Dar coisas aos nomes | Retrato do artista enquanto jovem – David Lynch, no Close-Up

Dar coisas aos nomes | Retrato do artista enquanto jovem – David Lynch, no Close-Up

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“You drink coffee, you smoke cigarettes, and you paint, and that’s it.” (David Lynch)

           

David Lynch: The Art Life, de Jon Nguyen, Olivia Neergaard-Holm e Rick Barnes, estreado em 2016, esteve em exibição na passada segunda-feira, na Casa das Artes de Famalicão, no âmbito do festival Close-Up. A par dos filmes Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer (1992), exibido no mesmo dia, e o incontornável Mulholland Drive (2001), a passar no próximo dia 20 de outubro (filme que deu a Lynch uma das suas três nomeações ao Óscar de melhor realizador), este documentário contribui para o mapeamento temático da segunda edição do festival, sob o signo da viagem.

Centrando-se nos primeiros anos de vida do realizador, o documentário revisita fotografias antigas, imagens de arquivo, vídeos familiares e várias entrevistas que permitem aceder à infância e adolescência de Lynch em Montana, Idaho e Virginia, altura em que começaram as suas primeiras experiências criativas no universo da pintura, até ao momento decisivo em que se muda para Los Angeles e dá início às rodagens da sua primeira longa-metragem, Eraserhead (1977), com uma bolsa de estudo da American Film Institute.

Talvez seja imediata, até para quem não conhece com grande profundidade a obra cinematográfica deste realizador, a associação do nome Lynch a todo o universo que envolve os sonhos, o inconsciente, os medos mais insondáveis, toda essa idealidade fantasmática que, como um vidro ténue, parece tornar-se cada vez mais indiscernível do mundo dito real (ao ponto de se tornar quase inoperante, para não dizer obsoleta e teoricamente insustentável, a indistinção entre realidade e imaginação, entre o estado de vigília e o mundo onírico). A excursão pelo universo plástico do jovem artista não trai essa expectativa, nem tão-pouco a descrição que Lynch faz de uma estranha visão que tivera nesses primeiros anos, confirmando o que, depois, viria a ser a originalidade visual do cinema lynchiano: Lynch evoca aquele vago momento em que vira pela primeira vez uma mulher nua a correr de noite pela estrada, com o nariz ensanguentado, e a desaparecer na escuridão. Momento, sublinha, que combinara perturbação e fascínio, beleza e terror, sedução e violência. Qualquer coisa de fenomenalmente plausível – uma mulher de carne e osso, naquela rua, àquela hora da noite –, mas cuja descrição sucumbe ao poder surreal e à intensidade incrível dessa imagem, àquilo que nela transcende os limites da mera evocação autobiográfica, por parecer atuar na qualidade de um efeito desprendido de causa, naquilo que há de mais intransigente e inquietante nos sonhos: a sua ausência de porquês (suspendendo-se, assim, quaisquer genealogias freudianas).

Acerca da sua pintura, é de destacar esta nota inicial: ouvimos Lynch a evocar a sua mãe (alguém que o realizador descreve como pouco expressiva em termos de afetos, mas que o amava indesmentivelmente), recordando que ela não lhe dava, em miúdo, os tradicionais livros de colorir. Isto, porque os limites constitutivos dessas imagens, com a obrigação tácita de colorir a página respeitando os contornos, pareceram à sua mãe, intuitivamente, um contrassenso. Sobre o mero conceito de haver fronteiras, afirma Lynch de forma muito prosaica: “they screw you!”. E é neste mesmo prosaísmo coloquial que se move David Lynch nas entrevistas, num estilo radicalmente periférico a um discurso que se esperaria mais académico, atulhado de influências, sobretudo para um cineasta que tem dado pano para mangas a muitos ensaios e teses doutorais (o caso de Slavoj Žižek, para citar apenas um dos filósofos contemporâneos mais conhecidos, com ensaios editados em português pela Relógio D’Água e pela Tinta-da-China).

De forma simples, descontraída, cigarro a cigarro, Lynch faz a apologia do acidente na emergência do fluir criativo, a heurística do acaso, do incontrolável (novamente, a linguagem dos sonhos), contra a ordem, o previsível, a fronteira. O que reforça, de algum modo, a natureza peculiar deste detalhe: no estúdio do artista, na sua casa em Los Angeles, vemos uma reprodução do Jardim das Delícias, o famoso tríptico de Hieronymus Bosch, pendurado na parede ao pé de todas as tralhas e ferramentas; uma obra que já no seu tempo (entre 1490 e 1510) fazia anunciar o estado calamitoso da ordem racional, a deriva alucinatória na qual toda a razão mergulha.

Do início ao fim, o documentário é intersetado por animações que parecem colorir um enorme pesadelo. Mas é essa precisamente a matéria de que são feitos os quadros e as instalações de Lynch (com reminiscências que vão de Francis Bacon a Frida Khalo ou Jean Dubuffet, assim como ao já mencionado Bosch): um autêntico bestiário primitivista, com bonecos deliberadamente imperfeitos, bizarrias, esquissos animalescos (uma montanha com um olho, corpos decepados, insetos e pássaros mortos), deformações, colagens grotescas, pequenos e grandes monstros, coágulos e pústulas que, por maior que seja a sua desfiguração e a propensão caótica dos contornos, tendem sempre para uma aproximação figurativa ao humano, ou ao que de inumano se aloja no inconsciente, muitas vezes encimados por legendas a funcionarem como gritos agónicos ou vozes acusmáticas (“THERE IS NOTHING HERE PLEASE GO AWAY”, lê-se numa litografia na qual aparecem rabiscados, a negro, um conjunto de braços saindo de uma fenda no céu em direção a uma casa).

Tudo isto, mais uma banda sonora cáustica, condensando uma atmosfera onde paira a sensação de uma ameaça iminente, ou uma ameaça que prontamente se consagra na visibilidade da violência. O próprio trabalho de bastidores na realização destas obras exacerba a natureza violenta de todo o processo criativo – e assistimos, então, às mãos de David Lynch trabalhando os materiais, esticando com ferocidade os plásticos, explorando a sua composição e os efeitos da sua visceralidade. O que quer dizer muito, tendo em conta que, quando o cineasta não é filmado a pintar ou a discorrer sobre o seu passado, surge a brincar tranquilamente com a sua filha, Lula (a quem o documentário é dedicado), fazendo pequenas bolas de plasticina.

Imagens:

http://www.rollingstone.com/movies/news/creep-into-david-lynchs-world-in-first-art-life-trailer-w437923

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/ae/El_jard%C3%ADn_de_las_Delicias%2C_de_El_Bosco.jpg

https://www.theguardian.com/film/2017/jul/14/david-lynch-the-art-life-review-documentary

Trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=CbXEU_Kj3NI

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Categorias: Crónica

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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