Tomás Pereira | O elogio de um passante

Tomás Pereira | O elogio de um passante

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“(…) ex quo Monarcha Sinarum publica lege Christianam fidem permisit…”

  1. W. Leibniz, Novissima Sinica, 1697, 20, § 11

 

Agradecido pelo convite que me fizeram para escrever regularmente no jornal Vila Nova, obriguei-me, desde o primeiro momento, a que a minha crónica inicial versasse sobre essa terra inaudita, verde e luminosa, que ousou, sem esbulho, acolher-me no seu ventre, e, particularmente, sobre o homem mais importante que já lá viveu.

Para começar, convém decifrar o título desta crónica. A doutrina italiana da responsabilidade civil criou o conceito de passante para definir aquele sujeito que passa por nós apenas uma vez na vida, que não conhece o nosso nome nem a nossa propriedade, nem tem sequer de conhecer. Um passante é então um indivíduo que, de alguma forma, afeta ou pode afetar a nossa esfera jurídica, possuindo uma condição diferenciada em relação àqueles sujeitos que partilham a sua quotidianidade connosco e, por esse mesmo motivo, possuem uma obrigação legal de saber quem somos e o que possuímos (ou que podemos porventura possuir). Isto tem algumas implicações no âmbito do direito civil, mas que não interessam aqui desvendar.

O que realmente me interessa deste extraordinário conceito é a possibilidade de ousar transpô-lo de uma dimensão jurídica para uma dimensão histórica e biográfica. Nesse sentido, proponho ao leitor que aceite definir um passante como alguém que passou no mesmo espaço que nós passamos, mas num outro tempo, e que, ainda assim, nos marcou profundamente. Não há aqui qualquer conhecimento mútuo, não há inclusive, qualquer possibilidade disso, apenas um reconhecimento post mortem de um ser sujeito de uma vida, citando Tom Regan, que passou aqui neste mesmo local e que alterou de alguma forma a nossa esfera cívica e moral. É alguém que se projetou para lá da morte e que merece, meritoriamente, uma perpétua notoriedade social.

Quero falar-vos de um homem que nasceu, segundo consta nos registos do Padroado Português de Macau, a 1 de Novembro de 1645, dia de Todos os Santos, no calendário hagiológico cristão, em São Martinho do Vale, uma paróquia outrora pertencente ao termo de Barcelos, mas hoje uma freguesia do concelho de Vila Nova de Famalicão, e que morreu em Pequim, na capital da China, nesse denominado Império do Meio, a 24 de Dezembro do ano de 1708. Chamava-se Tomás Pereira e era um sacerdote jesuíta dotado de múltiplas e extraordinárias qualidades. Pretendo aqui, aos famalicenses, fazer, com contenção, um exercício de desvelamento, como lhe chamaria o filósofo Schopenhauer, ou seja, retirar uma espécie de véu de Maya que encobre, injustificadamente, a vida de uma figura tão ilustre.

Tomás Pereira nasceu no lugar do Pedreiro, em São Martinho do Vale, com o nome de Sanctos da Costa Pereira. Tomás foi o nome que adotou aquando da entrada para a Companhia de Jesus. O seu batismo foi registado pelo vigário Francisco de Medela na Igreja de São Martinho do Vale (está preservado o registo) e, o que causa alguma controvérsia, indica a data de 5 de Novembro de 1646. Os seus pais, Domingos da Costa e Francisca Antónia, tiveram mais três filhos, dois rapazes e uma rapariga. Era uma importante família da baixa nobreza, os Costa-Pereira. A título de exemplo, quando a sua mãe morreu, a 10 de Janeiro de 1686, as cerimónias fúnebres contaram com a presença de mais de trinta sacerdotes e foram celebradas missas regulares por dias consecutivos.

Tomás Pereira entrou para a Companhia de Jesus a 25 de Setembro de 1661. Estudou ou no Colégio de São Paulo, em Braga, ou no Colégio de São Lourenço, no Porto. Depois foi para Coimbra e saiu de Portugal a 15 de Abril de 1666, tendo terminado os seus estudos em Goa, na Índia, partindo posteriormente para Macau, já em trabalho de missionação.

Em 1672 chega à China e é acolhido na Corte Imperial por causa, essencialmente, dos seus conhecimentos musicais. É ele o responsável pela introdução da teoria musical ocidental na China. Depois foi acumulando prestígio, chegando a ocupar cargos relevantes e próximos do próprio imperador K’ang-hsi. Tornou-se, a título exemplificativo, professor de música, de ciências europeias e intérprete do imperador. Posteriormente, é nomeado para a presidência do Observatório Astronómico de Pequim, sendo responsável pela produção do calendário oficial chinês. Era, além de teólogo, um científico, um homem da técnica e da tecnologia, contruía órgãos e relógios mecânicos para deslumbre geral e fascínio da corte imperial.

Às suas capacidades de artífice relevam igualmente as suas capacidades morais e intelectuais. Testemunhos escritos denotam virtudes dignas de um homem comprometido com a sua erudita e elitista educação e as suas causas de âmbito espiritual e temporal. Era zeloso nas suas obrigações, humilde e amante da pobreza. E era um homem obediente e de confiança. Prova-o o facto de, em 1689, Tomás Pereira ter sido mandatado pelo próprio imperador chinês para o cargo de intérprete e negociador no Tratado Sino-Russo de Nerchinsk, tarefa que executa na perfeição. É um cargo de extrema confiança e máxima responsabilidade. É o primeiro tratado diplomático entre a Europa e a Ásia que estabelece limites fronteiriços, tendo Pereira o mérito de conjugar três grandes vontades: a de Portugal, pelo prestígio, que sempre representou fielmente, como mostram as suas cartas dirigidas ao rei e ao Papa, e que ainda se preservam em Lisboa e em Roma; a da China, que representava enquanto mandatário ao serviço do imperador K’ang-hsi; e a vontade da Rússia, que via emergir por esta época o também grande imperador e reformador Pedro I. Tamanha empreitada é comprovada, como fonte imediata, pelo seu diário, que chegou aos nossos dias por via de um outro sacerdote jesuíta, Joseph Sebbes, que o publica pela primeira vez em português em 1999 sob o título “O Diário do Padre Tomás Pereira, S.J.”.

Em reconhecimento da sua lealdade e da sua competência, o imperador da China atribuiu-lhe inúmeras honras especiais, em vida, na sua morte – com um esplêndido funeral e compondo um epitáfio elogioso –, e mesmo para lá da sua morte. Entre as mais significativas benesses atribuídas ao Padre de São Martinho do Vale está o chamado Édito de Tolerância que permitiu a difusão do cristianismo em toda a China. Era aquilo que mais ambicionava este português do norte, reconhecido à época em toda a europa, inclusive pela elite pensante, como o filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz, que o menciona por diversas vezes na obra Novissima Sinica.

Tomás Pereira adotou o nome chinês de Xu Risheng. Na lápide ostentada na sua tumba estava, como disse, um epitáfio escrito pelo próprio imperador chinês. Foi destruída pelas contingências do tempo, mas entretanto foi reconstruída e jaz agora nos jardins da embaixada portuguesa em Pequim. Em 2015 esta embaixada instituiu, juntamente com universidades portuguesas e chinesas, o Prémio Tomás Pereira, atribuído todos os anos aos quatro melhores estudantes dos cursos de português em toda a China.

Em Famalicão, deste seu filho que foi músico, astrónomo, matemático, arquiteto, engenheiro, geógrafo, inventor, tradutor, diplomata, professor e, evidentemente, teólogo, apenas permanece um pequeno busto defronte da igreja paroquial, na sua freguesia de origem, e uma ou outra rua com o seu nome. Muito pouco para alguém tão extraordinário que merece, ainda hoje, admiração e um maior reconhecimento geral.

Muito mais haveria a dizer sobre esta figura ímpar da história e da cultura famalicense, no entanto, aqui apenas queria demonstrar a injustiça de um certo ocaso a que foi votado esse ilustre passante da nossa terra.

Para saber mais, recomendo:

– SEBBES, Joseph, O Diário do Padre Tomás Pereira. Os Jesuítas e o Tratado Sino-Russo de Nerchinsk (1689) (Roma, 1999).

– WARDEGA, Artur K (S.J.), SALDANHA, António Vasconcelos de, In The Light and Shadow of an Emperor. Tomás Pereira, S.J. (1645-1708), the Kangxi Emperor and the Jesuit Mission in China. Cambridge Scholars Publishing, 2012.

– PEREIRA, Tomás, Obras (vol. I e II), coord. Luís Filipe Barreto. Centro Científico e Cultural de Macau, I.P., Lisboa, 2012.

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Hélder Filipe Azevedo

Natural de São Martinho do Vale. Licenciado em Filosofia e licenciando em Direito pela Universidade do Minho. Pós graduado em Direitos Humanos pela mesma Universidade e em Ética e Filosofia Política pela Universidade Católica Portuguesa. Considera-se um germanófilo e um amante das culturas clássicas. Colabora com a Amnistia Internacional e é membro do Partido Livre. É administrador do blog http://acasadospensadores.com. A literatura russa, o cinema e a fotografia são o seu alimento diário da alma.

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