Espaço 60 + | Envelhecer dia após dia – Envelhecimento vs Velhice

Espaço 60 + | Envelhecer dia após dia – Envelhecimento vs Velhice

Tânia Marisa Silva é gerontóloga. Neste artigo, reflete sobre o envelhecimento e como queremos que ele aconteça.

 

Cabe a todos nós (…) olhar para o idoso como uma pessoa com uma história de vida e que em muito pode contribuir de forma útil para a nossa cultura. 

 

O envelhecimento humano faz parte do ciclo natural da vida. Pode ser definido como o processo de mudança progressiva da estrutura biológica, psicológica e social dos indivíduos que se inicia antes do nascimento e se desenvolve ao longo da vida. É desejável que decorra com saúde e autonomia.

Como cita o autor Messy (1999, p.18), “envelhece-se conforme se vive”. (DGS, 2004)

A velhice implica mudanças associadas ao tempo, que podem ser positivas (a experiência), negativas (a inteligência fluída), ou indiferentes (a maior parte das variáveis da personalidade) (Yates, 1996, cit. in Fernández-Ballesteros, 2004). Podemos distinguir o envelhecimento em três fases, sendo o envelhecimento primário o que sucede naturalmente com a passagem da idade, o envelhecimento secundário que se refere às mudanças causadas pela doença que estão correlacionadas pela idade mas que podem ser reversíveis ou prevenidas (Birren & Schroots, 1996, cit. in Fonseca, 2006, p. 73) e o envelhecimento terciário que se refere a uma rápida e acentuada deterioração física, imediatamente anterior à morte (Stuart-Hamilton, 2000).

Existem determinantes para que este processo ocorra de forma satisfatória, no entanto devemos ter em conta outros fatores que podem interferir de forma negativa neste processo, podendo ser considerados fatores de risco, como é o caso da hereditariedade, ser do sexo feminino, deter de um baixo nível socioeconómico, má nutrição, sedentarismo, senescência, sarcopenia (perda muscular), anorexia e, obviamente, a presença de múltiplas comorbidades ou doenças incapacitantes, como acidente vascular cerebral (AVC), doença de Alzheimer, doença de Parkinson e depressão.

Para Birren e Cunningham (1985, cit. in Fonseca, 2006) a existência de um envelhecimento normal ou patológico, reflecte o comportamento dos indivíduos ao longo da vida, isto é, a forma como envelhecemos é influenciada pela forma como nos desenvolvemos. O declínio não é irreversível e resulta, em grande parte, do desuso.

Tânia Marisa Silva afirma deixa claro que “o estilo de vida será o principal determinante modificável do estado de saúde durante a sua velhice” (ilustração: Maria Rita Pimentel).

Para além das influências genéticas, o envelhecimento depende também imenso de cada um de nós (Ilustração: Maria Rita Pimentel).

Se o indivíduo traz consigo uma carga hereditária desfavorável, o estilo de vida será o principal determinante modificável do estado de saúde durante a sua velhice. Maior esforço deverá ser feito na implementação de estratégias de prevenção de doenças e promoção da saúde, desde a vida intra-uterina. Por outro lado, aqueles indivíduos com história familiar favorável, terão muito mais chance de atingir o potencial máximo de longevidade e funcionalidade, caso tenham um estilo de vida apropriado.

Mitos e estereótipos associados ao envelhecimento e à velhice, continuam a influenciar a forma como cada um vivencia a sua velhice, trazendo consequências negativas que levam a atitudes negativas e consequentemente as atitudes negativas suportam estereótipos negativos, tornando-se este um ciclo vicioso, emergente de terminar através da educação e formação das gerações mais novas.

O termo ageism (idadismo) foi introduzido em 1969 por Butler (1969, p.243), definindo-o como um processo de “estereótipos e discriminação sistemática contra as pessoas por elas serem idosas, da mesma forma que o racismo e o sexismo o fazem com a cor da pele e o género”. Os estereótipos “minimizam as diferenças individuais e tendem a igualar todas as pessoas idosas, ignorando que cada idoso possui as suas próprias características, personalidade e forma de envelhecimento” (Tortosa & Motte, 2002, p. 103).

Palmore (1999) identificou por parte dos idosos, quatro formas básicas de reacção ao idadismo, são elas: “a aceitação, a negação, a evitação ou a reforma” (p. 109). Todas estas respostas podem acarretar efeitos prejudiciais sobre os indivíduos. A «aceitação» pode ser manifestada pelo afastamento voluntário e pela apatia (traduz uma infelicidade do idoso para com o seu papel). A «negação» visa recorrer a meios para “parecer jovem”, como por exemplo a cirurgia plástica. A «evitação» pode apresentar várias formas como o isolamento, o alcoolismo, a dependência às drogas, doença mental, ou até mesmo o suicídio. A «reforma» reconhece o prejuízo e a discriminação e procura a sua eliminação, que pode ocorrer ao nível individual, recorrendo a atividades que não vão de encontro aos estereótipos negativos.

Cabe a todos nós, enquanto sociedade, estarmos inteirados acerca desta temática, olhando para o idoso como uma pessoa com uma história de vida e que em muito pode contribuir de forma útil para a nossa cultura.

Resta-me a todos lembrar o inevitável… Estamos a envelhecer dia após dia. Como queremos ser vistos e tratados na nossa velhice?

 

Imagem de destaque: Maria Rita Pimentel (ilustração)

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Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Tânia Marisa Silva

Gerontóloga Clínica. Especialista em Envelhecimento e Saúde Mental.

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