ferozes de Kelvin. Mas, depois de expostas as regras do jogo, o filme vai-se desmoronando, torna-se esquemático e ordenado, refém da falta de densidade e de corpo do protagonista.

Há algum tempo que planeava revisitar Halloween (1978), e como encontrei uma boa edição espanhola, comentada por Carpenter, pela produtora e co-argumentista Debra Hill e pela aqui estreante Jamie Lee Curtis, permitiu-me lavar os olhos dos frustrantes visionamentos referidos acima. Noite de Halloween de 1963, Michael, uma criança de seis anos assassina a irmã depois desta consumar um interlúdio sexual com o namorado, que deixara a casa momentos antes. Quinze anos depois, reencontramos Michael Myers em fuga do hospício para regressar à cidade da sua infância, a pacata Haddonfield. Carpenter assume a ascendência do período clássico e enquanto constrói um dos mais influentes filmes de terror, coloca a correr nos ecrãs de televisão Forbidden Planet (1956) e The Thing from Another World (1951), produção da RKO assinada por Howard Hawks. Numa produção de parcos recursos, com apenas vinte dias de rodagem, Carpenter solta a câmara, valoriza cada plano e cada corte, que adensa com a música (também da autoria do cineasta) e aproxima-se da ideia de cinema puro, formulada por Hitchcock aquando da estreia do seu Psycho (1960), primazia dada à potência da linguagem em detrimento da narrativa, diálogos e até da construção das personagens. As afinidades com o filme de Hitchcock atravessam Halloween: uma câmara flutuante mas precisa, a casa apresentada como um personagem, uma intriga disposta de forma a que o espectador esteja sempre um passo à frente das personagens. Três semanas depois da noite de Halloween que abre o filme, ocorreu em Dallas o assassinato de Kennedy. Esta associação temporal não será uma mera coincidência: ao acto de violência incompreensível executado por uma criança associamos o mal puro, disseminado e oculto que colheu a inocência da América após a morte de JFK e do processo delirante que se seguiu, fabricado por inúmeras teorias da conspiração: Donald Pleasence, psiquiatra, na cena da fuga de Michael enuncia “The evil is gone!”. Os actos de violência durante o filme elegem raparigas jovens e reagem ou antecipam actos sexuais, e mesmo com a ressalva de que tanto Carpenter como Debra Hill refutam esta ideia, Halloween parece expor a tensão de uma América puritana em tempos de contracultura e liberalização de costumes.

Halloween não necessita destas leituras, muitas vezes especulativas, para ser uma obra admirável: as eventuais interpretações dessas texturas acrescentam dados e problemáticas que muitas vezes auxiliam na aclaração das ideias que dão sustento à obra de um cineasta ou de uma vaga artística. As menções ao cinema clássico não tornam o filme submisso, porque Carpenter apropria-se delas e estica-as com exuberância. E parece ser essa uma das fragilidades de uma boa parte do cinema americano dos nossos dias, em especial os que se inserem dentro de determinados géneros (o terror e a ficção científica) e que procuram chegar-se ao mainstream, pois os filmes ficam tolhidos perante as referências e as filiações, trazendo-as para a superfície da obra, assim como no que se refere ao subtexto e à simbologia utilizada, que ganham em protagonismo o que perdem em subtileza, como podemos exemplificar com o recente Mother! de Aronofsky, que atirava ao espectador uma enxurrada de elementos, da iconografia bíblica às alterações climáticas, que poderiam constituir as camadas de interpretação e que se tornam, assim, a casca do filme, com o espectador a marcar falta de comparência ao cinema, à sua gramática e nem se salva o valor plástico de cada imagem.

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Vítor Ribeiro

Mestrado em Literatura e Cinema (Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho) com uma tese sob a forma de Guião Cinematográfico, “Em Teu Ventre”, que cruza ao sabor do tempo duas obras de Goethe, “As Afinidades Electivas” e “Werther”; Licenciado em engenharia civil, funcionário público. Programador de Cinema da Casa das Artes de Famalicão, no qual se destaca o Close-up – Observatório de Cinema ( www.closeup.pt ); Presidente da Direcção e programador do Cineclube de Joane ( www.cineclubejoane.org ), desde 1998.

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