Conceitos-moventes da-na poesia entre fractais acósmicos e os ritmos geometrais da sintomatologia

Conceitos-moventes da-na poesia entre fractais acósmicos e os ritmos geometrais da sintomatologia

Necessito da POESIA para não naufragar nos mundos da verdade! Evitar a bioascese-panóptica!

A aprendizagem é completamente impessoal e não tem alvos!

Contaminações plagiotrópicas de Samuel Butler, Ockham, Meinong, Hume, Lucrécio, Worringer, Losey, Maine de Biran, Cassavetes, Pollock, Antonioni, Bergson, D.H. Lawrence, Leibniz, MARACATUS e…e…e… os cordelistas de São José do Egipto( Pernambuco) e…e…e…

O artista não PROCURA reconhecimento, e jamais deseja ser entendido, ele vive nas zonas intensivas que produzem sempre uma multidão desconhecida, sim, o ARTISTA, o escritor estão sempre no imperceptível-molecular: VIDA!

Os maiores opositores do pensamento são: a banalidade e a reflexão-espelhada! Os afectos são simultaneamente indefiníveis e compositores de vida! O homem não pensa, nunca pensou….quem pensa é o cérebro!

Sabem porque é que não suporto a consciência… Ela não compreende os ritmos estéticos da natureza e quem não entende as forças criativas da natureza jamais será afectado pela singularidade da arte ou do pensamento, viverá apenas a trabalhar o sujeito pessoal, a ideologia escravizante do sucesso, o julgamento e a culpabilidade!

“ o que fala através de nós” – Guattari

“ existir é diferir…” – Gabriel Tarde

Imagem: José António Passos – Campi flores (técn. mista s/ madeira; 2009)

A poesia escapa das formas literárias, inventa a sua própria correnteza-crítica-estética-ética, constrói re-existências por meio de automovimento espiritual, colocando o pensamento em relação adjacente, fazendo-nos experimentar novas estranhezas, novas sensações( o apeiron): fluxos dobrados, invertidos e desdobrados do alfabeto agramatical absorvem em variância misosofias, sim, forças catalisadoras que se confundem com as cirandas da vida: é um animal em fuga atópica, em ritornelização com vitrais góticos vibradores de forças singulares, um animal ritmável-contemplativo com tremendas espessuras entretemporais que vem-vive do excesso do mundo, do improvisado, do inesperado, expandindo-se, existindo-se, incorporando-se entre acoplagens sintomatologistas ao anexar-se à multidão solitária e transdutora, à incomensurabilidade do estar dentro-e-fora de si-mesmo com as forças do esquecimento e da memória-ontológica: sair dos eixos, traçar territórios adentro da natureza, captar, fender, inventar até à saturação e mesclar o mundo por meio de fissuras ilimitáveis abertas à produção de espaços sem fundo( bestialidade-animalidade num processamento acontecimental, intensificado pela ininterrupta insurreição da assintaxia e pelas epifanias de correntezas de vida onde a vastidão do fora se dissolve com os acasos das multiplicidades heterogéneas, recomeçando o real indizível onde nada se distingue: os ecos perfuradores de fendas-da-matéria-luz-em-movimento, as tecelagens sígnicas, as tessituras semantúrgicas escarificam o impensado porque carregam a potência da vida e quebram a preponderância do orgânico com imensas laçadas murantes-simbióticas-diagramáticas que não param de revolutear, envolver e baralhar( alvéolos das forças sígnicas jogam dados contra as energias do mundo, metamorseando tudo em múltiplos intervalos, são rasgamentos sígnicos onde as sensações fractalizadoras vivem em tensão impessoal, acósmica e entremeada de ritmos incontroláveis, de vozes arrastadoras de outros-de-nós-mesmos que “nos” ultrapassam estranhamente transformando o corpo na errância de um deserto sem entrada nem saída, deserto carregado de intensidades que retornam sempre e se transvertem na potência de reinventar, sim, no poema há vidas absolutamente singularizadas em cada prisma-devir e em interpretação infinita: macaréus desejantes num presente eternamente recomeçável, se metamorfoseiam, se afirmam na renovação vibrante-espirutual da matéria, impulsionando voltagens inclassificáveis na ritmicidade ininterrupta, trespassando limites)!

A poesia força-nos a pensar no escorregadio, na experimentação da luz excessiva com a lucidez tremendamente desmesurada que tangencia o caos, se refaz no caos, multiplica e criva o caos por meio de molecularidades imanentes e de golpes moventes do tempo que nos mostram as aberrações da anterioridade da duração que é intensiva imprevisibilidade, produzindo diferença entre cinemas-corpos autopoiéticos onde a impermanência do singular mistura as forças do virtual com o real, destruindo o mundo das formas e normoses empíricas! A poesia nos conduz pelo vazio criativo da positividade das divergências, faz-nos entrar numa corrida de obstáculos entre sombras de infinitas possibilidades que se condensam no instável-flutuante, recompondo feixes histéricos com partículas-assignificantes perfuradoras da visão em deslizamento interrogativo, problemático( o in consciente produz-me tremendamente fora de controlos humanos)!

Imagem: José António Passos – Egoísmo (técn. mista s/ tela; 2011)

A POESIA provoca a revivescência da cosmicidade feiticeira, a reaparição dos dicionários vivos-indecifráveis, subverte silenciosamente os códigos das predominâncias instauradas ao capturar as cartografias intensivas da anti-matéria do mundo, as volteaduras voltaicas-cibridas, as linguagens insanas, dementes, desertoras, delirantes, insituáveis por meio de intermezzos escorregadios, de ritornelos movediços, de processos inacabados para apreender os mundos sensíveis, os lances de dados das hemorragias acontecimentais com o phanerón-balbuciante das raias de todas as artes, de todas as ciências, de todas as forças rupturantes da natureza, fazendo geografias caológicas, fundindo vida no instante que se eterniza e se desvanece simultaneamente — força germinativa-germinal de heterogéneses, intensificadoras do pensamento-impensado, do pensamento em conflito com o sensível, até ao incomensurável, ao arrebatamento ininteligível onde o vazio produz realidade, inventa-mundos!

Imagem: Jackson Pollock – Forest (técn. mista; 1954)

A poesia se transforma, retransforma, se inventa, re-inventa, se revolta contra tudo que recusa a vida, é uma força incomensurável de interpretações cartografantes, de oscilações electromagnéticas, de descodificações de movimentos infinitos de presentes futuríveis-larvários, de percepções impessoais, é um animal fraudulento, falsário, contrabandista, narcotraficante de topologias à deriva, de invaginações-do-geometral, de atravessamentos sígnicos, de diagramas-sensitivos carregados de conexões mutantes, de decomposições compositivas que desterritorializam a presença do excriptor em direcção ao instável repleto de coexistências porque o animal-poema se constrói e se contradiz, caminha à procura de paradoxos, do não-dito onde o sujeito e objecto se destronam e se descentram num ritmo de descontinuidades, sim, fugir ao domínio das percepções, enfrenta vidas desconhecidas e produzidas por audições e visivas resultantes de desvios, de terebrações do inesperado, de ecos inobjectiváveis, de escalavros subvertedores de códigos linguísticos, de aventuras enciclopédicas, destruindo familarismos, humanizações, espelhos, reconhecimento, sim, a poesia necessita do fracasso contínuo porque suspende o circuito do mundo, escuta a decomposição-regerminadora do mundo, escuta os interstícios polinizadores e esgotadores da linguagem, destrói o eu-déspota, o Homo Otarius e os microfascismos da língua, exalta a língua e obriga-a a sair do seu ecossistema por meio de variações afectivas, de imagens em fuga e em hibridização, fazendo proliferar texto-corpo nos olhares que se cruzam nas forças dos feixes de sensações, prolongando-se a si-próprios e resistindo com repetições metamórficas, levando o leitor para o invisível do sensível, para a metamorfose deslocalizada que absorverá o tempo puro a cada instante porque seu corpo será infectado, afectado e arremessado no mundo “sem saber o que pode”, contudo re-existe nas superfícies profundas e moventes onde a linguagem dos insanos, dos libertinos e da desrazão ressurgirá, se entre-cruzará indefinidamente( rarefacção modal, catalisadores mutantes, desregramento e descolamento epifânico)

A poesia cartografa tudo que está em fuga por meio do pensamento em transbordância, de linhas de entrecortes, de forças assintácticas indiscerníveis, indecifráveis que escapam às estruturas dualistas. Direcções coexistem com outras direcções e o mundo se mundifica e torna a vida inobjectivável, sim, sentimos adentro e fora de nós uma multidão bastarda, lenta-veloz e com desvios simultâneos, cavalgando sobre todas as línguas para esculpir a estrangeiridade, escutar o infinito no corpo acoplador de uma miríade de bifurcações afectivas-vibráteis que combatem as vazaduras da morte na língua! É uma energia tremendamente vadia e obscura, uma revolta enunciativa, um vazio perfurador de loucuras que dilacera superfícies e nos avizinha do incomensurável, do acontecimento disruptor do exílio ao minar ininterrompidamente o dizer, a palavra em contágio com o tremor habitacional doutra palavra na palavra, atingindo as visões fabuladoras, o transbordamento dos limites onde os circuitos-do-poema-mundo-de-qualidades-não-actualizadas se interpolam porque sentem a retracção fragmentada, a excreção do corpo transfixada por interrogações, o acidente assígnico perante a memória que se arruína, se incendeia nos rasgamentos construtores do processo inventivo: tudo se fricciona por meio do enfrentamento de um real inexaurível, materializando espiritualmente o oblívio na inesgotabilidade da linguagem que faz do nosso corpo uma vigília, uma geografia sem lugar, um crivo fora da consciência( insânias afirmam as afecções da vida e escapam das possíveis visibilidades, o poema vive sempre nas linhas musicais de feitiçaria porque activa as desterritorializações do impossível), SIM, sentimos o entrelaçamento dos magnetismos das emancipações híbridas sem transcendências, fazendo da indistinção, da indeterminação, as errâncias das ulcerações sígnicas-brownianas, as superfícies-profundas-intensivas das linguagens em perpétuo desequilíbrio, em disjunção inclusiva de micro-pontos-de-vista, de raias agramaticais, criando cosmovisões assintácticas, derivações, rombos, intersecções dos golpes impermanentes, levantados contra o mundo-por-dentro entre aprendizagens em devir: aqui-agora: o poema escapa ininterruptamente ao apoderamento, ao comércio-ensino da língua porque nos faz escutar as línguas em ressuscitação intermitente fora das jurisdições, das supremacias, dos controlos, sim, o texto-animal se torna um lugar-sem-lugar de escuta de fluxos de vozes, um assalto de vocalidades que invadem o mundo dos mundos entre movimentos de atraimento, recusa, altercação, expansibilidade, SIM, a poesia é um animal provocador de sensações incontroláveis, um animal atravessado por jogos de plasticidade sem denominações como se transformasse numa partitura de ritornelos: os timbres, os intervalos musicais dos interfaces ondulatórios acontecem nos movimentos vertiginosos das traduções do fim-sem-si, das transduções, dos roubos vivificadores do mundo para fugir aos desígnios do poder e da história. Na necessidade do nada, cria anomalias e sobrevem nos mosaicos de capturas de permutas do real inesgotável e das cirandas estéticas que rasgam firmamentos, misturam as linhas de variação de contrários numa golpeadura afirmadora do acaso, compondo, proliferando caos e sensações com as vazaduras do corpo onde tudo passa por entrecortes e por intercessores de intensidades dos despojos multissígnicos que esperam decifrações e desamparam as percepções, porque o animal-poema é um interminável rastro refractário obscuro, híbrido anterior ao pavor do verbo e a qualquer exuberância, sim, tudo é varado, entrelaçado pelas dobras variegáveis, impulsionadas pelo desmontável, reversível, modificável dos alfabetos desconhecidos, pelos ecos distantes dos gritos do não nascido que se expandem até ao infinito e retêm o vazio arrastador de rizomas cartográficos, de relações do absurdo e de metamorfoses disformes em confronto com o devir, com o mapa-mundo, sim, intensidades andarilham as indeterminações do invisível, asseveram as forças de vida-que-nunca-morre através de pensamentos escorregáveis, de ondulações cerebrais repletas de afectologias, de coreografias imanentes( zonas de vizinhança de indiferenciação fazem o poema escutar o devaneio e jamais dizer, a palavra tenta ventilar os gritos acósmicos que envolvem a morte e o transe do texto, dramatizando o espaço com a cegueira dos verbos energéticos, escultores do real em transformação)!

Imagem: José António Passos – S/ título (acrílico s/ tela; 2008)

A POESIA é uma linha matérica-de-forças-espirituais, é animal do reentrante das superfícies acopladoras de matérias luminosas da língua, das danças da carnadura da língua com transparências invertidas porque produz vida e faz parte da potência vibradora da sedução feronomática implodindo intensidades, anulando, esculpindo e misturando substâncias nas cartografias aberrantes, é a política estética-do-intermezzo adentro da correnteza do impossível, de uma miríade sensorial estranhada nas efracções que atravessam o corpo, resistindo a si-mesma, não tem objectivos colectivos, nem comunitários, nem irmandades, nem manifestos, sua função é não ter função, porque navega afectivamente, desabaladamente onde a vida se transforma em alvoroços sensíveis, em impessoalidades, em heteronomias, procurando zonas de perplexidade, sim, acontece nos vigores proliferantes da insubordinação, não se submete ao organismo, à acepção, produz desvios, adquirindo novos sentidos no tempo que é a fusão dos instantes espirituais no real-virtual do cérebro-caleidoscópico onde a linguagem se retém para se desenhar no avesso através da trepidação do seu próprio crime em profusas perspectivas, estimulando o enigma do seu afastamento, dos seus intervalos movediços, sim, constrói um espelho quebrado de tensões permanentes sem catarses para ampliar, transformar as síncopes dos olhares que ziguezagueiam por detrás dos nomes em fugas permanentes e sobre o mundo transhistórico-acronológico, fazendo-nos apreender os sentidos traçadores de mapas com alisamentos de superfícies enrugadas que catapultam as palavras fora das experiências recognitivas( sentidos que presentificam o mundo antes do seu ressurgimento, uma força avassaladora insubstituível)____um alpinista-cartógrafo da devoração pura da vida-poema não traz certezas mas tentativas e invenções de estratégias de multidões metamórficas, planos moventes das tatuagens da memória-corporal-futurível, golpes mergulhados em eternas polimorfias abertas aos estados afectivos do corpo-do-corpo, retransformando demoniacamente as dimensões caóticas dos materiais com as possibilidades criativas que estilhaçam percepções de órbita em órbita, presentificadas pelos devires perfuradores de sensações de um passado-devenir, sim, são sensações desconhecidas obliquidades sensórias em processo cataclismático porque jamais atingiremos a visão total, sim, à medida que sentimos os atravessamentos sígnicos-fabulares, transbordámo-nos, absorvendo o nomadismo absoluto, consagrando a durabilidade dos instantes, as expressões para além das expressões que nos fazem contemplar o mundo de olhos fechados entre esfinges escutadoras de vozes: as vozes perseguem e são perseguidas ao acolherem outras vocalidades na entrada do possível alfabeto das coexistências do mundo-criativo que é uma vastidão do fora misturador de fulgurações, gerador de palavras inalcançáveis, palavras que mergulham nas germinações dos sentidos, nas deslocações geográficas, nas invaginações topológicas e nos levam até à paradoxalidade-vampira, à potência da interrogação dos ritornelos, aos interstícios de um texto que nunca foi e nunca acontecerá, sim, palavras irradiadas pelo corpo revivificam a linguagem muda porque fogem aos significados, são escarificadas por experimentações vivas, navegam no silêncio do corpo que se efectua na voz libertadora da matéria, adentrando-se na inquietação do real por meio do respiramento intensivo do mundo, sim, as palavras revolvem o vazio com as bocas estrangeiras, são afectadas por energias não mensuráveis, por campos de interacções que desorientam, suspendem, adiam, destroem as soberanias do olhar, criam desertos, tensões, jogos de força entre visões e transfronteiras perpétuas: aqui-agora: a poesia e o verbo se demovem, se derivam, estimulam distâncias sem atrair, porque articulam as suas perseguições ao tempo, fazem da queda uma respiração geodésica indecifrável, transformando possíveis rotas em volteaduras de espaços acústicos, de fendas imprevisíveis, de elevações-hápticas, são tecelagens esfiadas nas alucinantes sombras das palavras, são talhaduras órficas dentro da palavra a desmantelarem objectividades, conectando-se ao saber do corpo entre processos desabaldamente inacabados: a poesia é uma fracção da memória cósmica, um intervalo espiralado da memória que lança dados contra a matéria musicada por forças espirituais, louca metamorfose galopante, fazendo das vibrações das falhas da excripta infinita uma musculatura fabulada pelos limiares dos caminhos labirínticos que fogem simultaneamente à perspicuidade absoluta e à espessura absoluta, sim, transuda alvos ao viver na imanência, nos ressurgimentos das línguas propulsoras de vazaduras do mundo!

Imagem: José António Passos – S/ título (acrílico s/ tela; 2008)

A poesia é insatisfazível, insaturável, está sempre em alta voltagem das forças inamanipuláveis, é uma epiderme de revolta, uma re-existência cortante da linguagem em transcodificação, em decifração entre as expectações por vir, as coexistências mutantes-acontecimentais e a impessoalidade impulsionadora do tremendo silêncio que envolve o arrasto incógnito da palavra( alcançar camadas sem memória e desviar gestos estimuladores de estremeções de um corpo inominável que nos faz ir ao encontro do imperceptível, do êxtase diante do desconhecido, inventar entradas e saídas com a crueldade não aviltada dos rastros do animal-texto atravessado por multidões, por ecos dançantes que arremessam o leitor para a fissura incomensurável, desterritorializando-o com esfinges verbais-móbiles contínuas: sopros pirocláticos nas raias do grito absorvendo partículas a-significantes, uma força que tenta pervagar a morte com o olhar-girador que se irradia quando assimila as tessituras do fora-adentrado do corpo, arrancando novas velocidades de vida, novas possibilidades de existência, sim, sem caos, sem contrastes, sem destruir a experimentação pela experimentação, a vida e a poesia não acontecem porque é com as monadologias-hápticas que se constrói a vida da morte): uma conflagração de esboços que afirmam as diferenças por meio de movimentos ininterruptos de partículas abstractas, a-significantes, contemplativas, é uma sobreexcitação no pensamento, uma potência em acto nómada quebradora de formas porque lida com o abismo prestidigitador que tangencia intermitentemente a crueldade entre teatros-arenas e a arte de estar no-do-mundo, absorvendo a complexidão sensível do real contra o percepcionado onde as palavras só vibrarão se suas morateiras espetarem nos pulmões do mundo, nas reentrâncias obscuras do corpo com a sede de expirarem, de se esbulharem e de repulularem como auspícios inumanos, chamando para não nomear( avocar as coisas inexistentes, inomináveis)!

A poesia é como o frevo e o maracatu de epifanias-aberrantes, não invita, arrasta, estira linhas abstractas, transmove o tempo na matéria, fragmenta a matéria da morte, alavancando o mundo, misturando-se com o mundo para recolher os cadáveres de outras vozes, aqui-agora: a palavra suicida-se dentro de si própria porque arriscou em dizer o indizível por meio da jubilação da tragicidade, o poema que a acolheu cauteriza-se ao desfocar-se no tempo puro, ao esponjar o inomeável, o anónimo e o insondável, sim, rasga com a indecifrabilidade das potências anorgânicas, as normoses que asfixiam as falas do mundo, pontilha assintaxias, os espelhos-sem-fundo para reforçar o insulamento e a convulsividade nos limites mais silenciosos!

A poesia capta as substâncias dos signos, recriando-os entre novos movimentos da língua, assim transporta-nos para as composições sintomatológicas, afectados pelas diferentes correntezas de vida, pelas línguas analfabetas e antropologicamente abertas às lacunas, às vazaduras reconfiguradoras de sentidos que defrontam o grito indefinidamente variável, nos núcleos proliferantes da tentativa das ex-criptas: a poesia alcança-nos inesperadamente de fora e em ininterrupta decifração, acontece na presença da diferença num entrelaçamento de forças polimórficas, de forças caóticas, de acasos rítmicos, problematizadores dentro da inesgotabilidade do real de promessas incumpridas onde se levantam, catapultam micropercepções em transmutação ininterrupta, em movimentação disjuntiva, em misturas ecoantes-incorpóreas( amplia violentamente as sensações por meio de aprendizagens críticas e subducções violentas)!

Imagem: Barry Stein – Modern Art Creek (fotografia)

A poesia acontece-na-contaminação-multilíngue dos choques estéticos para desencarcerar a vida, profanar o sagrado, rasgar, remascar o imprevisível, libertar contrastes, trespassar-nos por meio de sensações desorientadas, sem pontos de partida, sem pontos de chegada, sem gráficos, sem coordenadas, sim, enfrentar o estranho, a sedução estilizadora da existência que nos leva para o subversivo das linhas do acontecimento: são os murmúrios das errâncias sem respostas porque seremos infindavelmente perseguidos por incógnitas do rumor ecológico do fora feito de transformações vertiginosas do inapreensível, do indizível, do indiscernível, sim, sair da consciência, da fantasmagoria por meio das cartografias do tempo puro-paradoxal, das zonas virtuais, das polinervuras do pensamento intensivo onde as fissuras sígnicas incomensuráveis se abrem sem cicatrizações, destruindo itinerários, inventando percursos, reaparições onde a palavra é cataclísmica, embriagada, exaltada porque alcantila sua potência destruidora, arquitecta sua capacidade criativa no confronto com o silêncio do mundo que aparece sem ser chamado como um risco em fuga acoplado a zonas desfocantes, às entrepausas da visão do não-vivido, sim, o tempo e poesia se aliam fazendo durar o instante na intensidade ritmável do devir, multiplicam os arrancos dionisíacos, transhumanos-inumanos nas luzes reencontradas na própria escuridão: é na plasticidade de golpes topológicos, nos intervalos variantes que nos desmoronamos cheios de falas indecifráveis e de contra-significações entre os respiramentos da natureza: sentimos a avalanche demoníaca das composições áridas que destroem as significações na linguagem e absorvem os vestígios acústicos do caos, os pactos incumpridos, intercalando memórias-ontológicas com as cartografias vazadoras de múltiplas ressonâncias do que-há-de-vir( escapar das formas orgânicas e voltar em linhas transformáveis porque o intensivo não tem desígnio___dançar o espaço a-signico, conectarmo-nos ao incorporal, às sombras expressionistas___forças que se dobram aproximando matérias sem contornos, sim, a poesia é o ritmo das afecções: tornar phaneron)

A poesia nos movimenta num sangramento de perspectivas que laceram o percepcionado, o experimentado, sim, cria novas possibilidades de existência, produz osmoses de afecções-desviantes que rasgam o mundo com o tempo unido a cada instante sem exposições, perfurando multiperceptividades por meio de babélicos pontos-de-vista-intermitentes que nos fazem coexistir nas diferenças e nas forças singulares até à metamorfose alucinante onde o devir-autopoiético refaz vida sem repouso, sem determinações, sem formas fixas, sim, a poesia entrecruza tessituras, interstícios resistindo ao seu ensino, à sua manipulação, é um movimento que escapa às significações-totalizadoras, às binaridades, às recompensas, contornando sustentáculos transitórios por meio de ritmicidades do desastre vasculhador da germinação dos cios geográficos( o poema nunca aconteceu e nunca ocorrerá __acontece__ quebrando as flechas do tempo, intensificando o sensível com o seu corpo atravessado por jogos de plasticidades, de cartografias de malhas afectivas sem denominações como se se transformasse numa partitura de ritornelos, de heteronímias entre as contemplações cegas do mundo e a desumanização: são timbres, intervalos musicais, catalisadores que entranham, escarçam, rasgam o tecido das palavras numa dança captadora de vozes oraculares, sim, não há amestramentos, nem escolas, nem oficinas, há micromovimentos incomensuráveis, feitos de um complexo de virtualidades-reais adentro da sonoridade modulatória do abandono e do colapso em sincronia onde a palavra desaparece e reaparece até à contrapeçonha do perceptível: o corpo de quem tenta excriptar sentirá o tremendo avesso do mundo, o excesso do mundo, experimentando tempos diferentemente, sim, o tempo foge da circularidade e treslouca!

Imagem: José António Passos – A fuga (técn. mista; 2011)

Com a hesitação estética-ética, os ritmos turbilhonares de partículas-a-significantes-feiticeiras transformam o poema numa multiespécie ritmável-dionisíaca de cronotopias, de heterotopias, infinitizando o anorgânico nómada, os ecos agramaticais, os estímulos incontroláveis do aformal, o eterno retorno das contracturas sinestésicas, repletas de traços caleidoscópicos, de acasos conflituantes: aqui-agora: visualizámos a antimatéria na reviravolta, na dispersão sígnica, no rapto ininterrupto que transplanta os gritos da tremenda lucidez entre as locomotivas acesas do pensamento, o misantropismo-delirante do tremedal, os hiatos-thaumazein e a carnadura-geodésica porque os outros de nós-mesmos se ultrapassam absolutamente, levinamente, antes de se abrirem aos pulmões ocasionais do alto-mar semantúrgico, à memória-futuração interpolada pela metamorfose cosmogónica( são campos problemáticos impulsionadores de aprendizagens contínuas, são tentativas anómalas de espiritualizar as intensidades da matéria entre as afectologias em descodificação porque o imperceptível nada tem a ver com a obscureza, o invisível nutre-se dos olhares-do-vivo-dilacerado que tentam regressar ao silêncio multímodo, mergulhado num tempo que abandona desabaladamente os seus próprios fulcros___ sismicidade dos atractores estranhos___ ressurgência das micropercepções inconscientes destruidoras das lógicas intelectualizadas)

A poesia é uma afecção-estrangeira-de-si-mesma, esculpe incógnitas que a acossam demoniacamente, exaltada sente os abalos, os ecos cataclismáticos arrasadores de itinerários, anarquizando raias para presentificar o estranhamento do mundo antes do mundo sem objectivações, sim, colapsa autorias, instituições, binómios com resíduos sinestésicos, com captações dos murmúrios incessantes( dramaticidades no silêncio do mundo) porque não existem verdades, mas indecifrabilidades, ritmos indiscerníveis, matérias informes que escorregam inumanamente para o incorporal( o delírio da língua fora do idioma não permite sentimentalismos nem realismos emocionais): a poesia é força de insubordinação anorgânica, deforma-se metamorficamente por meio de esboços de topologias indeterminadas, de contaminações lisas do cristal sonoro do tempo, sim, uma carnadura mutilada pelas intermitências, hesitações inflamadas que esperam verberantemente o grito multiespécie de uma arte órfã. Não há virgindade na poesia mas intercessores enfeitiçados de intensidades em confronto com o devir, nada é sublimado, tudo é fissura sem finalidade, é alegoria imprecisa, híbrida, intangível que cavalga sobre todas as línguas dos médiuns para recusar a finitude, desescrever, e dissipar-se persistentemente entre de-composições acrobatas de reversos, de infinitas codificações que procuram o acaso no mosaico anónimo, nos labirintos povoados de vozes, na ludicidade das expressões heréticas, cismáticas carregadas de lance de dados da obscuridade e do ilimitado epistemológico, sim, correr todos os riscos no instante fulgente da visão ritmada do mundo porque a poesia se devora a si-mesma, suspendendo o tempo, o assombro da língua com a vertigem da aceleração intraduzível e do retardamento interrogante que nos faz mergulhar em zonas invisíveis!

Imagem: Jackson Pollock (óleo s/ madeira?; séc. XX)

A poesia inventa questões gaguejadas, balbuciadas, inventa uma língua tarada, feiticeira em mutação, sentimos a estremeção dos verbos mergulhadores da música da linguagem líquida do pensamento, é a visão secreta, intersticial do olhar mais primitivo, é a dança dos mapas do vazio, é a imaginação-esquizofrénica-contraente nos trilhos sem memória, são as sonoridades explosivas arrastando e arremessando o corpo-mundo na experimentação do devir, sim, tudo se torna imperceptível dentro do tempo enlouquecido e das ondas rítmicas da natureza( jogo de sensações estendem linhas abstractas numa língua que busca forças sígnicas ao escavar-se dentro do tempo do cristal para desprender sua musicalidade a-significante na variação tensionada entre o labirinto que nos faz recomeçar perpetuamente no irrecomeçável e a assimilação de visões fragmentadas num processo impessoal, evitando as pulsões de morte).

A poesia, atravessada por hordas movediças( intensificadores de forças a-humanas), é invadida por vocalidades em ritornelo onde os desejos-jazzísticos transformadores de si-próprios, nos lançam para o mundo das turbulências e nos deserta através do silêncio cosmovisionário que escuta o tempo, rasga o empírico e entrecruza zonas antinómicas: aqui-agora: os ritmos catalíticos nos forçam a dizer o indizível, a ver o invisível e a escutar o insonoro, assim, traçamos rotas no real-sem-rostificações com os vestígios acústicos dos sismógrafos-silabares para dialogarmos entre as avalanches errantes, dançantes do corpo, os eclipses do mundo e o transe antecipador da vida sem origem, absorvendo os retornos rasgadores de estruturas psicológicas( as ulcerações mescladas da língua recolhem-se, expandem-se e transversalizam-se na excrescência dos vectores da catástrofe para suplantar báratros, andarilhar incisuras, entrelaçar tempos, desfazer funções e perscrutar áreas ignoradas num ritual expurgatório, cheio de espirais infinitesimais, porque o impensado abre o corpo ao acentramento do mundo, arquitecta o espaço, faz o leitor acontecer na impossibilidade porque o mergulha ininterruptamente no eterno com as sensações do viver-desaparecendo, sim, resistir, re-existir, se vazar e se fragmentar por meio de mónadas intensivas e de invisibilidades sensíveis___tentar extrair o tempo sem destinguir qualquer dimensão): experimentar o esquecimento para criar, criticar, inventar, gerar dobras no limiar da escureza-melancólica, sim, o leitor entrega-se ao inesperado inamanipulável da palavra e conecta-se às simbioses insanas das indefinibilidades que escapam às referências dos sensórios-motores: sentir simultaneamente adentro e fora de nós uma multidão bastarda para esculpirmos a desrazão, a estrangeiridade do-no mundo com milhares de bifurcações afectivas-vibráteis a combaterem as vazaduras da morte na língua, fugir ao fluxo da cognição( vitalizar a contemplação animista): fugir aos clichés do conhecimento, da servidão por meio de uma terceira pessoa acósmica-estranha, de intercessores de tapeçarias abstractas porque a poesia é uma energia tremenda da vadiagem obscura que sabota ininterruptamente o dizer, a palavra, aparece na desaparição, faz do tremendo mistério verbal um recomeço-ininterrupto, espalha sentidos por todo o corpo, cria permanentemente campos problemáticos e experimenta o desconhecido com o fluxo fabulatório que arrasta uma miríade de signos além de código linguístico( enervamentos transverbais-DAIMON): faz-nos viver adentradamente no fora, no sentido alógico, nas tensões inexprimíveis dos corpos libertadores de singularidades, de composições afectivas, tudo sobressai cruelmente sem criação de sujeitos( intensidades de entre-tempos da ética imanente: eis o desejo inconsciente da vida que não produz línguas, mas experimenta-as intensivamente)

Imagem: José António Passos – Sleeping Girl (técn. mista s/ tela; 2012)

A poesia dá consistência às forças das aberturas do pensamento desmedido, tacteia transumâncias desejantes, quebra o prolongamento da percepção cartesiana, quebra os horizontes entre as alagarças das deslocações intrusas e as profusões expressionistas que apreendem as pluralizações moventes do mundo, refazendo o involuntário da memória-futurível perante a ruptura da supremacia do olhar): afectividades sem emoções entre desequilíbrios plurivocálicos e traços descomunais do real que se infectam criativamente por meio de planos pluriformes do próprio transbordamento dos limites, das cartografias do tempo-sentido onde as expansões das vizinhanças sedutoras, retraçam violentamente os corpos-buscadores de lances de insânia que reconstroem os redemoinhos trapezistas da vida, relembrando CLAUDEL entre os conceitos turbilhonantes de HEINZ VON FOERSTER, a des-ordem ritualística de EDGAR MORIN, a harmonia vinda dos despenhadeiros de RENÉ THOM e os desastres do pensamento-estético, sim, a poesia é força catapultadora de multiperceptividades perfuradas, de espantos, de ralentações-góticas-cristalinas que mergulham nos povoamentos sígnicos, rachando interioridades ao subverter o já-dito com os enigmas irresolúveis, contagiados pelas energias-larvares do colosso).

A poesia é prestidigitadora e faz-nos sentir a premência pendular do irrealizável, as cortaduras esguelhadas dos vestígios-bifurcantes que se extinguem nas próprias religaduras das palavras concomitantemente libertadas e retardadas na urgência de escutar a correnteza subversiva dos sons escondidos nas fissuras alucinatórias dos acontecimentos em fabulação! Esquecer-criar-o-impensado-o-cérebro-o-tempo, sim, a poesia é uma força ausente do intelecto, rasga o percepcionado e sustenta as superfícies dos acontecimentos em renovação-háptica que esponja as qualidades intensivas dos corpos, é uma actualização do fora permanente, do desejo dadivoso-criativo que nos força a pensar e a bosquejar espaços de acontecimento porque o poema é um processo intersemiótico da phaneroscopia, uma força contemplativa dos instantes-eternos, é uma sensação-mundo dos nómadas sem mestres, sem oficiais porque sua imanência é uma assimilação do caos, é o aformal puro do vazio do tempo, uma violência desejante e transformadora que descentra ciclos dentro de um corpo sem nome com olhares-jogadores perdidos na existência vibratória, sim, a poesia com os distanciamentos das vizindades não evita o absurdo porque quer ficar vivíssima no diz-desdizendo-mundo, ampliando possibilidades no real e povoando desertos hiperbóreos com as dinâmicas dos eco das afectividades que simultaneamente perfuram, envolvem as potências responsáveis pelo pensamento rupturador, ultrapassador de consciências, de essencialismos( as imagens variam entre-si, perfuram-se, produzem cortes transversais com as batidas das anamorfoses cronotópicas)!

Imagem: Barry Stein – Shooting Stars (fotografia)

Poesia traduz signos, abala mundo sensível, destrói o espelho, produz desastres sem ser desastre com linhas curvas-germinais-inconclusivas, vivifica as sensações do real simulacral, dissemina as intensificações do sensível entre “sínteses disjuntivas das diferenças” e partículas ressoantes que nos transportam para o olhante-infinito da imagem-cristal, das partituras duráveis-afectivas, sim, a poesia existe-em-si-e-por-si, é vidente, é excessiva, inventa-rumina línguas, transborda e rebenta percepções vividas por meio da inoperância, do disfuncional, dos instantes sem crassidade e sem grandeza, fugindo sempre às razões psicológicas, ao organismo da representação, da generificação e da identidade, sim, extrair as polissemias infinitas dos afectos, falsificar o tempo com emaranhamentos das variáveis infinitas, ampliar sentidos de “rosebuld”, multiplicar sonoridades e resistir à morte com o vazio criativo, com a profanação agitadora de mónadas( a poesia pensa por-si-mesma, é uma força falseadora, um lance com múltiplas golpeaduras involuntárias que paralisam a consciência para libertarem o tempo e a vida): as palavras expelem espaço na adivinhação, faz-nos sentir a captação do repouso da antimatéria ao esgaravatarem o pensamento para se desmancharem, a língua torna-se sublime no estado selvático e em ressurgência, inverte-se, riscando desterritorializações, acoplando fulgores incisivos onde uma voz assomará na desaparição do pensamento-espaço! Robbe-Grillet “para que servem as teorias”…,…o poeta e o poema inventam as suas próprias correntezas estéticas-éticas. Nenhuma receita, nenhuma oficina, nenhum ensinamento, nenhum amestramento pode substituir este pensamento activo___NENHUM. A poesia cria só para si as próprias inutilidades, os falhanços, as trapaças, os itinerários das estranhezas, as viragens, os paradoxos, com razões contaminadas: cria as suas subversões, potencializando zonas agramaticais e assintácticas: quanto mais intensidades percorrerem o corpo de quem atravessa desertos-textos mais decifrações serão atingidas rés a outros corpos sem passados, corpos supra-pessoais, corpos estrangeiros que espalham geologias com lapsos enciclopédicos das palavras em combustão, em irradiação fabulatória( palavras que não fazem lugar mas intensificam topologias de destinos desconhecidos, constelações de sentidos em confronto com o apoderamento e as verdades instauradas). Quem estilizou a vida esteticamente produziu diferenciação, zonas abstractas, tempos imperceptíveis, tensões enigmáticas, destruiu sistemas reactivos da linguagem, foi sempre ostracizado, perseguido, odiado, afastado porque fugiu das leis da sintaxe, espiritualizou a matéria, quebrantou as leis gramaticais, não se submeteu ao organismo da língua mãe, sim, apavorou a língua, decompôs a língua, espremeu-a, minorou-a, sabotou-a, torceu-a, colocou-a em fuga, levou-a ao limite, criou língua dentro da língua, obrigando-a a expelir um corpo vibrátil e estranho, um campo afectivo em variação contínua, um horizonte chegante__ o poema__ sim, a vida é uma ralentação decifradora, é o caos de forças sígnicas, tudo se atravessa nos pontos de vista problemáticos e nas interpretações de novas semióticas que nos fazem avaliar as aventuras existenciais, nada se fixa no culto da memória-ontológica-futurível, não há reconhecimento, nem sucesso, nem espelhismos-lavados na poesia, o sentido refaz-se sempre no acontecimento que é afirmação da diferença multilingue na mesma língua! São os movimentos intersectores das forças aformais com os sentidos geometrais-figurais e as intensidades afectivas que esculpem o arco voltaico da tragicidade da exaltação da arte poética! Se existirem limites na poesia serão sempre transbordâncias de superfícies vertiginosas onde o tempo da experimentação penetra nas excreções dos corpos que se conectam à inquietação do real para afirmarem a ética com as coexistências do riso, do risco, da dança, dos roubos, rasgadores de sustentáculos!

Imagem: Fayga Ostrower – Noite (aguarela s/ papel Arches; 1996)

A poesia é uma força ética-clandestina, é turbilhão da matéria, é linha infinita de passagens, é o impensável dançado, escapa às faculdades recognitivas, às histórias pessoais, aos aprisionamentos identitários, não informa, não descreve, não comunica, sim, é invenção inobjectivável, é cinema-tempo-nas-fendas-sinápticas, é multiplicidade imperceptível misturadora de campos de controvérsias-in-corpóreas, linhas intersectoras de crítica heterónima que recusa tradições totalizadoras, dinastias-sensório-motoras porque ela vive da impessoalidade incontrolável, do contrassenso, dos acasos larvares dos encontros sem formas onde tudo se abisma e se experimenta entre simultaneidades de acontecimentos, exigindo decifração inconsciente e sentido, SIM, a poesia é uma força usurpadora sígnica que ruptura ideais, psiquismos, consciências, tornando activas-jazzísticas as sensações num panorama babélico de actratores estranhos,de insurreições da língua, de alvoroços sensíveis de heteronomias e… de zonas de irresolução onde os devires se atravessam e se encontram com a vida num movimento vitalizado, sim, a poesia é a desumanização! …………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………

Imagem de destaque: José António Passos – A morte do ego (Técn. mista s/ tela; 2019) ………………

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Imagens:

Jackson Pollock – Art Stack

Jackson Pollock – Art Monaco Magazine

Barry Stein – Barry Stein Photography

Fayga Ostrower – Instituto Fayga Ostrower

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Luís Serguilha

Excriptou 14 livros de poesia e ensaio. Participou em encontros internacionais de arte e literatura. Seus processos criativos têm sido objecto de estudo, de crítica e ensaio por parte de académicos, críticos, poetas, pensadores, artistas, escritores de Língua ibero-afro-americana . Possui textos publicados em diversas revistas de literatura e arte. Alguns dos seus textos foram traduzidos para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão e catalão. Criador da estética do LAHARSISMO. Pesquisador da Poesia Brasileira Actual. É Curador do RAIAS-POÉTICAS: Afluentes IBERO-AFRO-AMERICANOS de ARTE e PENSAMENTO. Nos últimos anos fez conferências, palestras, conversações em várias universidades ibero-americanas focando as problemáticas do corpo, da arte, da literatura e do pensamento!

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