Azenhas, moinhos e açudes no Vale do Ave | História, cultura, património e inovação: Parte II – Origem (Séc. I a.C. – IV)

Azenhas, moinhos e açudes no Vale do Ave | História, cultura, património e inovação: Parte II – Origem (Séc. I a.C. – IV)

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Bruno Matos, arquiteto e investigador, galardoado com o Prémio Ibérico de Investigação em Arquitectura Popular (2012) continua, neste artigo, a revelar o património molinológico do Vale do Ave. Depois da Introdução de há um mês atrás, dá-nos agora a conhecer a sua Origem.

 

Ainda está por apurar a origem dos moinhos hidráulicos no Vale do Ave. (…)

Sabemos que a moagem de cereais era um processo utilizado pelo homem já no período Neolítico. Nos diversos castros e cividades da região – (…) Penices em Vila Nova de Famalicão (…) – foram encontradas peças destinadas à moagem de sementes e grãos.

 

Nos principais rios do município de Vila Nova de Famalicão (Ave, Este, Pelhe e Pele) existe um vasto património molinológico com vários séculos de existência que representa diversas indústrias tradicionais relacionadas com a moagem de cereais, a maceração do linho, o pisoar dos panos, a serração de madeira, a produção de azeite, o fabrico de cartão, entre outras. Apesar de existirem referências documentais que mencionam a existência de azenhas e moinhos em Vila Nova de Famalicão no século XIII, no reinado de D. Afonso III e D. Dinis, ainda está por apurar a origem dos moinhos hidráulicos no Vale do Ave. Com base em estudos arqueológicos e históricos desenvolvidos em diferentes locais da Europa, incluindo Portugal, pretende-se com este artigo questionar a origem cronológica dos moinhos hidráulicos no Vale do Ave.

Segundo diversos autores, nacionais e internacionais, os moinhos hidráulicos aparecem na civilização Europeia durante o séc. I a.C., destinando-se em primeiro lugar à moagem de cereais para produção de pão, e posteriormente para outras funções. Um epigrama de Antípatro de Salónica datado do ano 85 a.C. descreve a implementação do moinho hidráulico:

“Cessai de moer, ó mulheres que trabalhais no moinho; dormi e deixai os pássaros cantar à aurora cor de sangue. Ceres ordenou às ninfas aquáticas que desempenhassem a vossa tarefa, e elas obedientes à sua ordem, correm sobre a roda, e fazem girar o eixo por meio das palas que o rodeiam, e, com ele as pesadas mós”.1

No mesmo século, no tratado De Architectura, Livro X, Capítulo V surge o primeiro projeto “tipo” de uma azenha, cuja designação romana é Hydraletae, elaborado pelo Arquiteto Romano Marcos Vitrúvio Polião:

“Azenhas – […] Disposto na vertical, em cutelo, esse tambor gira a par com a roda. Igualmente dentado, está montado junto dele um tambor maior, disposto na horizontal, com o qual se encaixa. Deste modo, gera-se necessariamente a rotação das mós ao porem-se em movimento os dentes do tambor horizontal com os dentes do tambor que rodeia o eixo. Pendente de cima deste engenho, uma tremonha fornece às mós cereal que, com a mesma rotação, se transforma em farinha.”2

Estudos arqueológicos recentes, do final do séc. XX, realizados em Itália, nomeadamente em Saepinum e Roma, revelaram a existência de azenhas que funcionaram no séculos III e V. Em Saepinum, a azenha, datada de meados do séc. III, foi construída sobre uma casa pátio do séc. I. Era acionada por uma roda vertical com 2,2m de diâmetro (fig. 1) 3

Figura 1: Desenho em planta do achado arqueológico da azenha Romana de Saepinum (à esquerda), Autor: Jean-Pierre Brun; Reconstituição volumétrica da azenha Romana de Saepinum (à direita), Autor: S. Girardot. Fonte: BRUN, Jean Pierre. «Les moulins hydrauliques en Italie romaine» in Énergie hydraulique et machines élévatrices d’eau dans l’Antiquité; Ano: 2007.

Em Roma, associadas ao Aqueduto de Trajano, existiram azenhas que aproveitavam a água do Aqueduto para a moagem de cereais, e, eventualmente, esmagar azeitonas. Este complexo molinológico era composto por cinco rodas verticais, sendo que quatro tinham cerca de 2,30m de diâmetro e uma possuía 3,2m de diâmetro (fig. 2). Estas azenhas deixaram de funcionar entre o final do séc. IV e início do séc. V.

Figura 2: Desenho em planta do achado arqueológico da Azenha Romana do Aqueduto de Trajano em sobreposição com a reconstituição dos engenhos de moagem; Autor: Wilson; Fonte: BRUN, Jean Pierre. «Les moulins hydrauliques en Italie romaine» in Énergie hydraulique et machines élévatrices d’eau dans l’Antiquité; Data: 2001.

 

No Sul de França, a 7Km de Arles, foram encontrados vestígios arqueológicos que correspondem a um conjunto monumental formado por 16 azenhas (fig. destaque, 3 e 4), datadas da época do Imperador Trajano, destinadas a produção de farinha para abastecimento da cidade de Arles.4

“A instalação representaria um excelente exemplo de arquitectura industrial. Segundo Benoit, esta instalação não teria correspondido a uma tentativa isolada, antes seria o resultado de um sábio conhecimento e de múltiplas aplicações. A sua concepção implica tradição e longa experiência.”5

Figura 3: Fotografia aérea das Azenhas de Barbegal; Autor: A. Chenet CNRS; Fonte: Philippe Leveau. «Les Moulins de Barbegal 1986-2006» in Énergie hydraulique et machines élévatrices d’eau dans l’Antiquité; Data: 2007.

 

Figura 4: Reconstituição volumétrica do engenho de moagem das Azenhas de Barbegal, Arles, França. Autor: Stephen Ressler; Consultado em 16/10/2017 no sitio web http://stephenjressler.com/portfolio/waterwheel-and-mill-apparatus/.

 

Em Portugal existem referências arqueológicas de azenhas e moinhos durante o período de ocupação romana. Nélson Borges refere a existência de uma azenha em Conímbriga e um moinho de rodízio em Beja que funcionariam durante a época luso-romana.6 Além destes casos, são apontados como presumíveis moinhos hidráulicos romanos – a azenha da Barragem de Chocapalhas, em Tomar, no distrito de Santarém; o moinho de rodízio de Tanque de Mouros, em Estremoz, no distrito de Évora, e o moinho de rodízio da Barragem de Grândola, no distrito de Setúbal.7

No que diz respeito ao Vale do Ave, sabemos que a moagem de cereais era um processo utilizado pelo homem já no período Neolítico. Nos diversos castros e cividades da região – Bagunte em Vila do Conde; Penices em Vila Nova de Famalicão e Briteiros em Guimarães – foram encontradas peças destinadas à moagem de sementes e grãos como, por exemplo, as mós planas e rebolos. Na Idade do Ferro, nos mesmos castros, aparecem mós discoides manuais, que, ao que tudo indica, foram introduzidas pelos Romanos para produção de farinha.

Segundo Abbott Usher, após o uso mecânico da força animal surgiu a exploração dos recursos naturais – a energia da água – e assim surgem os moinhos hidráulicos como processo evolutivo da tecnologia mecânica.8 Existiriam então azenhas e moinhos no Vale do Ave durante o período de ocupação Romana? Como se efetuava a moagem dos cereais armazenados nos Silos das Villae Romanas implantadas no Vale do Ave?

 

Bibliografia:

1 OLIVEIRA, Ernesto Veiga de; GALHANO, Fernando; PEREIRA, Benjamim. Tecnologia Tradicional Portuguesa – Sistemas de Moagem. Etnologia 2, INIC – Instituto Nacional de Investigação Científica, Centro de Estudos de Etnologia, Lisboa, 1983.p. 69.

2 VITRÚVIO, Tratado de Arquitectura. Tradução do Latim, Introdução e Notas de M. Justino Maciel, Ilustrações Thomas Noble Howe, IST PRESS – Instituto Superior Técnico, Lisboa, 2006, p. 375.

BRUN, Jean Pierre. «Les moulins hydrauliques en Italie romaine» in Énergie hydraulique et machines élévatrices d’eau dans l’Antiquité [em linha]. Nápoles: Publications du Centre Jean Bérard, 2007, (consultado em 17 Fevereiro de 2017). Disponível no sitio web: http://books.openedition.org/pcjb/436.

4 LEVEAU, Philippe. «Les moulins de Barbegal 1986 – 2006» in Énergie hydraulique et machines élévatrices d’eau dans l’Antiquité [em linha]. Nápoles: Publications du Centre Jean Bérard, 2007, (consultado em 17 Fevereiro de 2017). Disponível no sitio web: http://books.openedition.org/pcjb/434.

5 QUINTELA, António de Carvalho; MASCARENHAS, José Manuel; CARDOSO, João Luís. «A Instalação Hidráulica de Moagem de Barbegal e o seu Presumível Engenheiro-Construtor» in Ingenium Revista da Ordem dos Engenheiros, Junho de 1992, p. 48.

6 BORGES, Nélson Correia. «A farinação Através dos Tempos – 3» in História. Luis Almeida Martins (Dir.); Nº 29, Publicações Projornal, Lisboa, Março, 1981, pp. 66-74.

7 CARDOSO, João Luís; CARVALHO, António de; MASCARENHAS, José M.. «Moinhos Romanos em Portugal» in AquaRomana – Técnica Humana e Força Divina. Isabel Rodà de Llanza (Dir.); Lavínia Mayer (Coord.); Museu de les Aigües de la Fundació Agbar, 2004, pp. 139-145.

8 USHER, Abbott Payson. História das Invenções Mecânicas. Vitorino Magalhães Godinho (Dir.), Maria Ludovina Couto (Trad.), Vol. 1, Edições Cosmos, Lisboa, 1973, [1ª Ed. 1929].

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Imagem de destaque: Reconstituição volumétrica do conjunto arquitetónico formado pelas 16 Azenhas de Barbegal, Arles, França; Autor: Stephen Ressler; Consultado em 16/10/2017 no sitio web http://stephenjressler.com/portfolio/roman-mill-complex-at-barbegal/

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Bruno Matos

R. Bruno Matos (Trofa, 1978). Arquitecto, (FAAUL, 2003), concluiu a licenciatura como bolseiro ao abrigo do programa Erasmus-Sócrates na Escuela Técnica Superior de Arquitectura da Universidad de Valladolid. Mestre em Metodologias de Intervenção no Património Arquitectónico, (FAUP, 2012). Prémio Ibérico de Investigação em Arquitectura Popular, (Zamora, 2012). Doutorando no Programa de Doutoramento em Arquitectura - perfil “Património Arquitectónico”, (PDA-FAUP, 2012), com bolsa individual de doutoramento concedida pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT, 2013-2017), onde desenvolve investigação sobre património molinológico constituído pelas azenhas e açudes do rio Ave (2008-2017). Membro associado da TIMS - The International Molinological Society, da ACEM - Asociación para la Conservación y Estudio de los Molinos e da RPM - Rede Portuguesa de Molinologia. http://orcid.org/0000-0003-4437-5739

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