Do labirinto da dívida à devastação incendiária – Urgência da perspetiva ecológica

Do labirinto da dívida à devastação incendiária – Urgência da perspetiva ecológica

José Carlos Costa Marques é Presidente da Direção da Campo Aberto e foi o seu representante no Encontro “Ação Ecológica, Transição Sustentável e Regeneração”, que se realizou em outubro passado, na Casa do Território, em Famalicão.

 

No Encontro (…) «Ação Ecológica, Transição Sustentável e Regeneração», foi aprovado um documento, «Carta de Famalicão – o Espírito e as Práticas», que constitui o contributo dos participantes para colocar no centro e à cabeça da nossa vida coletiva aquilo que de facto a deve comandar — a perspetiva ecológica.

 

Há cerca de um mês, em 7 de outubro de 2017, decorreu em Famalicão um Encontro que reuniu mais de trinta associações, coletivos e entidades, e alguns convidados a título individual, provenientes sobretudo do Noroeste e Norte de Portugal. Grosso modo, de uma linha que vai do Vouga ao Minho — e teria ido para além deste se algumas associações galegas convidadas tivessem podido deslocar-se. Foram também convidadas, e estiveram presentes, algumas entidades de âmbito nacional, parte delas com presença no Noroeste (Fapas, AMO Portugal, Quercus, Zero), outras sobretudo radicadas no Centro e Sul (como é o caso da Liga para a Proteção da Natureza).

Como encontros desta natureza tão plural não são muito frequentes entre nós, podemos dizer que, por um dia, foi em Famalicão que se sentiu o pulsar de muitos dos que, em Portugal, se identificam com uma perspetiva cujo foco incide sobre um horizonte de sustentabilidade, de biodiversidade, de relação harmoniosa perene entre a sociedade portuguesa e o território que a alberga e lhe serve de suporte.

 

Global ou local?

Num mundo globalizado como o de hoje, tudo leva a fazer perder de vista que é no território local, do país, da região, do concelho, que se situa o laço principal de uma comunidade humana com as condições essenciais que permitem que a vida exista e floresça — a nossa vida de seres humanos, sem dúvida, mas também a das espécies, vegetais e animais, em simbiose com ela.

Tem sido fácil, em Portugal, perder de vista essa realidade primordial, seduzidos que fomos pela ideia de que tudo podemos importar, desde modelos de desenvolvimento até aos alimentos que nos mantêm vivos. No entanto, dois fenómenos recentes deveriam ter-nos feito acordar em sobressalto desse sono dogmático. Um deles foi a crise financeira mundial que explodiu em 2007-08 e nos atingiu em pleno em 2010-11 — e que nos revelou até que ponto o nosso suposto desenvolvimento estava (e continua a estar) construído sobre a areia movediça da dívida. Outro, com causas de décadas, e que se aprofundou a partir dos verões vermelhos e negros de 2003 e 2005, foram os incêndios constantes e devastadores no nosso território, que desembocaram em 2017 numa tragédia coletiva de dimensões nunca antes sonhadas.

Presos pelo fio de aranha quebradiço da dívida, na qual deixámos já aprisionar os jovens e as próximas gerações, descobrimos também até que ponto, com a exceção relativa de uma estreita faixa litoral, tínhamos consentido no abandono e na degradação do nosso próprio território, fazendo dele, em vez de algo de fértil, tranquilo e acolhedor, um campo de ruínas, um cenário de guerra, de povoações cercadas pelas chamas. O exato contrário do que se esperaria de um interior que, ao longo de uma história quase milenar — e apesar de não poucas debilidades e fragilidades —, nunca faltou, até há poucas décadas, ao seu papel de reserva da comunidade.

Apesar disso, muitos não retiraram ainda dos acontecimentos as ilações que se impõem. É certo que, timidamente, se começa a compreender que não há futuro para Portugal sem um regresso parcial ao interior. Que seja também um regresso à terra e à natureza, a uma vida coletiva mais essencial e despojada, mais próxima das fontes da vida — que são os solos, as águas, o ar, o clima.

 

No centro e à cabeça

No Encontro de 7 de outubro, intitulado «Ação Ecológica, Transição Sustentável e Regeneração», foi aprovado um documento, «Carta de Famalicão – o Espírito e as Práticas», que constitui o contributo dos participantes para colocar no centro e à cabeça da nossa vida coletiva aquilo que de facto a deve comandar — a perspetiva ecológica. Estamos ainda longe disso, mas quem se der ao trabalho de pensar não tardará a compreender que a nossa queda no labirinto da dívida e na devastação incendiária não teria acontecido se tivessem sido seguidas as pistas abertas, logo nos anos 1970, por personalidades e movimentos inspirados nas realidades do território.

Julgamos que em breve estará disponível uma página eletrónica com o texto da referida Carta de Famalicão e informações complementares. Sugerimos desde já a sua leitura e análise logo que aqui venha a ser divulgado o seu endereço.

O Encontro foi organizado em parceria pela Associação Famalicão em Transição, pela Campo Aberto – associação de defesa do ambiente e pela Câmara Municipal de Famalicão, e decorreu no Parque da Devesa. Nos sítios eletrónicos das associações organizadoras é possível encontrar já mais informações sobre ele. Tencionamos também trazer a esta publicação eletrónica, proximamente, elementos complementares.

 

Imagem de destaque: Manuela Araújo, s/d.

 

Para saber mais, consulte Campo Aberto – Associação de Defesa do Ambiente

Categories: Sociedade

About Author

José Carlos Costa Marques

José Carlos Costa Marques (Porto, 1945). Foi professor, tradutor e assistente editorial. Reformado, mantém atividade como pequeno editor. Intervém em movimentos ecológicos desde 1974. Atualmente presidente da direção da associação de defesa do ambiente Campo Aberto.

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