Vila Nova de Famalicão

Grande Entrevista | Paulo Cunha: Vamos ver o que o futuro nos reserva

Grande Entrevista | Paulo Cunha: Vamos ver o que o futuro nos reserva

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Paulo Cunha é o atual Presidente da Câmara de Vila Nova de Famalicão. É nessa qualidade que se recandidata a mais 4 anos de mandato. Sobejamente conhecido em Famalicão e pelos famalicenses, é um homem de trato fácil, apesar de uma agenda sobrecarregada também pelos eventos que ocorrem aqui, ali e acolá.

Professor universitário, jurista de formação, tal como o seu mais direto adversário neste ato eleitoral, tem o dom da palavra fácil e linear, com frequência reforçando as suas afirmações com repetições no discurso e exemplos simples que traz à colação.

Apesar de parecer de certo modo surpreendido, até talvez um pouco na defensiva, face a uma entrevista que talvez tenha compreendido inicialmente como inesperada, Paulo Cunha sabe que parte nesta corrida em vantagem e isso dá-lhe tranquilidade. Além do mais, as suas funções dão-lhe primazia sobre os restantes candidatos. O trabalho de 4 anos à frente da autarquia, juntamente com outros 4 que passou na Vice-Presidência, dão-lhe a tranquilidade necessária para criticar praticamente apenas quanto às críticas que lhe lançam.

 

 

Vila Nova (VN) – O que é que de facto o trouxe à política, o que é que o fez deixar a sua profissão – advogado – e optar pela política?

Paulo Cunha (PC) – A minha atividade política começou antes de ser advogado. A atividade política é a preocupação com a vida das pessoas, com a pólis, com a cidade com o eu coletivo, com o que é a comunidade. Desde muito cedo que desenvolvi atividade associativa – fui dirigente desportivo -, estive envolvido na atividade paroquial de Gavião, donde sou natural. Sempre tive uma participação social; não quer dizer que fosse muito intensa, mas sempre tive participação social.

Houve depois uma fase da minha vida, após a licenciatura em Direito, em que exerci a profissão de advogado e de docente universitário, aliás ainda sou docente universitário, em que entendi que podia ter um desempenho maior. Tive uma relação que mantenho hoje com o Partido Social Democrata e, a partir dessa relação partidária, comecei a interagir mais com a comunidade e com o meio, a percecionar as debilidades do nosso concelho. Concluí então que podia dar um modesto contributo para que o concelho onde nasci, onde vivem os meus pais e a minha família, e este pudesse melhorar, dar um pouco daquilo que possa fazer de positivo para cumprir a minha função enquanto cidadão. É um ato de cidadania o que está aqui em causa.

VN – E a ligação ao PSD, em concreto, como é que surgiu: Foi na adolescência? Foi através de amigos?

PC – Foi na adolescência. Não digo que tenha tido alguma influência paternal. Nunca me preocupei em saber qual era o partido dos meus pais – nunca foram filiados em qualquer partido -, mas havia uma abordagem sobre a sociedade que nos aproximava das convicções dos fundadores do PSD, nomeadamente Francisco Sá Carneiro. Sempre desenvolvi convicções muito próximas do humanismo, da solidariedade intergeracional, da preocupação em colocar a economia ao serviço da comunidade, mas deixando espaço para que os agentes económicos possam desenvolver os seus projetos empresariais. São ideias que sempre me formaram politicamente.

Tal como na sua vida pessoal, Paulo Cunha considera que o PSD evoluiu muito ao longo dos seus 40 anos de vida. No entanto, recusa que a força das circunstâncias tenha alterado substancialmente a sua matriz e os seus valores.

VN – Em relação às ideias do PSD, do tempo de Sá Carneiro, a evolução do partido ao longo dos últimos 40 anos tem sido muito significativa. Há uns que são mais rígidos. Esta inversão, não, esta nova direção que o PSD tem tomado tem alterado alguma coisa na sua perspetiva global. A pessoa também vai evoluindo ao longo do tempo. Sente que tem acompanhado o PSD nesse seu caminho ou que tem tido um caminho algo diferente do trajeto mais global do partido?

PC – Todos os partidos políticos, e o PSD não é exceção, têm um percurso, tiveram uma origem, um momento em que nasceram e depois evoluem. As circunstâncias da vida tocam os partidos, os partidos não são indiferentes nem imunes a essas circunstâncias. O que acontece com o PSD está também a acontecer com outros partidos políticos por força das circunstâncias sociais, mas também socioeconómicas que fazem com que os partidos tenham necessidade de fazer os seus ajustamentos. O PSD não perdeu a sua matriz. Acontece que as circunstâncias, nomeadamente do país, e estou a falar da última governação de que o PSD foi responsável, obrigaram o PSD a um conjunto de intervenções que não alteraram a sua matriz. O PSD não saiu da última governação marcado, do ponto de vista ideológico, por essa mesma governação. Uma coisa são os atos realizados pelos governantes eleitos no PSD numa determinada circunstância, outra coisa é o partido. Não quer dizer que os últimos anos não tivessem avivado algumas características dentro do partido. O que acho é que o partido é superior a momentos concretos da governação; e nesse caso também o foi. Eu próprio, ao longo destes anos de militância, evoluí em alguns aspetos. Admito como normal que o partido seja diferente do que era no tempo de Sá Carneiro ou há 40 anos atras. Hoje seria mau se o partido não se deixasse influenciar pelas circunstâncias da vida. O partido é um instrumento, não um fim. O partido tem que estar apto a servir o fim que o país exige nos seus diferentes níveis de governação, nacional e local. É essa evolução que tem acontecido. É importante que o partido tenha sabido absorver as novas circunstâncias e tenha procurado encontrar respostas para as mesmas.

VN – Ontem, em entrevista semelhante, o Dr. Nuno Sá considerou que o Dr. Paulo Cunha estava demasiado ligado à governação de Passos Coelho, no sentido em que, embora declaradamente não o tivesse apoiado, também nunca se manifestou contra determinadas formas de exercício de poder que Passos Coelho teve ao longo dos seus 4 ou 5 anos no Governo.

PC – O meu mandato é autárquico. A governação autárquica é completamente independente dos outros níveis de governação. Podia não me ter manifestado contra durante esses 4 anos do governo de coligação liderado pelo Dr. Passos Coelho, embora isso não seja verdade, pois há dossiês, como o das freguesias, por exemplo, em que me manifestei frontalmente contra. O que é curioso é que o Dr. Nuno Sá, na altura líder do PS em Famalicão, que sempre se afirmou contra essa união de freguesias, não lhe conheço qualquer iniciativa parlamentar no sentido de as reagrupar. E o que é facto é que o Governo PS exerce funções quase há 2 anos. Isso fica no ar. Na altura manifestei-me contra, fi-lo no lugar próprio e tomei posição pública sobre o assunto. Os órgãos municipais não se pronunciaram no sentido da agregação, limitaram-se a apresentar propostas que vieram das freguesias. Houve freguesias que elas próprias se propuseram – freguesias de Seide, freguesias de Gondifelos, Cavalões e Outiz foram elas próprias que o fizeram. A Câmara Municipal de então e a respetiva Assembleia Municipal (AM) não apresentaram nenhuma proposta. Eu próprio, publicamente em muitas circunstâncias, afirmei não ser defensor dessa solução proposta pelo governo liderado Dr. Passos Coelho. Acresce a isso que, no meu programa eleitoral de 2013, a ideia da minha candidatura era exatamente a de manter as freguesias como elas estavam. Não há uma sede de freguesia que tenha fechado por força desta união. Assumi que ia criar, perante os cidadãos, formas de minimizar as forçadas uniões de freguesias, e creio que durante estes 4 anos fiz tudo para que tudo acontecesse como se de facto não houvesse qualquer alteração perante os cidadãos. Os executivos têm todos representantes de cada uma das freguesias agregadas exatamente para que a União de Freguesias decretada, na minha opinião de forma errada, não tivesse consequências para a comunidade; portanto quem fez alguma coisa para ajudar a comunidade fui eu. O Dr. Nuno Sá, e o governo socialista, que já lá está quase há 2 anos, é deputado à AR e não fez absolutamente nada para alterar a situação.

VN – Aproveitando a questão da regulação das freguesias e do sistema administrativo, enquanto Paulo Cunha, o que é que pensa que poderia ser feito em termos de reorganização do sistema administrativo?

PC – Sou defensor da regionalização. As regiões administrativas ajudaram a que o país se tenha tornado mais equilibrado. Mais simétrico ou menos assimétrico, ainda hoje há alguns desequilíbrios entre norte e sul, interior e litoral, mas mesmo dentro de cada região há vários litorais, vários nortes, e vários interiores, vários suis. A regionalização permitiria melhores condições para que as diferenças do país pudessem sobressair e para que se pudessem esbater as tais assimetrias. O país não é tão pequeno quanto isso, não é tão pequeno que a dimensão do país impeça uma progressão no sentido da regionalização. Até porque devemos cumprir a Constituição. E a Constituição, uma das suas emanações, é a regionalização. O país tem de fazer uma de duas coisas: ou faz a regionalização ou altera a Constituição e retira a regionalização. O país não pode ficar nessa posição ambígua de não se cumprir o que a Constituição diz e não revogar a regionalização alterando-a. O país ganhava com a regionalização em vários aspetos. Quem negoceia com Bruxelas é Lisboa, o governo do país, o governo nacional. As regiões ficam esbatidas por força dessa mesma negociação. Se cada região fosse a Bruxelas, como acontece em Espanha e na maioria dos países congéneres europeus. São as regiões que negoceiam diretamente com Bruxelas os fundos comunitários.

VN – As nossas autarquias não podem fazer isso?

PC – As autarquias não têm qualquer tipo ou poder de intervenção. No contexto da regionalização, os territórios locais teriam muito mais força se o pudessem fazer, se tivessem esse poder de ação. Dou um exemplo mais concreto ainda: Compare-se o norte de Portugal com a Galiza. Sempre que nos sentamos à mesa com a Galiza, e temos muitas instituições (n.r: Paulo Cunha refere-se ao Eixo Atlântico, pelo menos) que agregam o norte de Portugal e a Galiza no âmbito dessa cooperação transfronteiriça entre o norte de Portugal e a Galiza, aliás resultante de um acordo entre a CCDRnorte e o Governo da Galiza, a Galiza tem um poder muito maior do que a CCDRnorte, porque esta não tem poder institucional, é uma dependência governamental, o seu presidente não é eleito, não tem órgãos próprios. A força da Galiza é muito mais significativa; sentimo-nos menorizados nessa relação com a Galiza. Se fizermos uma comparação entre os fundos geridos pelo norte de Portugal e pela Galiza essa proporção é de 1 para 10. O país seria muito mais justo se tivesse regiões administrativas.

VN – Este primeiro passo que o governo de António Costa está a dar, ou melhor, de que tem vindo a falar, no sentido da criação das regiões intermunicipais, será já uma espécie de pré-regionalização?

PC – Isso é a pior coisa que pode acontecer, porque isso é matar a regionalização. É dizer assim: No país, o que interessa é o Grande Porto e a Grande Lisboa. Já hoje é o que acontece. Hoje os grandes investimentos estão centrados no Grande Porto e na Grande Lisboa. Se institucionalizarmos isso, nunca mais haverá regionalização. Então é que o país fica a duas velocidades. Só que com uma diferença: o país que fica para trás – fora do Grande Porto e da Grande Lisboa – será cada vez mais pequeno em termos eleitorais, de habitantes, empresas e de força reivindicativa. O que essa medida vai permitir é que aqueles concelhos que são mais populosos saiam beneficiados, tenham mais habitantes ainda e, sendo mais populosos, tendo mais habitantes, tenham mais força produtiva. Tudo o resto será colocado num plano secundário. Isso é secundarizar o país que já esta secundarizado, é institucionalizar a secundarização da maior área do país. A maior área não é a que tem mais população. Espero que essa medida não avance. Não é por acaso que essa lei não foi implementada até agora; anda a ser falada há mais de um ano, mas o Governo não se decidiu a avançar com ela. Foi anunciada como entrando em vigor nos próximos dias e que as próximas autárquicas já iriam consagrar essa solução, mas nada vai acontecer felizmente para o bem do país.

Gosto de … é o slogan de muitos dos outdoors da atual Câmara de Famalicão liderada por Paulo Cunha.

VN – Em relação às entrevistas que fizemos previamente com outros líderes das demais candidaturas à Câmara – José Luís Araújo e Nuno Sá -, foram sugeridas ou referidas algumas acusações de falta de transparência da presidência, nomeadamente em algumas das decisões tomadas, em que, pese embora tenham existido posteriores correções em situações idênticas ocorridas mais à frente, terá havido essa falta de transparência. Considera, de facto, que a sua Câmara e a sua governação municipal têm sido pouco transparentes e abertas para o comum dos cidadãos?

PC – Essa afirmação, num contexto de campanha, é natural. Quando os candidatos não têm argumentos substanciais contra a Câmara Municipal usam-nos apenas para servirem de arma de arremesso político. De facto esta Câmara Municipal não tem sido pouco transparente. Cumprimos os compromissos assumidos há quatro, cinco anos, o concelho está bem infraestruturado, fizemos obras de água e saneamento onde antes nunca foram realizadas no passado, temos intervenções viárias que estão aí para todos poderem constatá-las, temos um concelho desenvolvido, diminuímos muito o desemprego. Do ponto de vista substancial, porventura não há muito para trazer de novo para este ambiente autárquico, no que diz respeito a críticas ao mandato que estamos prestes a concluir. É normal, quando há esse vazio crítico substancial em relação ao passado governativo autárquico, que se usem expressões como essa da falta de transparência. Quanto a isso estou muito tranquilo, primeiro porque a lei faz com que os nossos dados sejam públicos; e hoje são-no muito mais do que há 4, 8, 12, ou até mesmo há 16 anos atrás. E ainda bem que assim é, ainda que a lei não o impusesse foi sempre a minha vontade a existência dessa transparência. Há, houve, muitas deliberações que podia tomar isoladamente e, mesmo assim, levo-as a reunião de Câmara para lhes dar também publicidade. Temos um sítio da internet que divulga as nossas iniciativas, temos uma avaliação de uma entidade independente que elabora um autêntico ranking da transparência municipal, ranking esse em que temos melhorado a nossa performance. Do ponto de vista do referido índice, que avalia a forma como a Câmara desenvolve as suas atividades e que é produzido por uma entidade externa – a Associação Cívica Transparência e Integridade, liderada por Paulo Morais -, Famalicão tem estado muito bem colocado e tem até melhorado a sua posição no mesmo.

Acrescem outros aspetos. Ao longo destes 4 anos introduzi diversas alterações com as quais também quero abrir o exercício autárquico à comunidade. Já recebi no meu gabinete mais de 2000 munícipes que me contactam por muitas razões, para apresentar queixas, denúncias, apresentar factos que não estão a ser conduzidos dentro da Câmara Municipal. Isto para que as pessoas que só vivem na nossa comunidade possam falar com o PC e tenham acesso à CM. As pessoas que o desejam marcam reuniões com 2 dias de antecedência, não 2 meses. Esta é uma medida inédita. Ao que sei, nunca foi feita desta forma organizada, como estamos a fazer. Durante 4 anos quase todas as quartas-feiras recebi 14, 20, 16, 12 munícipes. E nunca filtrei essas conversas. Pergunta-se à pessoa que solicita a reunião, apenas qual o assunto para estar documentado e informado. Mas muitas vezes os assuntos são privados. Chegam-nos situações múltiplas: problemas sociais, frequentemente, mas também situações de denúncia sobre processos dentro da Câmara Municipal. Para quê?

Para que a relação entre o Presidente da Câmara e os cidadãos seja uma relação pura, fluida, sem filtros. As pessoas não passam por gabinetes até chegarem ao Presidente de Câmara. As pessoas ligam diretamente. Mais, hoje as pessoas até marcam online a própria entrevista com o Presidente de Câmara. É um sinal de abertura da CM aos cidadãos. Compreendo que em período de campanha eleitoral se use essa expressão da “falta de transparência”. É uma expressão carregada de significado, cria uma imagem de penumbra. Essa penumbra nunca existiu. Sou uma pessoa acessível! Qualquer pessoa consegue falar comigo por telefone, pelas redes sociais, por email, no atendimento. E o que acontece comigo acontece com toda a gente que trabalha na Câmara Municipal de Famalicão.

VN – Paulo Cunha não tem lançado projetos novos, limita-se a ser a continuação do projeto anterior implementado pelo Arq. Armindo Costa. São outras das acusações que, com alguma frequência, lhe são lançadas.

A Casa das Artes, em Famalicão, construída ao tempo de Agostinho Fernandes e projetada pelo Arq. Pedro Ramalho, é um dos edifícios públicos mais significativos em Famalicão. Paulo Cunha afirma que, neste momento, não é necessária essa política de tijolo e cimento para que a cidade e o concelho se continuem a afirmar, considerando antes a necessidade de aproveitar os recursos já existentes.

PC – Há uma coisa que não tenho feito – obra que não é necessária. Há 4 anos atrás, quando assumi o compromisso autárquico, disse: “Não vou fazer nenhuma piscina. Não vou fazer nenhum gimnodesportivo”. Não fiz. Esta negação é importante para os cidadãos. Sabiam que iam eleger um Presidente de Câmara que não ia desperdiçar os recursos municipais. Este concelho, durante os 4 anos que estamos agora a terminar, precisou de muitas coisas; mas não precisou deste tipo de cimento e tijolo que era uma tendência, não de Famalicão, era nacional. Via-se a obra de um autarca pelas rotundas, os gimnodesportivos, as placas pomposas com o nome do Presidente de Câmara e com uma bandeira para ser descerrada sobre uma placa. Fazer obra é resolver problemas das pessoas, ir ao encontro das necessidades, satisfazer as suas preocupações e cumprir e concretizar as suas ambições, não é fazer edifício e mais edifício e mais edifício. Devo dizer que no futuro o meu padrão não vai mudar. Também continuo a achar que não é ainda a altura de se voltar à obra física. É altura de continuar a desenvolver o concelho sabendo resistir à tentação da obra física, aproveitando ao máximo o que já existe. Se há piscinas existentes têm ainda capacidade de expansão, porque ainda conseguem absorver novos públicos, porque haveremos de contruir uma piscina nova? Se as escolas têm pavilhões novos que podem ser colocados ao serviço das associações, porque hei de fazer pavilhões novos? Vou usar os que estão disponíveis das 6h da tarde às 11h da noite e ao fim-de-semana. Isto para que cada associação tenha um pavilhão disponível.

Em relação a Famalicão, tenho uma ideia de Famalicão para os famalicenses. Quando se diz que Paulo Cunha não fez nada de novo, Paulo cunha fez muitas coisas novas. O que não fez é coisas novas como se faziam no passado. Não vou aterrar o Parque da Devesa para fazer outro, não é essa a minha reforma, mas temos feito muita coisa nova. Temos feito escolas porque são necessárias. Aqui têm-se feito obras e intervenções porque são necessárias. O Paulo Cunha, presidente e candidato, vai ser um Paulo Cunha que não é caprichoso, que não está a cumprir nenhum desígnio de ninguém, tão só a executar aquilo que é necessário para a nossa comunidade. Tudo quanto for preciso, a obra social que fizemos não pode ficar indiferente a ninguém, o que estamos a fazer na educação é uma realização para toda a comunidade, o apoio ao empreendedorismo, que foi uma inovação que introduzimos há 4 anos atrás e que tem tido resultados fantásticos, fale-se com os empresários e empreendedores, fale-se com as centenas de cidadãos que estão a ser acolhidos e incubados no contexto Famalicão Made In. É um projeto que hoje, felizmente, tem um vasto reconhecimento. Muitos concelhos do país que implementaram projetos idênticos reconhecem que o fazem a partir do exemplo de Famalicão. Foi uma pedrada no charco há 4 anos e que foi muito adequada em relação à realidade que o concelho vivia.

E dizem-me qual e o efeito deste projeto. Pergunte-se aos empreendedores e aos empresários. Quanto a mim, contribui de forma significativa para a redução de desemprego. Há 4 anos tínhamos 12000 desempregados, hoje temos 5000. De quem é a responsabilidade? Não do Presidente da Câmara; o Presidente da Câmara ajudou. A outra parte foram os empresários, os cidadãos, as escolas profissionais. Foi a comunidade no seu todo que conseguiu esse resultado. Mas o Presidente de Câmara, com o projeto Made In deu uma ajuda que me deixa muito satisfeito e orgulhoso por estar associado a esta obra.

VN – Quais são então as perspetivas para os próximos 4 anos caso continue a ser o presidente da autarquia?

PC – Queremos continuar o trabalho que começamos a fazer há 4 anos atrás. Com algumas nuances, uma delas é uma questão que não é meramente semântica. Durante muito tempo ouvimos falar em desenvolvimento social e desenvolvimento económico; mas como se fossem coisas separadas. A minha grande ambição, no futuro, é fundir, aproximar, anexar, o desenvolvimento social com o desenvolvimento económico e falar cada vez mais em desenvolvimento socioeconómico. Entendo que o desenvolvimento económico só é útil ao concelho se trouxer com ele desenvolvimento social. Pouco me interessa saber que há uma empresa que produz mais, que exporta mais se não empregar mais e com mais qualidade, com melhor massa salarial e com maior estabilidade. Esta dimensão do mais emprego, melhor salário, maior estabilidade, é uma dimensão social dentro do desenvolvimento económico. Se não juntarmos estas duas formas de desenvolvimento, o que acontecerá no médio prazo é que num cenário de uma futura crise, e sabemos como elas são cíclicas, em Portugal, na Europa e no mundo, com a dificuldade económica traremos necessariamente com ela dificuldade social. Queremos aproveitar o crescimento económico para trazer com ele pujança do ponto de vista social. Uma das melhores respostas sociais que podemos dar é desenvolver o concelho. Se tenho uma pessoa com dificuldades sociais, tenho duas respostas possíveis: dar-lhe um subsídio, pagar-lhe a conta da luz, oferecer-lhe alimentos; a outra é criar condições para que tenha um emprego. Prefiro que tenha condições para que tenha o emprego. É aqui que está o desenvolvimento económico ao serviço do desenvolvimento social. É uma tarefa que temos de continuar a desenvolver. Não vai começar hoje, já começou, mas temos que continuar a desenvolver; temos que a intensificar. E moldar de outra forma. Por isso é que vamos implementar uma estratégia concelhia de desenvolvimento integrado que vamos alojar nas comissões sociais interfreguesias. Ao todo são 10 no concelho. São as chamadas CCCIFs que agrupam várias freguesias. Nessas células vamos criar um conjunto de dinâmicas ao nível da promoção do emprego, do combate às dependências, do estímulo aos produtores locais, e, por falar neles, vamos fazer uma grande obra no mercado municipal. É necessária! Não há um famalicense que não diga que não é necessária uma intervenção no mercado. Não vamos só fazer aquilo que as pessoas querem, vamos fazer o que é preciso. Não vamos fazer só a reforma física, aqui é que está a forma diferente de governarmos. Muitos fazem o mercado ou o edifício e depois não querem saber o que vai acontecer no dia seguinte. Estou mais preocupado com o que vai acontecer no dia seguinte do que com a obra física. Muito mais importante para mim é que o conceito de mercado funcione. O que é o conceito de mercado? É a aproximação entre produtor e consumidor, é pôr o consumidor a comprar ao produtor.

Não tenho nada contra os intermediários. O que me preocupa é que o produtor possa ter mercado, que o consumidor possa comprar produto genuíno, que conheça a cara do produtor, que possa comprar a melhor preço, evitando a intermediação, que possa dizer que aquelas alfaces não estavam boas no dia seguinte, e, mais do que isso, que os resultados, os dividendos de tudo isto fiquem aqui no concelho.

Não tenho nada contra as grandes superfícies. Muitas destas estão sediadas na Holanda e no Luxemburgo, ou em Lisboa, ou noutro sítio qualquer. O que resulta com estas empresas ao nível lucrativo é que nada fica em Famalicão. A mim compete-me trabalhar para que esse lucro fique em Famalicão.

A questão da mobilidade é outra medida concreta. Hoje gostaríamos todos de ter metro em Famalicão que ligasse as freguesias todas, transporte de autocarro a cada 5 minutos. Do ponto de vista ideal era o que todos queriam. Mas sabemos que é impossível. O que é possível é criar uma solução de transportes que seja ajustada alargando a rede de transporte público. É fundamental para que tudo funcione bem. É impossível que nós consigamos ter o autocarro à porta do Sr. António à hora a que ele precisa de ir ao médico, ter uma solução de transporte quando se queira ir daqui para acolá naquela hora, mas é possível pegar nas soluções de transporte que existem nas freguesias, nas associações, nos escuteiros, nas IPSSs e colocar isso ao serviço da comunidade. Já existe um serviço deste género que está a funcionar bem. Temos um protocolo com a Engenho. Esta faz o transporte dos doentes para o Centro de Saúde de Nine. É impossível resolver este problema com um autocarro. Os custos são elevados e, além disso, há poucos clientes. Com este caso, o que é que acontece? A Engenho marca a consulta e vai depois buscar o passageiro na data e horário previstos. Em seguida, vai ainda à farmácia comprar o medicamento e, no final, leva o passageiro de volta a casa. Há melhor solução do que esta? Não! Não há. É muito mais barato e funcional do que um autocarro.

Outro exemplo: o Voltas. De início as pessoas pensavam que isto era uma brincadeira que não iria funcionar. Tinha pouco movimento mesmo, mas hoje anda com frequência quase cheia. E quantas mais pessoas o irão utilizar no futuro? O processo está ainda no seu início; tem quase um ano. Mas já este ano vamos duplicar o percurso, vamos criar outro em sentido contrário diminuindo imenso o tempo de espera. De início, o operador também era cético. Agora acha que funciona muito bem. Quando se deu o primeiro passo poucas pessoas achavam que ia funcionar. Agora está a ser muito utilizado. Temos aqui uma solução de mobilidade a custo zero para a autarquia. Poderíamos tê-la conseguido mais facilmente pagando, mas teríamos um encargo financeiro. Entretanto o Voltas vai facilitar o trânsito de quem vem de Riba d’Ave, de Braga… Sobretudo a quem tem o Passe Sénior, estudantes, a quem chega à estação de comboios para chegar a outro lado. É uma forma de mobilidade que põe as pessoas a circular. A Câmara montou o projeto e convenceu a ARRIVA de que o projeto era bom. É um processo ainda experimental. Ao completar um ano, vamos partilhar com a comunidade o sucesso desta experiência. A própria ARRIVA também está entusiasmada com o mesmo.

Vamos ver o que o futuro nos reserva.

 

(Entrevista: 31ago2017)

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Categorias: Política

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Pedro Costa

Diretor e editor.

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