Século XVI foi uma das épocas mais críticas ao longo da vida do país

Portugal no tempo de Luís de Camões

Portugal no tempo de Luís de Camões

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Portugal, no tempo de Luís de Camões, vivia uma das épocas mais críticas que se lhe apresentaram ao longo da sua vida enquanto país. Vanda Tavares lembra, de forma cronológica, algumas das histórias desse tempo que em muito contribuíram para sermos o país que hoje somos.


 

 

Aquando do nascimento de Luís de Camões, em 1524, era rei D. João III, filho de D. Manuel I e Isabel de Castela, que morreu no parto.

  • D. Manuel I

No tempo de D. Manuel I, Portugal continuava firme em Marrocos garantindo as praças de Ceuta, Tânger, Alcácer Ceguer e Arzila, apesar dos ataques dos mouros, o que acarretava muitas despesas com a manutenção do exército e fornecimento de cereais e produtos diversos (telhas, peixe, sal, cavalos, apetrechos náuticos). Assegurou-se a feitoria de Mazagão que, devido à sua situação geográfica, permitia dominar as vias comerciais do triângulo Algarve, Açores e costa marroquina, além de estar numa região rica em cereais e pastagens essenciais para o reino sempre deficitário em cereais. Pouco antes de Camões nascer, descobriu-se o caminho marítimo para a Índia, dando início à rota do Cabo, e o Brasil, dando a conhecer um novo mundo à Europa. Portugal tornou-se grande e impôs-se no continente como um reino poderoso, forte e prestigiado. O seu nome ecoava pelo mundo.

  • D. João III

No reinado seguinte, de D. João III, assiste-se a um declínio na presença de Portugal em Marrocos devido a um maior interesse e investimento nas terras descobertas no continente americano e no comércio com a Ásia, bem como a um aumento das despesas com a defesa das cidades alvo de constantes ataques. Assim, abandonam-se as restantes cidades na costa ocidental marroquina, mantendo Ceuta, Tânger e Mazagão, esta última reforçada com altas muralhas e aumento da guarnição militar tornando-se um importante entreposto comercial com um excelente porto de mar.

Pouco a pouco, a rota do Cabo torna-se alvo da cobiça de outros reinos europeus (França e Inglaterra e, mais tarde, dos holandeses). Corsários destes países atacam as naus da carreira da Índia, apresando-as e nalguns casos conduzindo-as para os seus países. Colocava-se em causa o Tratado de Tordesilhas e o princípio do “Mare Clausum”. Como afirmava Raleigh, “quem domina os mares, domina o comércio e, portanto, o mundo”. A verdade é que estes ataques pioravam a situação financeira do reino que já apresentava debilidades.

João III casou com D. Catarina, irmã do Imperador Carlos V, reforçando-se a aliança com Espanha. Tiveram 9 filhos; nenhum sobreviveu ao pai. O herdeiro, D. João, morreu com 16 anos e deixou a esposa no términus da gravidez, o que levou a que na corte se escondesse a sua morte e se agisse como se o príncipe estivesse vivo. Receava-se a falta de um herdeiro e a perda da independência. É neste ambiente que nasce D. Sebastião, em 1554, e que sucede ao avô.

  • D. Catarina e D. Henrique

Por ser muito jovem, a avó D. Catarina assume a regência, sendo auxiliada na função pelo Cardeal D. Henrique. Politicamente a situação era instável. Portugal encontrava-se dividido em duas fações: uma castelhana, próxima da regente e do rei espanhol Filipe II (neto de D. Manuel I) e uma outra encabeçada pelo Cardeal D. Henrique, a nacional, que desejava libertar o reino da permanente influência de Espanha. Sucedem-se atritos entre D. Catarina e D. Henrique, mas a regente contou com o apoio do alto clero e nobreza. Até mesmo o Papa exortou a que a rainha se mantivesse no governo quando esta ameaçou que se retiraria para um convento.

A renúncia só aconteceria um ano depois – 1562 – quando a regente aceitou a concessão da bula que permitia a cobrança de 250 000 cruzados para a luta contra os infiéis. No entanto, o papado impunha condições para a manutenção dessa armada eclesiástica: esta não poderia confundir-se com a armada real e teria as armas do Papa e apenas seria utilizada por Roma. D. Henrique e os seus apoiantes consideram que a aceitação destas condições eram humilhantes para Portugal e a contestação eleva-se, o que leva D. Catarina a retirar-se da regência ficando apenas com a tutoria do neto. A mãe de D. Sebastião – Joana de Áustria – tinha abandonado Portugal por imposição de Carlos V e ido para Castela quando o filho tinha 4 meses de idade. Este facto era corrente na época e obedecia ao que estava estipulado nos contratos de casamento acordados.

  • D. Sebastião

Sebastião teve uma educação cuidada. Além do ensino das Humanidades, com padre Câmara, aprendera também matemática com o doutor Pedro Nunes. O padre jesuíta Câmara inculca no jovem uma forte militância religiosa, o ideal da imposição da fé pela força das armas, além de reavivar o ideal de cavaleiro e defensor da fé. D. Sebastião sobe ao trono com 14 anos e sente o dever de renovar o espírito de cruzada que “o novo temor da Maura lança, maravilha fatal da nossa idade” como afirma Camões, defensor da intervenção em Marrocos, e que é eco de uma corrente de mentalidade que acha que se deve combater o poderio mauritano que se encontra às portas do reino. Aliás tornam-se frequentes  os ataques às fortalezas portuguesas no Magrebe e receiam-se incursões na costa do Algarve. O cardeal D. Henrique é afastado, a fação castelhana renasce e verifica-se uma aproximação a Filipe II de Espanha com vista a garantir apoio à empresa de Marrocos, projeto que o rei encabeça como prioritário.

O rei, apesar de jovem, adoece frequentemente. O embaixador espanhol, numa das suas cartas, referiu que o monarca sofria de uma antiga enfermidade e que os médicos o tratavam de noite, porque sangrava constantemente. Em 1576, Manuel Bento afirmava “lhe ser penoso andar a cavalo…”. A este jovem rei débil faltava bom senso. Era impulsivo, irrefletido nas decisões, adulado pelos cortesãos, orgulhoso e sente que recebeu a graça divina para garantir a independência do reino e a ilusão da construção de um império em Marrocos.

Henrique não apoia esta expedição e nem aceitou ficar com a regência na ausência do rei, mesmo Filipe II num encontro com o sobrinho faz saber que não acredita no perigo otomano na Península Ibérica. Quando D. Sebastião pede a mão da filha do rei espanhol em casamento anuncia que só o autoriza após a vinda do rei de Marrocos. No entanto ofereceu-lhe 50 galés e 15 000 homens para a empresa.

O Século XVI foi uma época conturbada em que a violência e a agitação social estiveram presentes com frequência

Como é sabido, em 1578, D. Sebastião pereceu em Alcácer Quibir, com ele arrastando a maioria da jovem nobreza portuguesa. Sem descendência, Portugal encontrava-se com um sério problema de sucessão.

O cardeal D. Henrique é jurado rei. Ainda se tenta uma dispensa papal dos votos eclesiásticos para que possa casar e assegurar a descendência, mas Filipe II atua e usa a sua influência convencendo o Papa a não conceder esta dispensa.

O cardeal-rei morre em 1580 e os candidatos ao trono são: Filipe II de Espanha; D. António, Prior do Crato, filho bastardo do infante Luís; Manuel Filisberto, duque de Saboia e filho de D. Beatriz; e D. Catarina de Bragança. Todos têm em comum serem netos de D. Manuel I.

  • António, o Prior do Crato

António, Prior do Crato, recolhe muito apoio popular, mas não consegue mobilizar a nobreza e alto clero para a sua causa devido à bastardia. Pelo contrário, estes apoiam o pretendente espanhol, também porque se receava o uso da força pelo rei de Espanha, o que acabaria por acontecer com a invasão do Alentejo pelo Duque de Alba. Este facto levanta imensos protestos e termina na aclamação popular de D. António. Este ainda propõe ao duque de Bragança, marido de D. Catarina, um projeto de concórdia, para que ambos tomassem a defesa do reino, o que foi recusado. A sua posição é enfraquecida pelo apoio de D. Catarina ao primo espanhol. Entretanto, circulam pelo reino folhetos impressos a mando de Filipe II apregoando a rebeldia e traição de D. António ao reino.

António assume-se como defensor da causa nacional. Reúne tropas e avança sobre Lisboa, onde é recebido em júbilo e aclamado rei pelo povo. Por mar, o marquês de Sta. Cruz cerca Lisboa. Trava-se a batalha de Alcântara, em que D. António é derrotado e, de seguida, procura refúgio em Barcelos e Viana do Castelo. Por fim, em 1581, consegue fugir para Inglaterra.

  • Filipe II e a União Peninsular

Estava concretizada a União Peninsular. Filipe II é jurado rei nas cortes de Tomar e aclamado pelo alto clero, nobreza e burguesia, que só viam aspetos positivos nesta união. Só o “povo miúdo” é que chorava a perda da independência, relembrando a vitória do Mestre de Avis em 1383-1385, mas a sua voz também não contava no cenário político da época.

Imagens:  Maria Rita Pimentel

Referências:

Dicionário de História de Portugal, Joel Serrão

História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão

 

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Categorias: Cultura, História

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Vanda Tavares

Professora de História do Ensino Secundário.

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