Relevante Órgão de Comunicação Social famalicense surgiu em contexto ainda de alguma agitação social e política surgida após a implantação da democracia

Joaquim Lima, o primeiro diretor do VILA NOVA, conta como o jornal nasceu

Joaquim Lima, o primeiro diretor do VILA NOVA, conta como o jornal nasceu

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Completaram-se no presente ano, 2017, 35 anos sobre o surgimento do VILA NOVA original, na altura com um formato de jornal.

Outros tempos, outras tecnologias, outras formas de estar e viver. De facto, o tempo decorrido parece reduzido. Passou-se apenas o tempo de uma geração. No entanto, as mudanças têm sido rápidas e significativas, mais ainda quando pensamos ou nos referimos às formas de comunicar.

Por esse tempo, o papel dominava todo o panorama editorial, o telefone móvel dava os seus primeiros passos em Portugal. O uso da internet, por seu lado, era ainda apenas uma miragem na imaginação de uns quantos.

Seja como for, em inícios dos anos 80, Portugal estava mais preocupado com outro tipo de mudanças, sobretudo aquelas de caráter socioeconómico e cultural que era urgente fazer avançar. O rendimento médio das populações, apesar do crescimento ocorrido nos anos mais recentes, a falta de vias de comunicação e de redes de saneamento estavam à vista, bem como a falta de habitações de qualidade, a implantação dos sistemas de saúde e de segurança social públicos estavam ainda a afirmar-se, a iliteracia era vasta.

Foi nesse contexto ainda de alguma agitação social e política surgida após a implantação da democracia que o jornal VILA NOVA foi fundado e viria a público.

Joaquim Lima, primeiro diretor do Jornal Vila Nova

Com o intuito de recordarmos a forma como este importante órgão de comunicação social de âmbito regional surgiu, fomos ao encontro do seu primeiro diretor, Dr. Joaquim Lima, atualmente dirigente da ADRAVE – Agência de Desenvolvimento Regional, com sede em Famalicão.

Pedro Costa – Dado o ressurgimento do título Vila Nova, em Famalicão após dez anos de silêncio, importa neste momento recordar o antigo órgão de comunicação social e o período da sua fundação. Joaquim Lima, como surgiu então este jornal?

Joaquim Lima – O jornal Vila Nova publicou o seu primeiro número em 4 de março de 1982.

O logótipo original foi desenhado pelo Camilo Léllis, que acompanhou também durante muito tempo todo o design gráfico. Nessa altura havia um único jornal que dominava o panorama editorial de Famalicão, o Jornal de Famalicão. Este ainda hoje publica regularmente.

Tinham ficado para trás outros projetos editoriais, como o Estrela do Minho, era por essa época apenas um sobrevivente. Fazia uma ou outra publicação ocasional, muito de quando em vez, para não dar por finda a sua existência.

Fazia-se sentir a falta de órgãos de comunicação alternativos. O Vila Nova surge fruto da liberdade outorgada pelo 25 de abril, é claro como isso. Essa é a primeira condição sine qua non. No pós-25 de abril houve muito movimento envolvendo disputas políticas, que permitiu que a gente se deleitasse com a liberdade. Seguiu-se todo o processo político no país e quando tudo estava já mais assente, apercebemo-nos que em Famalicão havia muita gente ligada na sua história a muitas causas da liberdade, por exemplo, refira-se entre outras a manifestação de apoio a Humberto Delgado. Famalicão esteve sempre ligado a causas muito nobres do desenvolvimento do país, como essa da liberdade. Por exemplo, o banqueiro Cupertino de Miranda albergou na sua casa muitos escritores e pintores. Pela atividade que desenvolvia, gozava de uma certa imunidade junto do antigo regime; este não podia mexer muito com ele.

PC – Concretizando: Como foi articulado o lançamento do jornal entre as pessoas nele envolvidas e os objetivos a que se propunha atingir?

JL – Naquele momento, a primeira questão a resolver era a de congregar vontades; isto sem dinheiro rigorosamente algum.

Para não arriscar muito, optou-se por fazer um jornal quinzenal – o Democracia do Norte também passava bastantes dificuldades. O ritmo das notícias era outro. Seria suficiente naquela altura; hoje não seria possível.

O estatuto editorial diz muito: aborda com frontalidade – esta palavra é muito importante – os problemas do concelho, luta pela defesa e consolidação do poder local, é um espaço onde se podem exprimir com liberdade – aqui estão as causas da liberdade – as diversas correntes de opinião existentes no concelho.

O primeiro número é logo o retrato desta aspiração. O principal artigo de opinião era do Dr. Sá da Costa, na altura ainda ligado ao MDP/CDE, e que mais tarde ainda viria também a estar ligado ao processo de formação da Rádio Vila Nova, posterior Rádio Digital, e Jornal Opinião Pública (nota da redação: No primeiro artigo de Sá da Costa, este centra-se nos erros da(s) Câmaras famalicense(s), na altura governadas por coligações da Aliança Democrática, focando o seu isolamento face às populações e seus reais problemas, bem como na falta de planificação e estratégia para os resolver), e o segundo seria o do Dr. Durval Ferreira, ligado ao CDS. Mas o jornal foi sempre muito plural. Nesse seu artigo, o Dr. Durval Ferreira defende, de forma acérrima, a regionalização, em 1982; provavelmente já nem se lembrará disto.

O jornal não abdica da sua função crítica. Os jornais podem ser apartidários, mas nunca neutros, não podem ser cinzentos. Mesmo na imprensa internacional os jornais têm e defendem causas. Por vezes até em eleições apoiam determinados candidatos. Isto só é possível com o 25 de abril. Isto é um reflexo do que aconteceu um pouco por todo o país.

Assim, quinzenalmente, sem recursos financeiros, entramos nesta aventura.

PC – Nesta altura já tinha sido fundada a Associação Cultural Famalicense que foi proprietária original do jornal? Quem foram os seus fundadores?

JL – Já não recordo de todo. Sei que o Camilo Lellis estava muito ligado, o Joaquim Loureiro na altura, o Dr. Acácio Silva, essa gente toda, não sei se o Feliz Pereira também. Já não me recordo exatamente quem eram os membros dessa associação. Posso estar a citar nomes que nem sejam corretos.

PC – Junto das gentes do concelho, na opinião pública, o aparecimento do jornal terá correspondido às expectativas? Que reações causou o lançamento do Vila Nova?

JL – Naquela altura o jornal foi um sucesso tal que tivemos de pedir desculpa às pessoas por não haver jornais para todos. Tirámos cinco mil e tal exemplares. Na altura não era obrigatória a menção da tiragem, mas andou por esses números. O primeiro número desde logo esgotou rapidamente.

PC – Em que é que afinal o Vila Nova se demarcou dos demais títulos ainda existentes ou a acabar de se extinguirem?

JL – Entre outras, começamos a dar nota das reuniões de Câmara – as decisões tomadas -, alertar para as condições do pré-fabricado do Ciclo Preparatório (atual EB2,3 Júlio Brandão) – muita gente já nem se lembra disso -, a explicar o porquê do nome e a clarificar o nosso estatuto editorial que, no fundo, se pautava sempre pelo progresso do concelho.

Um dos problemas candentes da altura era o da Carides, de que hoje muitos não têm conhecimento, e que era uma grande empresa têxtil que acabaria por falir na altura. Ao tempo esse era o ponto quente das questões operárias que se viviam no concelho.

Havia uma outra questão complicada na Câmara – o problema dos loteamentos. Ao tempo os construtores não eram obrigados a preparar os loteamentos com infraestruturas e coube-nos alertar para o problema e defendermos a necessidade de as infraestruturas – isto não foi sempre assim – serem prévias à construção. Chegava-se e construía-se. Onde moro, alguns residentes só conseguiam ir para casa calçando galochas; e é já aqui, em Gavião. No primeiro número, é ainda referida a força do associativismo no concelho – mais de 100 coletividades existentes -, assunto este que se mantém bem presente.

PC – É este um pequeno resumo do primeiro número. Nos tempos seguintes continuaram o mesmo caminho ou foram fazendo algumas adaptações ao jornal?

Jornal Vila Nova: a capa do Número 1, publicado em 4 de março de 1982

JL – No número 2 (dois), como não podia deixar de ser, exploramos a notícia do nº 1 ter visto a sua edição completamente esgotada. Sente-se que o Vila Nova passa a ser mais jornal. Pegamos na vida interna do CDS – que vivia, aliás, na altura um problema devido à imposição de dirigentes locais pela sua direção nacional, em Lisboa, bem como na questão de documentos a que tivemos acesso referentes à proposta de elevar Famalicão a cidade, proposta esta original do partido, mais as muito lidas deliberações de Câmara, as notícias do dia-a-dia das associações. O problema da Carides continuou na ordem do dia, os assuntos das freguesias, que eram já sinal da rede que o jornal criou antes de ser lançado, mantinham-se presentes e ganharam mais expressão. Quanto ao desporto, era tratado o conjunto das coletividades, embora, naturalmente, ao futebol fosse dedicado mais espaço uma vez que era e é o desporto-rei. Pegámos muito nos assuntos do Porfírio e do Santana, e mantivemos o assunto da vida interna do CDS, de que nunca ninguém falava. Quando nos referimos aos problemas das pessoas, falamos nos seus problemas do dia-a-dia, incluindo a vida partidária, ao tempo muito intensa, e mesmo assim muito relegada para segundo plano. Temos aqui um exemplo concreto: o problema da falta de saneamento da Opercal, hoje Lameiras, em que havia habitações a efetuarem os seus despejos diretamente para o rio Pelhe.

PC – A questão das Lameiras tem a ver com a necessidade de encaixar populações que se deslocaram rapidamente para a cidade, estou em crer.

JL – Naquele tempo não havia habitação social. Foram então construídas 290 habitações. A Câmara pôs-se na linha da frente para dar solução ao assunto. Havia algum dinheiro disponível e tratou de o resolver. O assunto hoje seria tratado de outra forma, mas é tudo uma questão de oportunidade e necessidade.

Em números seguintes, juntamos pela primeira vez os principais líderes partidários para discutir os problemas do concelho de Famalicão. Juntámos, então, à mesma mesa para debater em público e pela primeira vez: Virgílio Costa (PSD), Artur Lopes (PS), Margarida Malvar(PCP) e Durval Ferreira (CDS). Sempre a refletir a vida da cidade….

O Vila Nova prosseguiria o seu rumo. Em breve iria abordar a questão da realização da autoestrada, que mobilizou todas as gentes do concelho, as questões urbanísticas, que foram deixando marcas violentas ainda hoje bem presentes, bem como acompanhar as reuniões da Assembleia Municipal. Um assunto que não podia ficar de fora é o trabalho em torno das questões culturais, ainda hoje bem presentes e, faça-se justiça, que têm vindo a ser assumidas pelos vários presidentes que até hoje surgiram. Ao tempo, Agostinho Fernandes era Vice-Presidente – não sei como convivia (politicamente) com o Dr. Antero Martins, mas isso era lá entre eles. Agostinho era uma voz de protesto dentro da própria Câmara, e mais tarde acaba por ganhar a Câmara com a cisão que surgiu dentro da AD.

Questões do ensino, da poluição dos rios, de paisagem urbana, questões laborais vividas durante a crise económica dos anos 80, a falência técnica da Câmara são assuntos que tinham de ser trabalhados; e que o foram.

Nesta fase inicial, e fundamental no salto que o Vila Nova entretanto deu junto da opinião pública, foram as críticas reais lançadas à Câmara de então. Naquela altura tudo era lido até ao milímetro. Antero Martins decidiu a proibição da entrada do Jornal na biblioteca municipal e nos órgãos municipais.

Donde a conclusão: Como é que um Presidente proíbe um jornal de ser lido por todos quando um jornal se encontra até obrigado por lei a enviar um exemplar para a biblioteca?

PC – Considera que o Vila Nova cumpriu aquilo a que se propôs naquele tempo?

JL – Ao longo do tempo, de uma forma ou de outra, fomos sempre cumprindo rigorosamente o estatuto editorial.

Em 35 anos mudou imenso no país e mais ainda em Famalicão. Famalicão transformou-se radicalmente. Nessa transformação aumentou até de modo significativo a sua população. Passou de um pouco mais de 60 000 eleitores, nas primeiras eleições, para cerca de 120 000. É hoje um concelho diferente.

A Vila é um centro, mas existem diversos polos de desenvolvimento muito importantes – Joane, Ribeirão, Riba d’Ave, Nine. Foi uma escolha, uma opção tomada de forma deliberada no sentido de desenvolver esses polos regionais dentro do Concelho.

PC – Por último, como foi escolhido o nome do Vila Nova?

JL – O nome Vila Nova foi escolhido de uma forma muito simples. As pessoas que vinham à feira, em especial as senhoras, entravam nas camionetas do João Carlos Soares ou do Ferreira das Neves e pediam o bilhete para irem à Vila, não a Famalicão; elas queriam ir à Vila.

Vila Nova pronuncia-se muito bem e faz parte do nome do Concelho. Famalicão, nome associado, em termos históricos, à tasca de Famalião, por seu lado é um nome muito mais difícil de pronunciar.

 

Imagens: arquivo de Joaquim Lima

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