Arte Urbana | Pedro Afonso – A escola como espaço de intervenção e cidadania

Arte Urbana | Pedro Afonso – A escola como espaço de intervenção e cidadania

Pedro Afonso é professor no Centro Escolar Luís de Camões, escola integrada do Agrupamento de Escolas Camilo Castelo Branco,  de Vila Nova de Famalicão. Aqui estabelecido há apenas 3 anos, mais precisamente desde setembro de 2014, é um professor que já muitos conhecem e referenciam pela sua forma de estar e trabalhar dentro e fora da sala de aula.

 

Pedro Afonso: Por um lado, a ideia de intervenção na rua é a da ligação das pessoas à escola; por outro, temos também a da criação de uma memória de intervenção cidadã em cada aluno.

 

Nesta escola, em que no ano letivo anterior trabalhou com a turma 4BA, do 1º Ciclo de Escolaridade, desenvolveu um projeto pedagógico a que designou MarkaGeração.pt. Este pretendeu ser um complemento ao desenvolvimento e formação dos alunos da turma do 4BA. O projeto foi aplicado num contexto dinâmico, de relacionamento interpessoal com os diversos agentes da comunidade educativa e apoiado por desafios reais à medida dos seus intervenientes.

Como objetivo primordial, o professor teve em mente “proporcionar ferramentas diversificadas que possibilitassem a exploração das capacidades intelectuais, físicas e artísticas dos alunos, através de um percurso escolar com uma identidade própria”.

De entre toda uma série de atividades desenvolvidas pela turma – À conversa com…, Quiosques literários, entre outras -, o Vila Nova destacamos uma que nos levou à conversa com o professor, pois carecia de uma explicação pública o porquê desta intervenção – a pintura dos bancos existentes na Rua Luís de Camões.

“A cidadania é a questão fundamental da escola”, afirma Pedro Afonso. “O caminho é, de facto, a flexibilização curricular. A questão a colocar é a da sua operacionalização e esta deve ser realizada fora da escola. Os professores e os alunos precisam ir para a rua fazer e mostrar”.

Nesse plano, considera este docente que “a autarquia é um parceiro de fundamental”, mais a mais porque a Câmara Municipal deseja isso mesmo, a municipalização da educação. “Não mexendo muito na questão dos recursos humanos, tudo o mais pode ser e deve ser aproximado de modo a que as instituições funcionem melhor e mais facilmente”.

“Qual é o problema, qual é a questão educativa que devemos colocar? Qual é o ideal para uma família?”, questiona-se. “Antigamente conhecia-se o mundo a trabalhar; hoje em dia pode-se fazer o mesmo, mas em lazer. Saberemos nós, hoje em dia, quais são as profissões e os trabalhos para os quais devemos preparar os nossos alunos de modo a terem as melhores ferramentas para enfrentar o futuro?” Com a municipalização teremos o trabalho muito mais facilitado, salienta Pedro Afonso.

“Sou um professor normal, cuja prática letiva é em muito semelhante à dos demais colegas. Utilizo e sigo os manuais na exposição e desenvolvimento das matérias; e nem tenho muita experiência no 1ª Ciclo. Mas tenho noção que sou querido pela comunidade educativa, em particular os pais, porque viram o tipo de trabalho que desenvolvo com os alunos. Aqui em Famalicão há grandes possibilidades de a escola ser querida na comunidade”.

Vila Nova – Assim sendo, qual foi a ideia que esteve por detrás da intervenção na Rua Luís de Camões?

Pedro Afonso – Por um lado, a ideia de intervenção na rua é a da ligação das pessoas à escola; por outro, temos também a da criação de uma memória de intervenção cidadã em cada aluno.

Tudo se iniciou com o projeto desenvolvido numa turma considerada boa em termos de aprendizagem. Há tempo para aproveitar, que não seja apenas o de fazer mais e mais fichas de trabalho. Aquilo que os alunos irão recordar mais tarde da escola é a semente do contacto com a realidade que fica para mais tarde. Quando olhamos para trás e pensamos na escola, há geralmente apenas uma, duas ou três coisas que nos marcaram; e isso acontece com experiências que nos trouxeram algo diferente, não os conteúdos que aprendemos.

Certo! O trabalho está ainda por terminar. É necessário identificar ainda cada cena contada em cada banco. Espero indicar nas traseiras de cada banco qual o Canto dos Lusíadas a que se lhe refere, ou mesmo concretizar a parte do poema em cada banco ilustrada.

O trabalho não está perfeito, não está finalizado, mas o trabalho deve ser continuado. Por exemplo, cada banco pode ser apadrinhado por um estabelecimento comercial da zona. Se isto acontecer, os bancos poderão ser mantidos em bom estado por longo tempo.

Fotografia: José Rocha

Vila Nova – O trabalho foi desenvolvido exclusivamente pelo professor ou houve uma equipa por detrás de todo o projeto?

Pedro Afonso – O projeto está ligado à Marka, do Agrupamento Camilo Castelo Branco. No projeto participaram A Casa ao Lado, o agrupamento, a Associação de Pais da escola. É indispensável, em relação a esta intervenção, que a Câmara não coloque obstáculos à manutenção da alteração da paisagem.

Pretendo propor à Câmara Municipal um conjunto de ideias já estabelecidas e bem definidas e orçamentadas para a manutenção. É indispensável, claro, que a edilidade compre a ideia. A partir desse momento o problema estará resolvido.

Esta relação da comunidade com o poder autárquico é fundamental. Este município já demonstrou que está interessado em apostar em múltiplos projetos na área da educação.

Vila Nova – Pedro Afonso, faz ideia do que o futuro lhe reserva em termos profissionais?

Pedro Afonso – No futuro próximo, e já com outra(s) turma(s), irei tentar trabalhar recorrendo ao uso da Plataforma Mais Cidadania, um projeto intermunicipal a que a nossa Câmara aderiu, tendo inclusive dado formação a uma série de professores eventualmente interessados em aplicá-lo. Faz sentido a existência da plataforma; o único problema, parece-me, é o facto de a plataforma ser fechada e destinada a uma pequena comunidade.

Outros projetos estão na calha: quiosques literários foram já lançados, apadrinhados por escritores locais – Agostinho Fernandes e Manuela Monteiro. Poderiam também sê-lo, de igual modo, por músicos, da terra. Por exemplo, Ivo Machado tem um cd publicado com canções escritas a partir de poetas famalicenses. Seria importante dar a conhecer esses trabalhos, aparentemente mais “simples” do que as canções pop anglo-saxónicas que se escutam no dia-a-dia, mas que apresentam uma vertente emocional e literária cujas essas outras não têm. O mais importante para uma criança é ter um ídolo que lhe está próximo do que um ídolo na China ou noutra parte qualquer do mundo.

Vila Nova – Como foi desenvolvido, afinal, desenvolvido o projeto de pintura dos bancos na Alameda Luís de Camões?

Pedro Afonso – Uma das coisas que pretendia fazer com os alunos era arte urbana, embora não soubesse onde nem como. Cheguei a pensar fazê-lo isso na própria escola. No entanto, em tempos tive conhecimento que em Vizela, há uns atrás, num outro projeto de idêntico teor, pintaram as caixas da eletricidade e dos telefones. Inicialmente o que tinha sido pensado andava em torno de escritores portugueses, eventualmente famalicenses em particular.

A ideia foi amadurecendo. O que poderia ser pintado, até mesmo em termos de proximidade à escola Luís de Camões? O certo é que um dia, ao passar na rua para ir almoçar, dei comigo a pensar: “São os bancos”. E a ideia não mais me saiu da cabeça. “Vão ser os bancos”, mas inicialmente ainda mantendo a ideia dos poetas: Pessoa, Eça… que lêramos no ano anterior em obras adaptadas.

Sempre gostei de trabalhar em grupo e envolver outras pessoas na minha ação. Daí ao passo seguinte foi um instante. Falei com diversos colegas, entre os quais o Ricardo Miranda e a Joana, d’ A Casa ao Lado, que no Centro Escolar trabalhavam nas Atividades Extracurriculares e, por essa altura, pintavam a biblioteca com trabalhos muito bonitos, mas pretendia algo fora da escola. Os muros estavam pintados de fresco e também não fazia sentido estar a estragá-los. O enquadramento da escola com a rua – nome – acabou por se tornar determinante.

O objetivo foi também deixar uma marca, uma memória viva, para que os alunos não perdessem a vontade de continuar a fazer isto na sua terra. Os monumentos são importantes para deixar testemunhos, são documentos da história.

Uma vez que queria muito o Camões, o Ricardo Miranda fez logo contas e disse: “22!Está feito. Capa, contracapa…” Efetuámos uma pesquisa, foram assentes num esquisso os aspetos importantes de cada canto; e pusemos mãos à obra.

Fotografia: MarkaGeração.pt

Pediu-se autorização à Câmara, A Casa ao Lado fez os desenhos, a Câmara deu os materiais, os pais efetuaram uma primeira demão em branco, os alunos e os pais pintaram a obra propriamente dita. Tudo esteve para ser feito durante as AEC, mas achámos por bem, depois de ouvida a Associação de Pais, que um sábado à tarde seria mais favorável à participação aberta da Comunidade Educativa. Na prática foram cerca de 200 pessoas que estiveram envolvidas na implementação do projeto. Falta agora ainda passar um verniz de proteção final e encontrar uma forma viável de manutenção. São 22 os bancos. Se os bancos forem apadrinhados, por exemplo, pelas casas comerciais da zona envolvente, será fácil manter o projeto por uma boa dezena de anos. Outra questão importante é as árvores serem substituídas por outras que não sujem tanto, ou podados os seus ramos. O importante é envolver toda a gente, toda a comunidade.

O ideal, e vai ser feito, é ter um complementar com uma explicação do projeto e de cada banco. Seria interessante colocar ali uma placa, mais a mais porque o trabalho foi realizado precisamente 40 anos depois da atribuição do nome à própria rua.

 

É curioso ver como Luís de Camões mantém a sua relevância no nosso tempo. Antes do 25 de Abril, com Salazar e Caetano, o 10 de junho era conhecido como o Dia da Pátria ou o Dia da Raça; hoje mantém um foco das nossas atenções tendo o mudado o nome para Dia de Portugal, Dia de Camões e Dia das Comunidades Portuguesas, isto para além de dar o nome à nossa escola e a esta rua em que interviemos. A sua obra é uma marca identificativa do nosso passado e da nossa cultura. Assim ficará para sempre.

 

Imagem de capa: José Rocha (fotografia)

 

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Pedro Costa

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