Educar | Cárcere da rotina ou asas para voar?

Educar | Cárcere da rotina ou asas para voar?

Gabriela Beato, professora, questiona o sentido da educação. Deverá a educação ser manipuladora ou um espaço de manipulação de vida?

 

Questiono-me se somos máquinas fabricadas pelo tempo que urge, pelo espaço que corre na dimensão de caras sem rosto e bocas sem mel e moldados maquiavelicamente por todos os príncipes deste mundo.

 

A educação é um processo em que todos participam e que tem que ser reinventada todos os dias e sempre sujeita a muitos desafios e considerações. Nela participam muitos agentes, que a motivam e condicionam (pais, professores, alunos) e é, por isso, um fenómeno complexo na ajuda da construção dos pensamentos. “Ela exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida” (Séneca). O espetáculo das ideias pode ser cárcere da rotina ou dar asas para voar. Existe um “acordo tácito” entre a construção das ideias e o rompimento com as amarras. É inserida nesta dialética que pretendo orientar a minha reflexão.

O ponto de partida é a Alegoria da Caverna, e numa adaptação metafórica existente há mais de dois mil anos, do filósofo Platão (Atenas- 428 A.C.), pretendo demonstrar a sua atualidade e aplicabilidade à educação. É importante filosofar sobre a Educação.

A caverna é o mundo onde somos colocados à nascença, nele são-nos incutidas crenças e pressupostos, que aceitamos sem questionar, para nos adaptarmos à normalização instituída na sociedade. Do interior da caverna, sítio onde todos estamos aprisionados, consegue visionar-se a luz do sol que representa o verdadeiro conhecimento, a sabedoria. No entanto, como nos encontramos agrilhoados aos esquemas deontológicos das classes e não classes, nem sempre temos a coragem ou oportunidade de sermos agentes criadores do mundo. Se, por um lado, nascemos de olhos fechados, numa cegueira “natural”, que tende a ser eliminada com o tempo, por outro lado, teimamos viver sob uma “cegueira branca”, revestidos por cataratas sociologicamente consentidas. O conceito “catastrófico” é de José Saramago, que considera, que o ser humano vive numa cegueira histórica, perpetuada no egoísmo, na insensibilidade, na ausência de princípios morais, na indiferença, diante do infortúnio do outro. Afinal, a superioridade que a racionalidade nos trouxe, animalizou-nos (o
maior e melhor exemplo é a História da humanidade).

Assim, descobrimos que a educação, sendo uma atividade, não é um simples conjunto de  teorias, ainda que muitas tenham sido produzidas sobre bastantes questões fundamentais. Mas a questão não se trata somente de as estudar profundamente, de se especializar nelas, de as memorizar, mas de aprender como se faz, retirar instrumentos e conceitos para entender como retorquir às suas próprias dúvidas e inquietações e sentir-se capaz de dar o salto para a vida boa. Convém elucidar, que não se trata da boa vida, almejada por muitos, mas da vida examinada e reflexiva. E este é o exercício efetuado pelo prisioneiro que sai da caverna. Numa atividade difícil de questionamento das crenças básicas, procura o fundamento dos dados adquiridos e incontestáveis e encontra muitos escolhos, não apenas pela exigência inerente à autocrítica e disciplina intelectual a que se propõe, mas sobretudo pela incompreensão e rejeição dos outros. O exame pode desconstruir alicerces que muitos não estão dispostos a derrubar.

Educar pode transportar ambivalências profundas, um aprisionamento às ideias proferidas pelo educador como se de uma ideologia absolutista se tratasse, ou, nesse domínio, abrir brechas para o pensamento autónomo, aquele que porventura nem todos ousam reclamar para si. A maioria dos alunos, dogmaticamente, aceita o que o professor transmite pelas suas ideias ou pelas ideias dos outros, difundidas nas suas palavras. Os motivos são muito variados: medo, insegurança, comodismo ou proveito. Também assim se explica a tomada de posição dos prisioneiros que, depois de elucidados, preferem viver no conforto que a ilusão lhes traz. Existem, porventura, os espíritos inquietos, os prisioneiros que se soltam, que preconizam o filósofo, os revolucionários, que são aqueles que permitem que se empreendam revoluções como mudanças de conceção do mundo. E é, quanto a mim, na ousadia dos pensamentos originais e na criatividade instaurada, que o ensino tem mais relevância e valor. Num mundo globalizado e altamente tecnológico, a despersonalização parece facilitada, o aluno facilmente tem acesso a todo o tipo de informação, pelo que será muito mais interessante e produtivo que possa participar neste processo que é seu. Falamos de utopias ou conformismos?

As novas tecnologias funcionam cada vez mais como o milagre dos tempos modernos e estamos mais equiparados à futurada afinação das máquinas e cada vez menos confrontados com a significação e intencionalidade que movimenta o nosso agir. Da mesma forma, as nossas ações são sequências de atos mecânicos, numa celeridade que apaga a semântica que transportamos connosco. Arriscamo-nos a perder a humanidade que há em nós: o sabor de um beijo, a cumplicidade de um olhar, um toque suave ou abrupto, um esconderijo, o ficarmos sós, os traços do rosto de um ser, de um lugar, de uma paisagem, carregam uma significação que não é passível de ser traduzida em caracteres matemáticos ou até mesmo linguísticos. Foram neste sentido as palavras do matemático John Nash, galardoado com o Prémio Nobel da economia, em 1994.

Por isso me questiono se somos máquinas fabricadas pelo tempo que urge, pelo espaço que corre na dimensão de caras sem rosto e bocas sem mel e moldados maquiavelicamente por todos os príncipes deste mundo.

Os dias correm… Mas haverá certamente um momento em que nos encontramos ou perdemos. Ou somos autênticos ou deixamo-nos atropelar pelos aferros dos outros. Ou me calo ou grito e esperneio como uma criança com fome.

A educação deve dar armas para a pesquisa subterrânea, para que o argumento mais débil possa ter voz sobre o mais forte. Uma pedagogia anarquista onde toda a educação é manipulação, alcança apenas a institucionalização coerciva que tenta
formar e normativizar o indivíduo.

É, por isso, muito importante, que a escola seja espaço de realização de vida. É que se não podemos deixar a criança sem regras, também não a podemos aprisionar. Estou certa de que a vida não cabe numa teoria, como nos diz o poeta Miguel Torga, mas deixemo-nos inspirar por ela, para que o instante se impregne de sentido.

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Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Gabriela Beato

Nasceu a 19/06/1977, em Braga. Estudou Filosofia na UCP - Faculdade de Filosofia (Braga) e Ciências Religiosas na UCP - Faculdade de Teologia (Porto). Estuda atualmente Mestrado em Ciências Religiosas na UCP - Faculdade de Teologia (Porto). Atualmente, exerce funções docentes no Agrupamento de Escolas Vale d'Este, com sede em Viatodos, depois de as ter exercido anteriormente no Agrupamento de Escolas Camilo Castelo Branco, em Famalicão, entre outros. Interessa-se pela transcendência das palavras poéticas, pelo ensino, pela arte, pela filosofia e pela religião. O que mais gosta: estar perto de quem ama verdadeiramente..

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