Sinais dos Tempos | Piar fininho

Sinais dos Tempos | Piar fininho

Os tempos mudaram e as vontades também. A culpa não é do Camões, e muito menos do Bob Dylan, que tanto nos avisaram.

Talvez seja da tecnologia de aproximação das escolhas; destas máquinas de aconchego social; ou da transição planetária… Eu sei lá!

O que sei é que no tempo do meu avô – alfaiate de profissão – os factos não eram fatos. Até o tempo tinha a sua própria banda sonora: sinos, cucos, tic-tacs e trriims.

Engane-se quem pensa que o ritmo era lento. O suor, o sangue e as lágrimas explicam isso melhor do que eu. A velocidade das horas dependia do perigo, da fome e do medo. A pouca literacia, o estado austero e os senhores abades conduziam fatalmente ao sonho e às visões. Uns em jeito de fuga, outros de consolo. Sonhavam-se mundos novos: Liberdade, Democracia e Paz. Mas sonhava-se. Reagia-se.

De tanto insistir em sonhar, mudou-se o ser. Com ele, a confiança e, assim, chegou o tal mundo tão cheio de novas qualidades.

– Sim, Luiz Vaz, tinhas razão!!!…

Só que não.

Esses sinos, cucos, tic-tacs e trriims deixaram de marcar o tempo e deram lugar a outros.

Os alfaiates morreram. Os factos contorceram-se, ganharam o poder de Cronos e o dom da ubiquidade. Fatos são agora fatos e impõem-nos o tempo e o ritmo. Lá do alto. Do altar dos relógios da informação – os novos cucos. Passarada que canta em uníssono as modas do dia. Representam a mais alta-costura dos trajes mentais. Nós, submissos, os ouvimos. Vestimos essas ladainhas diárias. Repetidas. Iguais. Hipnóticas. A mente, agora, pensa no aborto, depois nos incêndios, depois na eutanásia; na Coreia do Norte; nos filhos do CR7; no terrorismo; nos muçulmanos; na Catalunha; na seca…

Esses cucos não param de nos acertar as agulhas. São cada vez mais… e mais… e mais….

Deixou de haver fome de futuro e de novos mundos. Os factos ocupam-nos demasiado o tempo. Não reflectimos. Robotizamos. Não temos visões. Olhamos. Uma apatia que intervala com laivos de prazer – esse encantador genérico de felicidade. Deleitamo-nos por nos considerarem um “target” daquele “spot” que alimenta os relógios de cuco.

Depois temos os senhores eleitos que comentam factos. De fato abordam cucos e dos factos fazem tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Marcam-nos o ritmo.

Liberdade? Para escolher um cuco? Democracia? Para eleger um fato? Paz? Para consumir o tempo?

Como diria o Dylan: “Se para vocês, o vosso tempo vale a pena ser poupado, então é melhor que comecem a nadar ou afundarão como pedras. Pois os tempos estão em mudança.”

Sem darmos por isso transformam-nos em robots apáticos. Para ajudar à festa o acelerado avanço tecnológico encarregar-se-á de nos transformar em apáticos e incompetentes. Pois quando comparados aos verdadeiros robots – essas máquinas movidas a chips e softwares – não teremos hipótese a longo prazo. Os cucos falantes referem-se a eles como investimento e ao trabalho humano como um custo que provoca dores salariais até ao universo. Explicam-nos os fatos  que um robot deve ser contabilizado enquanto activo de uma empresa, e um trabalhador humano não. Os nossos neurotransmissores anuem a esta programação linguística porque este tic-tac não pára e isso é perigoso. Mas qual o perigo? Pois. A resposta será uma outra pergunta: Qual o empresário que não quer reduzir os custos (trabalho) e aumentar o investimento (robots)?

Todos concordam que um robot teve custos na sua construção e que esse mesmo custo deve ser contabilizado como um activo numa coisa que se chama balanço que os guardas livros escrevem e que o fisco agradece. Mas… E um trabalhador humano não tem essa forma de contabilização como um robot? Mas… Porquê!? Não faz sentido exigirmos os mesmos direitos que estes autómatos? Não tivemos nós também custos na nossa construção enquanto máquinas biológicas?

Não fará sentido que desde o nosso nascimento se considere os custos de cada caloria; cada gasto na educação; na saúde e noutros, para ser contabilizado como activo da empresa que nos acolherá no nosso primeiro dia de trabalho?

Porquê esta aceitação fácil desta nova forma de racismo tecnológico a nosso desfavor? A conquista do futuro passará pela equiparação à nova raça humanóide que está a chegar sem complexos nem preconceitos.

No dia em que nos equipararmos a esta nova raça compreenderemos que a contabilização do seu custo económico está profundamente equivocada. Um erro lógico que um robot nunca cometeria: nas empresas que fabricam robots há outros “robots” (humanos) cujo custo não se encontra contabilizado, e que, se o fosse, até os cucos piavam fininho….

É tempo de acordar e fazer o que os robots nunca farão: sonhar e ter visões.

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Categorias: Crónica

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Tiago Granja

Em Famalicão foi vencedor absoluto da primeira corrida de espermatozóides em que participou nos idos anos 70. Desde cedo se interessou pela respiração do mundo e das coisas. Trabalha no financiamento da vida alheia e adora música ao ponto de compor e tudo. "Amestrou-se" em estratégia empresarial e tem um MBA porque é bem e dá-lhe jeito. Gosta de questionar o inquestionável. Não gosta de mau sushi. A espiritualidade e a filosofia perseguem-no. A sua pergunta preferida é : Qual a origem da inteligência?

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