Grande entrevista | Nuno Sá: Serei o próximo Presidente da Câmara

Grande entrevista | Nuno Sá: Serei o próximo Presidente da Câmara

Nuno Sá é um homem cortês e afável, apesar do seu ar aparentemente distante na primeira abordagem. “Famalicão é a minha terra; fiz sempre aqui o meu percurso” – faz questão de afirmar o candidato do Partido Socialista à Câmara de Famalicão, ainda a nossa conversa estava no seu início. Embora Nuno Sá seja deputado municipal, deseja clarificar a sua qualidade de famalicense. Como na maior parte dos casos, iniciou o seu percurso político ainda durante a juventude. Durante a entrevista, revela-se um homem seguro de si e determinado a atingir os seus objetivos. O seu discurso é claro. Pretende mudança e explica-a enquanto dirige críticas à atual Presidência da autarquia.

Natural de Ribeirão, um dos polos mais populosos e produtivos do nosso concelho, donde é também a  sua família, mas também com laços familiares à cidade, Nuno Sá tem 41 anos e vontade de vencer e mudar. “Realizei todo o meu percurso até à Universidade Católica do Porto, onde cursei Direito, aqui em Vila Nova de Famalicão”, reforçou ainda o atual deputado à Assembleia da República e líder da candidatura socialista.

 

 

Vila Nova (VN) – Nuno Sá, de que modo iniciou a sua atividade política?

Nuno Sá (NS) – Relativamente à política, todos nós, na fase em que começamos a ganhar consciência de que vivemos em sociedade, temos um interesse por esta área. Este interesse é mais forte em quem gosta da área de estudos das humanidades, como é o meu caso, pois desde cedo decidi ser advogado e estar ligado à área do Direito. A política é resolver os problemas das pessoas, melhorar a vida das pessoas e é, enquanto sociedade e comunidade, orientarmos o nosso futuro e decidirmos o nosso destino coletivo. É também encontrar a pacificação das comunidades, é o mundo a girar, o desenvolvimento humano, encontrarmos novos desafios. A política, em democracia, faz-se com os partidos, os valores, as causas, os princípios, com o enquadramento tradicional da dicotomia esquerda-direita, agora também com esta questão dos independentes. Mas qualquer movimento que nos proponha uma transformação tem que propor ideias para sabermos com o que contamos e sabermos o que é que os inspira. Partidos ou movimentos têm de ter um conjunto de princípios fundamentais de valores e de causas e os partidos são isso; e continuarão a ser.

VN – Mas houve algum grupo de que tenha feito parte ou o tenha influenciado em determinada direção?

NS – Sendo um democrata, nessa altura da adolescência, percebi ter vontade de participar e fazer algo pela minha terra e comunidade, gostar de intervenção política, de dar a minha opinião e visão, de debater, de gostar de estar com as pessoas. A política e as campanhas são estar com as pessoas, falar, ouvir, conviver, discutir de discussão democrática e perceber qual o partido que tinha mais a ver com aquilo em que acredito – princípios, causas e valores. Houve amigos do liceu com que me envolvi, estive ligado à Associação de Estudantes da Camilo Castelo Branco. Fui conhecendo diferentes amigos, com diferentes simpatias partidárias. Mas fui-me identificando cada vez mais cada vez mais com as ideias socialistas. Estive ainda sempre ligado ao associativismo. Em determinada altura, comecei também a escrever artigos de opinião num jornal local de Ribeirão, bem como, mais tarde ainda, no Vila Nova e no Opinião Pública.

Em termos partidários, iniciei-me na Juventude Socialista (JS) e naquilo que a JS defende: um conjunto de princípios humanistas – solidariedade, justiça, igualdade. Considero-me sobretudo um humanista democrático. Fiz o Curso na Católica; considero-me um católico de esquerda. A doutrina social da Igreja tem uma visão muito comum com aquela: igualdade de oportunidades, justiça, solidariedade, dedicação ao próximo.

VN – Por falar em próximo, sente-se próximo de Guterres?

NS – Muito, muito próximo. Ao mesmo tempo sou um homem de esquerda social-democrata, da esquerda democrática. Sobretudo aquela dos países do norte da Europa com o que representa do bem-estar social que devemos ter todos nós na nossa vida. E que também quero pôr em prática na Câmara de Famalicão com o contrato mínimo social. É tao simples quanto isto: na qualidade de Presidente da Câmara Municipal de Famalicão não aceito que ninguém viva na minha terra sem o mínimo de condições. Assumo o compromisso de que toda a gente terá uma habitação, segurança, alimentação e acesso à saúde e educação. Não haverá nenhum famalicense que não tenha estas condições mínimas. Nesse sentido a doutrina social da Igreja e a social-democracia são aquilo que me inspiram. O Partido Socialista, enquanto partido da esquerda democrática, era e é aquele que tinha e tem mais a ver comigo. Quanto ao CDS, de direita mais radical, nunca me identifiquei com ele. Naquele tempo, o PSD de Cavaco Silva estava a tender para a direita, do ponto de vista social e até económico, o de Sá Carneiro não, mas o de Cavaco Silva, e então com Passos Coelho, deixou de ser mesmo um partido social-democrata. Fez uma deriva total à direita. Intercruzando com Famalicão, esse PSD de direita, e aliado com a direita, fez muito mal a Famalicão e aos famalicenses no sentido quem que o anterior Governo, naquilo que era a sua ideologia obsessiva radical de austeridade e cortes, fez imenso mal a Famalicão. Os famalicenses, como todos os portugueses, perderam empregos, salários, prestações sociais.

VN – Mas acha que a Câmara tem diretamente a ver com isso?

O Partido Socialista regressou às suas origens políticas tradicionais. À mudança de discurso, com o reassumir da dicotomia esquerda – direita, corresponde uma espécie de regresso ao futuro.

NS – Sou do Partido Socialista; com muito orgulho. Esteve cá o Secretário-Geral do PS, António Costa, a apoiar-me. Não sou militante intermitente do partido, nem quero enganar as pessoas. O atual Presidente da Câmara Municipal é militante do PSD; e é um alto dirigente do PSD. Tem cargos do mais alto nível no PSD de Braga e nacional, foi Presidente da Concelhia de Famalicão, e porventura do ponto de vista material ainda o será, e é militante com as quotas em dia do PSD, e tem acesso aos órgãos e tem voz própria.

Na noite das eleições, a população portuguesa vai estar a ver quantas câmaras teve o PS, quantas Câmaras teve o PSD. A candidatura da coligação de direita tem 2 bandeiras, a do PSD e a do CDS-PP; sei que tentam pôr os símbolos muito pequeninos, mas estão lá, vêm no boletim de voto. Os partidos são só um. Só há um PS, um PSD, um CDS. O atual candidato da coligação de direita tem 2 partidos, se se candidata por eles é porque se identifica com eles.

Mas mais do que isso, com o anterior Governo, tentaram destruir o Centro Hospitalar do Médio Ave e o Hospital de Famalicão foi muito prejudicado com isso, o Tribunal de Famalicão perdeu muitas competências, foram encerrados diversos centros de saúde, houve um processo de extinção de freguesias sem ouvir os autarcas e as populações. Tanto quanto todos os famalicenses sabem, ele estava de acordo; nunca se exprimiu em sentido contrário. O atual presidente da atual coligação de direita poderia ter-se manifestado publicamente e feito diligências manifestando-se contra o mal que o Governo estava a fazer aos famalicenses e a Famalicão e poderia ter dito que não o aceitava porque tinha essa legitimidade. O Presidente de Câmara é eleito pelos munícipes, maioritariamente e democraticamente. É o seu representante máximo; tem de defender os seus interesses. É isso que todos esperamos de um Presidente de Câmara. Mas se não o tivesse feito, pelo menos que tivesse dito: Sou contra estas medidas, sou contra o rumo que a governação recente de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas está a tomar. Nunca disse uma linha, nunca se demarcou, nunca esteve contra. Nesse sentido é evidente que é responsável. Não podemos ser militantes de um partido e enganar as pessoas. Dizer que umas vezes somos, quando convém, e outras vezes não somos, quando não convém. Como é o caso em relação a alguns projetos, como o da Loja do Cidadão ou da Variante à EN14. Enquanto o governo foi do PSD-CDS-PP, Paulo Cunha nem piou; agora que o Governo é do PS já vemos o Presidente da Câmara a dizer que ambas as obras são necessárias. É manhosice, usando uma expressão popular, mas que diz tudo.

VN – Regressando à sua carreira política, qual foi então o ato político que mais o marcou na sua juventude?

Nuno Sá teve o seu batismo político na campanha das autárquicas de 1997, completam-se agora 20 anos. Como não podia deixar de ser, apoiou Agostinho Fernandes, edil a quem admira e de quem diz ter deixado uma série de obras estruturantes que marcam a cidade e o concelho.

NS – O meu percurso político começa com a primeira participação na estrutura local do Partido Socialista e com um grande autarca, o Dr. Agostinho Fernandes, convidado por pessoas da sua candidaturas. Entrei na Sede, conheci as pessoas, fui conversando e senti que este candidato merecia o meu apoio. Cheguei a fazer parte das listas de candidatura do mesmo. Nas listas das freguesias também me candidatei e sou atualmente membro já há mais de oito anos, da Assembleia Municipal. Agostinho Fernandes foi um grande autarca de Famalicão, todos os famalicenses o reconhecem. Rasgou grandes horizontes e estruturas de progresso em Famalicão. É um património de que o PS muito se orgulha. Convém avivar a memória dos famalicenses: Casa das Artes, Parque de Sinçães, Centro de Emprego, Rede de Centros de Saúde, Citeve, Universidade Lusíada e CESPU, rede social de excelência, habitação social, Tribunal de Famalicão, deu-se início à variante; também o saneamento, o abastecimento de água, o asfaltar de muitas vias municipais. Isto hoje é reconhecido por todos os famalicenses. E também não me custa, com justiça, reconhecer que o Arq. Armindo Costa também deixou obra, sobretudo o Parque da Cidade, uma ideia que já vinha do tempo de Agostinho Fernandes. É um bom exemplo de que quando os famalicenses não são sectários e conseguem encontrar pontos de convergência para se unir e dialogar se conseguem unir ideias que evoluam para algo maior, porque o Presidente Arq. Armindo Costa adquiriu mais terrenos, deu mais dimensão ao Parque, fez o seu projeto de arquitetura urbana e, efetivamente, foi ele que concretizou a obra.

Há pequenas grandes obras que fazem toda a diferença para a qualidade de vida das pessoas que estão nas comunidades das freguesias. Anteriores presidentes de Câmara deixaram obra, o atual presidente de direita não tem obra para mostrar. Nos últimos oito anos, e sobretudo mesmo nos últimos quatro, por exemplo, não houve inauguração de nenhuma infraestrutura de pavilhão polidesportivo.

VN – Acha então que a atual presidência de Câmara, que vem na sequência do legado político do Arq. Armindo Costa, não trouxe nada de novo, nem sequer no que se refere a continuar o trabalho do anterior presidente?

Nuno Sá deixa bastantes críticas à gestão atual da autarquia por Paulo Cunha. (Fotografia: Luís Paulo Rodrigues)

NS – O atual Presidente da Câmara, o presidente da coligação de direita, substituiu as obras por fotografias. E as políticas que mudam para melhor a vida das pessoas foram substituídas por realidades virtuais e promessas. Há outdoors, muita publicidade por todo o concelho: Famalicão bom para isto, Famalicão bom para aquilo. Mas são promessas que se arrastam e não se concretizam. O que os famalicenses sabem é que ao fim do mês o custo de vida de viver em Famalicão é maior, veja-se o custo da água e saneamento ou o custo das taxas municipais, bem como as taxas de IMI e IRS.

“Famalicão, o melhor concelho para estudar”! Mas Famalicão é o único concelho do Quadrilátero Urbano que não tem um polo do ensino superior público para Famalicão. Há anos e anos que Famalicão e o seu presidente da coligação de direita não têm capacidade para atrair o ensino público. Isto tem um grande custo para os jovens famalicenses que querem prosseguir os estudos e respetivas famílias.

“Famalicão, um sítio bom para viver”! Famalicão tem muito famalicenses e muitos problemas esquecidos, como é o caso das barreiras arquitetónicas que as crianças com necessidades educativas especiais ou os cidadãos com mobilidade reduzida enfrentam todos os dias. Junto à rotunda de Stº. António ninguém consegue circular a pé, junto ao Centro de Emprego não existe rampa de acesso para os cidadãos com dificuldades de mobilidade, há imensos sítios nas freguesias onde não há sequer passeios para viver ou a rede de abastecimento de água e saneamento não está concluída. No Século XXI há várias freguesias com essa falta, o que é inaceitável sobretudo quando se faz tanta propaganda em sentido contrário.

VN – As limitações financeiras dos últimos anos não serão também razão para isso?

NS – Conheço muito bem a estrutura do orçamento municipal; liderei a bancada socialista e sou deputado municipal há muitos anos. Famalicão aumentou significativamente as suas receitas em taxas. Famalicão é o concelho que mais receita tem de IMI, porque as isenções sobre os imóveis terminaram com este presidente atual. Este presidente tem receitas de 15 milhões de euros só nesta rubrica. A derrama está no máximo, bem como a participação de 5 % no IRS. Sobretudo há mais dinheiro a entrar nos cofres municipais devido ao crescimento da economia nos últimos 2 anos. E também graças ao trabalho dos anteriores presidentes de Câmara, que está há 8 anos no poder. Este presidente herdou uma boa situação financeira no município. O problema desta liderança é não ter ânimo nem novas ideias, não ter ambição. Tudo se resume a manter o poder pelo poder. Há salários chorudos, há vereadores que estão lá há 16 anos. Estão todos há bastante tempo. Até como um insulto às mulheres famalicenses. Estou para ver o que vai acontecer na lista da coligação. Porque nos últimos anos havia sempre lá alguém que depois não tomava posse. A imoralidade é tanta que temos até assessores e nomeados políticos que ganham mais do que o Presidente da Câmara Municipal. Comigo, nenhum membro de um gabinete ou assessor nomeado ganhará mais do que o vereador. Sabe que há um diretor municipal e pessoas ligadas ao MadeIn que ganham mais do que o Presidente da Câmara?

VN – No atual Governo cremos também acontecerem situações semelhantes.

NS – Se acontecem não deveriam acontecer. Os portugueses, e bem, têm exigido mais transparência e justiça na remuneração das funções políticas. Foi o PS que acabou em 2005 com os tempos de vereação a contar a dobrar para a reforma, foi com o PS que se estabeleceram limites à remuneração dos gestores públicos e membros dos gabinetes.

VN – Na Caixa não aconteceu isso.

A Caixa tem um estatuto diferente. A Caixa é um banco que concorre com privados, logo não comparável com a demais administração pública. Nada justifica que haja um diretor de serviços ou um membro nomeado politicamente que ganhe mais do que um Presidente de Câmara. E o presidente da coligação de direita não consegue resistir a essas pressões e contrariar essa degradação. Essas pessoas são também militantes.

O edifício da Câmara Municipal só tem lugar para um dos quatro candidatos à edilidade nestas Autárquicas 2017. Nuno Sá esgrime argumentos a seu favor e contra a atual gestão municipal. Afirma que o lugar vai ser seu. Em 1 de outubro próximo caberá a cada eleitor decidir se assim é; ou não.

Os constrangimentos orçamentais que existiram só justificavam era que o município fosse mais amigo dos famalicenses. Paulo Cunha tem uma tática: quando as coisas correm bem, sou eu o alfa e o ómega, sou eu o responsável – por exemplo Famalicão, Concelho Exportador e Made In. Quando as coisas correm mal, não é nada comigo; chuta a água do capote. É assim nas pedreiras de S. Cosme e com a rede de exploração dos cuidados primários de saúde. Afirmam: “Não investimos mais em Famalicão e não fizemos mais obra porque o concelho não podia”. As Câmaras Municipais têm um princípio de autonomia face à lei. Nenhum Governo manda nas Câmaras. As suas opções deveriam ter sido estar ao lado dos famalicenses e das famílias num momento difícil. Agostinho Fernandes passou por muitos ciclos políticos. Armindo Costa também. Quer maior crise do que a de 2008, 2009 e 2010 em termos económicos e financeiros? Mesmo assim houve capacidade de fazer obra e atrair fundos comunitários. Em 2016, o Município vai pagar, integralmente, devido à inércia e acomodamento às mordomias de poder, um empréstimo para fazer saneamento. O presidente da coligação de direita andou a dormir, andou a perder oportunidades porque houve fundos comunitários para a construção de infraestruturas básicas. Além disso, faltou à sua promessa de concluir estas redes no atual mandato. A Câmara deveria ter feito o seu trabalho. Basta abrir os jornais, e algum trabalho deverá dar, porque o Departamento de Comunicação é um departamento que funciona bem; é o Departamento da Propaganda. Mas isso não se traduz em nada para a vida das pessoas. Os seus apaniguados não gostam de o ouvir, mas o atual presidente da Câmara é um embuste político. Espremido, para a vida dos famalicenses, apenas saem fotografias para as redes sociais. É uma desculpa de mau presidente de câmara dizer que no ciclo político não havia dinheiro para investir. Outros já o fizeram no passado. O atual presidente é incapaz de o fazer.

VN – Nesse caso, quais são as propostas que Nuno Sá considera mais relevantes para os próximos 4 anos e meio?

“Famalicão em marcha” é a razão da minha candidatura. Vou apresentar dentro de dias o nosso programa eleitoral (já apresentou): 10 áreas setoriais estratégicas, 100 medidas. “Famalicão em marcha 2017-2030”. É uma espécie de compromisso de vida com Famalicão.

Aquilo que o presidente da coligação de direita tem feito é ser um emplastro nas visitas às fábricas e propagandear textos e fotografias a passear pelas empresas. Claro e para todos perceberem. O dito Made In, espremido, não traz nada de novo e acrescenta muito pouco ou nada à economia e exportações famalicenses.

Vejamos o que pensa o investidor que quer investir em Famalicão. Vai ao Made In e diz: “Quero apoio do Município para investir em Famalicão”. Então respondem-lhe duas coisas. Em primeiro lugar, “Vamos encaminhá-lo para um gabinete que o vai ajudar a preparar uma candidatura para fundos comunitários e do governo; e, curiosamente, tanto quanto me dizem, esse gabinete funciona para os lados do Porto. Depois: ”Estando a candidatura aprovada, a Câmara Municipal, juntamente com a Assembleia Municipal vai avaliar se vai ter uma isenção fiscal ao nível do IMI e de uma ou outra taxa urbanística a pagar. Por último, quando tiver aberto a empresa, diga-nos porque o senhor Presidente da Câmara gostaria de ir lá tirar uma fotografia consigo para pôr nos jornais”.

O presidente da coligação de direita é um relações públicas. Acho um abuso querer tomar méritos que não são seus e ofensivo até dos trabalhadores e empregadores famalicenses. O mérito de termos uma indústria forte em Famalicão vem muito de trás. Desde a revolução industrial que temos das maiores indústrias nacionais; é assim desde o século XIX. A Leica diz-nos que só os trabalhadores famalicenses sabem trabalhar com uma precisão como não há em mais nenhum local. A Continental-Mabor afirma que a sua produção e qualidade é das melhores. A Têxtil Manuel Gonçalves regressou, também em parte por causa disso. Este mérito é dos famalicenses. Donde também a minha frase: Orgulho de ser famalicense. Quem ouvir o Presidente da Câmara, parece que tudo começou há oito anos atrás. Isto é abusivo e ofensivo até. Deveria ser de mais palavras para o mérito de quem o tem e deixarmo-nos de tantas palavras de propaganda e relações públicas.

Mas os fundos que são aplicados donde são provenientes? De quem são? São sobretudo fundos comunitários de apoio ao investimento. O Made In é Made in Geringonça porque nos últimos 2 anos, acabando com esta austeridade excessiva, Famalicão faz roupas, sapatos, e carnes. As pessoas têm mais poder de compra e gastam mais na restauração. As pensões de reforma aumentaram. O facto é que as pessoas têm um pouco mais de poder de compra, têm mais desafogo; é natural que a economia ande para frente e cresça. Se continuássemos com os cortes que havia, este crescimento não existiria.

Quanto às isenções fiscais, desde os tempos de Agostinho Fernandes que elas existem. Até agora não foram alterados nem acrescentados pelo atual Presidente de direita. Os benefícios de IMI já existem desde a câmara socialista.

VN – As empresas que usufruem esses benefícios não deveriam dar uma contrapartida pública que oferecesse algo ao município e aos munícipes para além da simples criação de postos de trabalho?

NS – Não há nada de novo no atual poder, pois está gasto. Vai cair porque é preciso arrojo e novas medidas, resultantes de uma visão integrada. Uma dessas questões é a da responsabilidade social. As empresas que retiram partido do esforço dos nossos trabalhadores famalicenses, dos nossos recursos naturais, do nosso território devem ter mais responsabilidade social; e a Câmara deve sensibilizar para isso. Nunca ouvi uma frase do atual presidente de direita sobre isso. Há empresas do nosso município que, desde há muitos anos, têm creches, cantinas, serviços de saúde, praticam mecenato cultural, formação. Por exemplo, o caso das pedreiras da Portela, o que é que aquelas pedreiras estão a fazer para compensar as freguesias? Por que não estabelecer com a freguesia uma compensação ou colaborar com a mesma? Indaguei ao presidente, e ele respondeu que o município não tem competências sobre o assunto. Mas questionando o Governo, este informou que o município de Famalicão tem de emitir um parecer obrigatório. O Presidente da Câmara tem de defender o território e as populações.

Tenho a minha vida pessoal e profissional devidamente organizada: Sou deputado à Assembleia da República, sou quadro da Autoridade para as Condições de Trabalho. Estou nisto por convicção e gosto por estar na minha terra num desafio difícil e de vida, mas serei Presidente da Câmara de Famalicão.

VN – E se não o conseguir nas presentes Autárquicas 2017?

NS – Quero sê-lo já no presente mandato, mas também nas próximas eleições ser recandidato. Conto com o apoio da minha família, do meu partido, dos famalicenses. É um objetivo que vou avançar com trabalho e esforço pela minha terra. Quando aceitei o convite que me foi dirigido por muitos famalicenses, só podia ter como opção entrar nisto a sério. Estou para ser Presidente da Câmara de Famalicão. É importante esse sentido de compromisso.

Estou em Famalicão; e estarei. Famalicão e os famalicenses precisam. Entendo que a minha candidatura, do Partido Socialista e das suas medidas são as melhores para o concelho. Disponibilizei-me neste grande desafio, que é exigente, de estar no porta a porta, de estar com as pessoas nas ruas, nas empresas, de perceber os seus reais problemas; gosto de discutir com elas eventuais soluções.

VN – Sente que há, de facto, essa onda que lhe poderá permitir ganhar as eleições.

NS – Sinto! Sinto! Sinto que ganharei as eleições. Quando alguém é candidato pela primeira vez, é natural que as pessoas queiram conhecer o seu sentido de compromisso. Os famalicenses que me conhecem questionam-me sobretudo esse meu projeto de vida, realçando algumas dúvidas dada a minha situação de estabilidade pessoal e profissional. Ser presidente da 16ª maior Câmara do país é muito exigente. As pessoas perguntam-me; e tenho-me comprometido nesse sentido. Há muito querer e muita motivação.

VN – Quando começou a andar pela candidatura de Agostinho Fernandes, alguma vez pensou que poderia vir a ocupar a cadeira de presidente?

NS – Não, nunca coloquei as coisas nessa perspetiva. Entrei em ‘97 para o PS com os Estados Gerais. Entrei com António Guterres, uma grande referência para mim, junto com Mário Soares. Entrei para a política, e continua a ser assim, sempre com o sentido de poder mudar as coisas para melhor. Essa é a única coisa que me dá grande prazer e realização, seja nas maiores como nas mais pequenas questões. O que me move é poder ver a realidade mudar para melhor. Nunca imaginei ser deputado à Assembleia da República. Mesmo este grande desafio, o maior da minha participação política pessoal, assumi-o sem calculismo político. Nunca pensei: “Vou um dia ocupar a cadeira!” Aprendi com essas pessoas, e ainda hoje aprendo, inclusive de Agostinho Fernandes. Conto com o apoio de autarcas de referência do nosso concelho, muitos deles independentes. Há muitos apoios que se manifestam em espaços privados, mas também em espaços públicos. Foram esses apoios que me levaram a aceitar ser candidato.

Apresentarei (n.r: Apresentei) medidas concretas. Desejo uma governação municipal transparente. A Câmara não dispõe atualmente de regras para dar respostas aos pedidos de apoio financeiro das Juntas de Freguesia. Proponho que 90 dias depois os pedidos tenham que ser tornados públicos e haver uma resposta para que depois não haja respostas em função das conveniências partidárias. É preciso que a distribuição de verbas pelas freguesias seja mais justa e equitativa. As Juntas da coligação de direita foram beneficiadas em detrimento das Juntas do partido socialista. É preciso que o Presidente da Câmara receba todos os autarcas. É preciso que os espaços a que os cidadãos têm acesso para aceder aos contratos públicos, por exemplo, sejam mais transparentes e deem mais informação. Hoje é preciso ser quase um detetive da internet para se perceber como se chega lá. Gastar 600 euros por dia em propaganda político-partidária não faz sentido. É preciso haver mais transparência e pluralismo. No Boletim Municipal apenas se ouve a Câmara, a oposição não tem qualquer acesso. A voz é única.

VN – As outras câmaras fazem igual; acontece na sua generalidade.

NS – Mas os famalicenses exigem outra democracia. Não se consegue perceber onde começam e acabam as páginas de facebook de Paulo Cunha e do Presidente da Câmara Municipal. Mistura-se a figura do candidato com a figura do presidente.

Vai haver eleições e quero ir a votos sem queixas ou queixumes para a CNE (Comissão Nacional de Eleições); quero fazer o confronto democrático. Há matéria, de facto inaceitável e até ilegal, como o anúncio de obras no Parque 1º de maio, porque as obras estão a ser lançadas a um mês das eleições.

Quanto ao Made In publicitar o que o concelho tem de bom, continuá-lo-á a fazer; mas é preciso mais. É preciso um plano estratégico de desenvolvimento industrial para o concelho. Centrado no espaço FamalicãoInova, que pretendo criar agregando empresários, investidores, representantes de trabalhadores, instituições de ensino e centros de investigação – e tenho defendido a necessidade de um polo da Universidade do Minho em Famalicão, mediante a existência de um Instituto Politécnico. Vamos definir quais são os setores estratégicos para a nossa indústria: têxtil, calçado, carnes, metalomecânica, componentes automóveis, moda, design… Mas qual é o critério? Qual é a estratégia? Porque se vai a uns lados e não se vai a outros?

Quais são os nossos setores estratégicos? Famalicão tem condições para ser líder mundial no domínio da inovação, desenvolvimento e excelência em determinadas áreas. Conseguiremos assim atrair mais residentes, mais desenvolvimento, mais economia. Neste momento não existe esse plano e é preciso esse compromisso e essa visão.

Queremos Made In Famalicão com inovação e desenvolvimento, interessa-nos a indústria 4.4, setores de economia de elevado valor acrescentado, que são indústrias de ponta que apostam no conhecimento, que não há em mais lado nenhum e não na mão-de obra intensiva. Famalicão quer este tipo de indústria. Tendo isso feito, é preciso também defender os famalicenses. Não queremos empresas que venham aqui e ao fim de um ano ou dois se vão embora. Queremos, portanto, compromisso com Famalicão. Queremos empresas que proporcionem a agenda do trabalho digno, com direitos e de qualidade; o mesmo se diga para os salários. Queremos uma indústria ambientalmente sustentável. É preciso que o Made In traga mais! Interessa-nos perceber know how e valor acrescentado em Famalicão. Quanto menos importações de outros concelhos ou de outros países melhor; essa é a riqueza de Famalicão.

O polo da Universidade do Minho é indispensável, em concreto o Instituto Politécnico do Cávado e do Ave. Comprometo-me, enquanto futuro presidente da Câmara, a ter um Instituto Politécnico em Famalicão. Sempre que chegamos às eleições volta-se a falar do assunto. Mas já vão oito anos sem resultados. Mas não haverá possibilidade de haver um Instituto Politécnico de Famalicão? É preciso estudar novas ideias e novas possibilidades, algo que temos vindo a fazer com a Didáxis e suas instalações e recursos. O Made In esquece-se que importamos mão-de-obra qualificada. Por exemplo, Brás Costa, do Citeve, foi buscar 30 doutorados na área da engenharia têxtil à Índia porque não os encontrava cá. Na Caixiave, não se encontram trabalhadores na área da metalomecânica e da engenharia mecânica. É urgente termos cá em Famalicão instituições de ensino que deem resposta a estas necessidades. Sabe quanto é que o Centro de Emprego em Famalicão investiu? 7 milhões de euros (em apoio ao emprego e combate ao desemprego). Menos 1500 desempregados inscritos num único ano. O município de Famalicão ignora completamente isto. O diretor do Centro de Emprego afirma não ter memória de ter um trabalho articulado e dinâmico com a Câmara. Como é que a Câmara foi buscar 128 milhões de euros na criação de apoio e de apoio à indústria. Sabe de onde vem esse dinheiro? Não é da Câmara, é do governo e de fundos comunitários. O orçamento municipal é muito inferior. Trata-se de uma apropriação indevida.

Além disso, é preciso criar um Conselho Económico e Social em Famalicão. Tenho essa experiência, enquanto coordenador do Partido Socialista na Comissão de Trabalho e Segurança Social. É um excelente fórum nacional. Discutir não só as questões económicas, mas também a responsabilidade social, que economia e respetivas consequências queremos.

VN – Sendo assim, os famalicenses devem preparar-se para a mudança?

Nuno Sá aposta em criar laços fortes com as freguesias.

Nas freguesias há pequenas obras que podem fazer uma grande diferença para a qualidade de vida das populações. As freguesias estão estranguladas pelo garrote e centralismo do Presidente da coligação de direita. Este não vai aumentar a transferência de verbas para as freguesias. Pois eu fá-lo-ei em 50%. Este presidente nunca aumentou um cêntimo as suas transferências para as freguesias. E porque quero mudar isto?

Os Presidentes das Juntas estão muito mais próximos das populações. No Louro vamos inaugurar (n.r: já foi inaugurado) o Parque da Formiga. No dia-a-dia, um parque infantil que se estragou, um buraco da estrada, uma telha que se partiu na escola. É preciso que as freguesias tenham verbas para intervenção mais imediata. É preciso dar-lhes mais capacidade de trabalho e mais meios. A coligação de direita não o faz porque quer, com o centralismo, fazer os autarcas das freguesias depender da obediência ao presidente da coligação de direita. “Se não fizeres o que quero, não vais receber mais dinheiro!” Verifique-se como nos momentos das contagens de votos, na Assembleia Municipal, dois vereadores verificam ostensivamente como os Presidentes das Juntas votam. Estes não querem prejudicar as suas freguesias. Mas o Presidente da Câmara diz que “os Presidentes de Junta não reclamam”. Mas as listas estão aí e falam por si.

VN – Em relação às listas, verificam-se uma série de transferências de autarcas entre, principalmente, os maiores partidos. De elementos do PS para o PSD, do PSD para o PS. No nosso concelho, a aliança governativa deveria conseguir manter os seus apaniguados nas suas fileiras, e nem o faz; noutros casos, por outro lado, a coligação vai buscar simpatizantes socialistas para as suas listas. Para quem está de fora, isto faz uma certa confusão.

NS – Carrego com sentido de orgulho, honra, respeito e responsabilidade, o mandato que os famalicenses em mim confiaram. Cada famalicense está a dar-me a sua confiança na minha candidatura. Exercerei esse mandato com toda a confiança e transparência, sem nenhum equívoco com os famalicenses. Com os famalicenses, temos de ser claros, falar verdade e assumir os nossos valores e princípios e partidos. Tenho apoiantes de todos os quadrantes partidários e de independentes, mas aceitei candidatar-me pela bandeira do partido socialista. Os nossos candidatos aceitam essa mesma linha, e estes são cidadãos válidos e competentes, aceitamo-los de bom grado. Mas não haja equívocos, são candidatos nas listas do Partido Socialista. As listas são do Partido Socialista, o que muito nos orgulha até pelo trabalho que o Governo tem vindo a desenvolver e tem feito até pela qualidade de vida dos famalicenses. Com os nossos candidatos, se existirem candidatos de outros partidos, nós aceitamos. Quero ser presidente de todos os famalicenses. Famalicão e os famalicenses estão acima de tudo. O PS, com a sua bandeira e emblema, é o partido que apresenta mais listas em todo o concelho.

O meu adversário candidata-se com o mandato de Pedro Passos Coelho e Assunção Cristas, candidata-se com a bandeira do PSD e do CDS-PP, e a candidatura tem o emblema desses partidos. As candidaturas que apresentaram nas freguesias são as do PSD e CDS-PP. Nós apresentamos mais candidaturas do que eles. Depois há também algumas candidaturas independentes às freguesias. Penso que os candidatos autárquicos não andam a enganar os famalicenses; ou andam? Não pactuo com isso. E as pessoas em Famalicão conhecem-me.

Se há algo em que tenho orgulho em todo o meu percurso cívico, pessoal e político é nos meus princípios e na minha maneira de estar. Não aceito que enganem as pessoas. Se as pessoas são independentes, são independentes dos partidos, Se um candidato diz que é independente, é independente. Em todas as candidaturas independentes para as Juntas de Freguesia tenho apoiantes a título pessoal de pessoas que se identificam com a candidatura do Nuno Sá. As tentativas de aproveitamento e de alimentar rumores de que os independentes apoiam este ou aquele não corresponde à verdade dos factos, porque cada um dos candidatos nas listas independentes tem as suas simpatias e o seu candidato à Câmara.

VN – Antes de avançarem com as suas candidaturas, foi público que os partidos de esquerda – PS, Bloco e PCP – estiveram em negociações para chegar a um entendimento pré-eleitoral.

NS – Uma geringonça.

VN – Não chegaram a acordo por alguma razão especial?

NS – O primeiro fator para ser candidato foi o apoio dos famalicenses, em grande número; depois também o apoio do meu partido. Estando reunidas estas condições, desde há muitos meses que procurei auscultar várias sensibilidades e movimentos famalicenses. Nisso incluí os partidos políticos, com exceção dos partidos da Câmara, que já tinham uma candidatura no terreno.

Encontramo-nos, reunimos, vimos quais os nossos pontos de vista comuns e as divergências, discutimos desapegadamente o futuro do concelho, da cidade e das freguesias. Também não deixamos de discutir e analisar a atual solução governativa e em que eu participo como deputado na Assembleia da República. Falamos sobre isso como responsáveis públicos destes partidos. É muito mais o que nos une do que o que nos separa. Houve nesses encontros pontos de vista muito comuns com o Bloco de Esquerda e com a CDU. O Partido Socialista é o maior partido português e é, em Famalicão, o único partido que pode vencer a coligação de direita. Será sempre o Partido Socialista a liderar a alternativa em Famalicão e será o Nuno Sá, o seu candidato, o próximo Presidente da Câmara, a derrotar a coligação de direita. Era um pressuposto essencial para nós. Entendeu-se que um eventual acordo será posterior ao resultado nas urnas se tal se vier a revelar útil para o concelho e para os famalicenses.

 

(Entrevista: 30ago2017)

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Categorias: Política

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Pedro Costa

Diretor e editor.

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